Agora é oficial, sou doido “com todo direito a sê-lo”, como diria o Álvaro Campos. Encontraram aí quatro ou cinco cid´s nos quais me encaixar.
Desde menino, sempre achei que havia algo de errado comigo. Na escola, até que me virava bem. Eu decorava tudo e depois colava da minha própria cabeça a resposta; mas, pra dizer a verdade, não entendia coisa alguma. Em casa, novos e piores problemas. Minha mãe me mandava ao açougue e lá ia eu. No caminho, via um passarinho e eu imaginava que era um anãozinho e domava o passarinho, como se fosse um cavalo alado e lá íamos nós guerrear, conquistar reinos, enfrentar monstros feito um Conan de dez centímetros. Quando chegava em casa, trazia dez pães e um litro de leite C, de saquinho, daqueles da época do José Sarney. A mãe perguntava:
- E o frango?
- Que frango?
- O que te mandei comprar.
- Não era pão?
E dá-lhe no cocoruto um bom cascudo daqueles bem mineiros. Das duas uma, ou gênio, ou retardado; disse a professora Maria Helena.
Mas o que acabou comigo mesmo foi a entrevista do Bruce Lee. Be water, ele dizia. Be water, a água se ajusta a todas as situações e sempre chega ao seu destino. Levei o conselho a sério. Em todas as situações, até hoje, me lembro: be water. Depois li mais sobre Lao-Tsé, Chuang Tzu, o I-ching; mas não adiantava, o cerne da má compreensão já estava dentro de mim. Be water, adapte-se, como a água, chegue ao seu destino.
Então, quando estou tomando um café na padaria e o copeiro sapeca:
- Bom mesmo é o major Olímpio, ou o Levi Fidelix, só um dos dois para resolver – concordo e ainda pergunto: - qual é mesmo o número aí do gato Félix?
E quando estou num papo cabeça e o sujeito manda:
- Gênio só Joyce. Ulisses, que primor!
Sei que o sujeito não folheou nem as primeiras vinte páginas do irlandês, mas concordo.
- Não tem igual. Dostoiévsky é uma besta se compararmos.
Existem forças no mundo operando sobre nós e cada uma delas quer nos levar para um lado. O diabo, é que, com esse papo de ser água, fui me deixando levar pra lá e pra cá. Diante de cada interlocutor, uma máscara diferente. Eu gostava mesmo era de sentar na praça e olhar os passarinhos que ainda restam em São Paulo. Mas, como diria Freud, olhar passarinho não enche barriga do eu, do isto, nem do supereu. Então, quando precisei ganhar a vida, tentei usar a técnica do be water.
- Daniel, você pode pegar os piores trabalhos para fazer em nosso lugar?
- Ó sim, claro, companheiros.
- Daniel, você pode ir ali tomar no cu?
- Com todo prazer.
Eu não sabia dizer não. Então dizia sim para todos: em casa, no trabalho, na escola. Dizer não virou um trabalho hercúleo. Só que, como diria outro gênio da psicanálise, a Senhora Melanie Klein, o eu é um balde, se você encher demais com água suja, ou limpa, uma hora ele transborda e espalha merda, digo água, pra todo lado. De tanto viver tentando evitar o conflito o tempo todo, quando o balde transborda, faço merda, brigo, ofendo, me arrependo, sinto vergonha, choro, vêm os pavores, síndrome do pânico, arrependimento; se toca o telefone, acho que é do inferno me mandando descer... E não durmo nunca, porque, para evitar o conflito, aceito coisas com as quais não concordo e, quando me expresso, faço do jeito errado, armo uma tremenda confusão. Se fosse mudo e analfabeto, teria escapado das piores confusões nas quais já me enfiei, mas eu queria evitar o primeiro diagnóstico da profª Maria Helena, retardado, e resolvi que seria gênio. Não deu muito certo também, mas vamos caminhando, seguindo nosso caminho, feito água... Do rio Tietê.
