Elas se tocam
Arrancam pedaços umas das outras
Incorporam-se umas às outras
Seguem juntas um trecho do percurso
(Mãos dadas sob as asas do avião)
Depois se separam
Seguem adiante
Sempre adiante
Elas tomam forma de pássaros
De dinossauros
De vermelho
Dos dedos das crianças
E quando se zangam
Despencam pra depois ouvir os pássaros cantar
A vida é redonda e amarela feito o sol.
sábado, 29 de outubro de 2016
segunda-feira, 24 de outubro de 2016
DELTACID
Tudo está na infância, é ela que nos salva e nos fode pelo resto da vida. Sobre a minha, duas coisas. Eu era cabeçudo e piolhento, praticamente um latifundiário da pediculose. Se não tomasse cuidado, pegaria morcegos, em vez de piolhos. A primeira percepção profunda da tristeza que tive está ligada aos piolhos. Estávamos indo a um passeio na escola e todos se divertiam no ônibus, ao passo que eu, continuava quieto no meu canto. Com medo que descobrissem o meu segredo, pensava: “De que adianta o sol, o passeio, a festa se tenho piolhos?” Quase um Poema do Beco, do Bandeira. Era a época da música do Nenhum de Nós, Astronauta de Mármore e adivinhem do que os meninos me chamavam? Desde pequeno, tudo que é ruim gruda em mim, do piolho ao vício. Hoje meus piolhos caminham do lado de dentro do crânio. A mãe tratava, passava pente fino, tudo quanto era remédio fedido, mas não tinha jeito, eu tinha sangue doce.
Mas o padre dizia, na Igreja, que era preciso ter fé e fé é esperança. E eu rezava: “Senhor, se for da tua vontade, acaba com estes piolhos.” Com as lêndeas tudo bem, até que eu gostava do nome, é uma palavra bonita e sempre fui louco pelas palavras; qualquer dia escrevo um soneto com este título: Lêndeas.
É preciso ter fé e fé é esperança. Não sei se por inspiração divina, nos anos seguintes, uns cientistas inventaram um produto chamado Deltacid e meus problemas foram resolvidos. Neste meio tempo, deixei o cabelo crescer, descobri o rock, O pequeno príncipe, O menino do dedo verde. Encorpei um pouco, o que melhorou a proporção entre o corpo e a cabeça. Agora, já era um adolescente, trabalhava numa padaria, tinha dinheiro para camisetas do Pink Floyd e Yes, usava calças apertadas, lia; às vezes, tomava um keep cooler na frente da escola. Em suma, tornei-me um diferentão.
De outra escola, veio uma menina linda, um par de anos mais velha que eu, Adriana. Todos a chamavam de Adriana-Modelo. E, de fato, ela poderia ser mesmo modelo. Tinha um cabelo que ía até a cintura. Como ela morava perto da minha casa e estudávamos no período noturno, fizemos amizade, ela tinha medo de vir sozinha e eu fazia companhia. Um dia, elogiei seu cabelo e ela me fez uma confissão:
- Sabe, nem sempre tive o cabelo assim. Na verdade, saí da outra escola porque os meninos pegavam demais no meu pé. Todo ano eu pegava piolho... E minha mãe cortava meu cabelo curtíssimo. Apelidaram-me de Joãozinho. - Moleques burros, poderiam chamá-la de Sinéad O´ Connor, porque era a cara.
- Eu também pegava piolho todo ano - confessei. - Ainda bem que inventaram o Deltacid.
Ela riu e na frente de sua casa, sem qualquer palavra, sem qualquer gesto artificial, mas numa conjunção de almas piolhentas e sofridas, dei meu primeiro beijo. O beijo mais natural do mundo, parâmetro da boca pelo resto da vida.
Mas o padre dizia, na Igreja, que era preciso ter fé e fé é esperança. E eu rezava: “Senhor, se for da tua vontade, acaba com estes piolhos.” Com as lêndeas tudo bem, até que eu gostava do nome, é uma palavra bonita e sempre fui louco pelas palavras; qualquer dia escrevo um soneto com este título: Lêndeas.
