sábado, 23 de novembro de 2013

As fotografias 3X4 do escritor Fernando Rocha

        

Na escola, aprendemos desde cedo, nas aulas de gramática, a não separar o sujeito do verbo e nem o verbo do objeto. Seria preciso rever a gramática normativa. Há muito que o sujeito não engendra ações, mas é completamente arrastado pelas circunstâncias ou simplesmente está separado da ação, não por uma vírgula, mas por uma imensa impotência. Com a crise do sujeito estamos acostumados, não é novidade. No século passado, autores como Roland Barthes, Maurice Blanchot, Jacques Derrida, Michel Foucault e Gilles Deleuze bateram pesado no conceito de sujeito, mas que dizer da crise do verbo, se no princípio era o verbo? Em seu livro de estreia, a coletânea de contos Sujeito Sem Verbo, o escritor, músico, professor e fotógrafo paulistano Fernando Rocha parece pôr em xeque tanto o conceito de sujeito quanto o de verbo. Eu, explico, melhor, abaixo...
            Sujeito Sem Verbo é composto de cinquenta narrativas curtas nas quais a ausência de ação é notória, assim como a ausência de nomes próprios nas personagens. As narrativas parecem emergir de um fundo indiscernível. Não é o mundo que passa a existir a partir da visão de um sujeito, mas um fundo que é o nada, ou o caos que engendra, apesar de o verbo ser inadequado, pequenas individualides, todas elas sempre impotentes. É como se num pântano de água escura flutuassem, em vez de vitórias-régias, fotografias 3X4. E nós vemos emergir nessas fotografias um velho que chora, mas para o qual oferecem colírio, sinal dos tempos brutos; uma menina que mergulha em festas para disfarçar o vazio, o toque do vazio; um neurótico que se recusa a se juntar aos outros, em vez de anônimo, neurótico autônomo; vemos o aniversário de uma senhora na terceira idade nos lembrar o próprio Feliz Aniversário, de Clarice Lispector.
            Se fôssemos buscar um correspondente dos contos de Sujeito Sem Verbo no cinema, o encontraríamos, sem dúvida, no flerte com o silêncio do desajustado personagem Travis, do filme Paris, Texas, de Win Wenders. Se buscássemos tal correspondência na música, encontraríamos nos álbuns de Lou Reed, ou nas canções banda indie escocesa Belle and Sebastian. Assim como na obra destes outros artistas vemos deslizar nas narrativas de Fernando Rocha um longo comboio de desajustados. O narrador, a maioria dos contos é narrada em terceira pessoa, parece os tratar com imparcialidade, mas há uma ternura misteriosa que nos toca mesmo com o uso escasso de adjetivos.
            Em se tratando de literatura, talvez Fernando Rocha encontre seus correspondentes em escritores concisos, como Juan Rulfo, Graciliano Ramos ou Dalton Trevisan. A diferença é que, com exceção do último, todos estes escritores citados anteriormente se ligam de uma forma ou de outra ao regionalismo. Fernando é um escritor urbano, estaria mesmo mais para Lou Reed, ou para uma mistura homogênea entre o  Graciliano de Vidas Secas e a Virgínia Woolf de Mrs Dalloway.
            Em seu livro O que é filosofia? Deleuze estabelece o conceito de gosto que seria a tripla faculdade do conceito ainda indeterminado, do personagem conceitual ainda nos limbos e do plano de imanência ainda transparente. Deleuze aproxima assim a filosofia da arte, posto que a filosofia, em vez de ser a busca pela verdade, seria uma questão de gosto: proustiano. A busca da verdade estaria ligada à filosofia da representação e aos tribunais da filosofia jurídica de Kant. A crítica literária parece ter, por muito tempo, seguido este mesmo caminho, o do tribunal. Mas eu, que não sou crítico, fecho com Deleuze e Rilke, que em sua Carta a um jovem poeta diz que só o amor pode entender a obra de arte. Amo ou detesto, mas não julgo. E, no caso das narrativas deste Sujeito Sem Verbo, posso dizer que foi amor à primeira vista.
Abaixo, como degustação, um trecho do conto que intitula o livro:

Seu desapego era crescente, já não ligava mais para a boa aparência, despia-se de seu formato original para agora repousar no infinito nada, seu último verbo foi chegar, conjugado na primeira pessoa do singular, assim como vários outros já tinham feito, estes que em um tempo anterior poderiam formar a terceira do plural e agora, inconscientemente, são seus companheiros: somou-se a eles em um inseparável nós, chegou ao ponto final.


SUJEITO SEM VERBO, de Fernando Rocha. Lançamento dia 27/11, a partir das 19:30 na Casa das Rosas. Avenida Paulista, 37 - Bela Vista