segunda-feira, 24 de outubro de 2016
quinta-feira, 13 de outubro de 2016
livros
Livros são bons, dizem. A literatura faz você viver uma vida melhor e ficar mais inteligente, dizem. Todos têm direito à literatura, disse o Cândido, a se sensibilizar com ela, a ganhar e engendrar em si novos mundos, a
construir caminhos para si com essas passagens de vida. Tenho muitos livros, uma enxurrada de jovens autores, boa porcentagem desses livros é lixo publicado por vaidade, por vontade de ver o nome escrito numa capa com bela gravura, Ó... o glamour da noite de lançamento. Leio ou tento ler boa parte dos livros recentemente produzidos, mas isto me toma o tempo de ler, por exemplo, algumas coisas do Dostoiévski que ainda não li, o Knut Hamsun que pretendo conhecer mais. A literatura é um direito, assim como a arquitetura, a engenharia, a pintura, o futebol arte. O que não dá para aceitar é que qualquer um que admire pontes e viadutos vá construir um prédio e que ele vai ficar de pé da noite para o dia; não da pra aceitar que qualquer um que visitou um ou dois museus, viu algumas gravuras na internet terá o mesmo êxito em dizer o indizível daquele que buscou um modo de extrair da pintura uma comunicação ontológica como Cézanne, ou Vincent van Gogh. Como o capitão Achab, enlouqueceram na busca de sua baleia branca. Estes homens arriscaram tudo, doaram a vida para tentar expressar algo grande demais que viram no destino humano. Quem está disposto a pagar o preço? Nem todo mundo que joga uma pelada é Pelé. Além do talento, há a obsessão pela palavra justa, pelo modo de dizer uma passagem de vida, um caminho de pensamento que jamais foi trilhado antes. Fora a incompreensão, o chiste, o desterro, a autodestruição – penso no cônsul de Lowry: “Ah e que mundo era este capaz de esmagar tanto a verdade quanto os bêbados?” Outro dia, num sarau, um autor de cinco livros, disse-me que havia pouco tinha descoberto que romance era um gênero. Ele achava que todo romance era romântico. Então vamos com calma, companheiros, porque se o que você tiver a dizer for menos importante que o silêncio, não diga. Espere. Não quero que minha posição seja tomada como elitista, porque não é. Quando a literatura andava empolada demais, Hemingway e Céline invadiram o salão a cavalo, feito bárbaros. Penso que se a escrita não for tão importante quanto o prato de comida, como era para Carolina Maria de Jesus, então não escreva. Vá ao parque, curta uma balada que não seja necessariamente literária. Não tem a ver com uma estética da alta cultura, mas da arte como tábua de salvação, da literatura como respiração. O artista é alguém que viu na vida algo grande demais, o que pôs nele a marca da morte, é o grande assinalado de Cruz e Souza, é o que não pode trocar de destino. «Melville dizia: «Se dissermos dadas as necessidades da argumentação que ele é louco, então eu preferiria ser louco a sábio... gosto de todos os homens que mergulham. Qualquer peixe pode nadar perto da superfície, mas é preciso ser-se uma grande baleia para descer a cinco milhas e mais... Os mergulhadores do pensamento voltaram à superfície com os olhos injectados de sangue desde o princípio do mundo.» Reconhecemos com facilidade que há perigo nos exercícios físicos extremos, mas o pensamento é também um exercício extremo e rarefeito. A partir do momento em que pensamos, enfrentamos necessariamente uma linha onde se jogam a vida e a morte, a razão e a loucura, e esta linha arrasta-nos. Só podemos pensar nesta linha de feiticeira, faltando dizer que não estamos forçosamente condenados a perder, que não estamos forçosamente condenados à loucura e à morte.» Pensemos aí em Vincent no trigal, nas noites de Poe, nos jejuns kafkianos, na tenacidade de Faulkner, no desconforto da gravata borboleta do Rosa montada por temporadas e temporadas no lombo de um burro, dormindo no chão da caatinga, do sertão.