É preciso ter fé e fé é esperança. Não sei se por inspiração divina, nos anos seguintes, uns cientistas inventaram um produto chamado Deltacid e meus problemas foram resolvidos. Neste meio tempo, deixei o cabelo crescer, descobri o rock, O pequeno príncipe, O menino do dedo verde. Encorpei um pouco, o que melhorou a proporção entre o corpo e a cabeça. Agora, já era um adolescente, trabalhava numa padaria, tinha dinheiro para camisetas do Pink Floyd e Yes, usava calças apertadas, lia; às vezes, tomava um keep cooler na frente da escola. Em suma, tornei-me um diferentão.
De outra escola, veio uma menina linda, um par de anos mais velha que eu, Adriana. Todos a chamavam de Adriana-Modelo. E, de fato, ela poderia ser mesmo modelo. Tinha um cabelo que ía até a cintura. Como ela morava perto da minha casa e estudávamos no período noturno, fizemos amizade, ela tinha medo de vir sozinha e eu fazia companhia. Um dia, elogiei seu cabelo e ela me fez uma confissão:
- Sabe, nem sempre tive o cabelo assim. Na verdade, saí da outra escola porque os meninos pegavam demais no meu pé. Todo ano eu pegava piolho... E minha mãe cortava meu cabelo curtíssimo. Apelidaram-me de Joãozinho. - Moleques burros, poderiam chamá-la de Sinéad O´ Connor, porque era a cara.
- Eu também pegava piolho todo ano - confessei. - Ainda bem que inventaram o Deltacid.
Ela riu e na frente de sua casa, sem qualquer palavra, sem qualquer gesto artificial, mas numa conjunção de almas piolhentas e sofridas, dei meu primeiro beijo. O beijo mais natural do mundo, parâmetro da boca pelo resto da vida.
A GRANDE REVOLUÇÃO DA TRISTEZA
Há em A peste, de Camus, uma frase que me marcou de modo esplendoroso: “vergonhoso é ser feliz sozinho”. Hoje, talvez, a frase não faça muito sentido; pois, quanto mais feliz estamos e quanto pior o outro está, melhor. O facebook aqui é a fórmula 1 da felicidade. Fotos, festas, fatos, pratos, frases feitas. Cada um se torna um pouco celebridade. Cada um é estrela de sua própria revista Caras.
Mas, pergunta incômoda, e os tristes?
Hoje o vergonhoso é ser triste sozinho em meio a tanta gente bem-sucedida, eficiente, competente,divertida, empolgada, promovível. A felicidade alheia, de camisa pólo e dentes brancos, verdadeira ou falsa, acentua nossa própria infelicidade.
Num piscar de olhos, estamos no meio da jornada e não realizamos nada. O mundo visto pela janela parece sem sentido. Os filhos pedem uma força que nos foge, escapa entre os dedos. Simplesmente cansamos de levantar da cama para o oco e a repetição. Sísifo despenca do alto do morro e a rocha esmaga-lhe a cabeça. Entramos no ônibus sem dar sinal, esperamos o ponto final e a viagem nos parece longa demais; nada muda na paisagem.
Mas ainda tenho esperança, fé, na revolução, não numa revolução sangrenta qualquer, mas na Grande Revolução da Tristeza. Minha utopia é ver chegar o dia em que o mal-estar será tão grande que todos cruzaremos os braços. Estatisticamente, não está muito longe. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), no início dos anos 2000, a depressão atingia 6% da população, a projeção é de que até 2020, a depressão terá se tornado a segunda causa de morbidade no mundo industrializado, precedida apenas pelas doenças cardíacas.
Vinícius de Moraes... Espinosa... Deleuze... Estavam todos redondamente enganados, é pela morbidez que se atinge um devir revolucionário. A força do I would prefer not to, ou do I can´t.
Eu cá com meus botões penso em como serão as fotos do facebook daqui a quatro anos. Será que se parecerão com cenas de um filme de Robbie Zombie, ou será que todos continuaremos mentindo, fotografando pratos de lasanha?
Mas, pergunta incômoda, e os tristes?
Hoje o vergonhoso é ser triste sozinho em meio a tanta gente bem-sucedida, eficiente, competente,divertida, empolgada, promovível. A felicidade alheia, de camisa pólo e dentes brancos, verdadeira ou falsa, acentua nossa própria infelicidade.
