O homem de barba longa passava ao lado do poço, quando escutou o mais belo lamento ao violino que jamais sonhara. Estancou. "Há alguém aí embaixo?" Gritou. O violino parou por instantes, mas tornou a soar logo a seguir. Então o homem de barba longa chamou na igreja em ruínas e conseguiu uma corda. Amarrou-a numa árvore de grosso tronco e desceu, retornando em seguida com o violinista amarrado às costas. Como não notasse qualquer entusiasmo no rosto do rapaz cuja vida acabara de salvar, o homem de barba longa abriu a boca: "Como é que você foi parar lá embaixo, rapaz? Poderia ter morrido de frio e de escuridão. Não é bom estar de volta e contemplar o sol, e as árvores, e os pássaros?" O violinista descansou o instrumento no chão e respondeu: "Foi no poço que nasci e foi lá que vivi até agora. É da noite, do frio e da solidão que alimento meu instrumento. Como posso agora amar o colorido?" O homem de barba longa acendeu um charuto e balançou negativamente a cabeça. Não achava saudável alguém morar num buraco. O violinista, entretanto, agarrou a corda e desceu outra vez, voltando a tocar assim que alcançou o fundo.
domingo, 28 de julho de 2013
quinta-feira, 11 de julho de 2013
Reflexões sobre o diagrama do Taiji
"Sem-Nome é o princípio do céu e da terra
Com-Nome é a mãe de dez mil coisas
Assim, a constante não-aspiração é contemplar as Maravilhas
E a constante aspiração é contemplar o Orifício
Ambos são distintos em seus nomes mas têm a mesma origem
O comum entre os dois se chama Mistério
O Mistério dos Mistérios é o Portal para todas as Maravilhas"
Lao-Tsé, Tao Te Ching
Não sou feminista, o feminismo distorcido tem formado muito mais mulheres faludas, hipócritas e bundões que homens femininos, e o mundo precisa de um toque mais feminino. A panela de pressão não suporta mais tanto concreto, e obeliscos, e violência. O feminino concilia, acolhe, aquece, supera obstáculos sem fazer escândalo. “Vai ser gauche é maldição pra homem, mulher é desdobrável, eu sou.” Escreve Adélia Prado em resposta a Drummond. Da mesma maneira, enquanto Heidegger, o pastor alemão, maior filósofo do século XX, adere ao nazismo, numa das maiores cagadas filosóficas de todos os tempos (talvez só comparada à de Platão quando foi se meter em assuntos de Estado), Hannah Arendt responde com o ser junto e o ser entre os outros do diferente. Tudo o que em Heidegger é indagação, em Hannah é colo, fidelidade aos amigos. Enquanto os homens queriam assassinar o mais rápido possível o monstro Eichmann em Jerusalém, Hannah vai adiante e, onde os outros vêm um bicho, ela só encontra um burocrata estúpido, a banalidade do mal. O problema não é aquele réu nazista em meio aos judeus, o problema é o toque masculino, que vê tudo ao redor como objeto... A matéria opaca levada ao paroxismo. Kafka já profetizara, nO Processo. Se construímos matadouros de bichos, qual o problema em se construir matadouros de homens? Morte em escala industrial, produção, produção, produção. Iluminada por Heidegger, Hannah enxerga que é a técnica que banaliza. Os dois juntos formam um só sistema filosófico, ainda que Heidegger, egoísta e inseguro (por mais que sejam inteligentes os homens são sempre infantis, não dá pra amar e ser esperto ao mesmo tempo), jamais tenha lido os livros de sua companheira espiritual. Mulheres são telúricas, envolventes, confidentes do mistério. Homens são solares, orgulhosos, impetuosos. A escultura é masculina; a música, uma mulher. O cientista é macho; a mitologia, uma ninfeta. Onde elas sugerem, eles exibem. Onde eles enterram, elas florescem. Onde eles contam histórias, elas fazem encantamentos. Clarice Lispector, Katherine Mansfield, Virgínia Woolf, Márcia Barbieri mergulham em abismos, em cujas bordas estanco, com medo de olhar. Escrevem palavras úmidas, sensuais, fecundas, seus livros escorrem entre os dedos. Maior erro de Freud, carrasco de Nietzsche, ventre que pariu o Cristo, Iemanjá em cada útero, sabedoria e ponto de convergência de qualquer família. Mona Gadelha cantando Belchior. Guardiãs dos teares e da cultura enquanto tecem a humanidade. Mistério puro. Enigma frágil que nocauteia boxeadores e dá a luz a bolhas de sabão. Sem portas e janelas as paredes são inúteis. Sem a Terra o falo solar seria broxa. Sem a Lua não há colheita. Sem o húmus o baobá não floresce, parceiro, nem o bonsai. É Apolo quem constrói, mas é Dioniso quem dá sentido e a Virgem entoa cantos em aramaico para ninar tanto o Cordeiro quanto o Leão.