domingo, 3 de novembro de 2013

Lance de dados

Cada lance de dados mergulha mundos na Sombra. Tudo o que se desvela, vela algo latente. O caminho que tomo agora, suprime o fato de que poderia ter ido por outro caminho. No entanto, de certa forma, em alguma dobra do tempo, estou no caminho velado que agora se desvela velando o anterior. E também estarei no outro caminho... E no outro... E no outro... E no outro. Até que só me reste o resultado do primeiro lance de dados. E novamente estarei nesta estrada da qual jamais escapei... E depois na outra... E na outra... E ainda na outra, feito um rato de gaiola percorrendo sua roda, tendo a ilusão de que sai do lugar. Que estou dizendo? Um lance de dados afirma todas as possibilidades de uma vez. Se jogo os dados duas vezes, o fato de ter dado o número 5 na primeira, não exclui o fato de que o 5 possa vir a dar novamente, e novamente, e novamente. Para continuar com a imagem do rato e da roda, o rato poderia nunca ter estado na roda, porque os lances se seguem e afetam o ponto de lançamento uns dos outros. Para Heidegger é o Ser (com maiúscula) quem se dá a desvelar, quem joga os dados e sabe o resultado, o que nos aparece como acaso é na verdade destino, plano do Ser. Quando as possibilidades se esgotarem, elas tornarão a se repetir, como numa equação cristalina. Isso nos leva aos dois ensinamentos do mestre Zarathustra, que ensina primeiro o eterno retorno do mesmo, o que livra o homem do seu maior ressentimento, o ressentimento contra a morte, e o libera para o segundo ensinamento de Zatrathustra, o além-homem, aquele que diz sim. Os dados são lançados, ninguém os lança, não há sujeito ou escolha, o acaso não é o meio pelo qual o Ser, ou o Espírito se dão a conhecer. Estes são os maus lances de dados que se inscrevem nas mesmas hipóteses. Aqui, o próprio acaso é o fim, o ser, e mantem os dados girando numa velocidade tão grande que os próprios dados se desintegram, desprendem-se os pontos pretos, restam raios, fluxos e o branco, soma de todas as cores. Lá onde se espera o diferente, pode vir a repetição, onde se espera a repetição, pode vir eternamente o diferente. Os dados não caem ordenadamente, primeiro o 1, depois o 2, depois o 3, o 4, o 5, o 6. Podemos jogar os dados 12 vezes e nas doze vezes cair o número 1, ou o número 1 pode não cair em nenhuma delas. Voltando ao eterno retorno, o sim só vale se for um sim à transitoriedade, um sim à plena transitoriedade. O ser é unívoco, se diz sempre de uma mesma maneira sobre todas as coisas, mas o que essa boca fala é a própria diferença, a única coisa permanente é a mudança, o devir. Império do fantasma e do simulacro. O idêntico é a própria diferença, não espera a repetição de uma mesma identidade, mas de uma singularidade pré-individual. Talvez o sim aqui seja  aquele sim a que Nietzsche tenha chegado somente em Ecce Homo, quando afirma ter sido Alexandre, o grande, numa das vezes em que passou pela Terra. Fica algo de Dionísio em Alexandre, algo de Alexandre em Napoleão, algo de Napoleão em Nietzsche, mas ao que me consta Alexandre não tinha bigodes. Já Belchior... Um Nietzsche brasileiro seria ainda mais nietzscheano. Jamais acreditaria num deus que dançasse a valsa vienense, só acreditaria num deus que dançasse samba.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Deleuze, Kerouac e a potência do falso na obra de um romancista norte-americano

Verdadeiro, falso e construção de sentido

            A busca da verdade sempre foi a preocupação de muitos pensadores ao longo da história da filosofia. Para Gilles Deleuze não, a verdade nunca foi uma preocupação. Mais importante que a busca da verdade, seria a construção de sentido, principalmente porque o conceito de verdade sempre esteve ligado à representação e à imagem dogmática do pensamento. Deleuze relaciona aquilo que chama de imagem dogmática do pensamento a diversos filósofos, de Platão a Hegel, passando por Descartes e Kant. No terceiro capítulo de Diferença e repetição o filósofo francês, em oito postulados, elenca, analisa e destroi os fundamentos da imagem dogmática. De maneira resumida, a filosofia assim concebida teria três teses essenciais: 1º – O filósofo, enquanto pensador, quer e ama o verdadeiro. O pensamento, por seu turno, contém o verdadeiro que se desvela por meio do exercício natural e cooperativo das faculdades, supõe–se assim uma natureza reta do pensamento e o bom–senso universalmente partilhado. Pensar seria, aqui, o encontro com a verdade que se entrega ao pensador por meio de um método eficiente. 2º –  O corpo, as paixões e os sentidos nos desviam do verdadeiro, são obstáculos ao pensamento. Induzem aquele que quer pensar ao erro, ao falso. 3º – É preciso um método, para pensarmos bem e verdadeiramente.  Deleuze encontra e expõe inúmeras falhas, buracos, na filosofia assim concebida. Para o filósofo da diferença, talvez nem sequer tenhamos pensado ainda. A imagem dogmática concebe o pensamento a partir da reminiscência e da  recognição. Para Deleuze, pensar é parir o novo, o irreconhecível, o extemporâneo; tem a ver com produção de sentido e não com  verdade:

Não há verdade que antes de ser uma verdade, não seja a efetuação de um sentido ou a realização de um valor. A verdade como conceito é totalmente indeterminada. Tudo depende do valor e do sentido do que pensamos. Temos sempre as verdades que merecemos em função do sentido daquilo que concebemos, do valor daquilo em que acreditamos. (DELEUZE, 1976, p. 49)


            A verdade é, portanto, uma construção de sentido. Seguindo os passos de Nietzsche, Deleuze percebe que muitas forças operam sobre a verdade. Ela é a realização de um valor e existem valores nobres e vis, valores do senhor e do escravo, valores de bom gosto e de mau gosto. A imagem dogmática do pensamento supõe que a verdade seja algo bom, um universal abstrato ligado à ideia do bem, mas não existiriam verdades que são da baixeza? Verdades que nos destruiriam? Para a filosofia da representação, que é o mesmo que a imagem dogmática, “A verdade aparece com uma criatura bonachona e amiga das comodidades, que dá sem cessar a todos os poderes estabelecidos segurança de que jamais causará a alguém o menor embaraço.” (DELEUZE, 1976, p. 49)
            Não, a busca do verdadeiro nunca foi uma preocupação para Gilles Deleuze. Mesmo porque, como dissemos anteriormente, o verdadeiro não é o elemento do pensar, o elemento do pensar é o sentido e o valor:

