quinta-feira, 13 de outubro de 2016

LITLLE GREEN

Naquela noite você me contou que estava triste. Cantarolou uma canção antiga, dizendo que nós deveríamos pegar mais leve, ficar mais calmos, porque amanhã nós ainda estaríamos aqui, mas nossos sonhos poderiam não estar. Eu me fiz de durão. Joguei meu topete de lado. Não havia como não me tornar um astro de rock. Outros sonhavam ser jogadores de futebol, de basquete, atrizes, modelos, Idalino queria ser corredor de fórmula 1. Sua voz, lembro bem, tinha o timbre da Joni Mitchell, e você tinha até um ukulele. Onde foram parar todas aquelas meninas e meninos famosos? Aqueles gênios do sonho? Alguns estão por aí, limpando para-brisas com o cu cheio de bosta no farol. De você, soube que vivia, até há pouco, em um albergue em Divinolândia. Eu me tornei funcionário público, único motivo pelo qual ainda não fui parar embaixo da ponte. Você sabe como é bonita aquela lorota de educar as novas gerações e etc e tals. Todos têm vocação para fazer, dos outros, santos, até os ateus. É fácil ser ateu depois que você se sai da sala de aula e vai ganhar um pouco mais numa salinha arejada com umas plantinhas verdes e silenciosas.
            Fitzgerald escreveu o melhor início de texto do mundo, em seu Crack up: “É claro que toda vida é um processo de demolição.” Desmoronamento, demolição, chocamos nossas frustrações com as frustrações alheias. É, ferimos com requintes de crueldade aqueles que caminham ao nosso lado e são um pouco mais lerdinhos, ou mais bonzinhos. Na escola, dizem: “coitada, não domina a sala!” Em outras profissões deve haver algo semelhante. Vejo gente defendendo o fim da polícia militar. Deveriam defender é o fim da escola. Ninguém quer professor, quer um sargento que mantenha 38 alunos com o cu na cadeira durante seis horas.
            Mas nem é disso que quero falar, papo ruim. A gente acha que vai conquistar o mundo e não conquista, com os bolsos cheios de farelos, nem a simpatia dos pombos na praça. Feito toupeira cega, saímos empurrando a terra com o focinho, buscando uma fresta de luz. Quando achamos ter encontrado o túnel certo; quando nos sentimos fortes e estamos cuidando do corpo e da alimentação... Aí vem, do nada, uma avalanche e transforma tudo em merda.
            Hoje não estou para bons sentimentos, querida, você sabe, sempre tive problemas para levantar da cama. E acordei lúcido demais, meu mal desde a infância. Que vá pra puta que pariu, a utopia. O futuro é tenebroso. Crianças e adolescentes são só canalhas em fase de crescimento. Não me venham falar de moral – palavra fora de moda – ou de ética – palavra muito em voga. Conheço a ladainha, percebo há quilômetros um hipócrita. Meu filho diz hipótrico, acho mais contundente.
            É, temos de tentar ver o outro lado também. Parece que vai chover, companheiro. O tempo vai abrir. Tem feriado semana entrante. Nem tudo é tão ruim. Existem os gatos que se aproximam ronronando quando percebem que estamos tendo uns pensamentos sombrios; mas também existem os karnais que pensam estar desvendando algo da alma humana, os cortelas que contam as dobrinhas dos dedos. Quem não é charlatão é canalha declarado. E, então, o proto-padre fala dos moribundos, que deveríamos ser gratos...  Ó, a vida é um dom. A gente pode perdoar a deus por um bocado de coisas, menos por ter criado tantos idiotas. Toda a história do conhecimento humano não vale um gato vivo.
            Outro dia me levaram a um psicólogo. As pessoas estão sempre me levando a algum lugar Igreja, Centro Espírita; eu vou não tenho nada melhor pra fazer mesmo. Até que gosto deles, dos psicos, mas quando falei que eu parecia um retardado ou um ET porque sempre que tentava explicar os lugares pelos quais passei, as coisas que pensei, as emoções cheias de pus que avassalaram meu coração, ninguém me entendia. Ele, o psicólogo, imediatamente pegou um carimbo e tacou na minha testa: NARCISISTA. Nem por um segundo o cara pensou que eu estava tentando nomear minha vida e que todas as palavras estavam gastas demais, sujas demais. Talvez só eu pudesse mesmo entender as coisas que dizia. Às vezes pareço a mim mesmo tão claro. Quando Vincent, por exemplo, pinta seu quarto, ele não está querendo dizer quarto, mas Vincent, sua dor, sua incompreensão, sua falência. Não é uma metáfora é uma andança. E, ah, como seria bom se alguém algum dia chegasse com a chave secreta e abrisse todas as portas do labirinto. Então eu poderia ao menos ter um rosto, um riso, rugas, um nome: existir.
            Agora não quero mais saber. Acredito que o otimismo de uma pessoa é diretamente proporcional à sua BuRRicE.
            Decidi me tornar um ladrão. Minha dúzia de ovos agora terá treze ovos. O desodorante roll on cairá fácil no bolso do meu casaco. Não tenho qualquer compromisso ético com um mundo que sempre me julgou sem sequer me deixar nascer.
            Que aumentem a velocidade das vias públicas para 280 km\h! Que construam ciclovias na pista do aeroporto. Que se fodam! Que se matem! Não quero mais tomar parte em porra nenhuma. Só não me venham pedir para levantar uma palha. Meu lema é dormir sempre que possível e comer pastel de queijo. Não fosse a incompetência generalizada, a turma já teria dado cabo do mundo mesmo.
            Só levarei comigo o sonho da menina que queria ser Joni Mitchell. Não, melhor, levarei a lembrança do sonho daquela menina. Talvez ela ainda seja você, talvez ela também já tenha apodrecido. Não faz mais diferença

