quinta-feira, 22 de outubro de 2020

TOMAR CONTA DA AMIZADE


Mesmo antes da quarentena, já andava isolado. O que não quer dizer que não sinta falta, ou deixe de me preocupar. É que sempre tive limitações e andei adquirindo outras novas. Aprendi também, no entanto, ao longo da jornada, que não precisamos estar no mesmo espaço para cuidar. Quando você pensa em alguém com carinho, uma onda de energia boa dá um jeito de chegar. Então, fico na minha, aqui em casa; tocando a vida, cuidando das crianças, das flores, dos bichos, lendo um pouco, meditando, escrevendo. Vira e mexe, penso, todavia: e fulana? Será que encontrou um cara legal? Está se alimentando direitinho? E fulano? Será que está pegando leve? E cicrano? Está conseguindo administrar o divórcio? E beltrano? Será que arranjou um trampo? E o pescador? Será que tem pegado bons peixes? Diga-me com quem tu andas e eu te direi. Meus amigos são tudo meio doido. Tem um, lá em Pira, que dividiu comigo um ovo frito. Se você ouvisse as conversas, ficaria abismado. Eu também não bato muito bem. Como disse Jidu: "não é sinal de saúde ser bem adaptado a uma sociedade profundamente doente". Há tardes de domingo em que coloco um som e penso em cada um deles com amor; em todas as barras e farras que enfrentamos juntos, e, tal e qual Coltrane, nesta hora sagrada, creio na canção como forma de cura. Se há um Deus nesse mundo, em tais momentos Ele se materializa no sorriso bobo que se forma no meu rosto e nessa vontade doida que sinto de abraçar cada um e nem precisar dizer: eu te amo. Que a vida nos toque com delicadeza

AMOR DE ÍNDIO


Acho que todo mundo fez coisas na vida das quais não se orgulha. Eu me casei aos quinze e me separei aos dezesseis. Seguiu-se uma época sombria, de álcool, drogas e loucuras. E, aí, quando a gente começa a gostar de verdade de alguém, fica com medo que a pessoa descubra as coisas feias que a gente já fez e deixe de gostar. A gente sente pena até de contar e ferir o outro. Há coisas, no entanto, que não tem como esconder. Faz alguns meses que encontrei esse menino. Ele me trata bem, toca tudo quanto é instrumento e até compõe um monte de músicas só pra mim. Só que eu fiz aquelas coisas e, por medo de que ele descobrisse, terminei várias vezes. Quase enlouqueci ele. Todo mundo fez coisas na vida das quais sente vergonha; só que, quando você conta a coisa feia que fez e o outro, em vez de julgar, abraça e acolhe você, aí então você fica gostando mais ainda. De um jeito que dá até vontade de gritar na janela. Eu sofri um exposed. Foi isso. Naqueles dias tristes, participei de um ménage que acabou caindo na rede. Depois daquilo, achei que nunca mais. Até que. A coisa mais difícil que já tive de fazer na vida foi contar. Recuei várias vezes. A voz simplesmente não saía. Quando, por fim, consegui falar, esperei que ele fosse embora sem olhar na minha cara: "E você tem vontade de repetir essas coisas?" Respondi que não. "Então esquece, a gente não vive no passado". E, como se o que eu tinha contado não tivesse a menor importância, pegou do violão, me deu a mão e a gente foi junto - de mãos dadas - ao trailer da praça pra cantar Legião Urbana e comer um cheese-tudo