As categorias do pensamento não são o verdadeiro e o falso e sim o nobre e o vil, o alto e o baixo, segundo a natureza das forças que se apoderam do próprio pensamento. Verdadeiro ou falso sempre temos a parte que merecemos: existem verdades da baixeza, verdades que são as do escravo. Inversamente, nossos pensamentos mais elevados levam em conta a influência exercida pelo falso; mais ainda, nunca renunciam em fazer do falso um alto poder, um poder afirmativo e artístico que encontre na obra–de–arte a sua efetuação, sua verificação, seu devir–verdadeiro. (DELEUZE, 1976, p.49)


            Chegamos onde queríamos, Deleuze concede ao falso um alto poder, um poder afirmativo e artístico que encontra na obra de arte a sua efetuação, sua verificação seu devir–verdadeiro. Em seu esforço de pensar sem imagens e afirmar a filosofia da diferença, Deleuze se aproxima não só de filósofos como Nietzsche, Hume, Begson e Espinosa, mas também de artistas como Francis Bacon e Cézanne, ou escritores como Proust, Celine e Artaud. Para Deleuze a arte assume–se enquanto criação, jamais teve qualquer compromisso com a ideia de verdade que a imagem dogmática do pensamento concebe e, justamente por isso, a arte está mais próxima do pensamento que toda a filosofia da representação.  Que é pensar? Esta é uma questão central na obra de Deleuze. Para o filósofo francês, não só a filosofia, mas também a arte e a ciência pensam, neste trabalho não trataremos da ciência, nosso foco é a arte, mais precisamente a literatura, e a filosofia. Segundo Deleuze, tanto a arte quanto a filosofia são atividades criadoras, ambas

“recortam o caos e o enfrentam, mas não é o mesmo plano de corte, não é a mesma maneira de povoá–lo; aqui constelação de universo ou afectos e perceptos, lá complexões de imanência ou conceitos. A arte não pensa menos que a filosofia, mas pensa por afectos e perceptos.
         Isto não impede que as duas entidades passem frequentemente uma pela outra, num devir que as leva a ambas, numa intensidade que as codetermina.” (DELEUZE & GUATTARI, 2010, P. 80-81)


            Deleuze não enxerga a filosofia relacionada a conceitos como verdade ou moral. Em vez disso, aproxima a filosofia da arte. Também a filosofia é uma questão de gosto e se em O que é filosofia? o filósofo, junto a Guattari, cria o conceito de gosto, que é a tripla faculdade do conceito ainda indeterminado, do personagem [conceitual] ainda nos limbos, do plano [de imanência] ainda transparente, para determinar a inclinação filosófica[1] é porque mais importante que o pensamento é aquilo que dá a pensar, e a arte se preocupa em dar a pensar. Mais importante que a verdade é a construção de sentido, e a arte se preocupa só com a construção de sentidos. Mais importante que a moral (e neste caso o que já vale por quase dois mil anos é a moral do escravo) é a beleza. O gosto é mais importante que a inclinação à verdade.

A potência do falso

            Vimos como Deleuze enxerga as artes e a literatura como aliadas em seu projeto de afirmar uma filosofia da diferença e, de quebra, demolir a imagem dogmática do pensamento. No livro Kafka, por uma literatura menor, Deleuze e Guattari distinguem dois tipos de literatura. A alta literatura, muitas vezes canônica, mas não sempre, que serve ao Estado, à igreja e aos poderes instituídos e a literatura menor que é sempre um agenciamento coletivo de enunciado e um agenciamento social de desejo, um caso de devir (sempre minoritário). No livro com Clarie Parnet, Diálogos, Deleuze retoma o assunto de maneira mais direta:

“Que o escritor seja minoritário não significa que há menos pessoas que escrevam do que leitores; já não seria verdade hoje em dia: significa que a escritura encontra sempre uma minoria que não escreve, e ela não se encarrega de escrever para essa minoria, em seu lugar, e tampouco sobre ela, mas há um encontro onde cada um empurra o outro, o leva em sua linha de fuga, em uma desterritorialização conjugada. A escritura se conjuga sempre com outra coisa que seu próprio devir. Não existe agenciamento que funcione sobre um único fluxo. Não é o caso de imitação, mas de conjugação. O escritor é penetrado pelo mais profundo, por um devir–não–escritor.” (DELEUZE & PARNET, 1998,  p. 36)