PROPRIAMENTE EU SOU DURANGO KID

kEROUAC acreditava que, na estrada, em algum momento, a pérola lhe seria ofertada. Penso em Clarice, Lygia, Katherine e na impossibilidade de escrever uma crônica quando já não há liberdade, bonde ou esperança; elementos essenciais ao gênero.
                Meus olhos perderam o encanto. Tudo é velho e gasto; mas, e a pérola? Onde está a pérola? Na cerveja que não bebo? Nas crianças dividindo a fruta? No silêncio que não encontro mais? No louco que busca uma ordem milimétrica para as suas garrafas, trapos e restos de aparelhos eletrônicos? Propriamente dizer:
                - Tem de haver algo mais – repito. – Avida não pode se resumir a amarrar cadarços.
                Enquanto empaco no trânsito, uma faceta do maravilhoso se joga do viaduto.
                Onde a pérola para o funcionário público?
                No primeiro pega no cachimbo – o transbordante a dez reais por dois minutos? Na sequência de acordes do Toninho Horta? Numa canção dos Beatles? O som exato, ser o que fui? Não, isto não nos traz a pérola, só a nostalgia por uma pérola que nunca tivemos, que não encontramos, por uma potência de nós mesmos que não nos deixamos realizar. Quando finda a canção, despencamos do paraíso: carros buzinam, o dia amanhece cinzento, novo jornal, trens cortam o que resta da noite, meninos se jogam do oitavo andar.
                Como ver os peixes e os comboios com os olhos de Adélia? Ensina-me, Adélia, a consagrar uma colher, um guardanapo, a ver o sagrado por todo lado. Tira dos meus olhos a fuligem.
                - Homem, tu desejas a pérola, mas se apresenta diante de Deus com a alma seca, de porre, o corpo sujo, amente cansada – diz Adélia e sua poesia me esmaga.
                Já não posso pegar a estrada de Kerouac.
                Os anos passaram a galope.
                Passo, de um minuto a outro, do sentimento oceânico à crise.
                Já não me importam, sequer o leite e o mel. Sou exigente quero me alimentar das pérolas.
                Abro, pois, a ostra, passo a língua afiada, mas não há brilho lá, só o gosto de sangue da carne machucada... E a ferida não nos torna brilhantes.

                Propriamente eu sou Durango Kid.

