terça-feira, 18 de novembro de 2014

A delicadeza dos hipopótamos

"Com a roupa encharcada e a alma repleta de chão/todo artista tem de ir aonde o povo está".
Eu vou e é por isso que te convido a me acompanhar.

sábado, 25 de outubro de 2014

Desculpe, Robin Williams

 Desculpe Robin Williams por não ter respondido a tempo ao teu olhar. De qualquer modo, tornei-me professor - Oh! Captain my captain - e deixo meu Folhas de Relva aberto sobre o criado mudo, feito um livro sagrado. Desculpe Robin Williams, por não ter respondido a tempo ao teu olhar, ao teu desencaixe, a tua maneira certeira de dizer a piada certa na hora certa. Só tem este timing quem sofre, só tem um sorriso como o teu quem sofre, quem presa o riso como um metal precioso porque não o tem fácil. Eu sou da América do Sul, eu sei... você nem vai saber, mas agora respondo, não para mim, nem para você, porque a gente não responde ao remetente, mas a um outro destinatário desconhecido. Assim como Vincent tentou responder a Millet, mas chegou a mim. Assim como Lô tentou responder a Lennon e McCartney, mas chegou a mim. Respondo agora, eu sei... você nem vai saber do menino que brincava de caubói com estrela de xerife... é que esta chama não se devolve, mas se passa adiante, Robin. É o fogo entregue aos homens e que os homens dividem entre si nas noites frias, de solidão, em que nem mesmo os dvds pornográficos parecem funcionar e então a gente, em nostalgia, volta ao velho Nostalgia do velho Tarkovsky, e se transforma no louco tentando atravessar a fonte com a chama acesa. Essa chama é o amor que tenta se manter aceso nos tempos do automatismo espiritual e da técnica. A gente levanta a chama, velho, e espera que um outro solitário responda, aqui, acolá, do outro lado do mundo. Essa chama é a chama que Milton Nascimento protege, que Leandro assopra para que ganhe força, que Fernando recolhe no olhar das crianças que repartem a merenda. Essa chama é você tentando curar o gênio problemático, mantendo o mesmo olhar no teu último filme ruim, de bigodes e óculos de John Lennon em Uma noite no museu. Fala sério, este último você poderia muito bem ter passado. I´m so sorry, Robin, por só agora ter comprado meu uniforme de palhaço, meu quepe de vigia... é que a gente sempre só percebe quando perde. Não faz mal, também tenho uns truques na manga, umas piadas antigas que sempre funcionam e as novas que brotam a todo instante em qualquer conversa, mas que eu sei e você sabe, vêm, inapelavelmente, do pântano. Desculpe só agora ter me preocupado... é que você estava tão distante, mas este seu sorriso puro e triste, este seu olhar puro e triste, está também, agora e sempre, espalhado por aí, nos cabelos estranhos dos jovens tristes que se reúnem pelas praças em busca de compreensão, nos velhinhos que jogam dama nesta mesma praça enquanto a noite cai inevitavelmente. Desculpe a minha letargia, eu buscava outros, mais próximos de mim, para socorrer, meu pai e a próstata, e esqueci que, do outro lado da tela, você gritava por socorro. Desculpe a lágrima que escapa por um olho só enquanto todos dormem, é que sou homem e não pega bem chorar com os dois olhos. Desculpe, Robin Williams, desculpe. Desculpe a todos os que estão andando por aí... sofrendo, a gente se sente frustrado. É que nunca chegamos a tempo.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Resenha sobre o conto Pianista Boxeador

http://homoliteratus.com/programado-para-2-10-marcia-barbieri-resenha-seu-conto-predileto-pianista-boxeador-de-daniel-lopes/

Por Márcia Barbieri
Cola lá!

