segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

O potro selvagem


Horácio Quiroga*

                Era um cavalo, um potro de coração ardente, que veio do deserto para a cidade com o intuito de viver do espetáculo de sua velocidade.
                Ver aquele animal correr era de fato um espetáculo considerável. Corria com a crina ao vento e o vento em suas narinas dilatadas. Corria, estirava-se; estirava-se ainda mais e o estampido dos seus cascos sobre a terra não se podia mensurar. Corria sem regras nem medida, em qualquer direção do deserto e a qualquer hora do dia. Não existiam pistas para a liberdade de seu galope, nem normas que pusessem margem à sua energia. Possuía extraordinária velocidade e um desejo ardente de correr. De modo que se dava todo, inteiro, em suas disparadas selvagens – e esta era a força daquele cavalo.
                A exemplo dos animais muito velozes, o potro tinha pouca aptidão para o transporte de cargas. Trabalhava mal, sem coragem, nem brio, nem gosto. E, como no deserto havia pasto apenas para sustentar aos cavalos que trabalhavam pesado, o veloz animal se dirigiu à cidade para viver de suas carreiras.
                No princípio, entregou gratuitamente o espetáculo de sua grande velocidade, pois ninguém estava disposto a pagar um tostão furado para vê-lo – ignorantes todos do corredor que havia nele -. Nas belas tardes, quando as pessoas invadiam os campos próximos da cidade – e, sobretudo, nos domingos – o potro trotava a vista de todo mundo, arrancava, detinha-se, trotava de novo farejando o vento, para se lançar ao fim a toda velocidade, entregue a uma carreira louca que parecia impossível superar e que ele mesmo superava a cada instante, pois aquele jovem cavalo, como já foi dito, colocava em suas narinas, em seus cascos e em seu galope todo o seu ardente coração.
                As pessoas ficaram atônitas diante do espetáculo, diferente de tudo o que estavam acostumados a ver, e se retiraram sem apreciar a beleza daquela carreira.
                - Não importa – disse o potro a si mesmo com alegria -. Vou ver um empresário de espetáculos, e ganharei ao menos o necessário para viver.
                De que tinha vivido até então na cidade, só ele podia dizer. De sua própria fome, certamente, e de algum desperdício descartado nos portões dos currais. Foi, pois, ver um organizador de festas.
                - Eu posso correr diante do público – disse o cavalo – se me pagarem por isso. Não sei o que posso ganhar, mas alguns homens têm gostado do meu modo de correr.
                - Sem dúvida, sem dúvida... – responderam-lhe -. Sempre há alguém interessado nestas coisas... Não é questão, porém, sobre a qual se tenha ilusões... Poderíamos oferecer-lhe um pouco de sacrifício de nossa parte...
                O potro baixou os olhos até a mão do homem, e viu o que lhe ofereciam: era um monte de palha, um pouco de pasto ardido e seco.
                - Não podemos mais... E mesmo assim...
                O jovem animal considerou o punhado de pasto com que se pagavam seus extraordinários dotes de velocidade, e recordou a expressão dos homens ante a liberdade de seu galope, que cortava em ziguezague as pistas trilhadas.
                - Não importa – disse alegremente -. Algum dia irão se divertir. Com este pasto ardido poderei me sustentar por enquanto. E aceitou contente, porque o que ele queria era correr.
                Correu, pois, este domingo e os seguintes, pelo mesmo punhado de pasto, a cada vez dando-se com toda a alma em sua carreira. Nem um só momento pensou em se reservar, em enganar, seguir as retas decorativas para receber elogios dos espectadores, que não compreendiam sua liberdade. Começava o trote, como sempre, com as narinas de fogo e o rabo arqueado; fazia ressoar à terra com seus arranques, para, por fim, lançar-se a pleno galope, em um verdadeiro torvelinho de ânsia, pó e bater de cascos. E por prêmio, seu punhado de pasto seco, que comia contente e descansado depois do banho.
                Às vezes, entretanto, enquanto triturava com sua jovem dentadura os talos duros, pensava nas bolsas repletas de aveia que via através da janela, no sabor do milho e na alfafa perfumada que transbordava de outros  cochos.
                - Não importa – dizia alegremente -. Posso me dar por contente com este rico pasto. – E continuava correndo com o ventre cingido de fome como sempre havia corrido.
