Volta às aulas, que alegria! O barulho, o entusiasmo, a música da
infância e da adolescência! Nos últimos tempos, andei mal, afastado do trabalho
e tudo. Às vezes, nosso ofício é o mais frustrante do mundo. A gente sente
enxugar gelo. A gente se sente inútil. Por mais que se tente, alguns alunos não
aprendem, outros não querem aprender, outros estão abandonados... Outros, tudo
ao mesmo tempo! Quando soube que voltaria, fiquei mais que ansioso. Minha
cabeça fez, de uma árvore, floresta inteira; de um copo de água, temporal.
Quando estamos bem, o mundo inteiro parece bem; vem ao nosso encontro de braços
abertos e, mesmo quando desanda o angu, temos mais paciência. No meio do
furacão, encontramos um centro de silêncio e paz. Agora, quando estamos mal,
nada adianta: o sol machuca, o frio congela. Tudo é dor e toda dor vem do
desejo de não sentirmos dor. Como diz o
poeta Mario Neves: a escuridão só sabe escurecer.
Volta às aulas, que alegria! E a moda agora é o tal spinner. Meu filho
também tem um. Em sala de aula dá um trabalho danado. Mas, quando se está com
olhos de ver, cada objeto, cada ser humano, é uma porta para o transcendental. De
certo modo, o spinner me lembrou os ensinamentos do taoísmo e de seu herdeiro
direto: o zen. O centro do brinquedo não se move, enquanto as bordas giram.
Assim também nos ensinam os mestres do Oriente. Mesmo que nossas emoções
estejam desgovernadas, mesmo que tudo ao redor esteja girando em velocidade
vertiginosa, devemos procurar nosso centro imóvel de silêncio e paz. Dentro do
centro do spinner há um rolamento e o centro do rolamento, como todos sabemos, é
oco. Assim também é o Tao, o Caminho Perfeito, o vazio é o que temos de mais
íntimo. No documentário de mesmo nome, Estamira, a “louca”, dizia enxergar um
vazio que transborda. Foi a mesma coisa que viu Lao-Tsé. Erguemos paredes e
construímos casas, mas é pelo vazio, pelas portas e janelas que a luz entra.
Tudo são portas para a epifania.