VARRER UMA CASA


Hoje, quando varria a casa, não pude deixar de resmungar. Todos os dias, o mesmo trabalho. A cada manhã, a rotina bate forte. As crianças deixam as coisas espalhadas; bebem água e esquecem o copo sobre a pia. Difícil sim; mas, então, do nada, lembrei-me da alegria com que, pela primeira vez, varri este chão. Saíamos de uma casa de dois cômodos alugada. Por todo o piso, a cerâmica branquinha. O trabalho era o mesmo, mas quanta diferença! Cada filho agora teria seu quarto e eu limpei este mesmo chão com um senso de sublime gratidão. Emular aquele sentimento bastou para que a tarefa se tornasse mais leve. Olhei meus filhos adolescentes e saudáveis. Boas pessoas, pô! Coloquei uma canção pra tocar e realizei que isso de viver não é só sobre ganhar prêmios, ou vencer debates. A vida é também varrer o chão, regar as plantas, cuidar dos bichos, ver as crianças crescendo, fazer amor com quem a gente gosta. Não é necessário pintar o teto da capela Sistina, ou viajar para Marte. Não é necessário sequer escrever poemas. Qualquer atividade é veículo; linguagem propícia para dizer do quanto amamos. Como nada mudara por fora, mas eu era completamente outro por dentro, a filha se ofereceu para limpar o banheiro e meu menino perguntou:
- Ô pai, já cuidou dos bichos? Se não, deixa que eu cuido.
O trabalho não terminou. Nunca termina. Agora é hora de preparar o almoço, o qual se segue de uma pia de louça suja. Não há como fugir dessas tarefas. Mas, como tudo o que fazemos na vida, é mais fácil e fica melhor se a gente faz com amor.

O CULTO DA VOVÓ


Lembro que foi na época em que o Chorão morreu. Vovó e eu assistíamos às reportagens na tevê e eu pensava que não estava muito distante do mesmo destino. Como o músico, estava separado e metendo as ventas. Um pé no abismo e o outro na casca de banana. Era questão de tempo. A vó, vivida, comerciante, ganhava tudo: "Meu filho, por que tu não vem ao culto comigo? Pela última vez". Pela última vez, vó? A velha já dava o óbito como certo😲 De medo, resolvi. E fui. A velhinha se ajoelhou no banco e chorou. Segurando minha mão. Quando estamos desandados e não temos, as emoções ficam à flor. Uma vez chorei vendo uns cachorros cruzar. Mas, enfim, lá estávamos nós; na Igreja. Eu, todo fodido por dentro, com aquela sensação de culpa. E aí chegou essa outra velhinha. Pediu que me abaixasse e começou a orar na minha cabeça. Senti um arrepio. Ela rezava, gritava, dava uns tapas, falava em línguas e contou toda a minha vida: desde o dia em que levei uma pedrada na cabeça na terceira série até o dia em que pulei, loucão, de cima do viaduto da Vila Carrão. Eu era um cara cético; mas, naquele dia, senti a visita do Espírito Santo. E aceitei internação. E consegui parar. E, de lá pra cá, nunca mais. Pois bem, hoje estava com meus filhos, tomando café na casa da vó, e, nem sei o porquê, relembrei aquele dia e o milagre que se deu. A vó começou a gargalhar. Riu até engasgar, até perder o fôlego, até os óculos caírem no chão. E foi então que confessou: "Foi tudo armado, malandro, agora que você está firme no caminho do Senhor, posso confessar. Marialice é a professora de teatro da Igreja. Contei tudo e combinei com ela de te dar um choque. Psicologia de vendedor. Tinha certeza que ia funcionar. Tu tava doido pra comprar a salvação. Só dei um empurrãozinho". Pense num cabra com cara de tonto! As amigas da vovó chamaram no portão e nós fomos juntos. Estava na hora de deixar meus filhos. Fiquei olhando aquelas velhinhas sapecas batendo bengala rumo à Igreja e pensei que o Maior age mesmo de modos misteriosos. Mas, como a ferrugem nunca dorme e o Diabo quando não vem manda office-boy, ao entrar no carro, vi um pino fechado, inteirinho, perdido no vão do meio fio. Fechei a porta e acelerei.