                Pouco a pouco, contudo, o povo que passeava por ali aos domingos acostumou-se à liberdade de seu galope, e começou a dizer entre si que aquele espetáculo de velocidade selvagem, sem regras nem cercas, causava uma bela impressão.
                - Não corre pelos atalhos como é costume – diziam – mas é muito veloz. Talvez tenha este arranque porque se sente mais livre fora das pistas trilhadas. E se empenha a fundo.
                Com efeito, o potro, de apetite nunca saciado, e que obtinha apenas o suficiente para viver com sua velocidade ardente, empenhava-se de fato por um punhado de pasto, como se toda e qualquer carreira fosse aquela que o consagraria definitivamente. E depois do banho, comia contente sua ração – a ração  pouca e minguada do mais obscuro entre os mais anônimos dos cavalos.
                - Não importa – dizia alegremente -. Em breve chegará o dia em que se divertirão.
                O tempo passava, no entanto. Palavras trocadas entre os espectadores se espalharam pela cidade, transpassaram suas portas, e chegou enfim o dia em que a admiração dos homens se assentou confiante e cega naquele cavalo de galope. Os organizadores de espetáculo chegaram em tropa para contratá-lo, e o potro, agora já em idade madura, que havia corrido toda sua vida por um punhado de pasto, viu oferecerem-lhe em disputa, apertadíssimos fardos de alfafa, maciças bolsas de aveia e milho – tudo em quantidade incalculável – só pelo espetáculo de seu galope.
                Então o cavalo teve pela primeira vez um pensamento de amargura, ao pensar o quanto teria sido feliz em sua juventude se houvessem oferecido a ele a milésima parte do que agora lhe introduziam gloriosamente goela abaixo. 
                - Naquele tempo – disse melancolicamente – um só punhado de alfafa como estímulo, quando meu coração saltava de desejos de correr, teria feito de mim o mais feliz dos seres. Agora estou cansado.
                Com efeito, estava cansado. Sua velocidade era sem dúvida a mesma de sempre, e também era o mesmo o espetáculo de sua selvagem liberdade. Ele, porém,  já não possuía a ânsia de correr de outros tempos. Aquele vibrante desejo de se entregar a fundo, que antes o  potro entregava alegremente por um monte de palha, agora precisava de toneladas da mais deliciosa forragem para despertar. O cavalo triunfante pensava largamente nas propostas, calculava, especulava profundamente em seus descansos. E quando os organizadores se entregavam por fim às suas exigências, só então tinha desejos de correr. Corria, ainda assim, como só ele era capaz de fazer; e voltava para se deleitar frente à magnificência da forragem ganha.
                Cada vez, entretanto, o cavalo era mais difícil de satisfazer, mesmo que os organizadores fizessem verdadeiros sacrifícios para excitar, adular, comprar aquele desejo de correr que morria sob a pressão do êxito. E o cavalo começou então a temer por sua prodigiosa velocidade, perguntava a si mesmo se deveria entregá-la toda em cada galope. Correu, então, pela primeira vez na vida, reservando-se, aproveitando-se cautelosamente do vento e dos largos atalhos regulares. Ninguém notou o que fizera – ou quem sabe foi até mais aclamado que nunca por isto – pois todos acreditavam cegamente em sua selvagem liberdade. Liberdade... Não, já não a tinha. Havia perdido desde o primeiro instante em que reservou suas forças para não fraquejar no galope seguinte. Não correu mais cruzando a pista, nem contra o vento. Correu sobre seus próprios rastros mais fáceis, sobre aqueles ziguezagues que mais aplausos haviam arrancado. E no medo, sempre crescente, de esgotar-se, chegou um momento em que aquele cavalo de galopes aprendeu a correr com estilo, enganando, escarceando coberto de espuma pelos atalhos mais trilhados. E um clamor de glória o divinizou.
                Porém, dois homens que contemplavam aquele lamentável espetáculo, trocaram algumas tristes palavras.
                - Eu o vi correr em sua juventude – disse o primeiro – e, se alguém pudesse chorar por um animal, eu o faria em memória do que fez este mesmo cavalo quando não tinha o que comer.
                - Não é estranho que o tenha feito antes – disse o segundo-. Juventude e Fome são o mais precioso dom que a vida de um coração forte pode conhecer.
                Potro: segue firme teu galope, ainda que ele apenas te dê o que comer. Pois se acaso chegas sem valor à glória e adquires estilo para usá-lo fraudulentamente por um banquete de forragem, o que te salvará é um dia ter te dado por inteiro por um punhado de pasto.

