Ultimamente,
Tenho pensado mais nos livros que na vida, apesar de que o que sempre me interessou na literatura foram os fluxos de vida, com tudo o que têm de bom e de ruim: fé e fezes. Não me interesso por truques estéticos; embora reconheça que, por vezes, o que um autor tem a dizer extrapola os dogmas linguísticos. Heidegger apontava a necessidade de libertar a língua da gramática. Como diria Riobaldo, pão ou pães é questão de opiniães.
Vinicius de Moraes disse que a vida é a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida. Quando lembro dos versos do poetinha, lembro também do amor impossível entre Riobaldo e Diadorim... Tão impossível quanto o amor entre Cathy e Heathcliff... Tão impossível quanto o amor entre Romeu e Julieta.
O amor de Diadorim não é de salvação, nem de perdição, mas de doação. Todo o tempo, Maria Deodorina almeja a felicidade de Riobaldo, mesmo que seja junto a outra mulher; no caso, Otacília, a noiva... Isso sem contar os inúmeros envolvimentos de Riobaldo com prostitutas e ele, Reinaldo-Diadorim-Maria-Deodorina, ali, ao lado, zelando. O amor encarnado em Diadorim é puro despojamento, generosidade, alteridade, ou melhor, como conceituou Lévinas: sainteté... É um amor próximo, muito próximo, àquele evocado por São Francisco na parte final de sua oração:
"Ó mestre, fazei que eu procure mais consolar que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado,
e é morrendo que se vive
para a Vida Eterna."
quarta-feira, 9 de agosto de 2017
sábado, 5 de agosto de 2017
KEROUAC, O ROSA E O TAO
Há um texto de Chuang Tzu no qual o mestre do Tao escreve que, quando um arqueiro atira flecha num torneio, seus olhos se turvam, ele perde a naturalidade, erra até quando acerta. O prêmio afeta o tiro. O tiro perfeito é aquele dado sem alvo sequer e, este, encontra sempre seu destino. Quando viajamos com um destino, uma meta, condicionamos a viagem à chegada, só estamos realizados quando chegamos; mas, quando viajamos sem destino, em qualquer lugar que estamos, chegamos. A viagem é sempre mais importante que o destino e se não houver destino então, a viagem se torna plena. A aranha tece sua teia e espera. É o tempo quem traz o alimento. O autista caminha, vai e volta, segue o fluxo subterrâneo da água. O gato se senta e, quando cansa de ficar sentado, levanta e sai, brinca, corre, senta outra vez, vislumbra Deus numa bolinha de papel. Dois livros que admiro tratam disso: a viagem sem destino. Como a vida, a viagem sem destino é travessia, não sabemos onde vai dar e, por não saber, nos centramos no caminho, na viagem, no presente, apreciamos a paisagem. O porto é sempre futuro e ansiedade, mas quando não há porto, instalamo-nos no agora e o mar se nos mostra inteiro. A baleia branca se levanta das profundezas e nos mostra sua cauda. Tanto o Rosa, quanto Kerouac descendem antes das aranhas que dos símios. Seus livros tecem teias. As viagens de Sal Paradise e Dean Moriarty, bem como as andanças de Riobaldo, o Urutu branco, e Diadorim são fios lançados sem destino nas mais variadas direções, seja cruzando os Estados Unidos de costa a costa, seja atravessando os Gerais das Minas. O homem se perde no tempo, instala-se sempre no futuro ou no passado, mas a vida só acontece no agora. O futuro é uma astronave que tentamos pilotar e não conseguimos e o passado é uma mochila de pedras. A distração é concentração, amigos. Quando agimos sem intenção, o wu wei, é que o outro nos mostra sua face e florescem o amor e a amizade. O nosso problema é que sempre desejamos algo em troca, sempre temos um alvo, um objetivo, uma meta: esperamos prêmio, fidelidade ou elogio e, quando nada disso vem, resmungamos, choramos, não queremos mais brincar. O sol brilha é agora.
COMPARADO CONTIGO, TU ÉS TÃO BONITX
Tua beleza vem de dentro
Cresce feito semente no fruto
E daí que te chamaram de gordx, inválidx, veadx, esquisitx?
Comparado, tão bonitx!