PRÊMIO SÃO PAULO

Assim como o Oscar não é o cinema, os prêmios não são a literatura. Entretanto, tanto em um caso como no outro, há uma estreita relação entre as partes. Apesar de todas as críticas magistralmente tecidas por Adorno sobre a relação entre arte e entretenimento, percebemos que a relação dialógica entre as partes permitiu aos americanos criarem uma das melhores escolas cinematográficas do mundo que produziu pérolas como Shane, Bring me the head of Alfredo Garcia ou The tree of life. Então existe a arte como investigação da condição e do destino humano – feita por artistas - e a arte como negócio – feita por executivos. Uma coisa não existe sem a outra. Só existe aquilo que se manifesta, que chega até as pessoas, que é visto, ouvido, lido. Um livro na gaveta só emociona a gaveta, bem como uma música tocada num quarto emociona apenas o autor. O mundo amaria A day in the life se jamais tivesse sido gravada? Então, por mais que não se queira ver a arte como produto, ela é sim um produto; cultural, vá lá, mas um produto. E como tudo o mais no capitalismo triunfante está aí para ser vendida; único modo de chegar às pessoas. Claro, boa parte dos artistas lida mal com esta esfera da produção artística. Há aqueles que se isolam, aqueles que pousam de rebeldes e passam as tardes no facebook dizendo que estão consumindo cocaína – como se alguém quisesse saber disso, como se isso tivesse importância, e como se isso fosse mote de algum orgulho - aqueles que verdadeiramente cheiram omitem o fato, estão dando seus tiros bem longe de casa, nas favelas, nos puteiros, nos becos. Eu mesmo não me dou muito bem com esta parte do negócio, sinto-me meio vendido, meio fake, como Pollock naqueles filmes que fez. Mas, como disse antes, só existe aquilo que se manifesta - Brian Epstein foi necessário aos Beatles quase tanto quanto John ou Paul - e isso é trabalho dos homens de negócio. Neste sentido, acho não só positivo como necessário todas as feiras de livros, saraus, baladas, festas, prêmios, o escambau, porque é isso que faz a roda girar, é isso que cria notícias nos jornais, na tv, nas redes sociais. É isso que faz aquela criação quase sempre solitária sobre uma comunidade de destino humano chegar aos demais humanos, ao professor, ao encanador, ao estudante, ao porteiro, ao frentista. Digo tudo isso porque ontem saiu o resultado do Prêmio Oceanos e vejo que meu chegado Marcelo Maluf ganhou em uma das categorias, sabia também que Santana Filho, outro amigo, chegou a finalista, ambos pela editora praticamente independente de Marcelo Nocelli. Anos atrás Chico Lopes levou um jabuti, Evandro Affonso Ferreira outro. Há pouco tempo Paula Fábrio ganhou o prêmio São Paulo pela Patuá e no ano passado Juliano Garcia Pessanha levou o APCA. Fico feliz por estas pessoas talentosas, de pequenas editoras, estarem ganhando estes prêmios. Mesmo porque quem hoje em dia está em condições de abrir mão de R$ 100.000,00? Eu não estou e tenho certeza de que nem mesmo aquele escritor rebelde de facebook que diz passar as tardes bebendo e cheirando também não está - já não se fazem aspiradores de pó como antigamente. O negócio é que como sinceramente pontuou Gore Vidal: “Há uma ponta de inveja em cada sucesso dos meus amigos.” Mas também há uma ponta de orgulho e de esperança; e, como disse lá no início, os prêmios não são a literatura ainda que gravitem em torno dela. Como assinala qualquer jogador de futebol quando é substituído, o negócio é continuar trabalhando. Um escritor escreve, escreve sempre, ainda que para apenas um leitor, ainda que apenas em diários, ainda que para si mesmo. A escrita é o vício mais difícil de largar. De cabeça, só me lembro do Raduan e do Rulfo, mas o segundo, quando perguntado o motivo do abandono dizia entre triste e irônico:

            - Es que se murió mi tio Celestino que me contaba las historias.