ESCREVER PARA DECEPCIONAR

 ESCREVER PARA DECEPCIONAR. Para ir tanto contra os bons costumes, quanto contra o politicamente correto. Escrever para arrancar dos meus ombros as mãos daqueles que me dão tapinhas e dizem: "ele é um dos nossos!" Não sou um de vocês, tampouco sou um dos outros. Não tenho intenção de ofender, mas se ser quem sou ofende, então ofendam-se. É uma ofensa querer ser livre? Manifestar o que sente no fundo do coração? Todos têm a receita para os problemas do mundo. Todos nos querem parte da tribo, da igreja, do bando, da empresa, do partido. Posso até caminhar um pouco com a galera ao longo da jornada, mas não me esperem dizendo amém. Não me esperem seguindo ordens ou, pior ainda, dando-as. Nem no que chamam de amor vocês conseguem escapar desse jogo sujo entre dominador e dominado. Esses lados opostos engendram-se mutuamente, o que não quer dizer que sejam iguais. Fora de mim a hipocrisia, essa gente que posta sobre responsabilidade afetiva, mas engana o parceiro com o melhor amigo; que não come carne, mas sacaneia o colega de trabalho; que diz preservar a natureza, só que joga o entulho na rua. Eles são muito bons pra fiscalizar e apontar o dedo. Odeio juízes! Tampouco esperem que meu coração acompanhe os que visam o lucro, os que tratam a Terra sem o menor respeito, os canalhas que se acham superiores. Escrevo para decepcioná-los a todos: aos que me querem só dócil ou só revoltado. A vida não cabe nos seus esquemas. Os dias derrubam-se uns aos outros. Na vida, há a fúria do pai que teve a filha de cinco anos abusada; mas também a ternura entre os velhos jogando xadrez e partilhando a dor das enfermidades. Na vida, acontece a violência gratuita, mas também o amor sem porquê. Escrevo para decepcionar, porque as ideias são enrijecidas e a vida não acontece sem paradoxos. Escrevo para agredir, porque vocês me agridem diariamente, a cada instante, não dão folga, porra, repetindo sempre essa ladainha que não brotou aí, que ouviram em outra parte. Nos dias em que acordo de mau humor, tenho vontade de cortar-lhes os dedos e a língua. Escrever para sobreviver; porque o que fizemos do mundo me mata e, na palavra, encontro tanto vingança, quanto perdão.

SUPEREGO-CALIGARI

Eu engoli uma Alemanha

Há em mim uma coisa fria feito faca
Algo mórbido, sombrio, enrijecido
Ultraviolento e, ainda assim, delicado
Há toda uma Alemanha em mim
Florestas cheias de maus presságios
Onde feiticeiras trans emasculam homens dotados
E os lobos esperam vísceras em silêncio
Há em mim essa parcela gótica, romântica, visceral-gelada
Mora, mora em mim uma Alemanha
E nela cabem
A mulher barbada
O mago cornudo
A estrela vaudeville destinada ao suicídio
E eu sou também
Essa festa de carnaval em preto e branco
Essa compreensão intuitiva de Nietzsche, Heidegger, Schopenhauer
Caem sobre mim, quando anoiteço
Toda uma legião de anjos de Win Wenders
Bach, Beethoven, Pachelbel
Essa força que me castra como uma língua imposta, como um pai de Kafka
Todos os meus pesadelos são Auschwitz
Porque metade de mim é um general nazista,
Mas a outra metade, um menino judeu:
caramelo escondido no bolso para presentear a irmã mais nova

CÁLIX BENTO


O lago é a meditação da água. Ele, todavia, era inquieto; de modo que dirigir. Naquela manhã, no entanto, não podia libertar. Não curtia o ressentimento, nem por isto conseguia. Não se queria expor na prateleira. O que não significava que não quisesse ser. Lembrava o pai, pedreiro, que enchia o peito e sorria ao encerrar uma obra. "'É o melhor pedreiro de São Miguel, Itaim, Guaianases e região!" E a alegria da mãe quando elogiavam sua comida? Não era diferente do pai quando assentava um tijolo, ou da mãe quando picava a cebola em quadrados minúsculos. O zelo com o que fazia era o mesmo. Para tudo o mais - ganhar dinheiro, pagar contas, andar de ônibus, comprar pano de chão, assinar contrato - era inútil. Só sabia emendar palavras, mas precisava pagar. Alguém acenderia lâmpada para esconder embaixo da cama? Haveria ali alguma lâmpada de fato? Duvidava. Revoltava-se. Voltava a ser apenas humano. Fraco. Insatisfeito. Semi-mesquinho. Andava querendo acabar com tudo; só que o trânsito. No semáforo, uma velhinha com os dentes enferrujados, vendendo doce de abóbora em forma de coração, daqueles que já não se vêem por aí: "E o seu sorriso de menino? Quantas vezes se escondeu? É por conta, faz falta não, pega!" E era Deus ali, fantasiado de necessitada. Luz verde, o trânsito andando e a vida era isso aqui mesmo e não aquilo lá com o que sonhava. Sem cavar dualidade. Sem criar resistência ao que é. Seja feita a Vossa vontade. Torna, no entanto, nossa alma dócil, Senhor, de modo que sejamos macios ao nosso destino.
Ensina-nos a parar de doer