És inteiro e sólido como uma maçã
E daí que te disseram que tinhas de ser
Assim ou assadx
Brancx ou pretx
Forte ou musculosx
Altx ou magrx?
E daí que disseram que tinhas de saber isso e aquilo e aquiloutro?
Sê teu próprio paradigma
Os que veem a casca não percebem o girassol
Cresce feito semente no fruto
E daí que te chamaram de gordx, inválidx, veadx, esquisitx?
Comparado, tão bonitx!
És inteiro e sólido como uma maçã
E daí que te disseram que tinhas de ser
Assim ou assadx
Brancx ou pretx
Forte ou musculosx
Altx ou magrx?
E daí que disseram que tinhas de saber isso e aquilo e aquiloutro?
Sê teu próprio paradigma
Os que veem a casca não percebem o girassol
Comparado contigo, tu és tão bonitx!
Sê inteiro a cada fôlego
Não beba do veneno que te entregam
A perfeição pulsa no interior da tua pele
Escondida num cantinho da tua carne tenra
Comparado, tão bonitx!
Sê inteiro a cada fôlego
Não beba do veneno que te entregam
A perfeição pulsa no interior da tua pele
Escondida num cantinho da tua carne tenra
Comparado, tão bonitx!
Teus olhos brilham feito estrelas
Teu hálito tem o perfume do hálito de um filho
Tua perfeição é tão perfeita quanto a da rosa, do morango, da camomila, do girassol...
Se tu não existisses, o mundo seria menos mundo
E a manhã menos manhã
Algo faltaria nos confins do universo.
Então, chore quando tiver de chorar
E aceite o branco do sorriso
Tudo está tão claro agora:
Comparado contigo, tu és tão bonitx!
Teu hálito tem o perfume do hálito de um filho
Tua perfeição é tão perfeita quanto a da rosa, do morango, da camomila, do girassol...
Se tu não existisses, o mundo seria menos mundo
E a manhã menos manhã
Algo faltaria nos confins do universo.
Então, chore quando tiver de chorar
E aceite o branco do sorriso
Tudo está tão claro agora:
Comparado contigo, tu és tão bonitx!
quinta-feira, 3 de agosto de 2017
SEMPRE-VIVA
Numa
das cenas mais pungentes da história do cinema, Roy Batty, em Blade Runner, recita
pouco antes de morrer:
-
Eu vi coisas que vocês, pessoas, não
imaginariam. Naves de ataque em chamas ao largo de Órion. Eu vi raios-c
brilharem na escuridão próximos ao Portão de Tannhäuser. Todos esses momentos
se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Tempo de morrer.
Sempre que vejo o mar, sentado quieto, em gratidão, lembro
desse monólogo. Se um dia pudesse conversar com a personagem, diria que outros
veriam coisas tão belas quanto e com os mesmos olhos de espanto. Cada ser
humano encarna a humanidade inteira, é só a ponta do iceberg. Qualquer menina
rebelde é um tanto Joana d’Arc, outro tanto Maria Madalena. Tudo flui, tudo
corre, tudo vai. Construir uma prancha leve e surfar o tempo: em desapego,
aceitando a impermanência das coisas. O amor termina no meio de um café com
leite. A amizade se vai sem acenos. Pessoas queridas abrem a porta e se vão pra
nunca mais. Nenhuma culpa de nada e de ninguém. As coisas têm um tempo para
começar e para terminar: Duração, as coisas duram. Não há como dar nó no rio. O
homem é um balde que se enche, durante a vida, de experiências. Quando
morremos, o pote é despejado, não há modo de recolher a água espalhada; mas o
balde permanece intacto, pronto para receber água nova. O vazio é o fio que
liga o neto ao avô.
O mundo é tão bonito, mesmo com cicatrizes profundas que nos
deixa e, quando chegar a hora, terei tanta pena de morrer. Barganharei com a
Dama, assim que ela vier, ampulheta numa mão, a foice na outra:
- Mais uma primavera!
E, se ela disser que sim, trocarei meus olhos com os do
recém-nascido para ver mais uma vez os ipês floridos, as rosas, as violetas,
orquídeas, sempre-vivas na janela e a coragem da criança ao soltar o indicador
do pai e ensaiar, sozinha, os primeiros passos. Estou mudando. A vida não é um
fardo.
segunda-feira, 31 de julho de 2017
O GUARDA-VIDAS
Quando Uriel nasceu, tanto o médico quanto as
enfermeiras ficaram espantados de ver chegar ao mundo, após nove meses de
gestação, um bebê completamente sem pele. Comunicaram, com pesar, à mãe, o fato
inexplicável.