construir caminhos para si com essas passagens de vida. Tenho muitos livros, uma enxurrada de jovens autores, boa porcentagem desses livros é lixo publicado por vaidade, por vontade de ver o nome escrito numa capa com bela gravura, Ó... o glamour da noite de lançamento. Leio ou tento ler boa parte dos livros recentemente produzidos, mas isto me toma o tempo de ler, por exemplo, algumas coisas do Dostoiévski que ainda não li, o Knut Hamsun que pretendo conhecer mais. A literatura é um direito, assim como a arquitetura, a engenharia, a pintura, o futebol arte. O que não dá para aceitar é que qualquer um que admire pontes e viadutos vá construir um prédio e que ele vai ficar de pé da noite para o dia; não da pra aceitar que qualquer um que visitou um ou dois museus, viu algumas gravuras na internet terá o mesmo êxito em dizer o indizível daquele que buscou um modo de extrair da pintura uma comunicação ontológica como Cézanne, ou Vincent van Gogh. Como o capitão Achab, enlouqueceram na busca de sua baleia branca. Estes homens arriscaram tudo, doaram a vida para tentar expressar algo grande demais que viram no destino humano. Quem está disposto a pagar o preço? Nem todo mundo que joga uma pelada é Pelé. Além do talento, há a obsessão pela palavra justa, pelo modo de dizer uma passagem de vida, um caminho de pensamento que jamais foi trilhado antes. Fora a incompreensão, o chiste, o desterro, a autodestruição – penso no cônsul de Lowry: “Ah e que mundo era este capaz de esmagar tanto a verdade quanto os bêbados?” Outro dia, num sarau, um autor de cinco livros, disse-me que havia pouco tinha descoberto que romance era um gênero. Ele achava que todo romance era romântico. Então vamos com calma, companheiros, porque se o que você tiver a dizer for menos importante que o silêncio, não diga. Espere. Não quero que minha posição seja tomada como elitista, porque não é. Quando a literatura andava empolada demais, Hemingway e Céline invadiram o salão a cavalo, feito bárbaros. Penso que se a escrita não for tão importante quanto o prato de comida, como era para Carolina Maria de Jesus, então não escreva. Vá ao parque, curta uma balada que não seja necessariamente literária. Não tem a ver com uma estética da alta cultura, mas da arte como tábua de salvação, da literatura como respiração. O artista é alguém que viu na vida algo grande demais, o que pôs nele a marca da morte, é o grande assinalado de Cruz e Souza, é o que não pode trocar de destino. «Melville dizia: «Se dissermos dadas as necessidades da argumentação que ele é louco, então eu preferiria ser louco a sábio... gosto de todos os homens que mergulham. Qualquer peixe pode nadar perto da superfície, mas é preciso ser-se uma grande baleia para descer a cinco milhas e mais... Os mergulhadores do pensamento voltaram à superfície com os olhos injectados de sangue desde o princípio do mundo.» Reconhecemos com facilidade que há perigo nos exercícios físicos extremos, mas o pensamento é também um exercício extremo e rarefeito. A partir do momento em que pensamos, enfrentamos necessariamente uma linha onde se jogam a vida e a morte, a razão e a loucura, e esta linha arrasta-nos. Só podemos pensar nesta linha de feiticeira, faltando dizer que não estamos forçosamente condenados a perder, que não estamos forçosamente condenados à loucura e à morte.» Pensemos aí em Vincent no trigal, nas noites de Poe, nos jejuns kafkianos, na tenacidade de Faulkner, no desconforto da gravata borboleta do Rosa montada por temporadas e temporadas no lombo de um burro, dormindo no chão da caatinga, do sertão.
