quinta-feira, 22 de outubro de 2020

COR DE MARAVILHA NUA


Ontem, quando voltava da praia, vi cruzes à beira do caminho. Foi ao chegar aqui e olhar a gaiola vazia, entretanto, que a solidão bateu. Encontrei-o há alguns anos; ferido. Talvez, por isso mesmo, tivesse um canto tão. Tratei. Dei alpiste do melhor e proteína de ovo importada. Aos poucos, foi ganhando força e, com a força, confiança. Seu canto mudou. Se antes lamentava as dores da vida; agora louvava alguma força invisível. Dizia-se grato; ainda assim, exigiu gaiola maior, com balancinhos dourados. Todas as manhãs, todavia, sorria e cantava para mim; só para mim. As vizinhas; fofoqueiras, intrigadas; perguntavam-me a respeito. Em pequenas expedições, cautelosa, comecei a trazê-las para vê-lo em ação. Primeira vez na vida, eu tinha importância. Ele, por outro lado, não gostava da exposição. Sentia-se usado. A cada manhã, acordava mais mal humorado. Reclamava de tudo. Dizia que minhas amigas falavam alto e não prestavam atenção. Certa noite, depois de uma discussão, primeira vez, falou em partir. Gritou que tinha saudade da mata, da convivência com outros de sua espécie e, sem qualquer pudor, usou a palavra liberdade. Acusei-o de ingratidão. Disse que estava quase morto quando. Respondeu que preferia ter mesmo morrido e me deu as costas. Para tentar acalmá-lo, passei a pendurar a gaiola no jardim todas as tardes, o que se mostrou ainda pior. Seu canto tornou-se uma ode ao ódio. Algo assim como. Já não conversávamos e ele passou a recusar; primeiro o canto, depois a comida. Comprei do melhor alpiste, sementes importadas e tudo o mais. Nada. Estava decidido como só um pássaro. No dia derradeiro, abri a gaiola e disse que podia. Tarde demais. Já não tinha forças. Antes de amanhecer, encontrei o cadáver no fundo da gaiola. Parecia um menino. Como era seu desejo, joguei o corpo no mar. Agora seu canto é o silêncio e minha solidão, uma gaiola vazia

O MAIS PROFUNDO É A PELE


No cinema, isso seria a tela onde o filme é projetado. Pensemos em Bach, nos Beatles ou no peruano que toca flauta na praça da Sé. A música pode ser diferente, mas o silêncio do qual cada nota emerge é igual. Assim como a tela está para o filme e o silêncio para a música; o vazio está para o mundo. Há um vazio que dá origem, atravessa, sustenta e dissolve tudo aquilo que é. O mundo acontece dependurado numa ausência e essa ausência se manifesta no coração humano como saudade. Daí essa dorzinha boa no fundo de cada instante feliz; daí que, no meio do luto, num repente, a gente é atravessado por alegria criadora. Todos temos regiões ocas, pedaços inteiros de morte e não-ser. Tais buracos, ao mesmo tempo em que doem, são portais para o absolutamente outro. Assim como o silêncio une Bach, os Beatles e o flautista peruano; o vazio me faz o mesmo que Jesus, Sidarta, uma ameba, ou um beija-flor. Jesus não é o único Cristo; Sidarta não é o único Buda. Quando aceito que o que É não é meu corpo, pensamentos, memorias e emoções, mas o vazio eterno do qual tudo isso brota no tempo, posso olhar para mim mesmo como se fosse um outro e para meu inimigo como se fosse a mim mesmo: compreensão; amor; serenidade. O que é eterno em mim é aquele pedaço ao qual não posso chegar, porque nele me dissolvo. No fim das contas, o vazio é o mundo e o mundo é o vazio. No fim das contas, o vazio é o vazio e o mundo é o mundo

BABALORIXÁ


Um rei é rei mesmo varrendo o chão
A genialidade não está ligada ao ofício
Todo aquele que apaga seu eu na atividade
É um gênio no que faz
Há garis que limpam uma lixeira
Como se fossem Cristo ou Buda
E há artistas incensados que não movem uma palha de nosso coração
O gênio não pensa
Está vazio quando faz
Quanto menor o ego, maior a arte,
Pois ela pode vir de toda parte
Inclusive do fundo de si mesmo
Não faz diferença
Uma vez que dentro e fora são só um caso de respiração

O ROSTO DO MEU IRMÃO

 