*Tradução: Daniel Lopes Guaccaluz


Horacio Silvestre Quiroga Forteza (Salto, 31 de dezembro de 1879Buenos Aires, 31 de dezembro de 1937) foi um escritor uruguaio famoso por seus contos, que geralmente tratavam de eventos fantásticos e macabros na linha de Edgar Allan Poe e de temas relacionados à selva, sobretudo da região de Misiones, na Argentina, onde Quiroga passou parte da vida. Sua vida foi bastante atribulada:a morte do pai quando ele tinha 4 anos,o suicídio do padrasto,a morte do melhor amigo com um tiro acidental disparado por ele,o suicídio da esposa e de seus 3 filhos. Sua obra mais famosa são os Cuentos de amor de locura y de muerte (1917; título sem vírgula no original), na qual se encontra o célebre conto A Galinha Degolada.  Em 1937, após ter sido diagnosticado com câncer, Quiroga cometeu suicídio, ingerindo uma dose letal de cianureto.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Mas não façamos literatura

Há muito desconfio da literatura. Difícil acreditar que foi minha maior paixão da juventude. Discussões acaloradas, sonhos galopantes, o futuro sorrindo cheio de generosidade, feito um gerente de banco... Agora, mal consigo ler qualquer descrição. Claro, há escritores e escritores, mas o que espero de um bom escritor é que ele esteja morto, enterrado, há sete palmos. Mal pego um livro e logo pressinto por trás dele um ego doente, um ser humano insuportável, como eu mesmo. As biografias dos grandes estão aí para confirmar. A genialidade de Shakespeare é não existir. É preciso ousar o fracasso, mas vivemos num tempo em que tudo é fabricado. A cultura é uma indústria como qualquer outra, e o que mais se vê são escritores dispostos a vender sua ferida, trair seu texto, em prol de uma edição em capa dura, uma resenha, um prêmio literário. O que importa é estar no mercado, vender-se, fazer sucesso, alimentar o ego monstruoso, encher-se de honrarias. Ninguém gagueja, todos empregam a palavra certa na hora certa, são econômicos, todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo, sim senhor. A resenha já está pronta antes mesmo do livro, o prêmio já está concedido antes mesmo do sujeito começar a escrever. Só um colegial ingênuo para acreditar na imparcialidade dos concursos literários.  Mas aí? E a Arte?  E o blues? E o drama da nossa mortalidade? E o silêncio, ou o falatório dos deuses? Pouco importam. O importante é estar na moda, fazer sucesso, aparecer, desfilar. Ainda assim, há choro e ranger de dentes: os livros não vendem. As pessoas preferem ler a biografia do Edir Macedo, duzentos e cinquenta mil tons de cinza. Não é um problema nosso, não é um problema de educação, o mundo é estúpido, brega. Na França, lê-se tanta porcaria quanto aqui. Discute-se o livro eletrônico, o kindle, o escambau. Como fazer com que as pessoas leiam? Um livro não pula, não dá cambalhota, não tem botõezinhos virtuais. É preciso que o sujeito se sente e leia e enfrente a noite. O comércio propõe livros cada vez mais superficiais. Os ficcionistas da moda procuram acatar. Por enquanto ainda não deu certo.
            Há muito desconfio da literatura. Discussões estéticas, formalismo, esteticismo. Tudo o que cerca a literatura é afetado, falso. Admiro escritores (desde que estejam longe de mim), mas detesto literatos. O escritor se preocupa com a vida, com a travessia, com a dor e o mistério de ser e de saber o ser, procura no leitor um amigo. O literato se preocupa com a repetição ou não de palavras, com a forma mais criativa de dizer o óbvio, com o cocktail na noite de lançamento, procura no leitor um cliente. Não é para menos, com o espírito reduzido a sinapses cerebrais, o carinha descolado tomou o lugar do gênio. O livro é feito de acordo com o pensamento do especialista. No entanto, é o artista e não o especialista, quem faz o novo. Nossa vanguarda é velha, museu de grandes novidades, códigos ocos sob a análise de sempre, eterno retorno do mesmo. A escrita feita acessório para a vida, como uma echarpe, ou um cachecol; não a tábua de salvação para quem se encontra no mar, a jangada da medusa; não a fenda por onde jorra o magma entre as placas tectônicas; não o fogo que aquece dois mendigos numa noite de chuva... O absurdo de um escritor sem necessidade de escrever, mas que escreve porque sonha ser celebridade. A ficção é uma mentira que toca a verdade onde a verdade não alcança, onde nem o ficcionista sabe. Não é no macaco que o homem se realiza, é no símbolo, no mito. Como fabricar o mito? O mito é natural como uma semente que desabrocha, como um Deus na ruína. Tudo pode ser construído, para que Deuses, eles dizem, se um medicamento cura o espírito? Para que a sombra e o verde se já existem árvores artificiais?Para que o rosto se existe o botox? Para que a Arte se o leitor é uma ovelha do marketing? A ficção é, aqui, hoje, um constructo de fora para dentro. Há de chegar o dia em que se escreverá não uma resenha sobre um livro, mas um livro sobre uma resenha.
            Há muito desconfio da literatura, quebra cabeça com palavras, lego para crianças científicas. Digo não ao texto que não é companhia, partilha, travessia, alta ajuda para a vida. Digo não ao que escreve e não põe os pés no riacho, não sai na chuva, não arrisca ser si mesmo. Kierkegaard , filósofo da existência, distingue três modos de vida, o estético, o ético e o religioso. A Literatura é concubina do modo estético, o mais superficial. Acho que por isto certas narrativas, certas descrições, têm me entediado tanto. Boa parte do que se escreve não é espelho e escuridão, nem mesmo espelho e lâmpada. Não há diferença entre tais textos e a mulher que se preocupa com a cor dos cabelos, o desenho da sobrancelha, o botox na ruga da testa, mas que quando abre a boca só diz merda, é oca, não sabe experienciar a si mesma e está tão distante da própria alma quanto um cuspe de uma estrela. Por muito tempo fui apaixonado por literatura, mas, como toda paixão, passou. Apaixonei-me também por filosofia, passou, da mesma forma. Sem o jargão imponente, boa parte do que é chamado de filosofia não passa de encheção de linguiça, pretensão de colocar margens no mundo. Agora tenho lido textos religiosos, das mais variadas crenças, bula de remédio, cartas, diários e autobiografias. Interesso-me pelo modo como as pessoas decidem viver suas vidas, que caminhos decidem tomar, de que maneira atravessam os períodos negros. A última autobiografia que li, do Neil Young, tem o seguinte prefácio: “QUANDO EU ERA JOVEM, eu nunca sonhei com isso. Eu sonhei com cores e quedas, entre outras coisas.” Belo não?
            Para encerrar, cito não uma novela de um poeta, mas a carta final de um ficcionista: “Mas não façamos literatura. Pelo mesmo correio (ou amanhã) registradamente enviarei o meu caderno de versos que você guardará e de que pode dispor para todos os fins como se fosse seu. [...] Adeus. Se não conseguir arranjar amanhã a estricnina em dose suficiente, deito-me para debaixo do metro... Não se zangue comigo.”[1] Sinto aqui a voz do sangue. Um Goya louco vale toda a obra de Mondrian.





[1] Mário de Sá-Carneiro em carta a Fernando Pessoa, 31/03/1916.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Promoção Um, livro de Geraldo Lima


Em UM, o protagonista Paulo, ex-seminarista e professor de faculdade, espera, em seu apartamento em Brasília, por um acontecimento fantástico — uma epifania—, que poderia mudar o curso da sua vida. Enquanto espera, relembra seu relacionamento fracassado com a extrovertida Ana Paula, uma aluna que ele conheceu na faculdade onde leciona; sua amizade com a mística Ariadne, que tenta ajudá-lo ou curar sua alma enferma, como ele sempre diz; sua relação tensa com a mãe convertida ao protestantismo, a qual sempre sonhou vê-lo, primeiro, sagrado padre, depois, pastor; as longas discussões com padre Arthur, responsável pela sua orientação religiosa; e a imagem serena do pai, no qual sempre encontrou um porto seguro.