Num piscar de olhos, estamos no meio da jornada e não realizamos nada. O mundo visto pela janela parece sem sentido. Os filhos pedem uma força que nos foge, escapa entre os dedos. Simplesmente cansamos de levantar da cama para o oco e a repetição. Sísifo despenca do alto do morro e a rocha esmaga-lhe a cabeça. Entramos no ônibus sem dar sinal, esperamos o ponto final e a viagem nos parece longa demais; nada muda na paisagem.
Mas ainda tenho esperança, fé, na revolução, não numa revolução sangrenta qualquer, mas na Grande Revolução da Tristeza. Minha utopia é ver chegar o dia em que o mal-estar será tão grande que todos cruzaremos os braços. Estatisticamente, não está muito longe. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), no início dos anos 2000, a depressão atingia 6% da população, a projeção é de que até 2020, a depressão terá se tornado a segunda causa de morbidade no mundo industrializado, precedida apenas pelas doenças cardíacas.
Vinícius de Moraes... Espinosa... Deleuze... Estavam todos redondamente enganados, é pela morbidez que se atinge um devir revolucionário. A força do I would prefer not to, ou do I can´t.
Eu cá com meus botões penso em como serão as fotos do facebook daqui a quatro anos. Será que se parecerão com cenas de um filme de Robbie Zombie, ou será que todos continuaremos mentindo, fotografando pratos de lasanha?
BE WATER, MY FRIEND
Agora é oficial, sou doido “com todo direito a sê-lo”, como diria o Álvaro Campos. Encontraram aí quatro ou cinco cid´s nos quais me encaixar.
Desde menino, sempre achei que havia algo de errado comigo. Na escola, até que me virava bem. Eu decorava tudo e depois colava da minha própria cabeça a resposta; mas, pra dizer a verdade, não entendia coisa alguma. Em casa, novos e piores problemas. Minha mãe me mandava ao açougue e lá ia eu. No caminho, via um passarinho e eu imaginava que era um anãozinho e domava o passarinho, como se fosse um cavalo alado e lá íamos nós guerrear, conquistar reinos, enfrentar monstros feito um Conan de dez centímetros. Quando chegava em casa, trazia dez pães e um litro de leite C, de saquinho, daqueles da época do José Sarney. A mãe perguntava:
- E o frango?
- Que frango?
- O que te mandei comprar.
- Não era pão?
E dá-lhe no cocoruto um bom cascudo daqueles bem mineiros. Das duas uma, ou gênio, ou retardado; disse a professora Maria Helena.
Mas o que acabou comigo mesmo foi a entrevista do Bruce Lee. Be water, ele dizia. Be water, a água se ajusta a todas as situações e sempre chega ao seu destino. Levei o conselho a sério. Em todas as situações, até hoje, me lembro: be water. Depois li mais sobre Lao-Tsé, Chuang Tzu, o I-ching; mas não adiantava, o cerne da má compreensão já estava dentro de mim. Be water, adapte-se, como a água, chegue ao seu destino.
Então, quando estou tomando um café na padaria e o copeiro sapeca:
- Bom mesmo é o major Olímpio, ou o Levi Fidelix, só um dos dois para resolver – concordo e ainda pergunto: - qual é mesmo o número aí do gato Félix?
E quando estou num papo cabeça e o sujeito manda:
- Gênio só Joyce. Ulisses, que primor!
Sei que o sujeito não folheou nem as primeiras vinte páginas do irlandês, mas concordo.
- Não tem igual. Dostoiévsky é uma besta se compararmos.
Existem forças no mundo operando sobre nós e cada uma delas quer nos levar para um lado. O diabo, é que, com esse papo de ser água, fui me deixando levar pra lá e pra cá. Diante de cada interlocutor, uma máscara diferente. Eu gostava mesmo era de sentar na praça e olhar os passarinhos que ainda restam em São Paulo. Mas, como diria Freud, olhar passarinho não enche barriga do eu, do isto, nem do supereu. Então, quando precisei ganhar a vida, tentei usar a técnica do be water.
- Daniel, você pode pegar os piores trabalhos para fazer em nosso lugar?