UM PORTO ALÉM DE MIM


No tempo em que nasci cigana, lembro-me de ler as mãos, com cheiro de cebola, deste homem calado. Ele perguntou sobre companhia e disse que tinha medo. Era viúvo e cuidava, só, de um casal de filhos. Lavava, passava, cozinhava; daí o cheiro de. As linhas falavam de silêncio e incomunibilidade. Ele via o mundo de um lugar vedado. Na juventude, tinha sido internado por falar do que. Agora, guardava para si. Esperava essa outra alma com quem pudesse. E eu, menina ainda, filha do fogo, falei de desejo e tragédia. Não me envolvo com o que leio. Sou tal e qual carteiro que entrega. Neste dia, porém, o telegrama falava de frio e paisagens brancas. Alguém pode entregar a mensagem da morte de uma criança sem se envolver? Dizer do horror e negar o abraço? E eu me deitei e doei o que tinha: tambores d'Africa, Egito, lilases, regatos, feitiços, o Sol, a Terra, placas tectônicas em movimento e marés. Algo que cresce e consome. Minha forma de cuidado, sabe? Ele pediu que ficasse e leu um poema feito de magma. Eu, nômade, disse que precisava e deixei de consolo um casal de salamandras. Décadas mais tarde, quando voltei, a filha era prefeita. Levou-me ao túmulo, cujo epitáfio era um poema intitulado Salamandras e que falava de amor, fogo e de um lar que nunca tivemos juntos e que nunca terei. E eu, filha do fogo, sentei ali na relva, larguei no chão as rosas vermelhas e confessei que sempre o compreendera. Tarde demais neste mundo de desencontros; agora, ele estava longe, era menino estrábico sofrendo bullying no estado de Connecticut

COR DE MARAVILHA NUA


Ontem, quando voltava da praia, vi cruzes à beira do caminho. Foi ao chegar aqui e olhar a gaiola vazia, entretanto, que a solidão bateu. Encontrei-o há alguns anos; ferido. Talvez, por isso mesmo, tivesse um canto tão. Tratei. Dei alpiste do melhor e proteína de ovo importada. Aos poucos, foi ganhando força e, com a força, confiança. Seu canto mudou. Se antes lamentava as dores da vida; agora louvava alguma força invisível. Dizia-se grato; ainda assim, exigiu gaiola maior, com balancinhos dourados. Todas as manhãs, todavia, sorria e cantava para mim; só para mim. As vizinhas; fofoqueiras, intrigadas; perguntavam-me a respeito. Em pequenas expedições, cautelosa, comecei a trazê-las para vê-lo em ação. Primeira vez na vida, eu tinha importância. Ele, por outro lado, não gostava da exposição. Sentia-se usado. A cada manhã, acordava mais mal humorado. Reclamava de tudo. Dizia que minhas amigas falavam alto e não prestavam atenção. Certa noite, depois de uma discussão, primeira vez, falou em partir. Gritou que tinha saudade da mata, da convivência com outros de sua espécie e, sem qualquer pudor, usou a palavra liberdade. Acusei-o de ingratidão. Disse que estava quase morto quando. Respondeu que preferia ter mesmo morrido e me deu as costas. Para tentar acalmá-lo, passei a pendurar a gaiola no jardim todas as tardes, o que se mostrou ainda pior. Seu canto tornou-se uma ode ao ódio. Algo assim como. Já não conversávamos e ele passou a recusar; primeiro o canto, depois a comida. Comprei do melhor alpiste, sementes importadas e tudo o mais. Nada. Estava decidido como só um pássaro. No dia derradeiro, abri a gaiola e disse que podia. Tarde demais. Já não tinha forças. Antes de amanhecer, encontrei o cadáver no fundo da gaiola. Parecia um menino. Como era seu desejo, joguei o corpo no mar. Agora seu canto é o silêncio e minha solidão, uma gaiola vazia