ODAIR JOSÉ E A FILOSOFIA

Segundo um bom dicionário, a palavra devir vem do latim devenire, que significa chegar. Em filosofia, grosso modo, trata-se de um conceito que aborda as mudanças pelas quais as coisas passam. O conceito foi criado por Heráclito que dizia que nada no mundo era permanente exceto a mudança e a transformação. Fragmento: “Não se pode entrar no mesmo rio duas vezes.” Nas antípodas de Heráclito está Parmênides que postulava que por trás das aparentes transformações, dos “devires” havia a pura perfeição em silêncio, a eternidade, a verdade suprema: o Ser.
Platão, assim como Sócrates, não se perguntavam o que era estar feliz, mas o que é a Felicidade? Haveria algo de transcendente, de imutável por traz da natureza, platonicamente, no mundo das Ideias. Toda natureza que, com o tempo se degrada, é engendrada pela Ideia perfeita e transcendente.
Boa parte da filosofia Ocidental versa sobre este assunto: o mutável e o imutável, Deus e a Natureza, o ôntico e o ontológico.
Como bem disse, nosso bom compositor baiano: “Se você tem uma boa ideia, faça uma canção / já está provado que só é possível filosofar em alemão.” E a contribuição tupiniquim sobre o assunto vem de uma das mais belas músicas do cancioneiro brega, a estupenda: “A noite mais linda do mundo (A Felicidade)”, cantada por Odair José.
Na canção, o moço goiano afirma “Felicidade / Não existe / O que existe na vida são momentos felizes.” Postulando, portanto, junto a filósofos tão diversos e distantes no tempo quanto Heráclito e Deleuze, que a única coisa imutável é a mudança, a única coisa que se repete é a diferença. Não há, pois, uma Felicidade eterna, Transcendental, mas apenas momentos felizes, cambiáveis, blocos de afetos, imersos no devir.
Não bastasse tamanho poder de síntese e lirismo, há ainda, na canção,  dois outros versos que se conectam à esfera ética do eterno retorno (não nos interessa discutir se do mesmo ou do diferente) nietzschiano, o qual aparece pela primeira vez num aforismo de A gaia ciência pela boca de um demônio hipotético, o qual pergunta, algo mais ou menos como: e se tua vida inteira retornasse eterna e eternamente, tu afirmarias cada segundo? O imperativo ético que se despende daí é “viva cada segundo como se fosse vive-lo eternamente.” Odair canta: “Vamos viver nesta noite / A vida inteira num segundo.”

Depois de muito tempo esquecido, Odair José vem sendo redescoberto. Hoje costumam compará-lo ao gênio canadense Neil Young. Na boa, não é para menos.