Enquanto a alta literatura é associada ao aparelho estatal, a literatura menor funciona como uma máquina de guerra contra os poderes instituídos. No romance On the Road, do escritor norteamericano Jack Kerouac, há diversos agenciamentos, há o mergulho em devires estrangeiros, negros, mexicanos, mas o grande agenciamento, a minoria marginalizada que toma a palavra por meio da pena de Kerouac é, sem dúvida, o jovem, a juventude. Antes de 1957, ano de lançamento de On the Road, praticamente não havia cultura jovem. Ou se era adulto, ou se era criança e, mesmo a criança, era enxergada como um adulto pequeno. Depois de 1957–58, anos de James Dean, do primeiro disco de Elvis Presley e do livro de Kerouac, o mundo observou atônito a explosão do Rock n´ Roll, da contracultura, o surgimento de Bob Dylan, Beatles e Rolling Stones, a exibição em tela grande de Easy rider, enfim a formação de um novo segmento social. Como escreveu Deleuze em seu livro sobre Kafka, a literatura é um caso de relógio que adianta. Não é nossa intenção neste trabalho demonstrar de que maneira On the Road influenciou a formação da cultura jovem, isto é fato, Bob Dylan, ícone da geração que despontou nos anos 1960–70 é leitor declarado de Kerouac. Não afirmamos aqui que foi o livro de Kerouac sozinho que desencadeou todo o processo. Não. Sem dúvida, muitos jovens no final dos anos 50 e 60 leram On the Road, o livro se tornou um best seller. Entretanto, como veremos mais a seguir, muito do que Kerouac escreveu é fruto de suas viagens, dos agenciamentos, do que viu e percebeu. Assim como Kafka que, de certa maneira previu o nazismo e o comunismo stalinista, também Kerouac previu o futuro. A literatura é como um relógio que adianta. De qualquer modo, On the Road ajudou a impulsionar muito daquilo que seu autor já intuíra na estrada. O livro é uma criação, uma invenção, mas, ao mesmo tempo em que nasce do contato com o real, a partir do momento em que é publicado, interfere no real e o modifica.

A constituição do falso numa obra autobiográfica

            Já vimos que o romance de Kerouac interferiu em parte da sociedade ocidental na segunda metade do século XX, enquanto um precursor de toda a contracultura. Na sequência, analisaremos de que maneira o falso se constitui na obra de Kerouac, um autor que se utiliza de dados autobiográficos – paradoxalmente sempre ligados à ideia de verdade – na construção de suas narrativas.
            Jack Kerouac não só fazia parte da geração beat, como é considerado desde a primeira resenha de On the road, escrita por Gilbert Millstein e publicada  no New York Times de 5 de setembro de 1957, seu próprio avatar. Os beats, da mesma maneira que os surrealistas, pretendiam uma dupla libertação: 1º – libertar a vida dos esquemas sociais historicamente instituídos, fossem eles oriundos da idolatria ao dinheiro capitalista, ou da ortodoxia burocrata soviética. 2º – Libertar a arte das cátedras universitárias e dos grilhões do cânone.
            Antes de escrever qualquer um de seus livros importantes, Kerouac foi viver. No final do anos 40 e início dos 50, cruzou os Estados Unidos várias vezes de Leste a Oeste e de Norte a Sul, até chegar ao México. Viajou de carona, de ônibus, de carro. Na estrada, viu como as pessoas viviam, compartilhou seus sonhos, envolveu–se desenvolveu–se, enfim, sentiu o cheiro do que as pessoas desejavam e do que estava por vir, percebeu os novos agenciamentos que já estavam se formando. O tempo que Kerouac passou na estrada foi um tempo em que os Estados Unidos da América mudavam profundamente. Segundo R.J. Ellis, no ensaio Dedicated to America, Whatever That Is, durante a segunda metade dos anos 1940 e início dos anos 1950, os Estados Unidos experimentaram um momento de grande tensão, pois muitos jovens que haviam voltado da segunda grande guerra, tinham travado contato com novos valores e novas vivências e não mais se adaptavam aos rígidos esquemas sociais que haviam deixado antes da experiência no front. Por outro lado, certos segmentos da sociedade norteamericana tornaram-se ainda mais conservadores. O homossexualismo, por exemplo, até recentemente era considerado uma doença psiquiátrica e a década de 1950 viu florescer, com toda potência, o tenebroso mccarthismo. Segundo R.J. Ellis, o livro:

trata de uma sociedade ainda lidando com o retorno dos veteranos da Segunda Guerra Mundial. Isso ajuda a explicar a política sexual instável do livro. Milhões de americanos haviam sido mobilizados. Dezesseis milhões tinham relativamente se juntado a uma comunidade livre de jovens: os vagabundos dos anos 1940 e 1950, que são manifestações de uma rejeição por atacado dos valores contemporâneos, como descrito na versão de 1957 de On the road... (HOLLADAY & HOLTON. 2009, no ensaio Dedicated to America, Whatever That Is, Tradução: Daniel Lopes. p.123)

A literatura não é um caso de memória, mas de relógio que adianta. On the Road é a reconstrução literária das viagens de Kerouac. Toda a contracultura já estava desenhada nas décadas de 1940 e 1950. Grosso modo, o livro conta a história de Sal Paradise e Dean Moriarty, dois amigos que procuram alguma coisa na estrada e não encontram. Não se sabe exatamente o que os dois procuram. Pode ser o pai de Dean, a verdade, a face velada de Deus, como Kerouac costumava dizer em suas entrevistas, ou simplesmente o “AQUILO” que Dean repete o tempo inteiro. O fato é que não encontram. Não há transcendência na estrada. Cada aventura, cada festa, cada carona, cada viagem, só valem por aquilo que são. A viagem é mais importante que o destino. O narrador está o tempo todo em movimento, nunca para para refletir, trata–se de uma escrita que penetra no leitor por meio dos afetos e não apenas pelo intelecto. Logo nas primeiras páginas, Sal Paradise, o narrador, anuncia:

Além disso, todos os meus amigos nova-iorquinos estavam numa viagem baixo-astral, naquele pesadelo negativista de combater o sistema, citando suas tediosas razões literárias, psicanalíticas ou políticas, enquanto Dean simplesmente mergulhava nessa mesma sociedade. Faminto de pão e amor; e ele estava pouco se lixando pra tudo isso, “desde que eu descole uma gata mansa e linda com aquele lugar delicioso entre as pernas, garoto” ou “contanto que eu arranje o que comer , meu filho, sacou? Estou com fome, morrendo de fome, vamos comer, agora, já!” – e lá íamos nós comer, no primeiro lugar que surgisse, como diz o Eclesiastes: “Eis sua porção sob o sol”. (KEROUAC, 2004, p. 27-28)