LITLLE GREEN
Naquela noite você me contou que
estava triste. Cantarolou uma canção antiga, dizendo que nós deveríamos pegar
mais leve, ficar mais calmos, porque amanhã nós ainda estaríamos aqui, mas
nossos sonhos poderiam não estar. Eu me fiz de durão. Joguei meu topete de
lado. Não havia como não me tornar um astro de rock. Outros sonhavam ser
jogadores de futebol, de basquete, atrizes, modelos, Idalino queria ser
corredor de fórmula 1. Sua voz, lembro bem, tinha o timbre da Joni Mitchell, e
você tinha até um ukulele. Onde foram parar todas aquelas meninas e meninos
famosos? Aqueles gênios do sonho? Alguns estão por aí, limpando para-brisas com
o cu cheio de bosta no farol. De você, soube que vivia, até há pouco, em um
albergue em Divinolândia. Eu me tornei funcionário público, único motivo pelo
qual ainda não fui parar embaixo da ponte. Você sabe como é bonita aquela
lorota de educar as novas gerações e etc e tals. Todos têm vocação para fazer,
dos outros, santos, até os ateus. É fácil ser ateu depois que você se sai da
sala de aula e vai ganhar um pouco mais numa salinha arejada com umas
plantinhas verdes e silenciosas.
Fitzgerald
escreveu o melhor início de texto do mundo, em seu Crack up: “É claro que toda
vida é um processo de demolição.” Desmoronamento, demolição, chocamos nossas
frustrações com as frustrações alheias. É, ferimos com requintes de crueldade
aqueles que caminham ao nosso lado e são um pouco mais lerdinhos, ou mais
bonzinhos. Na escola, dizem: “coitada, não domina a sala!” Em outras profissões
deve haver algo semelhante. Vejo gente defendendo o fim da polícia militar.
Deveriam defender é o fim da escola. Ninguém quer professor, quer um sargento
que mantenha 38 alunos com o cu na cadeira durante seis horas.
Mas
nem é disso que quero falar, papo ruim. A gente acha que vai conquistar o mundo
e não conquista, com os bolsos cheios de farelos, nem a simpatia dos pombos na
praça. Feito toupeira cega, saímos empurrando a terra com o focinho, buscando
uma fresta de luz. Quando achamos ter encontrado o túnel certo; quando nos
sentimos fortes e estamos cuidando do corpo e da alimentação... Aí vem, do
nada, uma avalanche e transforma tudo em merda.
Hoje
não estou para bons sentimentos, querida, você sabe, sempre tive problemas para
levantar da cama. E acordei lúcido demais, meu mal desde a infância. Que vá pra
puta que pariu, a utopia. O futuro é tenebroso. Crianças e adolescentes são só
canalhas em fase de crescimento. Não me venham falar de moral – palavra fora de
moda – ou de ética – palavra muito em voga. Conheço a ladainha, percebo há
quilômetros um hipócrita. Meu filho diz hipótrico, acho mais contundente.
É,
temos de tentar ver o outro lado também. Parece que vai chover, companheiro. O
tempo vai abrir. Tem feriado semana entrante. Nem tudo é tão ruim. Existem os
gatos que se aproximam ronronando quando percebem que estamos tendo uns
pensamentos sombrios; mas também existem os karnais que pensam estar
desvendando algo da alma humana, os cortelas que contam as dobrinhas dos dedos.
Quem não é charlatão é canalha declarado. E, então, o proto-padre fala dos
moribundos, que deveríamos ser gratos... Ó, a vida é um dom. A gente pode perdoar a
deus por um bocado de coisas, menos por ter criado tantos idiotas. Toda a
história do conhecimento humano não vale um gato vivo.
Outro
dia me levaram a um psicólogo. As pessoas estão sempre me levando a algum lugar
Igreja, Centro Espírita; eu vou não tenho nada melhor pra fazer mesmo. Até que
gosto deles, dos psicos, mas quando falei que eu parecia um retardado ou um ET
porque sempre que tentava explicar os lugares pelos quais passei, as coisas que
pensei, as emoções cheias de pus que avassalaram meu coração, ninguém me
entendia. Ele, o psicólogo, imediatamente pegou um carimbo e tacou na minha
testa: NARCISISTA. Nem por um segundo o cara pensou que eu estava tentando
nomear minha vida e que todas as palavras estavam gastas demais, sujas demais.