- Ó sim, claro, companheiros.
- Daniel, você pode ir ali tomar no cu?
- Com todo prazer.
Eu não sabia dizer não. Então dizia sim para todos: em casa, no trabalho, na escola. Dizer não virou um trabalho hercúleo. Só que, como diria outro gênio da psicanálise, a Senhora Melanie Klein, o eu é um balde, se você encher demais com água suja, ou limpa, uma hora ele transborda e espalha merda, digo água, pra todo lado. De tanto viver tentando evitar o conflito o tempo todo, quando o balde transborda, faço merda, brigo, ofendo, me arrependo, sinto vergonha, choro, vêm os pavores, síndrome do pânico, arrependimento; se toca o telefone, acho que é do inferno me mandando descer... E não durmo nunca, porque, para evitar o conflito, aceito coisas com as quais não concordo e, quando me expresso, faço do jeito errado, armo uma tremenda confusão. Se fosse mudo e analfabeto, teria escapado das piores confusões nas quais já me enfiei, mas eu queria evitar o primeiro diagnóstico da profª Maria Helena, retardado, e resolvi que seria gênio. Não deu muito certo também, mas vamos caminhando, seguindo nosso caminho, feito água... Do rio Tietê.
Desde menino, sempre achei que havia algo de errado comigo. Na escola, até que me virava bem. Eu decorava tudo e depois colava da minha própria cabeça a resposta; mas, pra dizer a verdade, não entendia coisa alguma. Em casa, novos e piores problemas. Minha mãe me mandava ao açougue e lá ia eu. No caminho, via um passarinho e eu imaginava que era um anãozinho e domava o passarinho, como se fosse um cavalo alado e lá íamos nós guerrear, conquistar reinos, enfrentar monstros feito um Conan de dez centímetros. Quando chegava em casa, trazia dez pães e um litro de leite C, de saquinho, daqueles da época do José Sarney. A mãe perguntava:
- E o frango?
- Que frango?
- O que te mandei comprar.
- Não era pão?
E dá-lhe no cocoruto um bom cascudo daqueles bem mineiros. Das duas uma, ou gênio, ou retardado; disse a professora Maria Helena.
Mas o que acabou comigo mesmo foi a entrevista do Bruce Lee. Be water, ele dizia. Be water, a água se ajusta a todas as situações e sempre chega ao seu destino. Levei o conselho a sério. Em todas as situações, até hoje, me lembro: be water. Depois li mais sobre Lao-Tsé, Chuang Tzu, o I-ching; mas não adiantava, o cerne da má compreensão já estava dentro de mim. Be water, adapte-se, como a água, chegue ao seu destino.
Então, quando estou tomando um café na padaria e o copeiro sapeca:
- Bom mesmo é o major Olímpio, ou o Levi Fidelix, só um dos dois para resolver – concordo e ainda pergunto: - qual é mesmo o número aí do gato Félix?
E quando estou num papo cabeça e o sujeito manda:
- Gênio só Joyce. Ulisses, que primor!
Sei que o sujeito não folheou nem as primeiras vinte páginas do irlandês, mas concordo.
- Não tem igual. Dostoiévsky é uma besta se compararmos.
Existem forças no mundo operando sobre nós e cada uma delas quer nos levar para um lado. O diabo, é que, com esse papo de ser água, fui me deixando levar pra lá e pra cá. Diante de cada interlocutor, uma máscara diferente. Eu gostava mesmo era de sentar na praça e olhar os passarinhos que ainda restam em São Paulo. Mas, como diria Freud, olhar passarinho não enche barriga do eu, do isto, nem do supereu. Então, quando precisei ganhar a vida, tentei usar a técnica do be water.
- Daniel, você pode pegar os piores trabalhos para fazer em nosso lugar?
- Ó sim, claro, companheiros.
- Daniel, você pode ir ali tomar no cu?
- Com todo prazer.