            No livro, Sal Paradise, o narrador, e Dean Moriarty, o herói, representam Jack Kerouac e Neil Cassady. Na primeira versão de On the Road, datilografada em três semanas, quase sem pontuação, num único rolo de papel, os nomes eram os mesmos que na vida real: Jack Kerouac e Neil Cassady. Por tudo o que afirmamos até agora – livro autobiográfico e personagens com os mesmo nomes que seus modelos reais – parece que estamos nos traindo, contrariando nossa própria tese, mas não nos enganemos: o falso entra pela porta dos fundos.
            Antes de seu primeiro encontro real com Neil Cassady, numa espelunca sem água quente em Nova York, Kerouac já havia travado contato com Neil por meio das cartas que Neil mandava a seu amigo Hal Chase e que este mostrava a Kerouac. O jovem escritor ficou encantado com a autenticidade e a força das cartas daquele jovem delinqüente de Denver. Cartas que falavam de casamentos na porta de reformatórios, de garotas, de roubos de carro. Para Kerouac, Cassady era o outsider consumado, a incorporação de uma individualidade descomprometida. Antes de qualquer encontro com o Neil Cassady verdadeiro, Kerouac já tinha caído nas garras do falso, já vislumbrara em Neil não um homem, mas um mito, meio marginal, meio santo.
            Dean Moriarty, o personagem inspirado em Neil Cassady é o herói, melhor seria dizer anti–herói, de On the Road. Neste sentido, vemos o romance progredir, no que se refere a Dean, como uma grande luta, um combate, entre a visão mitopoética que Kerouac criara de seu amigo e o homem real. Citamos Mouratidis a respeito:

“Vemos a imagem que Kerouac faz de Cassady progredir ao longo de um arco. Começando no mito, na lenda, e no ideal, Cassady transforma–se em realidade através da experiência pessoal que dele tem Kerouac. Contudo, assim que seu relacionamento começa a se romper Kerouac recua para o mito e para a lenda em sua representação de Cassady.”(KEROUAC, 2011, no ensaio: Em busca do coração das coisas, Neil Cassady e a busca pelo autêntico, MOURATIDIS, G. p. 93)


            On the Road não é o relato de uma aventura pessoal passada. Em vez disso, é uma recriação que se fixa por meio da palavra em um bloco de sensações, afecções, sentimentos e ideias. Os faróis que Kerouac acendeu não iluminam o passado, aquilo que já foi, mas o devir, o movimento, a estrada é outra a cada instante. Dean Moriarty, o herói de On the Road, não é o Neil Cassady verdadeiro, mas uma invenção, uma criação literária. E, como tal, encerra em si a potência de um tipo que virá: o jovem livre, viajante, em busca de liberdade, que tomou as ruas dos Estados Unidos nas décadas seguintes.
            On the Road, é uma obra de criação, sem qualquer compromisso com a moral ou com a verdade, mas, que invenção! Que criação literária! Teve o poder de interferir no mundo real e transformá-lo.

Conclusão

            Vimos que, para Deleuze, o elemento do pensar não é o verdadeiro, mas o sentido e o valor. Vimos que o pensamento não é exclusividade da filosofia, tanto as Artes, quanto o cinema e a literatura também pensam. Vimos como o romance On the Road interferiu na sociedade americana, e por que não dizer mundial, na segunda metade do século XX e como em sua criação encerra-se uma alta potência do falso, elemento primordial da criação artística. Antes de encerrar, contudo, cabe estabelecer um diferenciação: há um abismo entre o tipo de viagens  e o tipo de livro que Kerouac produziu e uma nova modalidade do falso, imposto pela indústria editorial, como o projeto Amores expressos, da editora Companhia das Letras. Neste projeto, por iniciativa da editora, escritores são enviados para várias partes do planeta com a missão expressa de produzir uma história de amor ambientada em tais lugares. Duvidamos que algo de artístico possa surgir daí e de escritores que se comportam como bons alunos, que sequer se preocupam em colocar suas próprias questões e se contentam em responder de maneira convincente aquilo que o mestre perguntou. O que dá sentido à arte é seu contato com a diferença em estado selvagem, com o extemporâneo, com o irreconhecível. Ela se liga ao falso, mas, naquilo que o falso tem de mais vital, a vida para continuar também precisa enganar. Como diria Fernando Pessoa, no poema Autopsicografia:

“O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.”


            Sim, tão importante quanto fingir a dor, é a dor que deveras sente. Isto a indústria não pode fabricar.


Bibliografia:
DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. Trad. Luiz Orlandi e Roberto Machado. São Paulo: Graal, 1988.
_______________. Conversações. Trad. Peter Pál Pelbart. São Paulo: Editora 34, 1992.
DELEUZE, Gilles e PARNET, Claire. Diálogos. Trad. Eloísa Araújo Ribeiro. São Paulo: Escuta, 1998.
DELEUZE, Gilles e GUATARRI, Félix. Kafka: por uma literatura menor. Trad. Rafael Godinho. Lisboa: Assírio & Alvim, 2003.
_______________. O que é filosofia? Trad. Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Muñoz. São Paulo: Editora 34, 2010.
_______________. O anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia. Trad. Luiz B. L. Orlandi. São Paulo: Editora 34, 2010.