Talvez só eu pudesse mesmo entender as coisas que dizia. Às vezes pareço a mim
mesmo tão claro. Quando Vincent, por exemplo, pinta seu quarto, ele não está
querendo dizer quarto, mas Vincent, sua dor, sua incompreensão, sua falência.
Não é uma metáfora é uma andança. E, ah, como seria bom se alguém algum dia
chegasse com a chave secreta e abrisse todas as portas do labirinto. Então eu
poderia ao menos ter um rosto, um riso, rugas, um nome: existir.
Agora
não quero mais saber. Acredito que o otimismo de uma pessoa é diretamente
proporcional à sua BuRRicE.
Decidi
me tornar um ladrão. Minha dúzia de ovos agora terá treze ovos. O desodorante
roll on cairá fácil no bolso do meu casaco. Não tenho qualquer compromisso
ético com um mundo que sempre me julgou sem sequer me deixar nascer.
Que
aumentem a velocidade das vias públicas para 280 km\h! Que construam ciclovias
na pista do aeroporto. Que se fodam! Que se matem! Não quero mais tomar parte
em porra nenhuma. Só não me venham pedir para levantar uma palha. Meu lema é
dormir sempre que possível e comer pastel de queijo. Não fosse a incompetência
generalizada, a turma já teria dado cabo do mundo mesmo.
Só
levarei comigo o sonho da menina que queria ser Joni Mitchell. Não, melhor,
levarei a lembrança do sonho daquela menina. Talvez ela ainda seja você, talvez
ela também já tenha apodrecido. Não faz mais diferença
PROPRIAMENTE EU SOU DURANGO KID
kEROUAC acreditava que, na
estrada, em algum momento, a pérola lhe seria ofertada. Penso em Clarice,
Lygia, Katherine e na impossibilidade de escrever uma crônica quando já não há
liberdade, bonde ou esperança; elementos essenciais ao gênero.
Meus
olhos perderam o encanto. Tudo é velho e gasto; mas, e a pérola? Onde está a
pérola? Na cerveja que não bebo? Nas crianças dividindo a fruta? No silêncio
que não encontro mais? No louco que busca uma ordem milimétrica para as suas
garrafas, trapos e restos de aparelhos eletrônicos? Propriamente dizer:
-
Tem de haver algo mais – repito. – Avida não pode se resumir a amarrar
cadarços.
Enquanto
empaco no trânsito, uma faceta do maravilhoso se joga do viaduto.
Onde
a pérola para o funcionário público?
No
primeiro pega no cachimbo – o transbordante a dez reais por dois minutos? Na
sequência de acordes do Toninho Horta? Numa canção dos Beatles? O som exato,
ser o que fui? Não, isto não nos traz a pérola, só a nostalgia por uma pérola
que nunca tivemos, que não encontramos, por uma potência de nós mesmos que não
nos deixamos realizar. Quando finda a canção, despencamos do paraíso: carros
buzinam, o dia amanhece cinzento, novo jornal, trens cortam o que resta da
noite, meninos se jogam do oitavo andar.
Como
ver os peixes e os comboios com os olhos de Adélia? Ensina-me, Adélia, a
consagrar uma colher, um guardanapo, a ver o sagrado por todo lado. Tira dos
meus olhos a fuligem.
-
Homem, tu desejas a pérola, mas se apresenta diante de Deus com a alma seca, de
porre, o corpo sujo, amente cansada – diz Adélia e sua poesia me esmaga.
Já
não posso pegar a estrada de Kerouac.
Os
anos passaram a galope.
Passo,
de um minuto a outro, do sentimento oceânico à crise.
Já
não me importam, sequer o leite e o mel. Sou exigente quero me alimentar das
pérolas.
Abro,
pois, a ostra, passo a língua afiada, mas não há brilho lá, só o gosto de
sangue da carne machucada... E a ferida não nos torna brilhantes.
Propriamente
eu sou Durango Kid.