Durante a infância, Uriel viveu cercado de
cuidados, não podia expôr-se ao sol, não frequentava a escola com as outras
crianças; mesmo brisa mais forte o fazia sentir dor, qualquer toque o fazia
sangrar; o mundo era mais que uma alergia, era uma queimadura de terceiro grau.
Canção que não fosse Bach, Pachelbel, Chopin, Nick Drake ou Graham Nash
afetavam seus órgãos internos. Quando ventava, a família fechava as janelas.
Como Uriel não tivesse pele para contê-lo, seus pais tinham medo de que um
vento mais forte, uma ventania qualquer, pudesse dissolvê-lo, pudesse levá-lo
no ar feito montinho de poeira.
Assim, o menino sem pele atravessou a infância, a
adolescência e chegou à vida adulta. Uma pereba inflamada, queimadura, uma
ferida ambulante. Vai ser gauche é maldição para quem ao menos tem perna.
Certo dia, durante um feriado, a família resolveu
ir à praia. Uriel fazia questão de ver o mar, mesmo que fosse sua última visão
neste mundo. Os pais colocaram empecilhos, era perigoso. Ao que Uriel retrucou:
- Viver é muito perigoso. – Citação de livro, como
o mundo lhe era hostil, desde os cinco anos, Uriel tinha ido viver nos livros.
Uma manhã, antes das seis, a família foi à praia.
Tudo calmo, tranquilo: felicidade é sorriso em riba do sofrimento. Os pais
tiveram até coragem para deixá-lo sozinho por um instante, sob o guarda-sol, enquanto
caminharam de mãos dadas rumo ao mar. Era a primeira vez que namoravam desde
que o filho viera ao mundo. Foi neste exato momento que Uriel teve de tomar
decisão. Um menino que brincava na beira do mar foi levado pela maré. Sem-pele
gritou. Não podiam ouvi-lo. E o mar a cada vez engolindo o menino com mais
voracidade. Mais gritos: NADA. Então, Uriel deixou sua cadeira e mergulhou sem
se preocupar com seu próprio destino. Salvou o menino. Sentiu dor, pois sal
sobre uma ferida sempre arde, mas quando deu por si, viu que uma camada ainda
fina de pele envolvia sua carne sofrida.
Ancorado neste pequeno conforto, Uriel aprendeu a
nadar, fez cursos e tornou-se guarda-vidas. A cada pessoa que ajudava, sua pele
se tornava mais grossa, mas nunca deixou que ela se tornasse um casco. Quando
ficava muito excitado, por ter ajudado muita gente, arrancava, durante a noite,
as crostas que se formavam com o excesso de pele...
E viveu a vida.
sexta-feira, 28 de julho de 2017
SHAKESPEARE E O ROSA
Todos sabemos que William Shakespeare é o grande arquiteto da língua
inglesa; assim como também sabemos que João Guimarães Rosa criou outra língua
dentro da língua portuguesa. Ambos são autores que enlouqueceram as palavras,
esticaram a corda do significante até transformar a própria fôrma em bolo. Há, nos
dois autores, um olhar desconfiado, tresloucado, sobre o código. O que, às
vezes, deixamos de perceber é que tanto o bardo, quanto o médico simpático
também são dois tremendos criadores de personagens e, ao que quero me ater,
dois imensos contadores de história que jamais negligenciam o enredo.
Em Shakespeare, nas dark plays, há irmão traindo irmão, assassinatos,
suicídios, fantasmas, relações estranhas entre mãe e filho, bruxas, filhas que
arrebentam com a vida do pai, crimes passionais dignos do Investigação
Discovery, do programa do Datena. No Rosa, também há traições, homem que se
vira em onça, mulher que se faz de homem para viver no meio do cangaço.