_______________. Crítica e Clínica. Trad. Peter Pál Pelbart. São Paulo: Editora 34, 1997.
KEROUAC, Jack. On the road. London: Peguin Books, 2000.
KEROUAC, Jack. On the road. Trad. Eduardo Bueno. Porto Alegre: L&PM Editora, 2004.
KEROUAC, Jack. On the road, o manuscrito original. Trad. Eduardo Bueno e Lúcia Brito. Porto Alegre: L&PM Editora, 2011.
KEROUAC, Jack e GINSBERG, Allen. As cartas. Editadas por Bill Morgan e David Stanford. Porto Alegre: LP&M, 2013.
HOLLADAY, Hilary & HOLTON, Robert. org, What’s Your Road, Man? Critical Essays on Jack Kerouac’s On The Road, Carbondale: Southern Illinois University Press, 2004.
WILLER, Claudio. Geração Beat. Porto Alegre: LP&M, 2009.





[1] “Se se chama razão ao traçado do plano, imaginação à invenção dos personagens entendimento à criação dos conceitos, o gosto aparece como a tripla faculdade do conceito ainda indeterminado, do personagem ainda nos limbos, do plano ainda transparente. (DELEUZE, O que é filosofia? p. 93)

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

FRUTA - capítulo II


Clara

   O nome era Clara, mas lá chamavam-na Sabrina. Aos outros podia parecer que sim, mas seu trabalho não era fácil, não mesmo. Ela era seu corpo? Seus olhos e boca? Suas mãos e dedos? Seu sexo e nariz? Ou era outra coisa qualquer? Suas ideias e sentimentos, por exemplo? Que é espírito? Não era o leilão do corpo que machucava. Não, com o tempo acostuma-se. O que doía era a impossibilidade da paixão. Desejo sublimado pela banalidade. Um obeso sem papilas gustativas, sério. Com o tempo não existem clientes feios ou bonitos, todos os bonecos são o mesmo boneco. Quando Lúcia Se Deitava, pensava nos navios coloridos que costumava ver em Santos aos onze, doze anos. Ela, quando se deitava, não pensava em nada, nem mesmo nas freiras que tinham cuidado dela na infância, nem mesmo no menino de dentes tão brancos. Anoitecia e não havia estrelas no céu que era. Demorou, mas aprendera a se desligar. Não porque sofresse, principalmente porque se entediava. Entretanto, havia o menino, que era corpo ágil, sorriso e um sonho de futebol. Havia também a tia cega, que gostava de cozinhar e que cuidava do menino com tanta delicadeza. A verdade é que precisava do dinheiro, enquanto não terminava a faculdade de jornalismo e tinha tantos sonhos, dos outros, pra equilibrar. Que fazer se o bezerro de ouro comandava o mundo? No pátio dos fundos lá do colégio onde as freiras ensinavam, havia um poço de segredos de Santo Agostinho. Abbadón é um anjo louro... Bonito. E o que é que se pode dar a um cliente além do mistério? Clara, Ana ou Sabrina? Podia alugar o corpo, mas, a parte maior do que era, perfumava-se e partia para um baile junto às esferas. Havia esferas incandescentes, ao lado das quais outras esferas, mais frias por serem menores, giravam. Havia esferas brancas, vermelhas, amarelas e azuis. O universo visto de fora é bonito. Parece o brinquedo de um Deus-Menino. Arrancava os olhos da face, fechava as pálpebras e os olhos ficavam lá do alto, soltos... Por vezes observando o corpo na cama e o boneco por cima, ou por baixo, ou do lado... Por vezes sentindo o... Coisa entre coisas, objeto entre objetos. Então era isto? O que é este aglomerado de matéria que pensa e que pisca, cujo nome é EU? O eu? O eu é a corda que prende o feixe de lenhas. Pra ela era fácil desfazer o nó e se soltar. Talvez fosse um dom. Praticava porque gostava, não porque quisesse se aperfeiçoar. Alguns cantam, outros pintam, outros erguem casas. Ela dispersava-se, seu dom, sua obsessão, dom é só um outro nome para obsessão.
   Agora, apesar do som alto e do constante piscar das luzes que ela, em sua loucura, associava a estrelas, Clara esperava. Esperava o quê? O próximo cliente? O fim da noite? O fim do fim de semana? O fim do mês? O fim da vida? Há um mês fora ao dentista. Passara por doloroso tratamento de canal. Na sala de espera, ela e mais duas meninas aguardavam, olhando-se mutuamente com apreensão. Ouviam a música dolorosa do motorzinho trabalhando ininterruptamente lá dentro. Em silêncio, questionavam-se: quem será a próxima? Essa espera angustiada é a Viagem. A Terra é a sala de espera. E o dentista é a Morte, cujo instrumento de trabalho não é uma broca, ou uma foice, mas uma imensa britadeira. Não há como fugir, porque a porta do consultório está hermeticamente trancada pelo lado de fora. A secretária que é Deus e que poderia abrir a porta comeu demais no almoço e agora cochila. Sua sesta dura setecentos anos. Não adianta bater à porta. Os pacientes sabem disso e esperam com paciência, enquanto da sala do dentista escapa um grito de desespero. No vaso, ao lado da mesa de revistas, um girassol gargalha amarelo.
   - Vamos pro quarto?
   - Você pode me adiantar o dinheiro?
   - Quanto é?
   - Duzentos reais.
   - Tá aqui.

   Ela guarda o dinheiro no bolso e observa o rosto do rapaz. Branco. Bonito. Sorri. Sorriem. É que há muito tempo todos os bonecos eram o mesmo boneco pra ela. E, no entanto, agora, conseguia ver a beleza no rapaz com cicatrizes nos pulsos e sobre os lábios. Essa dos lábios, cicatriz, provavelmente era desenhada por uma cirurgia para a correção de palato cindido. Ainda não sabia que o nome dele era Matheus.