PRÊMIO SÃO PAULO
Assim como o Oscar não é o cinema, os prêmios não são a
literatura. Entretanto, tanto em um caso como no outro, há uma estreita relação
entre as partes. Apesar de todas as críticas magistralmente tecidas por Adorno
sobre a relação entre arte e entretenimento, percebemos que a relação dialógica
entre as partes permitiu aos americanos criarem uma das melhores escolas
cinematográficas do mundo que produziu pérolas como Shane, Bring me the head of
Alfredo Garcia ou The tree of life. Então existe a arte como investigação da
condição e do destino humano – feita por artistas - e a arte como negócio –
feita por executivos. Uma coisa não existe sem a outra. Só existe aquilo que se
manifesta, que chega até as pessoas, que é visto, ouvido, lido. Um livro na
gaveta só emociona a gaveta, bem como uma música tocada num quarto emociona
apenas o autor. O mundo amaria A day in the life se jamais tivesse sido
gravada? Então, por mais que não se queira ver a arte como produto, ela é sim
um produto; cultural, vá lá, mas um produto. E como tudo o mais no capitalismo
triunfante está aí para ser vendida; único modo de chegar às pessoas. Claro,
boa parte dos artistas lida mal com esta esfera da produção artística. Há
aqueles que se isolam, aqueles que pousam de rebeldes e passam as tardes no
facebook dizendo que estão consumindo cocaína – como se alguém quisesse saber
disso, como se isso tivesse importância, e como se isso fosse mote de algum
orgulho - aqueles que verdadeiramente cheiram omitem o fato, estão dando seus
tiros bem longe de casa, nas favelas, nos puteiros, nos becos. Eu mesmo não me
dou muito bem com esta parte do negócio, sinto-me meio vendido, meio fake, como
Pollock naqueles filmes que fez. Mas, como disse antes, só existe aquilo que se
manifesta - Brian Epstein foi necessário aos Beatles quase tanto quanto John ou
Paul - e isso é trabalho dos homens de negócio. Neste sentido, acho não só
positivo como necessário todas as feiras de livros, saraus, baladas, festas,
prêmios, o escambau, porque é isso que faz a roda girar, é isso que cria
notícias nos jornais, na tv, nas redes sociais. É isso que faz aquela criação
quase sempre solitária sobre uma comunidade de destino humano chegar aos demais
humanos, ao professor, ao encanador, ao estudante, ao porteiro, ao frentista.
Digo tudo isso porque ontem saiu o resultado do Prêmio Oceanos e vejo que meu
chegado Marcelo Maluf ganhou em uma das categorias, sabia também que Santana
Filho, outro amigo, chegou a finalista, ambos pela editora praticamente
independente de Marcelo Nocelli. Anos atrás Chico Lopes levou um jabuti,
Evandro Affonso Ferreira outro. Há pouco tempo Paula Fábrio ganhou o prêmio São
Paulo pela Patuá e no ano passado Juliano Garcia Pessanha levou o APCA. Fico
feliz por estas pessoas talentosas, de pequenas editoras, estarem ganhando
estes prêmios. Mesmo porque quem hoje em dia está em condições de abrir mão de
R$ 100.000,00? Eu não estou e tenho certeza de que nem mesmo aquele escritor
rebelde de facebook que diz passar as tardes bebendo e cheirando também não
está - já não se fazem aspiradores de pó como antigamente. O negócio é que como
sinceramente pontuou Gore Vidal: “Há uma ponta de inveja em cada sucesso dos
meus amigos.” Mas também há uma ponta de orgulho e de esperança; e, como disse
lá no início, os prêmios não são a literatura ainda que gravitem em torno dela.
Como assinala qualquer jogador de futebol quando é substituído, o negócio é
continuar trabalhando. Um escritor escreve, escreve sempre, ainda que para
apenas um leitor, ainda que apenas em diários, ainda que para si mesmo. A
escrita é o vício mais difícil de largar. De cabeça, só me lembro do Raduan e
do Rulfo, mas o segundo, quando perguntado o motivo do abandono dizia entre
triste e irônico:
- Es que se
murió mi tio Celestino que me contaba las historias.