O CORAÇÃO NÃO TEM RANKING


Susan Sontag certa vez escreveu que, se tivesse de escolher entre Dostoiévski e The Doors, certamente escolheria Dostoiévski, mas, pergunta irônica ainda no mesmo texto:
- Por que é que eu tenho de escolher?
É numa posição semelhante à da ensaísta norte-americana que me coloco hoje.
Venho falar de música, música popular brasileira. Não pretendo escrever um grande tratado; deixo, pois, o samba, o frevo, o reisado e o maracatu de lado. Deixo a música caipira e o congado. Pulo a Bossa Nova, momento em que, segundo Tom Zé, o Brasil deixou de ser a fazenda que exportava comida para a metrópole para exportar a mais nobre produção humana, a arte - mesmo no rock dos Doors, de quem Sontag era fã, a bateria é, em diversos momentos, bossanovística.
Chegamos então ao final dos anos sessenta e início dos setenta. Efervescência cultural. Jovem Guarda, marchas contra a guitarra elétrica. No mundo, explodem Beatles, Stones, Dylan. E aqui duas das coisas mais importantes da música acontecem em menos de cinco anos: o Tropicalismo e a música mineira de Milton Nascimento e do Clube da Esquina.
A meu ver, o que difere os dois movimentos é a tônica que se dá ora ao sentimento, ora ao pensamento. No tropicalismo, pesa mais o cérebro; no clube, o coração. O tropicalismo é fruto de um conceito estético articulado principalmente por Caetano Veloso. Poderíamos até chamá-lo de arte conceitual, uma vez que o conceito vem antes. Caetano, antena tão poderosa quanto Chico Science décadas depois, estava ligado em tudo o que acontecia no Brasil e no mundo. Assim, feito Sontag, perguntou: - Por que é que eu tenho que escolher entre o violão e a guitarra? Bora misturar tudo isso aí. Havia um conceito de Brasil, um conceito de música, um conceito estético, por trás do tropicalismo, que ao mesmo tempo embasava e dava rumos. O Brasil não é outra coisa senão um liquidificador e dá-lhe Oswald de Andrade, Carmem Miranda, os poetas concretos, Teatro Oficina, Bossa Nova, Roberto Carlos. Mas, como uma andorinha só não faz verão, eram precisos parceiros criativos. Chamemos então Gilberto Gil - o irmão, Tom Zé, o sertanejo-maluco-de-vanguarda, o rock do bom dOs Mutantes e uma pitada orquestral com os maestros Rogério Duprat e Júlio Medaglia. Não era algo totalmente novo, os modernistas de 22 já haviam apontado o caminho, mas era jovem. O resultado todos conhecemos. E os epígonos também, quer coisa mais erótica que a guitarra de Pepeu?
Em Minas não houve plano. A Terra reuniu a todos, a voz de Milton clama do fundo da Terra desde há cinco mil anos, antecede seu nascimento em milênios. Caso Deus cantasse, teria a voz de Bituca. E, se a tônica no tropicalismo era o cérebro, em Minas era o coração. Não havia um conceito prévio. Lô vai comprar leite pra mãe e encontra um moço negro tocando violão sozinho nas escadas. Tem dez anos, esquece o leite e fica ali perdido ouvindo o Bituca improvisar. Lô vai brincar na rua e encontra o Beto Guedes recém-chegado de Montes Claros sobre uma patinete maravilhosa. Tempos depois, os dois descobrem os Beatles. Enquanto isso, Milton ganha um festival depois de encontrar os letristas Fernando Brant – autor de Travessia – Márcio Borges, pouco depois Ronaldo Bastos. Invadiram o Rio. Os músicos cariocas se embasbacaram. As harmonias não eram lineares, subiam e desciam, como as montanhas de Minas, jogavam a alma do ouvinte pra cima e pra baixo. E vem Toninho Horta com uma pitada de jazz, vem Wagner Tiso – maestro, vem Novelli, vem Naná com suas panelas, Nivaldo Ornelas, Solange Borges com seu jeitinho de menina marruda querendo brincar no quarto dos homens, ALAÍDE COSTA. Milton, o coração do grupo, teve uma ideia: é só reunir todo mundo. Não havia plano, quem acordava mais cedo escolhia o instrumento, os retardatários ficavam com o instrumento que sobrava. Há uma ordem no caos, nós é que não a entendemos. O Clube da Esquina é um movimento fenomenológico. E saiu o primeiro Clube, um dos discos que moldou minha vida e que contém canções como Cravo e Canela, Clube da Esquina, Nuvem Cigana, Cais, Um Girassol da Cor do Seu Cabelo, TREM DE DOIDO. É um disco completo. E tem uma qualidade incrível: não enjoa, o que é raro em música. Sei que vou ouvir estas canções a vida toda. Talvez não como se fosse a primeira vez, mas pelo menos a segunda.

Se tivesse de escolher? Escolheria os dois. O coração não tem ranking.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

A dimensão do afeto

Sempre gostei de arte, nada mais natural, então, do que me voltar, durante meus anos de estudo, às disciplinas ligadas à questão estética. Triste dissabor. Falava-se de tudo, nestas aulas, menos de arte. Comida, a meu ver, tem de encher a barriga e aquelas aulas me pareciam pratos bem decorados, com fios de chocolate, mas não me matavam a fome. 
Discussão tão velha quanto aquela do ovo e da galinha era a questão da “alta cultura” vs a “cultura popular”; sem falar na cultura de massa. Tudo isso me parecia passar ao largo da dimensão afetiva, da força vulcânica com que a arte nos molda e nos muda. E dá-lhe filósofos alemães: Adorno, Horkheimer, Lukács, mas o que eu queria mesmo resgatar, quando escrevia, eram os afectos e perceptos que atravessavam meu corpo franzino quando meu pai preparava o lanche pra mim, antes de ir trabalhar, ouvindo Odair José. Que me importava a questão da cultura de massa? O que aquilo tinha a ver com o filósofo alemão que foi sofrer nos E.U.A? Eu queria, na escrita, era resgatar o episódio do Chaves em que o protagonista é acusado de ladrão e deixa a Vila. Levava meus poemas ao profº de teoria literária e ele me devolvia gráficos que terminavam numa linha descendente. A emoção, o afeto, eram considerados signos de mau gosto.
Hoje frequento os saraus espalhados pela periferia e os poemas já não pedem gráficos, mas continua a me afetar a questão da “alta cultura” vs a “cultura popular”. Questão antiga. Há, em boa parte dos poemas que ouço, uma ânsia de afirmar a identidade negra: estamos nas bordas. Nada mais natural depois de tantas barbáries, estupros, violência, abusos; mas, ainda me incomoda a falta de Sim, a ausência do afeto positivo. Para além da revolta e do ressentimento justificado será que nunca houve amor? Sabemos que não é possível comparar a escravidão à imigração europeia, a qual fazia parte de um projeto de branqueamento da população; no entanto, mesmo por trás de tais objetivos torpes, será que não ocorreu, num belo dia, num bonde, de um padeirinho português se apaixonar por uma balconista negra que ia para o trabalho? Ou será que, mais tarde, um funcionário da cervejaria Antarctica de olhos azuis e genealogia perdida (meu pai) não poderia se apaixonar por uma indiazinha empregada doméstica (minha mãe)?
Creio que não podemos esquecer o que fizeram de nós, mas também não podemos esquecer o que fizemos daquilo que fizeram de nós. Como seres humanos, não cabemos em teorias, ou medidas governamentais que não levam em consideração nosso corpo, nossa carne, nossa capacidade para o beijo. É no olhar do outro que nos tornamos inteiros.
Pouco me importam a eficiência germânica, inclusive no futebol, ou estadunidense, eu quero é participar da dança e louvar com tambores. Lampião, nossa imagem e semelhança “tenho certeza, ele também dançou um dia”.