LANÇAMENTO 26/10

terça-feira, 22 de outubro de 2013

FRUTA - Capítulo I


Matheus

   Então ela não conseguia se dispersar. Estranho, houve um momento em que ambos não sabiam o que fazer com as mãos, estranho mesmo.
   - E aí?
   - E aí o quê?
   - O que você vai querer, ué?
   - Tire a roupa.
   O vestido vermelho escorregou fácil e se deitou no chão feito um prato de cerejas. Ele acariciou a maçã e mamou um pouco. Pediu que ela se virasse, ajoelhou no chão e passou a língua manchada de nicotina sobre o morango: maduro. Dos lábios dela escapou um gemido. Agora sabia o que era a verdade. A verdade é uma fruta vermelha e todas as filosofias nunca foram mais que a ausência de cor.
   Deitaram-se nus. Abraçaram-se e foi então que ele aconchegou a cabeça entre os seios dela e começou a chorar. A princípio em silêncio, só as lágrimas escorriam. Aos poucos, porém, começou a soluçar e a gemer num choro convulso. Em determinados momentos, chegava a perder o fôlego.
   - Chiiiu – ela disse, afagando-lhe os cabelos, e começou a recitar sussurrando o trecho do Drummond que decorara desde os tempos imemoriais do colégio de freiras. – Vamos, não chore, a infância está perdida, a juventude está perdida, mas a vida não se perdeu. O primeiro amor passou, o segundo amor passou, mas o coração continua.
   - Não é verdade, o coração não continua. Só dói o tempo todo, como uma rosa pisada e repisada. Uma rosa sobre a qual sambaram.
   - Ainda assim a rosa é uma rosa e continua vermelha.
   - Você se aproxima em ondas, eu sei por dentro, estávamos em pólos opostos da circunferência, mas, ao longo do tempo, fomos girando em círculos concêntricos e agora estamos aqui. Eu te pressinto desde os tempos em que andava procurando pela Galileia. O impacto do encontro me petrificou.
   - E por que é que você está chorando tanto? O encontro não é bom?
   - O espetáculo me emociona. É a beleza que me faz chorar. Tudo, absolutamente tudo, está em chamas, você não percebe? Lá fora, homens incendiados caminham sobre ruas incendiadas. Pardais incendiados cantam na copa de árvores incendiadas. Carros incendiados chocam-se com trens incendiados. Os números, mais que as palavras, explicam tudo, mas qual equação desvenda a chama?
   - É um espetáculo bonito mesmo, mas é triste.
   - Sim triste, e os atores, que são ao mesmo tempo espectadores uns dos outros, estão distraídos. Alguns cochilam. Outros estão embriagados demais para se lembrar qual era a fala. O bebê não se envergonha de seu sexo, ou de suas fezes, mas nos homens colocamos roupas; e nas roupas, carros; e nos carros, garagens; e nas garagens, casas; e nas casas, telhados. Idolatramos a casca, não a fruta. É preciso esconder a criatura, pois sempre angustia o que perece. E o que defeca, morre, e o que procria, morre, como qualquer gato, qualquer cachorro. No lado escuro da Lua brotam flores vermelhas, azuis, amarelas e roxas. Admiramos, na ficção, os homens que, mesmo no corredor da morte, mantêm a cabeça erguida. Estamos no mesmo corredor, o nosso é só um pouco mais longo. É preciso esforçar-se pelo sim, viver como um condenado que faz dançando, só de pirraça, o caminho que leva da cela ao patíbulo. É hora de honrar a vida. É hora de ser para a morte. Contar o que nos é sussurrado e calar. O mesmo ventre nos aguarda do outro lado. Somos eternidade escura que um dia, por acaso, brilhou. O tédio é a lembrança de quando não éramos. É melhor morrer de tédio que de vodca... E a palavra... A palavra é uma forma muito pequena para um bolo grande demais. Eu queria transformar a própria forma em bolo. Sabe o que estou querendo dizer?
            - Puxa, como você fala... Sem chance, cara, eles nunca comeriam um tal produto da tua confeitaria. Ninguém dá a mínima.
   - É, eu sei. Estou ocupado! Dizem. Há carros demais, marcas demais, rótulos demais, viagens demais, às vezes pagas a prazo em longas e suaves prestações. O véu de Maya venceu, os homens não conseguem ver a realidade das coisas por baixo dele. Uma vez, quando era pequeno, fui com minha família, num passeio de férias, a Búzios. Meus pais brigaram. Meu velho me arrastou pelo pulso até um quiosque no qual tomou treze caipirinhas e dormiu embriagado sobre a mesa. Tentei acordá-lo, mas não consegui. Saí desesperado pela praia em busca de ajuda. Não encontrei qualquer pessoa que tivesse vindo com a gente. Estavam todos invisíveis. Mas, no canto da praia, dentro de um castelo de areia, havia um velho albino de barba branca que corria até o mar com um baldinho dourado, pegava um pouco de água, voltava e jogava a água dentro de outro balde um pouco maior, vermelho e sem fundo. A areia ao redor estava encharcada, um lamaçal danado em volta. O que é isso aí? Perguntei ao velho. É a vida, ele respondeu... Repeat: O que é isso aí? Perguntei ao velho. É a vida, ele respondeu... Estou só passando o tempo. Viver é encher de água um balde sem fundo. Saí correndo dali, acabei adormecendo na praia, e quando acordei já era grande. Tinha dezenove anos. Era no meu peito que as ondas vinham quebrar.
   - E os seus pais?         
   - Como disse, isso tudo faz muito tempo. Eles ainda estão juntos, envelheceram juntos. Hoje moram em Ourinhos.
   - Ourinhos?
   - É.     
   - Já passei por Ourinhos.
   - Faz tempo que eu não os visito.
   Pause
   - Posso te pedir uma coisa?
   - Falaí?
   - Me fode. Vai por mim. Tenho experiência. Ninguém fode como um desesperado.
   Ele, porque era um camundongo, também habitava a fenda, mas era das cavidades redondas que mais gostava e foi lá que construiu abrigo sobre o morango esmagado. Dentro dos casulos acomodados no jasmim em frente à janela do quarto, as lagartas dormiam e sonhavam borboletas.
   - Fodeu, acho que vou ficar louca por você - ela pensou baixinho pra ele não ouvir, enquanto dormia como uma criança entre seus seios.
   Do outro lado da cidade, o menino acordava para beber água. Tinha sonhado um sonho bom. Jogava num time grande e marcava, no último minuto da final da Champions league, um golaço de bicicleta. Nos lábios crescia um sorriso cada vez maior.