ODAIR JOSÉ E A FILOSOFIA
Segundo um bom dicionário, a palavra
devir vem do latim devenire, que significa chegar. Em filosofia, grosso modo,
trata-se de um conceito que aborda as mudanças pelas quais as coisas passam. O
conceito foi criado por Heráclito que dizia que nada no mundo era permanente
exceto a mudança e a transformação. Fragmento: “Não se pode entrar no mesmo rio
duas vezes.” Nas antípodas de Heráclito está Parmênides que postulava que por
trás das aparentes transformações, dos “devires” havia a pura perfeição em
silêncio, a eternidade, a verdade suprema: o Ser.
Platão, assim como Sócrates, não se
perguntavam o que era estar feliz, mas o que é a Felicidade? Haveria algo de
transcendente, de imutável por traz da natureza, platonicamente, no mundo das
Ideias. Toda natureza que, com o tempo se degrada, é engendrada pela Ideia
perfeita e transcendente.
Boa parte da filosofia Ocidental
versa sobre este assunto: o mutável e o imutável, Deus e a Natureza, o ôntico e
o ontológico.
Como bem disse, nosso bom compositor
baiano: “Se você tem uma boa ideia, faça uma canção / já está provado que só é
possível filosofar em alemão.” E a contribuição tupiniquim sobre o assunto vem
de uma das mais belas músicas do cancioneiro brega, a estupenda: “A noite mais
linda do mundo (A Felicidade)”, cantada por Odair José.
Na canção, o moço goiano afirma
“Felicidade / Não existe / O que existe na vida são momentos felizes.”
Postulando, portanto, junto a filósofos tão diversos e distantes no tempo
quanto Heráclito e Deleuze, que a única coisa imutável é a mudança, a única
coisa que se repete é a diferença. Não há, pois, uma Felicidade eterna,
Transcendental, mas apenas momentos felizes, cambiáveis, blocos de afetos,
imersos no devir.
Não bastasse tamanho poder de síntese
e lirismo, há ainda, na canção, dois
outros versos que se conectam à esfera ética do eterno retorno (não nos
interessa discutir se do mesmo ou do diferente) nietzschiano, o qual aparece
pela primeira vez num aforismo de A gaia ciência pela boca de um demônio hipotético,
o qual pergunta, algo mais ou menos como: e se tua vida inteira retornasse
eterna e eternamente, tu afirmarias cada segundo? O imperativo ético que se
despende daí é “viva cada segundo como se fosse vive-lo eternamente.” Odair
canta: “Vamos viver nesta noite / A vida inteira num segundo.”
Depois de muito tempo esquecido,
Odair José vem sendo redescoberto. Hoje costumam compará-lo ao gênio canadense
Neil Young. Na boa, não é para menos.
O CORAÇÃO NÃO TEM RANKING
Susan Sontag certa vez escreveu
que, se tivesse de escolher entre Dostoiévski e The Doors, certamente
escolheria Dostoiévski, mas, pergunta irônica ainda no mesmo texto:
- Por que é que eu tenho de
escolher?
É numa posição semelhante à da
ensaísta norte-americana que me coloco hoje.
Venho falar de música, música
popular brasileira. Não pretendo escrever um grande tratado; deixo, pois, o
samba, o frevo, o reisado e o maracatu de lado. Deixo a música caipira e o
congado. Pulo a Bossa Nova, momento em que, segundo Tom Zé, o Brasil deixou de
ser a fazenda que exportava comida para a metrópole para exportar a mais nobre
produção humana, a arte - mesmo no rock dos Doors, de quem Sontag era fã, a
bateria é, em diversos momentos, bossanovística.
Chegamos então ao final dos
anos sessenta e início dos setenta. Efervescência cultural. Jovem Guarda, marchas
contra a guitarra elétrica. No mundo, explodem Beatles, Stones, Dylan. E aqui
duas das coisas mais importantes da música acontecem em menos de cinco anos: o
Tropicalismo e a música mineira de Milton Nascimento e do Clube da Esquina.