Toda a narrativa transcorre no espaço de seis horas: a espera inicia-se, mais ou menos, às 19 horas e finda à meia-noite. É nesse espaço de tempo que o protagonista relembra momentos de sua vida reclusa, consumida pela solidão e pelo rancor. Como teve, ou supõe ter tido, uma visão da face de Deus, espera de novo por essa manifestação divina. Mas, como já não pode crer, tudo isso lhe parece impossível. Nesse momento, ele sente como se tudo tivesse se condensado e fosse explodir; essa explosão é interior, psicológica. Sua mente, inquieta, viaja de um ponto a outro em busca de respostas e sossego para sua alma aflita. Mas a existência está fragmentada, e seu ser, fraco, incapaz de levar adiante qualquer compromisso, parece prestes a sucumbir aos apelos da morte.

A narrativa, marcada pelo emprego de uma linguagem predominantemente poética, segue o fluxo de consciência do narrador-personagem; a memória e a observação de situações cotidianas é que determinam o eixo narrativo. Presente e passado alternam-se constantemente.

Autor: Geraldo Lima

Editora: LGE Editora

Gênero: romance

Nº de páginas: 115

ISBN: 978-85-7238-407-0

Sobre o autor

Geraldo Lima é autor de outros livros, entre eles Baque (contos, LGE Editora/FAC) e Tesselário (minicontos, Selo 3 x 4, Editora Multifoco). É autor, também, das peças de teatro Error; Trinta gatos e um cão envenenado e Enquanto tudo se desmorona ao redor. É colunista dos sites O BULE, Portal Entretextos e Dona Zica tá braba. Colabora com o Jornal Opção (GO) e Jornal de Sobradinho (DF). Tem textos publicados em jornais e revistas impressas e eletrônicas. Mantém ainda o blog Baque.

Onde comprar

O livro pode ser adquirido na loja virtual da Livraria Cultura ou diretamente com o autor (e-mail: gera.lima@brturbo.com.br).

Preço promocional: R$ 14,90 (com frete incluso)

* Promoção válida até o dia 31 de dezembro de 2012.

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quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Pianista Boxeador

 Sempre gostei de rosas vermelhas!

Difícil é te explicar porque foi que resolvi escrever depois de tanto tempo. Tudo parece tão absurdo que eu não consigo sequer imaginar um meio de começar a te contar. Talvez pelo início seja o melhor meio, mas é difícil também saber onde e quando tudo se iniciou. Vou começar então por onde a gente terminou. Naquela manhã chuvosa de domingo em que te perdi pra sempre. Talvez tudo tenha começado exatamente naquele momento, quando comecei a descer as escadas pra fugir do teu quarto e continuei a descê-las, mesmo quando cheguei ao porão. E continuei a descê-las, mesmo quando não havia mais escadas e eu arranquei as lajotas com as mãos e continuei a cavar e a descer até me embrenhar entre os vermes, longe das flores. Você sabe, sempre gostei de rosas vermelhas, embora aqui embaixo nunca tenha havido muitas delas.

Quando saí da tua casa naquele dia, percebi que não havia mais jeito, que não havia mais um modo de voltar àquele passado onde havíamos sido felizes, porque eu, sempre eu, tinha destruído tudo outra vez e, dessa vez, eu o sentia, era pra sempre. Então fugi. Abandonei os ringues, as luvas vermelhas, o cinturão de campeão brasileiro de boxe, categoria peso pesado. Então fugi e abandonei os pequenos palcos e o meu piano branco, e quebrei meus discos de vinil forte, e decidi que rolaria no estrume até onde minha alma pudesse suportar.

Voltei pro crime. Você sabe que tenho habilidade pra isso. Retornei também ao pó que sempre me fez subir, mas que também já me passou rasteiras imensas. Estava sujo outra vez, mais sujo que nunca. Entretanto, no panorama negro da noite, entre cartas de baralho, carreiras, copos sujos de vodca, de conhaque e homens que atiravam com a mesma espontaneidade com que sorriam, muitas vezes me vinha nítida aos olhos a tua figura. Então eu me levantava no meio do jogo e tudo, e corria pra tentar tocar teus cabelos sempre amarelos e soltos, mas, quando chegava perto e tocava, só havia a noite, quente e densa. Aí eu voltava pra mesa e sorria e meus companheiros, todos tão subterrâneos e brutos, alguns até mais subterrâneos e brutos que eu, aconselhavam-me para que parasse com o pó e deixasse um pouco o conhaque e a vodca de lado. Mas eles não entendiam que eu estava decidido. Não entendiam que nós havíamos sido crianças juntos. Você se lembra de quando me emprestava sua bicicleta verde e, à noite, brincávamos de pega-pega até nossas mães nos buscarem furiosas? Às vezes você ia na bicicleta e eu ia a pé, outras vezes eu ia na bicicleta e você ia a pé.  As mães ainda existiam naquela época. Mas agora não há mais mães. Agora está tudo fora de lugar e eu apunhalei meu anjo, esqueci da nossa ternura, do Deus em quem confiávamos: TE PERDI PRA SEMPRE!

***

Arquitetar crimes não é como compor canções, ou estudar um adversário no quadrilátero. Arquitetar crimes tem segredos e idiossincrasias específicas. Eu elaborei assaltos perfeitos. Transportei drogas em lugares que ninguém jamais poderia imaginar. Mas um dia falhei. Lembra do grande roubo à agência central do Banco do Brasil? Fui ferido. Na barriga. Quase morri, mas os anjos do mal que comigo andavam conseguiram um médico que aceitou me operar,  mesmo num barraco de madeira podre onde a noite entrava por todos os lados, entre as frestas. Sobrevivi. Ganhei uma cicatriz imensa na barriga e algumas dezenas de rugas em cantos do rosto onde a barba não pode encobrir.