LANÇAMENTO DIA 26/10.


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Lançamento

Espero você no lançamento do meu romance FRUTA. Dia 26/10 no endereço acima

domingo, 11 de agosto de 2013

Fissura


Goethe dizia, antes vender a alma para a corte de opereta de Weimar: Para mim não há jeito de acabar bem! (A força separada do que pode, divide-se em duas, desagrega-se, volta-se contra si mesma) Depois do pacto com o diabo, chegou aos oitenta e tantos anos e escreveu o Fausto. Haveria o Fausto sem o pacto do próprio Goethe com o poder? A obra guia o autor através daquilo que ele julga ser biografia, como o pica-pau naquele desenho que é sugado pelo cheiro cheio de dedos da comida.
            Goethe se vendeu, mas neste comércio com a representação, salvou-se. Há um quê de cinismo em todos os que se salvam. O que será que o ancião diria ao jovem escritor de Werther? Talvez, se o jovem Goethe pudesse prever o futuro, teria cometido suicídio sem pensar duas vezes. Talvez não. O artista é um bicho estranho, sacrifica qualquer coisa pela sua obra. Quem escreveu o Fausto merece nosso perdão. Quem escreveu Viagem ao Fim da Noite também. Seria preciso outro tipo de balança para gente assim. Todo gênio é um filho da puta, mas também tem um bocado filho da puta estúpido. Os primeiros não escapam do sofrimento, estão morrendo o tempo todo; os segundos morrem uma única vez.
            O que Goethe aprendeu, e por isto acabou escapando do trágico, foi a conviver com a rachadura. Fixá-la com a cola adequada. Ele nunca foi inteiro. Indivíduos? Só os estúpidos e os insensíveis. Os homens sensíveis-do-pensamento, mais cedo ou mais tarde, são divididos ao meio, rachados a golpes de navalha ou de machado.
            Eu tenho uma tendência natural ao negativo, mas não me entrego a ele numa orgia de depressão e The Cure. Não dou mole para a minha pereba. Esforço-me pelo SIM, ainda que viva com o horror nos calcanhares. Ele, o horror, não dá trégua. Mesmo nos momentos felizes, uma imagem sinistra me acompanha. Eu não posso vê-la, é uma sensação, como num sonho ruim. Ela, a imagem terrível, não está nos meus olhos ou fora de mim, não está nos meus pesadelos, ou nas montanhas do Afeganistão. Está por todo lado, como o ar. Vivo com a impressão de que, se tivesse olhos de ver, eu veria, e ela me destruiria imediatamente. Se conhecêssemos a verdade, a verdade nos destruiria. Algo espera do outro lado da ponte. Mesmo quando mexo nos cabelos do meu filho adormecido, sinto que a felicidade é pequena e que o terror não demora.
             Hemingway escreveu em Adeus às armas: “Aos que trazem coragem a este mundo, o mundo precisa quebrá-los, para conseguir eliminá-los, e é o que faz. O mundo os quebra, a todos; no entanto, muitos deles tornam-se mais fortes, justamente no ponto onde foram quebrados. Mas aos que não se deixam quebrar, o mundo os mata. Mata os muito bons, os muito meigos, os muito bravos – Indiferentemente”. Indiferentemente, todos aquele que esforçaram-se pelo sim, tiveram um final terrível, como se o corvo nunca deixasse de amaldiçoar: Never more!. A sífilis espiritual de Nietzsche... O colapso de Fitzgerald... O gatilho de Hemingway... O salto de Deleuze... Os óculos de Lennon na calçada em frente ao edifício Dakota. Quem sonhou, só vale se já sonhou demais. A rachadura não perdoa, amigos, por mais que fechemos os olhos e tratemos de ter bons sonhos, a rachadura cobra a conta com juros e correção.
            Os que me conhecem sabem que não sou de ficar choramingando, lambendo minha própria ferida, mas, mesmo nos momentos em que sinto minha energia vital pulsar com maior vigor... Mesmo quando a vontade de potência provoca uma ereção... Mesmo quando me sinto capaz de suportar o mundo, um corvo canta rasgado:
            Never more!
            E as palavras de Goethe ecoam em meu ouvido.
            - Para mim não há jeito de acabar bem.
            O cinismo é a cola que remenda a fissura, mas meu pote está vazio.

            Só por hoje.