sábado, 22 de junho de 2013
Poética da Diferença
A palavra, em seu uso
cotidiano, é representação. Pagamos caro para nos entendermos, para que peçamos
dez pãezinhos na padaria e o balconista nos dê dez pãezinhos quentinhos,
recém-saídos do forno. Quando digo: “Isto é uma mesa”, apontando para a mesa, é
como se colasse uma etiqueta na coisa. O uso da palavra no poema é diferente,
só no poema devolvemos a palavra a si mesma e a libertamos de sua subserviência
à coisa. De modo que o poeta chacoalha a palavra, desgruda as etiquetas das
coisas, embaralha-as, usa-as como bem entende. Gil acertou, quando o poeta diz lata, pode estar querendo
dizer o incontível. O que estou querendo dizer é que a palavra literária é
a própria diferença. Já pressinto o tribunal, como assim? O que você está
querendo dizer de fato? Explique-se! Calma, vamos por partes, como diria Jack.
Um exemplo de um poeta de peso, embora magro. No Poema de sete faces, Drummond escreve: “as casas espiam os homens /
Que correm atrás de mulheres”, estes versos abrem um abismo entre a palavra e
aquilo que ela nomeia. Forçando uma analogia platônica, a casa de bloco, telha
e concreto seria o modelo e a palavra casa, a cópia. Entre ambas há uma
diferença. Ninguém pode se abrigar da chuva, do sol, ou dormir sob uma palavra.
Quando retiramos da cópia o original, como o poeta faz quando escreve casa, resta a diferença, pois a casa de
Drummond, esta que espia, não tem qualquer relação com as casas do mundo real.
Pergunta: mas afinal do que esta casa difere, se, no caso, ela não é mais
comparada ao original? Resposta: Difere de si mesma. A palavra poética carrega
em si a diferença em estado bruto, do mesmo modo que a lembrança. Se uso corda para amarrar um cavalo selvagem
ao toco e depois retiro o toco, o cavalo ainda terá a corda em volta do
pescoço. No poema, a palavra só remete a
si mesma e de si mesma difere. Aqui perdemos a imagem, a analogia com o mundo
real, a casa de Drummond não abriga gente, mas é viva e espia. O poema é a
diferença tornada palavra, no entanto, mesmo a palavra poética, sim, até mesmo
ela, é uma atualização, Clarice Lispector cravou: “Se for para escrever, que
não se esmague com palavras as entrelinhas”. Um texto fala muito mais pelo que
cala do que pelo que diz. Se a palavra é necessária, o é para apontar o silêncio.
É no silêncio do texto que a diferença repousa em sua pureza múltipla, porque
aí não há mais o modelo ou a cópia, nem a casa nem a palavra que a rotula, mas
permanece a diferença entre uma e outra. Todo poeta sonha ser a flauta deste
poema transparente, no qual, pelo branco da ausência de palavra, seria possível
partilhar o ser (a diferença é o ser) da mesma maneira que duas crianças
famintas partilham uma manga. Para a nossa tristeza, entretanto, tal experiência está reservada aos
místicos, exige esforços sobre-humanos e é incomunicável: vai e vem como um
oceano, só que sem água.
quinta-feira, 6 de junho de 2013
Ela me faz tão bem
Meninos se vão, meninas se vão,
mocinhos se vão, mocinhas se vão, velhinhos se vão, velhinhas se vão e sempre é
cedo demais para quem fica, porque nunca dissemos tudo o que deveríamos ter dito.