Estava novamente de pé, na noite, e novamente o pó me acolheu e me levantou. Por pura maldade atirei num cachorro branco que latia à noite na rua Guaianases. Atirei também em alguns dos que se esforçaram pra me salvar. Não pelo egoísmo de ficar com todo o dinheiro, mas pelo simples gosto da traição, da mais vil traição. Quando era pequeno também fiz desaparecer a aliança do teu padrasto, isto mesmo, fui eu quem roubou a aliança, e você apanhou até que na sua pele brotasse imensos vergões negros, feito lagartas. Você sabe... sempre gostei de rosas vermelhas.

Mas vivemos sob as chagas de Cristo e às vezes, sempre na noite, eu chorava. Chorava pela loucura e o mal que usavam meu corpo, minha mente, meus braços. Chorava pelo pai que nunca tive. Chorava pelo nosso bebê que fiz você arrancar da barriga. Chorava por todos os crimes que havia cometido e por todos que sabia que ainda iria cometer. Chorava por ter ferido você, o anjo que perdi pra sempre. Longe de você, das luvas, das teclas, toda energia boa ou má que existia em mim e que poderia se transformar num beijo terno, num bom cruzado no ringue ou numa canção bonita se tornava atos vis e criminosos.

Mas vivemos sob as chagas de Cristo e um dia, quando eu me sentia superior e imortal, vi brotar na minha barriga, ao lado da cicatriz da operação, um pequeno nódulo, talvez o primeiro sinal de uma inflamação. A princípio não dei atenção alguma, apenas continuei, na noite. Só que, quando amanheceu, vi que o nódulo havia explodido e que de dentro dele, além do pus, saía um pequeno pedaço de tecido vermelho. Tinha textura delicada, o tecido, parecia camurça, mas, por incrível que pareça, era ainda mais macio que a mais macia das camurças.

Ó Deus, por que não fugimos pro meio do mato enquanto ainda era tempo? Por que não fizemos uma casinha simples, no pé de uma serra onde nas janelas houvesse cortinas brancas, como se todas elas, as janelas, estivessem usando vestidos de noiva? Por quê?

Agora é tarde, porque aquele pequeno pedaço de tecido que brotou na minha barriga, aos poucos, foi crescendo. E até que era bonito, mas o pus continuava a correr o tempo todo junto a ele e, Deus, como doía. Não soube muito bem o que fazer. Eu nunca soube muito bem o que fazer. Apenas ficava lá, suportando a dor e acariciando com a pontinha dos dedos aquele vermelho tão pequeno e delicado.

Vermelho que crescia e desabrochava e parecia sugar todas as minhas forças, uma vez que eu me sentia fraco e minha pele, e meus olhos, estavam anêmicos, amarelos. Todavia, apesar da dor e do cansaço, eu estava feliz, porque do meio de todo aquele pus e daquela ferida, que agora era enorme, surgia algo bonito.

Quer saber o que era aquele pedaço tão singelo de vermelho? Eu tive de esperar mais de uma dezena de dias pra que ele se mostrasse inteiro. Você não vai acreditar, eu mesmo não acreditaria se uma outra pessoa me dissesse. Apesar de, hoje, isto me parecer tão normal quanto uma espinha, naquele tempo eu custei muito a acreditar. Cheguei a pensar que estava enlouquecendo, ou que o pó já me dava alucinações. É difícil pra qualquer um ver brotar na sua barriga (violento, vermelho, macio, ereto) um botão de rosa. Isto mesmo, você sabe... sempre gostei de rosas vermelhas!

Só que a coisa não ficou num botão apenas. Dia após dia, sugavam-me as forças, os galhos, os espinhos, as flores de toda uma roseira. Meus olhos, eu via no espelho, não tinham mais cor alguma. Cada espinho, da roseira que crescia, que passava pela minha barriga, fazia-me sentir dor como a de um dente arrancado sem anestesia. Mas a roseira era linda, a mais linda que eu já havia visto. Era bom acordar pela manhã e vê-la lá, tão imponente na minha barriga. Difíceis  eram as coisas simples, como conseguir comida, ir ao banheiro ou levantar da cama. Eu já tinha perdido trinta quilos. Era bonita, a roseira, mas estava me sugando a vida, e eu sou feio, egoísta e mal. Dar cabo da roseira era preciso, antes que ela desse cabo de mim.

Preparei minha navalha de cabo de marfim, um pano branco e o álcool indispensável. Manhã de outubro. Abri a navalha. Manhã de outubro. Bebi e fechei os olhos. Manhã de outubro.  Segurei o pezinho da roseira com uma das mãos e com a outra passei-lhe a lâmina... O sangue jorrou e, por Deus,  não existe dor maior no mundo... Apertei o pano forte contra a ferida e tentei me levantar, mas minhas vistas se escureceram e eu achei que tinha morrido.

Entretanto acordei e me sentia forte. Continuar a viver era necessário e até que era bom poder viver, e caminhar pelas ruas, e ser livre. Mas minha liberdade, eu ainda não sabia, duraria pouco, pois a chaga da barriga mal cicatrizara e já me brotava outra roseira no braço direito. Novamente repeti o processo da navalha, do marfim, manhã de novembro. Mas aí começou a nascer o vermelho na minha perna. Da perna espalhou-se para a virilha e por mais que eu repita, até hoje, o processo da navalha, das toalhas brancas, sei que não vai adiantar.

Amanhã é natal. Cinco anos que eu não te vejo. Tenho aqui comigo um revólver. Quando terminar de ler esta carta, procure no jardim da sua casa a rosa que está num vaso de cerâmica branca. O corpo estará um pouco mais distante, na praça em frente à catedral.