O MAIS PROFUNDO É A PELE


No cinema, isso seria a tela onde o filme é projetado. Pensemos em Bach, nos Beatles ou no peruano que toca flauta na praça da Sé. A música pode ser diferente, mas o silêncio do qual cada nota emerge é igual. Assim como a tela está para o filme e o silêncio para a música; o vazio está para o mundo. Há um vazio que dá origem, atravessa, sustenta e dissolve tudo aquilo que é. O mundo acontece dependurado numa ausência e essa ausência se manifesta no coração humano como saudade. Daí essa dorzinha boa no fundo de cada instante feliz; daí que, no meio do luto, num repente, a gente é atravessado por alegria criadora. Todos temos regiões ocas, pedaços inteiros de morte e não-ser. Tais buracos, ao mesmo tempo em que doem, são portais para o absolutamente outro. Assim como o silêncio une Bach, os Beatles e o flautista peruano; o vazio me faz o mesmo que Jesus, Sidarta, uma ameba, ou um beija-flor. Jesus não é o único Cristo; Sidarta não é o único Buda. Quando aceito que o que É não é meu corpo, pensamentos, memorias e emoções, mas o vazio eterno do qual tudo isso brota no tempo, posso olhar para mim mesmo como se fosse um outro e para meu inimigo como se fosse a mim mesmo: compreensão; amor; serenidade. O que é eterno em mim é aquele pedaço ao qual não posso chegar, porque nele me dissolvo. No fim das contas, o vazio é o mundo e o mundo é o vazio. No fim das contas, o vazio é o vazio e o mundo é o mundo

BABALORIXÁ


Um rei é rei mesmo varrendo o chão
A genialidade não está ligada ao ofício
Todo aquele que apaga seu eu na atividade
É um gênio no que faz
Há garis que limpam uma lixeira
Como se fossem Cristo ou Buda
E há artistas incensados que não movem uma palha de nosso coração
O gênio não pensa
Está vazio quando faz
Quanto menor o ego, maior a arte,
Pois ela pode vir de toda parte
Inclusive do fundo de si mesmo
Não faz diferença
Uma vez que dentro e fora são só um caso de respiração

O ROSTO DO MEU IRMÃO

 

Quando nosso pai chegava bêbado, meu irmão me pegava pelo braço e levava pra rua, pra gente empinar pipa. De vez em quando, algum moleque maior queria tomar nossa linha e ele defendia, dando umas latadas. Com a pipa no alto, a gente esquecia dos problemas. Podíamos passar horas olhando o céu; torcendo para que, quando chegássemos, o pai tivesse dormido. Hoje, pedi à minha mulher que saísse com as crianças e chamei meu irmão aqui. Ele ficou feliz. Chegou com seus três cachorros. Tive de deixar os bichos entrarem também. O pescoço dele estava preto, como se sujo de graxa. Meu irmão fedia. Há mais de seis meses, ele mora sob a marquise de um supermercado que fechou. Acho que, durante todo esse tempo, nunca tomou um banho. Dei café e pão. "Como é? Bora empinar?" Eu tinha combinado de a gente empinar pipa no Parque do Carmo. "Só preciso chegar no banheiro". Foi nessa hora que dei o sinal para os caras da clínica. Eles pegaram meu irmão à força, quando ele abriu a porta. Na confusão, os cachorros morderam um dos rapazes e as pipas foram pisoteadas; ficando rasgadas ali no chão. Antes de entrar na ambulância, meu irmão me olhou de um jeito estranho e, com aquela expressão, perguntou: por quê? Sei que essa é a única forma de ele continuar vivo. Eu deveria estar feliz, cultivando a esperança e tudo mais; só que, quando lembro do rosto do meu irmão, tudo o que brota no meu coração é um sentimento de Judas.