Não ouvimos o suficiente. Parece que o essencial se perdeu, nós não
demonstramos. Tinha sempre uma ponta de orgulho lá, cobrindo a nossa face
verdadeira, feito a máscara de monstro com a qual brincávamos na infância. Quem disse o quanto foi importante ter saído
do trabalho e encontrar o outro para comer umas esfihas com tubaína, hein? Isto
salva uma vida. O mundo é grande e cheio de gente. Encontro é uma palavra
poderosa, estala na língua. Dividir sonhos e angústias, encanações sexuais e
tudo o mais. Precisamos ser pacientes um com o outro como duas crianças
perdidas numa floresta em noite de tempestade: viver é mais imprevisível ainda.
Escolhemos um caminho, nos programamos, imaginamos um final, mas, no meio,
somos arrastados por forças poderosas. Todo dia é um tsunami, todo dia um Katrina.
Tão imenso universo, dói a cabeça de pensar, infinito é mais longe ainda. Que
Deus poderia imaginar que este planeta minúsculo, esta bolinha de gude que esfriou
um pouco mais e criou algum musgo por cima, poderia abrigar tantas histórias
extraordinárias? Não no corpo que habitamos, mas na história de nossas vidas
somos maiores que os deuses, maiores que o universo imenso e o sem-fim. De que
vale o big ben, um buraco negro, o infinito, diante do choro de uma criança? De
um cachorro atropelado? De um rostinho sujo que espera o pai, e o pai não vem,
o pai nunca vem, não há pai, nem paz, somos todos filhos do acaso como qualquer
menino de rua. Sim, meninos se vão, meninas se vão, mocinhos se vão, mocinhas
se vão, velhinhos se vão, velhinhas se vão e é sempre cedo demais, porque mesmo
a velhinha ainda leva no corpo a menina que foi, a menina que é, aquela que
anseia sempre por aprovação e importância. Dia desses fui ver a Lygia Fagundes
Telles falar e ela falava como uma menina, faceira e terna feito uma adolescente.
Sou um homem simples que não espera mais que um café quente e um sorriso, mas
não aceito injustiça, nenhum tipo de injustiça e, para mim, não há injustiça
maior que a Morte e é por isto que escrevo. Para onde vão as histórias das
pessoas quando o corpo que as abrigava não está mais aqui? Será que nossa vida
é mesmo sempre bela, breve e inútil, como as luzes que piscam nas árvores de
natal, em casas do subúrbio, a cada final de ano? Cada piscar um emaranhado de
sonhos de grandeza, de mesquinharia e desejo que se acende e se apaga. Plin! E lá se foi uma vida em meio ao
rio que nunca nasce e que não encontra mar. Plin!
E lá se foi a menina que um dia sonhou ser poeta e foi fotografada tranquila e
ingênua no capô de um fiat 147. Plin!
E lá se foi Rogério, gnomo mais triste do mundo, com seus acordes certeiros no
baixo e o índio de cartola tatuado no braço! Plin! E lá se foi Daniel, a ferida que sonhava sempre a cicatriz. Bom
dia. Beijo para quem é de beijo, abraço para quem é de abraço. Hoje faz sol
depois de uma semana de chuva, mas Scarlet Moon morreu. Eu não a conhecia, mas
conheço sua história de amor com Lulu Santos, parceiro com o qual ela foi casada por 28 anos. Uma única história
de amor é a finalidade e, ao mesmo tempo vale mais, que todo o universo. O
homem, meus amigos, não é o Senhor do ente, Poder é ilusão, o homem é o pastor
do Ser. Meninos se vão, meninas se vão, mocinhos se vão, mocinhas se vão,
velhinhos se vão, velhinhas se vão, mas não em vão. A terra se torna sempre um
pouco mais fria e misteriosa quando cada um de nós parte, mas reaquece no
instante seguinte, no choro que estreia o pulmão do amanhã.