Se eu pudesse começar de novo, mudaria tudo.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Fruta - 3º capítulo


Jude

   Dois meninos. Dez, no máximo doze anos. O moreno claro, de cabelo liso, é Jude. Tem esse nome por causa da música dos Beatles mesmo. Não gosta muito do nome. Na escola, nos primeiros dias de aula, alguém sempre diz: A Jude está? E isso aí é motivo de piada. De cara, ninguém acha que Jude é um menino. Natural. O outro é Evilásio Santos Neto, mas toda a molecada o chama de Caroço. Só quem é da sala dele na escola sabe que o nome é Evilásio. Estavam, ainda há pouco, jogando bola nos campinhos do cemitério. Quem é que, nessa idade, na periferia, não sonha ser jogador hein? É a única maneira de ser herói. E quem é que nesse mundo não sonha em ser herói, hein? A gente ganha, do nada, um nome, um par de pernas e um rosto que ninguém mais tem. É preciso defender isso de algum jeito. Quem joga, tem de ter gana. Não aceitar ser só mais um.
   - Aí Caroço... Se ligou no rolinho que eu dei no Pelé? Vup. Foi só um, ligeiro até umas hora, veio que nem uma vaca louca, vap, só encostei, passou.
   - E aquele golaço que eu fiz hein? Pou... Uma bomba, no ângulo, ainda triscou na trave.
   - Golaço mesmo.
   - Aí, vamos dar a volta lá pelo riozinho?
   - Que nada, mó rolê, tio. Bora cortá por dentro do cemitério mesmo.
   - Firmeza então.
   Atravessaram o portão principal do cemitério. Quarta-feira. Poucos enterros.
   - Compra uma pipoca aí, Jude?
   Há um velho com uma carroça de doces ao lado do portão principal.
   - Duas pipocas aí, tio, e o troco de bala.
   Cada um pega um saquinho de pipoca. Enchem os bolsos de bala. Jude passa a mão na bunda do outro.
   - Ô veado, deixa de putaria.
   - Só queria ver como é que tá o meu gadinho.
    - Por que não pega aqui? – diz o Caroço apalpando a parte da frente.
   Sentam-se sobre um dos túmulos para chupar umas balas.
   - Bala da hora, essa de leite, nénão?
   - Que nada, essa de coco aqui é a melhor.
   E descasca mais uma balinha. E outra de coco e leite, mistura com a de hortelã, um pouco de pipoca por cima de tudo. Mistura que mistura e nhac... nhac...
   - Ei, Caroço.
   - Falaí.
   - Alguma vez você já parou pra pensar que um dia a gente vai trocar de lado?
   - Como assim?
   - Um dia a gente vai tá do lado de baixo, truta, tudo escuro e silêncio. Olha esse maluquinho aqui. – Aponta para a foto preta e branca de um garoto em uma das lápides. – Um dia ele foi que nem a gente. Comeu, bebeu, jogou bola... Agora não deve ter mais nem o osso.
   - Que conversa mais besta, Jude. Eu é que não penso essas bobage. Se a gente morrê, ainda vai demora pra caramba.
   - Vou te falar um barato, Caroço, sabe que tu é meu camarada. Tem noite que eu nem durmo pensando nessas coisa, perco o sono. Soco uma, soco duas e nada de sono. Aí fico me sentindo mal porque, afinal de contas, Deus pode tá lá no alto vendo minhas sacanage, será que existe mesmo Deus? E se não tivé Deus nenhum?
   - Tu só pensa bobage hein truta. Claro que Deus existe, se não o que é tudo as coisa que tem no Mundo? De onde é que vem as árvore? A terra? Os rio? Nóis respira só porque Deus deixa.
   - Sei não. Sei não mesmo. Tu não entende.
    - Ainda tem bala de chocolate com leite?
   - Deixa eu vê – revira o saco de papel com as balas – tem sim, segura aí.
   Joga a bala para o outro.
  – Será que um dia a gente vai consegui? - pergunta.
   - Consegui o quê, Jude?
   - Jogá bola de verdade. Num time grande e tudo.
   - Claro que vai. Não conheço ninguém que joga bola melhor que tu e eu.
   - É, mas não sei não.
   - Tu só sabe pensá que vai dar tudo errado. Pensa que vai dá certo de vez em quando.
   - Verdade, vai dar tudo certo sim. - responde Jude, como se pudesse se enganar e continua: - Vamboraí. As bala já era.
   - Vamo aí.
   Saem caminhando em direção ao portão dos fundos do cemitério.
   - Ei Jude, quando é que tua mãe vem te ver?
   - Só na outra segunda.
   - E aquele negócio lá de te mudá de escola, ela desistiu?
   - Bati o pé, falei que não ia praquela escola de veado não. Só tem emo e colorido lá. Tô fora.
   Na rua, encontram uma garrafa pet de refrigerante vazia. Um chuta pro outro que devolve pro um.
   - Ei, Jude, sua tia pediu pra você levar uma couve-flor. Já separei aqui. - diz o dono da quitanda enquanto coloca uma couve-flor na sacola.
   - Só isso mesmo que é pra levar, seu Manuel?
   - Quando ligou, ela só pediu isso.
   O menino apanha a sacola e chuta mais uma vez a garrafa para o outro.
   - Vai jogá bola mais tarde?
   - Sei não, cola aí depois, ou liga.
   - Beleza, falou.
   - Falou.
   Jude entra em casa. Mora com a tia-avó. Só os dois. A mãe aparece uma ou duas vezes por mês. Sabe que ela, a mãe, gosta dele, mas esperava mais. Ele cuida da tia e a tia cuida dele. Ah!, se um dia conseguisse jogar num time grande...
   - Bença, tia Fátima. - diz ao mesmo tempo em que coloca a couve-flor sobre a mesa e oferece a mão à tia, que vira, calculando, centímetro por centímetro o perímetro de sua cozinha, dá alguns passos à frente, apalpando com a mão esquerda a borda da mesa, enquanto com a mão direita segura a mão do menino e responde:
   - Deus te abençoe.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Fruta - 2º capítulo