Tudo está tão claro em nosso mundo

Tenho um amigo filósofo que sofre com o acontecer do mundo. O mistério o atravessa feito espada espartana, peixeira de baiano. Ele não descansa. Estuda, lê livros de três mil páginas de pensadores alemães, guarda o mar, escreve tese, conversa com um psicanalista... E se desespera.
                - E o outro? Deve haver algo mais! Isso pulsa, borbulha nas sombras, nos cantos, explode fe3ito larva sob a terra. Está ali, mas não se mostra. O maravilhoso se esconde. O tempo todo, o maravilhoso se esconde.
                Durante muito tempo, também pressenti o maravilhoso assim e tive forças para buscá-lo - agulha no palheiro, The catcher in the rye – não no transcendental, mas no colo de uma menina bonita, meio triste, meio misteriosa que costumava se cortar e que um dia, talvez por acidente, partiu de vez as veias dos pulsos.
                As coisas vão ficando para trás e, com o tempo, o mistério já não nos inquieta como antes. Perdemos o menino na correnteza, no vagão do trem, no ônibus que passou mais cedo. Multiplicam-se não os enigmas, mas as dívidas. Ainda cultivamos rosa em vaso de plástico e, vez por outra, um arco-íris nos surpreende. Entre a loucura de Van Gogh e a timidez de Drummond, ficamos com o funcionário público, ex-mágico da taberna Minhota. Guardamos o poema na gaveta da repartição. Desistimos aos poucos do conhaque, pois o conhaque nos faz Artaud e nós temos os filhos que Artaud não tinha. Sem perceber, perdemos o direito À loucura, à embriaguez, ao suicídio, à ferida. Que bom!
                Voltando da escola. Final de tarde. O filho sussurra no banco traseiro:
                - Gosto quando está assim de tardezinha e faz esse solzinho maneiro, pai.
                Então o maravilhoso esquecido nos salta outra vez aos olhos, sem máscaras, sem mistérios, sem subterfúgios. O sentido é esquecer de si para cuidar de alguém e compartilhar o poente em meio ao trânsito; em meio a atrocidades políticas e policiais.
                Entre dívidas e dúvidas, cresce o cheiro de café. Estamos chegando. Em casa, alguém também abandonou a metafísica para fazer o café como gostamos e falar um pouco da dureza diária: o maravilhoso é preto e escorre do coador. Também tem queijo e pão francês.
                Quanto ao meu amigo filósofo, embora mais calmo, continua procurando o que está diante dos olhos e ele não vê por medo de se comprometer, de enlouquecer, entregar-se, perder a liberdade, tornar-se responsável.
                Louça na pia, louça lavada; de mãos dadas, brincamos de roda na cozinha.

                Há muito não temo a minha morte, mas a do outro: tenho pesadelos. E se, às vezes ainda temo por mim é pela falta que posso fazer aos outros que brincam na ciranda. O círculo se parte sem um dos elos. Pela primeira vez na vida, meus olhos estão abertos.