Eu não sabia dizer não. Então dizia sim para todos: em casa, no trabalho, na escola. Dizer não virou um trabalho hercúleo. Só que, como diria outro gênio da psicanálise, a Senhora Melanie Klein, o eu é um balde, se você encher demais com água suja, ou limpa, uma hora ele transborda e espalha merda, digo água, pra todo lado. De tanto viver tentando evitar o conflito o tempo todo, quando o balde transborda, faço merda, brigo, ofendo, me arrependo, sinto vergonha, choro, vêm os pavores, síndrome do pânico, arrependimento; se toca o telefone, acho que é do inferno me mandando descer... E não durmo nunca, porque, para evitar o conflito, aceito coisas com as quais não concordo e, quando me expresso, faço do jeito errado, armo uma tremenda confusão. Se fosse mudo e analfabeto, teria escapado das piores confusões nas quais já me enfiei, mas eu queria evitar o primeiro diagnóstico da profª Maria Helena, retardado, e resolvi que seria gênio. Não deu muito certo também, mas vamos caminhando, seguindo nosso caminho, feito água... Do rio Tietê.
quinta-feira, 13 de outubro de 2016
livros
Livros são bons, dizem. A literatura faz você viver uma vida melhor e ficar mais inteligente, dizem. Todos têm direito à literatura, disse o Cândido, a se sensibilizar com ela, a ganhar e engendrar em si novos mundos, a
construir caminhos para si com essas passagens de vida. Tenho muitos livros, uma enxurrada de jovens autores, boa porcentagem desses livros é lixo publicado por vaidade, por vontade de ver o nome escrito numa capa com bela gravura, Ó... o glamour da noite de lançamento. Leio ou tento ler boa parte dos livros recentemente produzidos, mas isto me toma o tempo de ler, por exemplo, algumas coisas do Dostoiévski que ainda não li, o Knut Hamsun que pretendo conhecer mais. A literatura é um direito, assim como a arquitetura, a engenharia, a pintura, o futebol arte. O que não dá para aceitar é que qualquer um que admire pontes e viadutos vá construir um prédio e que ele vai ficar de pé da noite para o dia; não da pra aceitar que qualquer um que visitou um ou dois museus, viu algumas gravuras na internet terá o mesmo êxito em dizer o indizível daquele que buscou um modo de extrair da pintura uma comunicação ontológica como Cézanne, ou Vincent van Gogh. Como o capitão Achab, enlouqueceram na busca de sua baleia branca. Estes homens arriscaram tudo, doaram a vida para tentar expressar algo grande demais que viram no destino humano. Quem está disposto a pagar o preço? Nem todo mundo que joga uma pelada é Pelé. Além do talento, há a obsessão pela palavra justa, pelo modo de dizer uma passagem de vida, um caminho de pensamento que jamais foi trilhado antes. Fora a incompreensão, o chiste, o desterro, a autodestruição – penso no cônsul de Lowry: “Ah e que mundo era este capaz de esmagar tanto a verdade quanto os bêbados?” Outro dia, num sarau, um autor de cinco livros, disse-me que havia pouco tinha descoberto que romance era um gênero. Ele achava que todo romance era romântico. Então vamos com calma, companheiros, porque se o que você tiver a dizer for menos importante que o silêncio, não diga. Espere. Não quero que minha posição seja tomada como elitista, porque não é. Quando a literatura andava empolada demais, Hemingway e Céline invadiram o salão a cavalo, feito bárbaros. Penso que se a escrita não for tão importante quanto o prato de comida, como era para Carolina Maria de Jesus, então não escreva. Vá ao parque, curta uma balada que não seja necessariamente literária. Não tem a ver com uma estética da alta cultura, mas da arte como tábua de salvação, da literatura como respiração. O artista é alguém que viu na vida algo grande demais, o que pôs nele a marca da morte, é o grande assinalado de Cruz e Souza, é o que não pode trocar de destino. «Melville dizia: «Se dissermos dadas as necessidades da argumentação que ele é louco, então eu preferiria ser louco a sábio... gosto de todos os homens que mergulham. Qualquer peixe pode nadar perto da superfície, mas é preciso ser-se uma grande baleia para descer a cinco milhas e mais... Os mergulhadores do pensamento voltaram à superfície com os olhos injectados de sangue desde o princípio do mundo.» Reconhecemos com facilidade que há perigo nos exercícios físicos extremos, mas o pensamento é também um exercício extremo e rarefeito. A partir do momento em que pensamos, enfrentamos necessariamente uma linha onde se jogam a vida e a morte, a razão e a loucura, e esta linha arrasta-nos. Só podemos pensar nesta linha de feiticeira, faltando dizer que não estamos forçosamente condenados a perder, que não estamos forçosamente condenados à loucura e à morte.» Pensemos aí em Vincent no trigal, nas noites de Poe, nos jejuns kafkianos, na tenacidade de Faulkner, no desconforto da gravata borboleta do Rosa montada por temporadas e temporadas no lombo de um burro, dormindo no chão da caatinga, do sertão.