Quando nosso pai chegava bêbado, meu irmão me pegava pelo braço e levava pra rua, pra gente empinar pipa. De vez em quando, algum moleque maior queria tomar nossa linha e ele defendia, dando umas latadas. Com a pipa no alto, a gente esquecia dos problemas. Podíamos passar horas olhando o céu; torcendo para que, quando chegássemos, o pai tivesse dormido. Hoje, pedi à minha mulher que saísse com as crianças e chamei meu irmão aqui. Ele ficou feliz. Chegou com seus três cachorros. Tive de deixar os bichos entrarem também. O pescoço dele estava preto, como se sujo de graxa. Meu irmão fedia. Há mais de seis meses, ele mora sob a marquise de um supermercado que fechou. Acho que, durante todo esse tempo, nunca tomou um banho. Dei café e pão. "Como é? Bora empinar?" Eu tinha combinado de a gente empinar pipa no Parque do Carmo. "Só preciso chegar no banheiro". Foi nessa hora que dei o sinal para os caras da clínica. Eles pegaram meu irmão à força, quando ele abriu a porta. Na confusão, os cachorros morderam um dos rapazes e as pipas foram pisoteadas; ficando rasgadas ali no chão. Antes de entrar na ambulância, meu irmão me olhou de um jeito estranho e, com aquela expressão, perguntou: por quê? Sei que essa é a única forma de ele continuar vivo. Eu deveria estar feliz, cultivando a esperança e tudo mais; só que, quando lembro do rosto do meu irmão, tudo o que brota no meu coração é um sentimento de Judas.

KOAN


O real não é lógico. Para aproximar a palavra das coisas mesmas, não basta nem mesmo a linguagem poética. É preciso usar e abusar do paradoxo. Onde a razão esbarra, começa a verdade.

OLHOS DE MAR DE ESPANHA


Eu ia completar dezoito; quando, primeira vez, deixei minha cidade com destino a São Paulo. Vinha trabalhar em casa de família e, como tinha pouco, aceitei carona que um amigo de meu pai, de passagem pela cidade. Deveria ter descido em Beagá; o motorista, todavia, não me avisou e fui parar em Mar de Espanha. Era quase meia. Ônibus só no dia seguinte. Decidi passar a noite na rodoviária. Juntei os trocados para tomar um Guarapam. Sentia uma coisa estranha: alegria por sair da casa de meus pais, onde não se podia respirar por sermos da Assembleia; e medo, porque estava só e o mundo é casa de muitos perigos. No bar, havia um jovem cabeludo, tocando violão. Tinha olhos quase de azuis tão. Olhei. Noite vasta; bar vazio. Na pausa, puxou conversa. Havia largado faculdade no Rio e, agora, vivia assim, tocando daqui e dali. "Um dia, morena, ainda gravo com Bituca". Findou-se a apresentação. "Em vez de dormir aqui, vem descansar no meu quarto". Confesso que tive medo de ser. As tantas histórias de meu pai, mas ele tinha aqueles olhos, o violão e cantava como se fizesse cafuné no ouvido da gente. Deitamos os dois na cama de solteiro. Ele tinha tanto, era um mundo; e eu, só meu desejo de vida. E aconteceu a magia. Primeira vez na vida, experimentei o amor. Manhã seguinte, a gente se despediu. Desejamos boa sorte um ao outro e nunca mais. Ele não ficou famoso e eu me casei com este homem bom que me tem acompanhado durante toda a jornada. Já dei minha contribuição e, chegado o momento, entreguei o mundo aos filhos e, agora, aos netos. Não me lembro mais do cheiro ou do rosto daquele desconhecido que um dia me amou numa cama de solteiro. Conforta-me saber, no entanto, que ele deve estar em algum lugar, sob a abóbada celeste. Às vezes, em sonho, revejo aqueles olhos. Olhos da cor do mar de Espanha.

AMAR AS COISAS É LIBERTÁ-LAS


Amar as coisas é libertá-las
Porque ninguém perde aquilo que um dia amou
A Terra nos une
Existimos todos no mesmo colo
E, se é assim, posso amar distante
Porque não há fronteira
Quando o pensamento sorri de amor
Não estamos circunscritos entre boné e botas
Todo o mundo é meu se não construo gaiolas
Vigiar é perder
Prender é perder
Então, antes de partir para o internato, o órfão se despediu da irmã mais nova:
- Abre a mão que vou te dar uma coisa.
A pequena obedeceu.
O menino, mãos vazias, fingiu entregar um bichinho muito delicado:
- O que é?
- Um beija-flor invisível. Sempre que sentir falta, é só querer, com toda força, que você vai ouvir as asinhas batendo.
Desde então, a menina nunca mais sentiu medo.
Nem quando ficava só.
De castigo num quarto escuro