KOAN


O real não é lógico. Para aproximar a palavra das coisas mesmas, não basta nem mesmo a linguagem poética. É preciso usar e abusar do paradoxo. Onde a razão esbarra, começa a verdade.

OLHOS DE MAR DE ESPANHA


Eu ia completar dezoito; quando, primeira vez, deixei minha cidade com destino a São Paulo. Vinha trabalhar em casa de família e, como tinha pouco, aceitei carona que um amigo de meu pai, de passagem pela cidade. Deveria ter descido em Beagá; o motorista, todavia, não me avisou e fui parar em Mar de Espanha. Era quase meia. Ônibus só no dia seguinte. Decidi passar a noite na rodoviária. Juntei os trocados para tomar um Guarapam. Sentia uma coisa estranha: alegria por sair da casa de meus pais, onde não se podia respirar por sermos da Assembleia; e medo, porque estava só e o mundo é casa de muitos perigos. No bar, havia um jovem cabeludo, tocando violão. Tinha olhos quase de azuis tão. Olhei. Noite vasta; bar vazio. Na pausa, puxou conversa. Havia largado faculdade no Rio e, agora, vivia assim, tocando daqui e dali. "Um dia, morena, ainda gravo com Bituca". Findou-se a apresentação. "Em vez de dormir aqui, vem descansar no meu quarto". Confesso que tive medo de ser. As tantas histórias de meu pai, mas ele tinha aqueles olhos, o violão e cantava como se fizesse cafuné no ouvido da gente. Deitamos os dois na cama de solteiro. Ele tinha tanto, era um mundo; e eu, só meu desejo de vida. E aconteceu a magia. Primeira vez na vida, experimentei o amor. Manhã seguinte, a gente se despediu. Desejamos boa sorte um ao outro e nunca mais. Ele não ficou famoso e eu me casei com este homem bom que me tem acompanhado durante toda a jornada. Já dei minha contribuição e, chegado o momento, entreguei o mundo aos filhos e, agora, aos netos. Não me lembro mais do cheiro ou do rosto daquele desconhecido que um dia me amou numa cama de solteiro. Conforta-me saber, no entanto, que ele deve estar em algum lugar, sob a abóbada celeste. Às vezes, em sonho, revejo aqueles olhos. Olhos da cor do mar de Espanha.

AMAR AS COISAS É LIBERTÁ-LAS


Amar as coisas é libertá-las
Porque ninguém perde aquilo que um dia amou
A Terra nos une
Existimos todos no mesmo colo
E, se é assim, posso amar distante
Porque não há fronteira
Quando o pensamento sorri de amor
Não estamos circunscritos entre boné e botas
Todo o mundo é meu se não construo gaiolas
Vigiar é perder
Prender é perder
Então, antes de partir para o internato, o órfão se despediu da irmã mais nova:
- Abre a mão que vou te dar uma coisa.
A pequena obedeceu.
O menino, mãos vazias, fingiu entregar um bichinho muito delicado:
- O que é?
- Um beija-flor invisível. Sempre que sentir falta, é só querer, com toda força, que você vai ouvir as asinhas batendo.
Desde então, a menina nunca mais sentiu medo.
Nem quando ficava só.
De castigo num quarto escuro

O BLACK METAL NORUEGUÊS


Doni estava em maus lençóis; desempregado havia anos, bebendo demais, vivia de favor na garagem da ex-mulher, a qual desfrutava agora as segundas núpcias com um rapaz vinte anos mais novo. Na noite em que ocorreram os fatos, Doni dormia em um dos muitos pontos de ônibus do centro da cidade, quando seu destino cruzou o destino dos integrantes da banda de black metal Valhala. Os garotos de classe média portavam, não se sabe como, duas granadas. A primeira explodiu no interior de uma Igreja Católica no bairro de Santa Teresa D'Ávila. Segundo um dos integrantes, o bando não sabia muito bem o que fazer com a segunda granada até que o vocalista, um tal Death, avistou o desempregado adormecido; tendo, em seguida, perguntado:
- Vocês duvidam eu explodir ele?
Como ninguém respondesse, menos de um minuto depois, o corpo do desempregado voava pelos ares junto aos pedaços de metal, telha e concreto que consituíam o ponto de ônibus.

