quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

COMO UM MENINO FRENTE A DEUS

O ser cordeiro não é incapacidade de ser leão.
Ser cordeiro é crer que a doçura pode mais que a violência.
E isto de ser cordeiro não se define pela espera de um pastor:
Que dite caminhos, e observe costumes, e cague regras, e cobre dízimos.
O cordeiro vive livre pela montanha,
E, quando precisa estar só, também sabe se vestir de lobo.
O ser cordeiro remete à busca de um coração macio,
Receptivo;
No qual o Cristo-criança - chamado Outro - possa ser acolhido e cuidado.
Feito a pecadora, o cordeiro almeja ajoelhar-se aos pés divinos,
E lavá-los com as próprias lágrimas, e secá-los com os próprios cabelos,
E chorar de alegria; semblante-paz-plenitude; porque o Senhor voltou pra casa.
A quem muito amou, muito será perdoado.

sábado, 15 de dezembro de 2018

A ALMA QUE DEUS BEIJOU NA BOCA


Era um filhote de porco espinho parecido com todos os outros.
Só que sua pele,
Feito manto de Deusa-mãe,
Fora vestida ao avesso.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Visões de Dó


Menino ainda, achava meu pai parecido com o incrível Hulk.
Não quando estava verde e forte,
Mas depois,
Quando ia embora:
Cabeça baixa, olhar piedoso
E era apenas um homem,
Caminhando rumo ao desconhecido.

HERANÇA


Quero falar de coisas que, sendo idadosas, são ainda novas:
Velho com chapéu de jornal,
Madeira marcada,
Carro de boi de brinquedo,
Uma canção da jovem guarda;
A senhora que cultiva orquídeas e tranças:
- Tu és moço tão belo, vou dar-te um bezerrinho – ela diz.

Ser é acumular:
O bebê acumula pai, avô e tataravô.
O velho acumula a criança, o jovem e o homem.
Tudo é novo e velho ao mesmo tempo.
Desmontada a matrioshka, nosso destino não é a cova,
Mas a erva e o coração daqueles que cantam.

sábado, 8 de dezembro de 2018

FEITIÇO


A força não é ausência de delicadeza:
Vê como a tigresa lambe a cria,
Enquanto a amamenta.
A delicadeza não é ausência de força:
Contra a densidade do concreto,
Uma roseira abre fissuras,
Na travessia de pedestres do viaduto da China.
Quem conhece sua força
E, ainda assim, preserva a delicadeza imanente,
Descobre em si macho e fêmea
E tanto pode ir à guerra,
Quanto pode cuidar da cria.
Torna-se, portanto, a Fêmea do sol;
O Senhor da lua,
CAVALO:
Encantador dos dias.

domingo, 2 de dezembro de 2018

DE TUDO O QUE ACONTECE

(Sobre amizade e amor)
De tudo o que aconteceu,
Não me lembro mais de uma briga!
Ficou a lembrança de comermos da mesma panela,
De bebermos do mesmo copo.
O vinil rodando sem parar, acariciado pela agulha,
Os instrumentos espalhados pela casa,
Livros sobre as camas.
No final, o que fica é a amizade,
Vontade de cantar junto de novo ao redor da fogueira
No campinho da moradia.
De tudo o que acontece:
As brigas, palavras rudes, louça suja,
Chagas guardadas, enroladas em jornais antigos, na gaveta da pia;
O que vai ficar, quando um de nós se for, amor: o Amor.
Essa vontade de caminhar ao lado,
Dividindo a jornada da vida.
No final, as alfinetadas cotidianas, o chuveiro queimado, as contas atrasadas,
Viram pó.
Fica a lembrança do dia em que nos conhecemos.
E o velhinho ou velhinha que ficar só no mundo,
Mal saberá dar o nó dos próprios cadarços.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

LUTO 2 - O LIVRO DE JÓ



Até ontem, participava de uma corrente indicando alguns livros. Procurei me ater a um único gênero, o romance e, ainda assim, muitos grandes romances ficaram de fora. Fiquei pensando então: se pudesse indicar a alguém um único livro, qual seria? Resposta: a Bíblia, sem dúvida (nem mesmo o Tao Te Ching). A mesma Bíblia que Dostoievski leu e releu inúmeras vezes nos dez anos em que esteve na Sibéria. E, se homens imensos, como Nietzsche e Cioran, criticaram-na, principalmente O novo testamento, é porque estavam entranhados demais daqueles textos, precisavam diminuí-los dentro de si para construírem a própria obra. A gente percebe assim, fácil, a diferença entre a grandeza de Nietzsche e a pequenez dos nietzschianos; bem como podemos perceber a diferença entre Jesus Cristo e aqueles que se dizem cristãos. O grande problema da Bíblia é que ela é poesia e a maioria das pessoas a leem como se fosse um jornal. Do ponto de vista de uma sensibilidade poética - nem sequer falo de religião -, não há narrativa mais bonita que a do menino pobre, filho de carpinteiro, que nasceu em uma manjedoura, provindo de uma espécie de gueto, de favela, de periferia e que, sem ir muito longe, sem ter tido instrução formal, se tornou o maior homem do mundo. 
Por outro lado, há livros na Bíblia, principalmente no Antigo Testamento, que também me deixam incomodado. Não consigo conceber um Deus ciumento, capaz de exigir o filho único de um pai, de mandar seus filhos para o fogo pela sua desobediência. Se eu, que sou um ser completamente imperfeito, jamais abandonaria um filho, como a Perfeição poderia fazê-lo? Como ainda ontem falava de luto, lembrei-me de um livro que, desde menino, deixava-me indignado, o livro de Jó. De que modo pode um Deus amoroso, do alto de sua grandeza, cair numa provocação tão corriqueira? E, mais, como pode um Deus amoroso brincar assim com o destino humano? Como pode um Deus ter um EGO tão grande? E, o pior de tudo, como pode um Deus amoroso desconhecer qualquer coisa de psicologia? Do próprio coração humano? Está escrito: “Depois que Jó orou por seus amigos, o Senhor o tornou novamente próspero e lhe deu em dobro tudo o que tinha antes”. Está escrito ainda que Jó teve mais sete filhos e três filhas e é exatamente aí que eu me pego. Primeiro porque as filhas e filhos são mencionados como se fossem patrimônio; e, segundo – aqui a questão do luto – os novos filhos eram outros! E cada ser é insubstituível! Como disse ontem, no luto queremos ser fiéis aos que se foram... Pode ser que, naquela época, os costumes fossem outros; mas o amor é atemporal - não creio na ideia pós-moderna de que o amor é um constructo do Romantismo... Pode ser que a pequenez do meu entendimento prejudique minha leitura; todavia, para mim, em tal passagem bíblica, quem é grande não é Deus nem o Diabo, mas sim Jó, o humano Jó.