sexta-feira, 17 de maio de 2013
Quase-Hermes
Não é exagero dizer
que o ser humano é um ser hermenêutico. Tornamo-nos humanos à medida que
compreendemos e interpretamos o mundo que nos cerca e compreendemos e
interpretamos a nós mesmos. Há um corpo... Há um cérebro... Há um fígado... Um
coração... Um rim... Para a ciência, somos feitos de átomos, mas isto apenas não
nos define, somos feito, sobretudo, de histórias. É na palavra que o homem faz
morada (Poeticamente, o homem habita) e a natureza até então viva,
mas silenciosa se abre para compreender-se, refletir-se e cantar-se. A palavra
é a fenda e o espelho em frente, por meio do qual a natureza se observa, se
interpreta e se admira. Não fosse o homem, e o homem é linguagem, as coisas
todas ainda estariam aí, os planetas em suas rotas, os pássaros nas árvores, o
oceano em seu berço, mas não saberiam, elas, as coisas, apenas seriam, sem
jamais saber que são. “A linguagem é a casa do ser”. (HEIDEGGER, Carta sobre o
Humanismo, p.8).
Nós, que nascemos no final do século XX, fomos
lançados do ventre materno para um mundo dado. O conhecimento já estava aí, os
livros já estavam aí. Nós nos tornamos gente à medida que interpretamos o mundo
ao nosso redor e que vamos construindo nossa identidade, melhor, nossa alma,
enquanto somos rasgados pelo saber, pelas obras, pelas histórias que nossos
antepassados mais remotos produziram. Isto que somos torna-se um eu à medida
que é atravessado pelo mundo, pelas produções humanas e que reflete sobre o
mundo e sobre si mesmo. Nós somos um diálogo. Compreender não se separa da
vida, mas adere à vida e a transpassa em todos os momentos. Compreender é nossa
atitude mais primária, o bebê compreende o olho da mãe. Compreender não é uma
atividade que se faz trancado num escritório ou laboratório, observando o rio à
distância. No momento em que nos afastamos da coisa, nós a perdemos e se depois
a explicamos cientificamente é porque ela, a coisa, já tinha desaparecido.
Explicamos sem ter compreendido. Se vamos falar de vida e, a nosso ver a
questão primordial é onde está a vida?, então o imperativo não é o olhe o rio,
mas entre no rio, coloque os pés na água, sinta o frescor e a turbulência, o
musgo verde no fundo, o cheiro de lírios e os gritos dos afogados.
“A compreensão não vem depois da
vida, mas a permeia em seus momentos todos. Compreendemos o outro quando com
ele falamos; uma ferramenta quando a utilizamos; os acontecimentos cotidianos
quando nos atingem; o ambiente ou o mundo em que vivemos.” (NUNES, Ensaios
filosóficos, p. 270).
A obra é viva, é vida, se vamos falar da obra, então
o imperativo não é observe a obra, conte as palavras e os tijolos, procure no
dicionário os trezentos significados possíveis, mas sim: penetre a obra e seja
por ela penetrado. Um provérbio zen diz “o sábio aponta a lua, mas o tolo olha
para o dedo”, eu completaria; e ainda reclama da cutícula. Parece ser este o
trabalho crítico que temos feito, reclamar da cutícula no dedo. É preciso
penetrar a obra - que é atemporal e vive no eterno presente da origem, com suas
raízes fincadas no solo da Arte - pela porta de nosso tempo, ano de 2013 da era
comum e deixar que a porta permaneça aberta para que a obra fale uma vez mais. O
homem é um ser hermenêutico e a Arte é a mais encantadora das produções
humanas.
Bibliografia:
HEIDEGGER, Martin. Carta sobre o Humanismo. Trad. Rubens Eduardo Farias. São Paulo: Centauro
Editora, 2010.
NUNES, Benedito. Ensaios filosóficos. São Paulo: Martins Fontes, 2011.
segunda-feira, 29 de abril de 2013
Uma entrevista
(ACIBEL): Quando descobriu que tinha vocação para ser escritor? Fale um pouco de seu início nas escritas.