Mais ou menos na metade do Grande Sertão: Veredas, por exemplo, há uma
reunião de todos os bandos de cangaceiros para julgar Zé Bebelo, o qual é
banido para Goiás, mas por não aceitar a decisão, cujo juiz é Joca Ramiro, pai
de Reinaldo, que na verdade é Diadorim, que na verdade é homem e não mulher,
Hermógenes, mais Ricardão, dois chefes de cangaço, na trairagem, matam o tal
Joca Ramiro, que é pai de... Mas, por que é que eu estava falando de tudo isso
mesmo, hein? Ah, sim! A reunião dos cangaceiros me lembra a reunião de todas as
gangues de Nova York no filme Warriors, guerreiros da noite. Aqui, ou melhor
lá; enfim, no filme, também há uma traição e o chefe de todas as gangues é
morto, caindo a culpa sobre os Warriors (guerreiros). Grande Sertão: Brooklyn! Enfim,
se for ver mesmo, tanto Shakespeare quanto Rosa fazem a mais alta literatura
com enredos quase hollywoodianos.
Acho que estou escrevendo isso só pra dizer que em Arte não há
receita. Ou é Arte ou não é. Ou é Literatura, ou não é. Ninguém sabe, na
verdade, o que faz um grande livro. Os críticos nos explicam, mas que crítica
pode dar conta de um Grande Sertão? O livro nos tira do centro, nos joga para
além de nós mesmos. Fui dar uma lida nas marcações do meu exemplar do Grande
Sertão e o livro está quase inteiro grifado e, olha que é um livro de mais de
seiscentas páginas! Riobaldo, Tatarana,
sertanejo, Fausto do Jequitinhonha, é o maior filósofo brasileiro, maior
que Quincas Borba! Enfim, ou há talento, ou não há. Ou a poesia faz visita, ou
não faz, uai! O diabo é que nos acostumamos a querer rachar todos os mistérios,
como rachamos o átomo... E a Arte, como a vida, é puro mistério.
quinta-feira, 27 de julho de 2017
CISNES REFLETINDO ELEFANTES
Estou tentando abandonar o vício de
sofrer, já não me diverte tanto assim. Talvez não fique mal num menino de 15
anos, mas num homem de quase 40 não é um espetáculo bonito de se ver. Mesmo porque,
quando sofro, todos a quem amo, sofrem junto. Na canção, Stuck in a Moment You Can't Get Out Of, do U2, Bono
canta algo mais ou menos assim: “Você tem que se recompor / Você
ficou preso a um momento / e agora não consegue sair / Não diga que mais tarde
ficará melhor.” O momento é agora, deixar de ressentir, repetir a dor de
algo que nos magoou há muito. O passado não foi, o passado é, do contrário não
sofreríamos, seríamos o tempo todo puros como Adão, como bebês; mas temos de
olhar o agora, tirar a água suja e substituí-la aos poucos por água limpa. Amanhece...
Há um dia inteiro pela frente: carpe diem, seize the day! Ainda não matamos
todos os pássaros e alguns deles cantam: que será que estão louvando? A flor de
lótus brota no pântano. Cada um faz seu caminho e o lodo já não me interessa,
conheço-o bem; agora, almejo a flor. Chega de ficar arrancando a casca da
ferida. Chega de ouvir o euzinho gritando todo o tempo, sua dor é maior, sua
sensibilidade é maior, você é artista, lembre-se de Álvares de Azevedo, os
outros são zumbis! “A maioria dos homens vive em silencioso desespero.” Quanto
ainda há por aprender com os estoicos! Um dia, esse coração perebento, vai
bater um pá meio descompassado e jamais vai bater o pum outra vez. Melhor dizer
sim ao dia, e se fizer frio ou chover, importa pouco. Começar com as coisas
simples: por um pé no chão, depois o outro, escovar os dentes, lavar a louça na
pia, fazer café, afagar um gato, limpar o coco dos bichos, o banheiro: é
milagroso! Quero aproveitar o tempo que me foi dado, quero ver meus
contemporâneos; fiquei tempo demais preso à minha unha encravada, estou curioso
sobre eles. Deixemos que o Demônio grite: “amanhã, tu estarás chorando outra
vez!” Sussurremos em seu ouvido: do amanhã, o amanhã cuidará! Ouçamos Riobaldo,
Tatarana, sábio jagunço de falar muito reto e direitoso: “a vida é assim:
esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.” Good morning
starshine.
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