Clara

   O nome era Clara, mas lá chamavam-na Sabrina. Aos outros podia parecer que sim, mas seu trabalho não era fácil, não mesmo. Ela era seu corpo? Seus olhos e boca? Suas mãos e dedos? Seu sexo e nariz? Ou era outra coisa qualquer? Suas ideias e sentimentos, por exemplo? Que é espírito? Não era o leilão do corpo que machucava. Não, com o tempo acostuma-se. O que doía era a impossibilidade da paixão. Desejo sublimado pela banalidade. Um obeso sem papilas gustativas, sério. Com o tempo não existem clientes feios ou bonitos, todos os bonecos são o mesmo boneco. Quando Lúcia Se Deitava, pensava nos navios coloridos que costumava ver em Santos aos onze, doze anos. Ela, quando se deitava, não pensava em nada, nem mesmo nas freiras que tinham cuidado dela na infância, nem mesmo no menino de dentes tão brancos. Anoitecia e não havia estrelas no céu que era. Demorou, mas aprendera a se desligar. Não porque sofresse, principalmente porque se entediava. Entretanto, havia o menino, que era corpo ágil, sorriso e um sonho de futebol. Havia também a tia cega, que gostava de cozinhar e que cuidava do menino com tanta delicadeza. A verdade é que precisava do dinheiro, enquanto não terminava a faculdade de jornalismo e tinha tantos sonhos, dos outros, pra equilibrar. Que fazer se o bezerro de ouro comandava o mundo? No pátio dos fundos lá do colégio onde as freiras ensinavam, havia um poço de segredos de Santo Agostinho. Abbadón é um anjo louro... Bonito. E o que é que se pode dar a um cliente além do mistério? Clara, Ana ou Sabrina? Podia alugar o corpo, mas, a parte maior do que era, perfumava-se e partia para um baile ao lado das esferas. Havia esferas incandescentes, ao lado das quais outras esferas, mais frias por serem menores, giravam. Havia esferas brancas, vermelhas, amarelas e azuis. O universo visto de fora é bonito. Parece o brinquedo de um Deus-Menino. Arrancava os olhos da face, fechava as pálpebras e os olhos ficavam lá do alto, soltos... Por vezes observando o corpo na cama e o boneco por cima, ou por baixo, ou do lado... Por vezes sentindo o... Coisa entre coisas, objeto entre objetos. Então era isto? O que é este aglomerado de matéria que pensa e que pisca, cujo nome é EU? O eu? O eu é a corda que prende o feixe de lenhas. Pra ela era fácil desfazer o nó e se soltar. Talvez fosse um dom. Praticava porque gostava, não porque quisesse se aperfeiçoar. Alguns cantam, outros pintam, outros erguem casas. Ela dispersava-se, seu dom, sua obsessão, dom é só um outro nome para obsessão.
   Agora, apesar do som alto e do constante piscar das luzes que ela, em sua loucura, associava a estrelas, Clara esperava. Esperava o quê? O próximo cliente? O fim da noite? O fim do fim de semana? O fim do mês? O fim da vida? Há um mês fora ao dentista. Passara por doloroso tratamento de canal. Na sala de espera, ela e mais duas meninas aguardavam, olhando-se mutuamente com apreensão. Ouviam a música dolorosa do motorzinho trabalhando interruptamente lá dentro. Em silêncio, questionavam-se: quem será a próxima? Essa espera angustiada é a Viagem. A Terra é a sala de espera. E o dentista é a Morte, cujo instrumento de trabalho não é uma broca, ou uma foice, mas uma imensa britadeira. Não há como fugir, porque a porta do consultório está hermeticamente trancada pelo lado de fora. A secretária que é Deus e que poderia abrir a porta comeu demais no almoço e agora cochila. Sua sesta dura setecentos anos. Não adianta bater à porta. Os pacientes sabem disso e esperam com paciência, enquanto da sala do dentista escapa um grito de desespero. No vaso, ao lado da mesa de revistas, um girassol gargalha amarelo.
   - Vamos pro quarto?
   - Você pode me adiantar o dinheiro?
   - Quanto é?
   - Duzentos reais.
   - Tá aqui.
   Ela guarda o dinheiro no bolso e observa o rosto do rapaz. Branco. Bonito. Sorri. Sorriem. É que há muito tempo todos os bonecos eram o mesmo boneco pra ela. E, no entanto, agora, conseguia ver a beleza no rapaz com cicatrizes nos pulsos e sobre os lábios. Essa dos lábios, cicatriz, provavelmente era desenhada por uma cirurgia para a correção de palato cindido. Ainda não sabia que o nome dele era Matheus.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Fruta - 1º capítulo