(DANIEL LOPES): R: Antes de tudo era o desencaixe. A sensação de espanto diante do mundo. Lembro de uma vez que estava na igreja com minha mãe, ela era catequista, e fiquei espantado de ela existir e ser alguém, e ter um rosto, uma personalidade e de estarmos ali, naquele exato lugar, naquele exato momento, lançados neste planeta doido e doído, e eu me perguntava: pra quê, afinal de contas? Não seria mais natural o nada? Por que existíamos e sabíamos, e tínhamos certeza, de que um dia não existiríamos mais? Enquanto o homem é, está na aporia da morte. Foi o que desesperou Buda. Se eu fosse um homem de fé verdadeira, se tivesse certeza de que Deus existe, então tudo estaria resolvido, e eu talvez não escrevesse uma linha sequer, mas não consigo acreditar com este fogo. Todas as coisas podem não ser mais que mera coincidência. Talvez não tenha sentido algum as milhares de pessoas que já pisaram neste planeta e sofreram, e amaram, e morreram e... Drogas... Alcoolismo... Incestos... Amores mal resolvidos... Mais incestos... Humilhações... Assassinatos... A minha escrita é só o registro, com sangue e plasma, deste desconforto: a materialização de tantas questões que, apesar de tudo, não podem ser respondidas, sequer formuladas com palavras. Talvez a música toque. A escrita, entretanto, começou efetivamente na adolescência, em vários cadernos que eu preenchia, só porque registrar a angústia aliviava. Não há respostas, só o constante arranhar a face do enigma.
(ACIBEL): Em seus livros você gosta de usar uma ordem cronológica ?
(DANIEL LOPES): R: Não, não me preocupo com o tempo ou com questões formais. Tanto pode haver uma ordem cronológica como não. Minha preocupação não é inovar a prosa, mas tocar o plasma, o humano. Não é uma literatura para a cabeça, mas para o espírito. Não quero ser inovador, quero ser verdadeiro, embora, às vezes, para ser verdadeiro, precisemos inovar. Mas não vem de fora para dentro e sim de dentro para fora.
(ACIBEL):Ao escrever PIANISTA BOXEADOR buscou inspiração em alguma historia cotidiana ou usou alguma técnica que facilitasse a criação?
(DANIEL LOPES): R: Acredito que o artista parte do cotidiano, mas enxerga o interior das coisas onde os outros enxergam a casca. Van Gogh só precisava de um girassol murcho e de seu próprio quarto pra revelar sua verdade. O artista enxerga o brilho de todas as coisas e percebe nelas portas para o Absoluto, uma espécie de panteísmo no qual tudo é santo. Para o arquiteto, ou engenheiro, ou político, uma janela é só uma janela. Para o artista, a janela pode ser o lugar onde um cachorrinho vira-latas esperava o dono todos os dias voltar da escola, até o dia em que o dono morreu atropelado e o cachorrinho continuou esperando. A Arte, a literatura, são humanas e o humano tem o dom de Mundificar a Terra, Larificar a Casa, enfim, encher de sentido a matéria, a primeira vista, opaca. Um balanço seria só um balanço, não houvesse crianças, a madeira seria para sempre opaca, mas o menino pode brincar nele e sonhar, enquanto vai e vem, e sentir saudades do pai separado que não o visita há muito tempo. Tanto o médium quanto o artista podem perceber isto. Também se pode tomar um ácido, ou ler Heidegger... Nosso planeta está destruído porque expulsamos o sagrado para o além. Começou com Platão e o processo só se intensificou com o cristianismo, que Nietzsche dizia não ser mais que platonismo para a ralé. Tinha razão. As sociedades primitivas respeitam cada árvore porque todas elas SÃO. Nossos Deuses estão no além, a Terra é o domínio do Mal, consequência da metafísica, podemos destruí-la de consciência tranquila. Jeová ainda fazia suas visitas à Terra, depois silenciou, retirou-se.
(ACIBEL): O livro PIANISTA BOXEADOR traz em seus trechos partes interessantes de um personagem que retrata sua realidade e algumas vezes ficções, como "... ver brotar na sua barriga ... um botão de rosa" , há alguma momento em que você fica em duelo entre continuar a escrever com essa riqueza que traz a ficção ou escrever mais sobre a realidade?