RENATO RUSSO

 

Por mais que eu tente me explicar,
Ninguém consegue entender

TOUCH


Sou um cabra das antigas. Do tempo em que a gente esperava dar meia noite pra usar a internet discada. Sim, senhor! Sou tão velho que meu primeiro diploma foi de datilógrafo. Tantas palavras por minuto, com uma tábua cobrindo o teclado e tudo. Passei com louvor. Quando achei que era bom numa coisa, a profissão acabou. "Não tem problema" - pensei - "já que não datilógrafo, serei escritor." Não podia desperdiçar a formação, uai. Além disso, tenho tendência a meditações filosóficas do tipo: por que navio bóia e prego afunda? De onde venho? Para onde vou? De modo que, o que quero dizer é que nunca consegui acompanhar muito bem as inovações tecnológicas. Comprei meu primeiro celular há menos de um ano. E fico besta com as coisas que a turma inventa. Semana passada, por exemplo, gastei seis dias refletindo - filosófico, doutorado no ofício - sobre como funciona o mecanismo de copiar e colar no celular. Você gosta de um texto. Pressiona o dedo em cima. Depois vai para o lugar aonde quer colar e pressiona outra vez. O texto inteirinho ressurge na nova tela. A mosca pousou na sopa🤔! Olhava o dedo; olhava a tela. Olhava o dedo; olhava a tela. Tive insônia, depressão, prisão de ventre, perda de apetite, todo gênero de ansiedade. Já disse, sou filósofo, gosto de investigar o modo como o mundo funciona. Por mais que quebrasse a cabeça, não consegui responder à questão: como é que o conteúdo da tela cola e descola do dedo da gente😱? Por bem menos, muita gente boa foi assada um dia. Como se vê, mais importante que encontrar as respostas é colocar as perguntas certas.
Alguém aí arrisca?

SER HUMANO


Deve ser porque eu tenho cara de trouxa. Tem coisa que faz a gente perder a fé na humanidá. O mano tava vendendo pirulito no farol: cinquenta centavos. Pois eu fiquei com pena, pedi um pirulito, dei uma nota de cinco e disse que ele podia ficar com o troco😧. Pois o filho da mãe não me deu troco e nem, tampouco, o pirulito😠. E ainda ficou encarando. Se tivesse tendência, depois dessa votava no Rossomano

CAFÉ DA MANHÃ


Certeza de ter sido a pior - e a melhor - coisa na vida da pessoa que você mais ama. Saudade de ter dezoito, cabelos fartos e fé na vida. Juntos, repartimos chiclete. Juntos, sonhamos o mesmo sonho; partilhamos futuro e violão. Na manhã de um dia frio, você disse pela primeira vez: "te amo!" E me mostrou os seios brancos. Mas Satanás, já aí, nos botou um feitiço e, mais de mil dias depois, numa tarde estranha, você me olhou calada e saquei que já não me conhecia. Saudade de nós, das coisas simples: rock antigo, jovem guarda, licor de cereja, baile de formatura. No momento em que a valsa começou, teu corpo no meu, tesão: boca, língua, orelha: sussurro sacana! Mas o Diabo nos jogou sua maldição e, quando cheguei cansado do trabalho, dezembro: teus armários abertos, as prateleiras vazias, a falta das malas. Recordo o café da manhã: "põe mais um pouco pra mim!", o rosto do filho, a noite do parto, a sensação de tornar-me pai: tudo tão eterno, infinito, tão ontem ainda. Mas o Demônio nos rogou aquela praga e, crianças de mãos dadas, no meio da tempestade, imaginando-nos invencíveis, não percebemos a noite que se avizinhava.
E nem, tampouco, a vida que nos perseguia como um mouro com a espada na mão🌻