Matheus

   Então ela não conseguia se dispersar. Estranho, houve um momento em que ambos não sabiam o que fazer com as mãos, estranho mesmo.
   - E aí?
   - E aí o quê?
   - O que você vai querer, ué?
   - Tire a roupa.
   O vestido vermelho escorregou fácil e se deitou preguiçoso no chão, feito um prato de cerejas. Ele acariciou a maçã e mamou um pouco. Pediu que ela se virasse, ajoelhou no chão e passou a língua manchada de nicotina sobre o morango: maduro. Dos lábios dela escapou um gemido. Agora sabia o que era a verdade. A verdade é uma fruta vermelha e todas as filosofias nunca foram mais que a ausência de cor.
   Deitaram-se nus. Abraçaram-se e foi então que ele aconchegou a cabeça entre os seios dela e começou a chorar. A princípio em silêncio, só as lágrimas escorriam. Aos poucos, porém, começou a soluçar e a gemer num choro convulso. Em determinados momentos, chegava a perder o fôlego.
   - Chiiiu – Ela disse, afagando-lhe os cabelos, e começou a recitar sussurrando o trecho do Drummond que decorara desde os tempos imemoriais do colégio de freiras. – Vamos, não chore, a infância está perdida, a juventude está perdida, mas a vida não se perdeu. O primeiro amor passou, o segundo amor passou, mas o coração continua.
   - Não é verdade, o coração não continua. Só dói o tempo todo, como uma rosa pisada e repisada. Uma rosa sobre a qual sambaram.
   - Ainda assim a rosa é uma rosa e continua vermelha.
   - Você se aproxima em ondas, eu sei por dentro, estávamos em pólos opostos da circunferência, mas, ao longo do tempo, fomos girando em círculos concêntricos e agora estamos aqui. Eu te pressinto desde os tempos em que andava procurando pela Galileia. O impacto do encontro me petrificou.
   - E por que é que você está chorando tanto? O encontro não é bom?
   - O espetáculo me emociona. É a beleza que me faz chorar. Tudo, absolutamente tudo, está em chamas, você não percebe? Lá fora, homens incendiados caminham sobre ruas incendiadas. Pardais incendiados cantam na copa de árvores incendiadas. Carros incendiados chocam-se com trens incendiados. Os números, mais que as palavras, explicam tudo, mas qual equação desvenda a chama?
   - É um espetáculo bonito mesmo, mas é triste.
   - Sim triste, e os atores, que são ao mesmo tempo espectadores uns dos outros, estão distraídos. Alguns cochilam. Outros estão embriagados demais para se lembrar qual era a fala. O bebê não se envergonha de seu sexo, ou de suas fezes, mas nos homens colocamos roupas; e nas roupas, carros; e nos carros, garagens; e nas garagens, casas; e nas casas, telhados. Idolatramos a casca, não a fruta. É preciso esconder a criatura, pois sempre angustia o que perece. E o que defeca, morre, e o que procria, morre, como qualquer gato, qualquer cachorro. No lado escuro da Lua brotam flores vermelhas, azuis, amarelas e roxas. Admiramos, na ficção, os homens que, mesmo no corredor da morte, mantêm a cabeça erguida. Estamos no mesmo corredor, o nosso é só um pouco mais longo. É preciso esforçar-se pelo Sim, viver como um condenado que faz dançando, só de pirraça, o caminho que leva da cela ao patíbulo. É hora de honrar a vida. É hora de ser para a morte. Contar o que nos é sussurrado e calar. O mesmo ventre nos aguarda do outro lado. Somos eternidade escura que um dia, por acaso, brilhou. O tédio é a lembrança de quando não éramos. É melhor morrer de tédio que de vodca... E a palavra... A palavra é uma forma muito pequena para um bolo grande demais. Eu queria transformar a própria forma em bolo. Sabe o que estou querendo dizer?
            - Puxa como você fala... Sem chance, cara, eles nunca comeriam um tal produto da tua confeitaria. Ninguém dá a mínima.
   - É, eu sei. Estou ocupado! Dizem. Há carros demais, marcas demais, rótulos demais, viagens demais, às vezes pagas a prazo em longas e suaves prestações. O véu de Maya venceu, os homens não conseguem ver a realidade das coisas por baixo dele. Uma vez, quando era pequeno, fui com minha família, num passeio de férias, a Búzios. Meus pais brigaram. Meu velho me arrastou pelo pulso até um quiosque no qual tomou treze caipirinhas e dormiu embriagado sobre a mesa. Tentei acordá-lo, mas não consegui. Saí desesperado pela praia em busca de ajuda. Não encontrei qualquer pessoa que tivesse vindo com a gente. Estavam todos invisíveis. Mas, no canto da praia, dentro de um castelo de areia, havia um velho albino de barba branca que corria até o mar com um baldinho dourado, pegava um pouco de água, voltava e jogava a água do baldinho amarelo, dentro de outro balde um pouco maior, vermelho e sem fundo. A areia ao redor estava encharcada, um lamaçal danado em volta. O que é isso aí? Perguntei ao velho. É a vida, ele respondeu... Repeat: O que é isso aí? Perguntei ao velho. É a vida, ele respondeu... Estou só passando o tempo. Viver é encher de água um balde sem fundo. Saí correndo dali, acabei adormecendo na praia, e quando acordei já era grande. Tinha dezenove anos. Era no meu peito que as ondas vinham quebrar.
   - E os seus pais?         
   - Como disse, isso tudo faz muito tempo. Eles ainda estão juntos, envelheceram juntos. Hoje moram em Ourinhos.
   - Ourinhos?
   - É.     
   - Já passei por Ourinhos.
   - Faz tempo que eu não os visito.
   Pause
   - Posso te pedir uma coisa?
   - Falaí?
   - Me fode. Vai por mim. Tenho experiência. Ninguém fode como um desesperado.
   Ele, porque era um camundongo, também habitava a fenda, mas era das cavidades redondas que mais gostava e foi lá que construiu abrigo sobre o morango esmagado. Dentro dos casulos acomodados no jasmim em frente à janela do quarto, as lagartas dormiam e sonhavam borboletas.
   - Fodeu, acho que vou ficar louca por você. Ela pensou baixinho pra ele não ouvir, enquanto dormia como uma criança entre seus seios.
   Do outro lado da cidade, o menino acordava para beber água. Tinha sonhado um sonho bom. Jogava num time grande e marcava, no último minuto da final da Champions League, um golaço de bicicleta. Nos lábios crescia um sorriso cada vez maior.