construir caminhos para si com essas passagens de vida. Tenho muitos livros, uma enxurrada de jovens autores, boa porcentagem desses livros é lixo publicado por vaidade, por vontade de ver o nome escrito numa capa com bela gravura, Ó... o glamour da noite de lançamento. Leio ou tento ler boa parte dos livros recentemente produzidos, mas isto me toma o tempo de ler, por exemplo, algumas coisas do Dostoiévski que ainda não li, o Knut Hamsun que pretendo conhecer mais. A literatura é um direito, assim como a arquitetura, a engenharia, a pintura, o futebol arte. O que não dá para aceitar é que qualquer um que admire pontes e viadutos vá construir um prédio e que ele vai ficar de pé da noite para o dia; não da pra aceitar que qualquer um que visitou um ou dois museus, viu algumas gravuras na internet terá o mesmo êxito em dizer o indizível daquele que buscou um modo de extrair da pintura uma comunicação ontológica como Cézanne, ou Vincent van Gogh. Como o capitão Achab, enlouqueceram na busca de sua baleia branca. Estes homens arriscaram tudo, doaram a vida para tentar expressar algo grande demais que viram no destino humano. Quem está disposto a pagar o preço? Nem todo mundo que joga uma pelada é Pelé. Além do talento, há a obsessão pela palavra justa, pelo modo de dizer uma passagem de vida, um caminho de pensamento que jamais foi trilhado antes. Fora a incompreensão, o chiste, o desterro, a autodestruição – penso no cônsul de Lowry: “Ah e que mundo era este capaz de esmagar tanto a verdade quanto os bêbados?” Outro dia, num sarau, um autor de cinco livros, disse-me que havia pouco tinha descoberto que romance era um gênero. Ele achava que todo romance era romântico. Então vamos com calma, companheiros, porque se o que você tiver a dizer for menos importante que o silêncio, não diga. Espere. Não quero que minha posição seja tomada como elitista, porque não é. Quando a literatura andava empolada demais, Hemingway e Céline invadiram o salão a cavalo, feito bárbaros. Penso que se a escrita não for tão importante quanto o prato de comida, como era para Carolina Maria de Jesus, então não escreva. Vá ao parque, curta uma balada que não seja necessariamente literária. Não tem a ver com uma estética da alta cultura, mas da arte como tábua de salvação, da literatura como respiração. O artista é alguém que viu na vida algo grande demais, o que pôs nele a marca da morte, é o grande assinalado de Cruz e Souza, é o que não pode trocar de destino. «Melville dizia: «Se dissermos dadas as necessidades da argumentação que ele é louco, então eu preferiria ser louco a sábio... gosto de todos os homens que mergulham. Qualquer peixe pode nadar perto da superfície, mas é preciso ser-se uma grande baleia para descer a cinco milhas e mais... Os mergulhadores do pensamento voltaram à superfície com os olhos injectados de sangue desde o princípio do mundo.» Reconhecemos com facilidade que há perigo nos exercícios físicos extremos, mas o pensamento é também um exercício extremo e rarefeito. A partir do momento em que pensamos, enfrentamos necessariamente uma linha onde se jogam a vida e a morte, a razão e a loucura, e esta linha arrasta-nos. Só podemos pensar nesta linha de feiticeira, faltando dizer que não estamos forçosamente condenados a perder, que não estamos forçosamente condenados à loucura e à morte.» Pensemos aí em Vincent no trigal, nas noites de Poe, nos jejuns kafkianos, na tenacidade de Faulkner, no desconforto da gravata borboleta do Rosa montada por temporadas e temporadas no lombo de um burro, dormindo no chão da caatinga, do sertão.