(DANIEL LOPES): R: O que é a realidade? A imaginação é parte da realidade. Não é o mundo historicamente instituído, ou o que é científico, que é real. A desgraça de nosso tempo é que as crianças já nascem científicas. O real é o mundo que se constrói sobre a Terra. Os pré-socráticos chamavam de physis o abraço entre o ser e o ente, não havia uma separação metafísica entre o transcendente e o temporal. O mundo não era opaco, pois tudo tinha o brilho de ser e de abrir-se para o Ser. Não é o racional que é real. Não é o científico que é real. Não é o social que é o real. O real é o Todo. Neste sentido, sou o mais realista dos escritores. Ainda que seja um péssimo escritor, sou um um bom amanuense e vejo coisas que enganam a lógica e driblam a razão.
(ACIBEL):O que o leitor pode esperar de mais surpresa no livro e onde adquiri-lo?
(DANIEL LOPES): R: Antes de terminar, gostaria de agradecer profundamente à Acibel. O que o leitor pode esperar do livro é que não seja um artifício técnico, ou uma mentira bem embalada. Foi um livro escrito por um homem, não por um autor. Durante a revisão, cada palavra que precisava ser cortada, era como uma parte do meu próprio corpo que era arrancada. Não moro só no corpo, moro no que vejo e no que escrevo. O livro é um abraço, um amigo que espera o encontro com aqueles que passaram pelos mesmo lugares. Pianista Boxeador pode ser comprado pela internet em quase todas as livrarias ou no site da editora Confraria do Vento.
quarta-feira, 10 de abril de 2013
Talvez, matéria e memória
(Claudio Brites, Terracota 2013)
O
que é a memória? Seria uma função fisiológica como outra qualquer? Se
pudéssemos abrir um cérebro em plena atividade e observar como funciona,
saberíamos exatamente o que o indivíduo está pensando? Que lembranças evoca?
Que imagens as sinapses cerebrais produziriam? É certo que as funções mentais e
psíquicas estão relacionadas, mas seriam exatamente a mesma coisa? Um vestido pendurado num prego estão relacionados; se tiramos o prego, o vestido cai; se
mudamos o prego de lugar, o vestido vai junto, mas o vestido não é o prego, ou
é? Para o filósofo francês Henri Bergson a memória é o elo entre a matéria e o
espírito, o corpo e a alma. No livro Matéria
e Memória, Bergson escreve: "Ora, desde que pedimos aos fatos indicações
precisas para resolver o problema, é para o terreno da memória que nos vemos
transportados. Isso era de esperar, pois a lembrança – conforme procuraremos
mostrar na presente obra – representa precisamente o ponto de intersecção entre
o espírito e a matéria”.
É este continente impreciso, a
lembrança, a memória, que Claudio Brites investiga em seu primeiro romance, Talvez (Terracota, 2013). O autor não constrói, como era de se esperar em
se tratando de matéria tão evanescente, um romance linear, pelo contrário;
assim como a própria memória é feita de recortes, o romance é composto por fragmentos.
Em vez da palavra definitiva, que rotula sem deixar margens para o virtual, tão
em voga na literatura contemporânea, Claudio adere à palavra sugestiva, como se
o narrador também encontrasse a história na medida em que escreve.
O enredo nos conta a história de Pedro,
um homem que tenta reconstruir/recuperar seu passado antes que ele se perca de
vez. O narrador–protagonista, entre outras coisas, rememora seu pai, o tempo do
serviço militar, uma mulher possivelmente assassinada na Avenida Paulista,
centro financeiro do país... Estes acontecimentos resumiriam sua existência?
Seriam o mais importante em sua vida? Talvez, talvez.
A investigação da memória não é um
tema literário novo, pelo contrário, autores poderosos, de Borges a Proust,
modelaram sua obra em cima desta mesma matéria. O diferencial do livro de Brites
é a linguagem enxuta, incisiva, popular, que chega mesmo a flertar com o brega.
Livro para lá de interessante, que
li numa sentada só.
Recomendo.
Abaixo, o parágrafo que abre a
narrativa como degustação:
“A memória é uma caixa de sapatos
cheia de recortes. A minha está à deriva em uma enchente. Fico pensando até
quando o papelão irá aguentar e então se desfazer e o papéis afundarão, as
cores, as letras, tudo borrado ao ponto de virar a resma de um celulose
primeira.”
Não se esqueça de sobrepor áudios ao
ler.
Assinar:
Postagens (Atom)