A meu ver, o que difere os dois
movimentos é a tônica que se dá ora ao sentimento, ora ao pensamento. No
tropicalismo, pesa mais o cérebro; no clube, o coração. O tropicalismo é fruto
de um conceito estético articulado principalmente por Caetano Veloso.
Poderíamos até chamá-lo de arte conceitual, uma vez que o conceito vem antes. Caetano,
antena tão poderosa quanto Chico Science décadas depois, estava ligado em tudo
o que acontecia no Brasil e no mundo. Assim, feito Sontag, perguntou: - Por que
é que eu tenho que escolher entre o violão e a guitarra? Bora misturar tudo
isso aí. Havia um conceito de Brasil, um conceito de música, um conceito
estético, por trás do tropicalismo, que ao mesmo tempo embasava e dava rumos. O
Brasil não é outra coisa senão um liquidificador e dá-lhe Oswald de Andrade,
Carmem Miranda, os poetas concretos, Teatro Oficina, Bossa Nova, Roberto
Carlos. Mas, como uma andorinha só não faz verão, eram precisos parceiros
criativos. Chamemos então Gilberto Gil - o irmão, Tom Zé, o sertanejo-maluco-de-vanguarda,
o rock do bom dOs Mutantes e uma pitada orquestral com os maestros Rogério
Duprat e Júlio Medaglia. Não era algo totalmente novo, os modernistas de 22 já
haviam apontado o caminho, mas era jovem. O resultado todos conhecemos. E os
epígonos também, quer coisa mais erótica que a guitarra de Pepeu?
Em Minas não houve plano. A
Terra reuniu a todos, a voz de Milton clama do fundo da Terra desde há cinco
mil anos, antecede seu nascimento em milênios. Caso Deus cantasse, teria a voz
de Bituca. E, se a tônica no tropicalismo era o cérebro, em Minas era o
coração. Não havia um conceito prévio. Lô vai comprar leite pra mãe e encontra
um moço negro tocando violão sozinho nas escadas. Tem dez anos, esquece o leite
e fica ali perdido ouvindo o Bituca improvisar. Lô vai brincar na rua e
encontra o Beto Guedes recém-chegado de Montes Claros sobre uma patinete maravilhosa.
Tempos depois, os dois descobrem os Beatles. Enquanto isso, Milton ganha um
festival depois de encontrar os letristas Fernando Brant – autor de Travessia –
Márcio Borges, pouco depois Ronaldo Bastos. Invadiram o Rio. Os músicos
cariocas se embasbacaram. As harmonias não eram lineares, subiam e desciam,
como as montanhas de Minas, jogavam a alma do ouvinte pra cima e pra baixo. E
vem Toninho Horta com uma pitada de jazz, vem Wagner Tiso – maestro, vem
Novelli, vem Naná com suas panelas, Nivaldo Ornelas, Solange Borges com seu
jeitinho de menina marruda querendo brincar no quarto dos homens, ALAÍDE COSTA.
Milton, o coração do grupo, teve uma ideia: é só reunir todo mundo. Não havia
plano, quem acordava mais cedo escolhia o instrumento, os retardatários ficavam
com o instrumento que sobrava. Há uma ordem no caos, nós é que não a
entendemos. O Clube da Esquina é um movimento fenomenológico. E saiu o primeiro
Clube, um dos discos que moldou minha vida e que contém canções como Cravo e Canela,
Clube da Esquina, Nuvem Cigana, Cais, Um Girassol da Cor do Seu Cabelo, TREM DE
DOIDO. É um disco completo. E tem uma qualidade incrível: não enjoa, o que é
raro em música. Sei que vou ouvir estas canções a vida toda. Talvez não como se
fosse a primeira vez, mas pelo menos a segunda.
Se tivesse de escolher?
Escolheria os dois. O coração não tem ranking.
Assinar:
Postagens (Atom)