LITLLE GREEN
Naquela noite você me contou que
estava triste. Cantarolou uma canção antiga, dizendo que nós deveríamos pegar
mais leve, ficar mais calmos, porque amanhã nós ainda estaríamos aqui, mas
nossos sonhos poderiam não estar. Eu me fiz de durão. Joguei meu topete de
lado. Não havia como não me tornar um astro de rock. Outros sonhavam ser
jogadores de futebol, de basquete, atrizes, modelos, Idalino queria ser
corredor de fórmula 1. Sua voz, lembro bem, tinha o timbre da Joni Mitchell, e
você tinha até um ukulele. Onde foram parar todas aquelas meninas e meninos
famosos? Aqueles gênios do sonho? Alguns estão por aí, limpando para-brisas com
o cu cheio de bosta no farol. De você, soube que vivia, até há pouco, em um
albergue em Divinolândia. Eu me tornei funcionário público, único motivo pelo
qual ainda não fui parar embaixo da ponte. Você sabe como é bonita aquela
lorota de educar as novas gerações e etc e tals. Todos têm vocação para fazer,
dos outros, santos, até os ateus. É fácil ser ateu depois que você se sai da
sala de aula e vai ganhar um pouco mais numa salinha arejada com umas
plantinhas verdes e silenciosas.
Fitzgerald
escreveu o melhor início de texto do mundo, em seu Crack up: “É claro que toda
vida é um processo de demolição.” Desmoronamento, demolição, chocamos nossas
frustrações com as frustrações alheias. É, ferimos com requintes de crueldade
aqueles que caminham ao nosso lado e são um pouco mais lerdinhos, ou mais
bonzinhos. Na escola, dizem: “coitada, não domina a sala!” Em outras profissões
deve haver algo semelhante. Vejo gente defendendo o fim da polícia militar.
Deveriam defender é o fim da escola. Ninguém quer professor, quer um sargento
que mantenha 38 alunos com o cu na cadeira durante seis horas.
Mas
nem é disso que quero falar, papo ruim. A gente acha que vai conquistar o mundo
e não conquista, com os bolsos cheios de farelos, nem a simpatia dos pombos na
praça. Feito toupeira cega, saímos empurrando a terra com o focinho, buscando
uma fresta de luz. Quando achamos ter encontrado o túnel certo; quando nos
sentimos fortes e estamos cuidando do corpo e da alimentação... Aí vem, do
nada, uma avalanche e transforma tudo em merda.
Hoje
não estou para bons sentimentos, querida, você sabe, sempre tive problemas para
levantar da cama. E acordei lúcido demais, meu mal desde a infância. Que vá pra
puta que pariu, a utopia. O futuro é tenebroso. Crianças e adolescentes são só
canalhas em fase de crescimento. Não me venham falar de moral – palavra fora de
moda – ou de ética – palavra muito em voga. Conheço a ladainha, percebo há
quilômetros um hipócrita. Meu filho diz hipótrico, acho mais contundente.
É,
temos de tentar ver o outro lado também. Parece que vai chover, companheiro. O
tempo vai abrir. Tem feriado semana entrante. Nem tudo é tão ruim. Existem os
gatos que se aproximam ronronando quando percebem que estamos tendo uns
pensamentos sombrios; mas também existem os karnais que pensam estar
desvendando algo da alma humana, os cortelas que contam as dobrinhas dos dedos.
Quem não é charlatão é canalha declarado. E, então, o proto-padre fala dos
moribundos, que deveríamos ser gratos... Ó, a vida é um dom. A gente pode perdoar a
deus por um bocado de coisas, menos por ter criado tantos idiotas. Toda a
história do conhecimento humano não vale um gato vivo.
Outro
dia me levaram a um psicólogo. As pessoas estão sempre me levando a algum lugar
Igreja, Centro Espírita; eu vou não tenho nada melhor pra fazer mesmo. Até que
gosto deles, dos psicos, mas quando falei que eu parecia um retardado ou um ET
porque sempre que tentava explicar os lugares pelos quais passei, as coisas que
pensei, as emoções cheias de pus que avassalaram meu coração, ninguém me
entendia. Ele, o psicólogo, imediatamente pegou um carimbo e tacou na minha
testa: NARCISISTA. Nem por um segundo o cara pensou que eu estava tentando
nomear minha vida e que todas as palavras estavam gastas demais, sujas demais.
Talvez só eu pudesse mesmo entender as coisas que dizia. Às vezes pareço a mim
mesmo tão claro. Quando Vincent, por exemplo, pinta seu quarto, ele não está
querendo dizer quarto, mas Vincent, sua dor, sua incompreensão, sua falência.
Não é uma metáfora é uma andança. E, ah, como seria bom se alguém algum dia
chegasse com a chave secreta e abrisse todas as portas do labirinto. Então eu
poderia ao menos ter um rosto, um riso, rugas, um nome: existir.
Agora
não quero mais saber. Acredito que o otimismo de uma pessoa é diretamente
proporcional à sua BuRRicE.
Decidi
me tornar um ladrão. Minha dúzia de ovos agora terá treze ovos. O desodorante
roll on cairá fácil no bolso do meu casaco. Não tenho qualquer compromisso
ético com um mundo que sempre me julgou sem sequer me deixar nascer.
Que
aumentem a velocidade das vias públicas para 280 km\h! Que construam ciclovias
na pista do aeroporto. Que se fodam! Que se matem! Não quero mais tomar parte
em porra nenhuma. Só não me venham pedir para levantar uma palha. Meu lema é
dormir sempre que possível e comer pastel de queijo. Não fosse a incompetência
generalizada, a turma já teria dado cabo do mundo mesmo.
Só
levarei comigo o sonho da menina que queria ser Joni Mitchell. Não, melhor,
levarei a lembrança do sonho daquela menina. Talvez ela ainda seja você, talvez
ela também já tenha apodrecido. Não faz mais diferença
PROPRIAMENTE EU SOU DURANGO KID
kEROUAC acreditava que, na
estrada, em algum momento, a pérola lhe seria ofertada. Penso em Clarice,
Lygia, Katherine e na impossibilidade de escrever uma crônica quando já não há
liberdade, bonde ou esperança; elementos essenciais ao gênero.
Meus
olhos perderam o encanto. Tudo é velho e gasto; mas, e a pérola? Onde está a
pérola? Na cerveja que não bebo? Nas crianças dividindo a fruta? No silêncio
que não encontro mais? No louco que busca uma ordem milimétrica para as suas
garrafas, trapos e restos de aparelhos eletrônicos? Propriamente dizer:
-
Tem de haver algo mais – repito. – Avida não pode se resumir a amarrar
cadarços.
Enquanto
empaco no trânsito, uma faceta do maravilhoso se joga do viaduto.
Onde
a pérola para o funcionário público?
No
primeiro pega no cachimbo – o transbordante a dez reais por dois minutos? Na
sequência de acordes do Toninho Horta? Numa canção dos Beatles? O som exato,
ser o que fui? Não, isto não nos traz a pérola, só a nostalgia por uma pérola
que nunca tivemos, que não encontramos, por uma potência de nós mesmos que não
nos deixamos realizar. Quando finda a canção, despencamos do paraíso: carros
buzinam, o dia amanhece cinzento, novo jornal, trens cortam o que resta da
noite, meninos se jogam do oitavo andar.
Como
ver os peixes e os comboios com os olhos de Adélia? Ensina-me, Adélia, a
consagrar uma colher, um guardanapo, a ver o sagrado por todo lado. Tira dos
meus olhos a fuligem.
-
Homem, tu desejas a pérola, mas se apresenta diante de Deus com a alma seca, de
porre, o corpo sujo, amente cansada – diz Adélia e sua poesia me esmaga.
Já
não posso pegar a estrada de Kerouac.
Os
anos passaram a galope.
Passo,
de um minuto a outro, do sentimento oceânico à crise.
Já
não me importam, sequer o leite e o mel. Sou exigente quero me alimentar das
pérolas.
Abro,
pois, a ostra, passo a língua afiada, mas não há brilho lá, só o gosto de
sangue da carne machucada... E a ferida não nos torna brilhantes.
Propriamente
eu sou Durango Kid.
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