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Erosão

Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos
Mateus, 10:16

            Ela nunca havia me dito uma única palavra, até o dia em que o encanamento da cozinha entupiu.
            - Começa como uma manchinha preta entre os azulaijos. A princípio, não dámos importância. Botamos um pouco mais d’alvejante. Esfregamos o pano com mais vontade. Adianta pouco, ó João. No dia seguinte, a mancha está lá d’novo, um pouco mais graúda. Então surge um buraco ao redor do ralo que se espalha pela cozinha, engole a casa, a Pátria, nosso coração, todo nosso povo. A vida continua, mas, agora, nos desprendemos dela. Há um abismo entre nossa alma e o mundo lá fora.
            - Dona Carmelita, o buraco pode parecer grande, mas não é nada demais. A água foi infiltrando aos poucos no concreto, umedeceu a terra, por cima parecia que tava tudo bem, mas debaixo do piso tava tudo oco. Um buraco enorme, reconheço, mas, numa tarde de trabalho, resolvo o problema. É só trocar as manilhas próximas da caixa de esgoto que podem estar rachadas, comprar um saco de cimento, um pouco de pedra e areia e construir uma caixinha nova. Dia seguinte, tá tudo seco.
            - Pois bem, conversa com o Andrade – ela disse e subiu para a parte de cima do prédio, onde ficavam tanto o escritório, quanto o quartinho no qual eu dormia.
            Eu saí de dentro do buraco, onde tinha entrado para avaliar o tamanho do estrago e fui procurar meu patrão. Era de manhã, o comércio estava fechado. Seu Andrade, marido de Dona Carmelita, um português da Ilha da Madeira, estava na parte da frente da pizzaria, conferindo o estoque e anotando os pedidos que precisavam ser feitos.
            - Como é João? Podes consertar?
            - Fácil, fácil, mas preciso comprar algum material.
            - Podes pegar no depósito, quando abrir, diga ao Lima que depois passo lá e acerto, ora pois!
            Comprei o material, consertei o encanamento e esta ficou sendo a primeira vez que Dona Carmelita me dirigiu a palavra. Dona Carmelita tinha uns quarenta e cinco anos, era loira, magra, os olhos azuis. Os bicos de seus peitos faltavam furar a blusa. Pareciam dois beija-flores enfurecidos, dois beija-flores endemoniados. Ela povoava todos os meus sonhos eróticos e minhas masturbações. Eu poderia plantar uma roseira no rabo dela, fazer um colar de contas com seus pentelhos amarelos, esculpir um Buda sorrindo de pernas cruzadas no bico dos seus seios, mas havia Seu Andrade e meu dono era a solidão.
A pizzaria ficava na Aclimação, numa travessa da Lins de Vasconcelos. Outro dia passei por lá. Incrível. Coincidências dessas que acontecem e indicam que dois raios podem sim cair no mesmo lugar. O rapaz entrou no meu táxi e deu o mesmo endereço do lugar onde eu tinha vivido e trabalhado havia mais de vinte anos. Quase abri mão da viagem, mas no final acabei aceitando. As contas chegam todo mês enfurecidas na caixinha do correio – nunca uma notícia boa – e não podemos nos dar ao luxo de preservar o coração. O prédio tinha sido reformado. Era completamente outro. Abrigava um escritório de advocacia. Havia agora carpete verde-escuro no chão e portas de vidro. Ali, eu poderia ter comido dona Carmelita, Bruna Lombardi da Aclimação, se soubesse que se tratava de um adeus, de uma despedida. Ela era toda ternura e delicadeza no trato com os outros, com qualquer um. Mal sabia que todos nós, hienas, lobos ou chacais, tínhamos ânsia era de devorá-la. Seu Andrade, talvez o mais faminto de todos nós, desconfiava e seu ciúme era fera a espreitar a mulher a cada passo, a cada riso. Evocar Andrade é preciso.
O português era baixo, menos de um metro e setenta. Atarracado, forte, meio calvo, geralmente irritadiço, Seu Andrade era um putanheiro. Em dia de pagamento, quando o movimento na pizzaria era maior, fechávamos o estabelecimento mais tarde e depois íamos todos juntos, patrões e funcionários, para a zona. Seu Andrade pagava. Era sem vergonha, logo ciumento.
Eu poderia ter comido minha patroa, se soubesse que se tratava de uma despedida, de um adeus. Um dia, eu estava no meu quartinho, na parte de cima da pizzaria. Era de manhã. Sempre sofri de insônia. Hoje, na minha profissão, isso até que é bom. Para corrida noturna, a taxa é sempre dobrada. Naquela época, eu me dava mal. Passava a noite acordado e, dia seguinte, trabalhava o dia inteiro com sono, meio mole, tendo vertigens, alucinações, vendo por toda parte imagens estranhas, demoníacas. Na manhã em que Dona Carmelita entrou no meu quartinho, eu tinha passado a noite toda acordado, pintando. Eu pintava cavalos incendiados correndo pela campina, esculpia, com o bisturi, bichos híbridos na massa da pizza, pássaros com cabeça de serpente, peixes com cabeça de hipopótamo, e depois colocava pra assar. Dormir era difícil. De dia eu trabalhava, mas, uma hora da manhã, quando a pizzaria fechava, os demônios saíam do porão. Lembranças de ofensas sofridas há muito tempo, na minha cidade do interior, lembranças de pessoas que eu tinha magoado e para quem eu nunca mais poderia pedir perdão, lembranças de amigos que tinham sumido assim, pra nunca mais e de Ana, a menina com quem eu tocava violão junto à fogueirinha de papel. Diabo, eu sempre senti a passagem do tempo com dor. O prédio onde funcionava a pizzaria, hoje é um escritório de advocacia. Onde foi parar o cheiro bom de azeite, orégano e queijo assando? Sempre vivi atormentado, entre a foice e o ponto de interrogação. É por isto que hoje dirijo a noite inteira. Mas, naquela manhã, eu estava suado, sem camisa, os cabelos molhados, pintando meus cavalos em chamas, quando Dona Carmelita entrou. Usava óculos escuros, havia uma ferida perto da boca, seus braços estavam roxos. Ela tinha um livro nas mãos. Olhou meus próprios poucos livros, acomodados nas caixas de madeira que eu havia pintado e feito de estante.
- Então, tu também gostas de ler, ó João?
Balancei a cabeça afirmativamente.
- E também pintas? - prosseguiu, observando meus cavalos pelas paredes.
Outra vez balancei a cabeça.
- Então és um artista!
Fiquei quieto. Sou um camarada cheio furor, certa vez abri a cabeça de um cara com um taco de sinuca no Bilhar do Papai, ali na Rua Aurora, só porque ele me secou numa bola, mas, quando querem saber de mim assim, fico sem saber o que fazer, quero sair correndo, pular pela janela mais próxima.
Ela me pegou pela mão e me levou até o escritório. Abriu o livro em cima da mesa e então disse:
- O título deste é Fanatismo, como muitos outros, foi escrito para o irmão. Ela era apaixonada pelo irmão – e então, Dona Carmelita leu:
Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

Tudo no mundo é frágil, tudo passa...
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!..."
- Não é lindo? Ela amava o próprio irmão. Mais que amor, sentia fanatismo. Bem que eu poderia amar alguém deste jeito.
Eu emudeci, acho que fiquei com a cara parecida com a do Jim Carey, no filme Debi & Loide, quando passa um ônibus cheio de líderes de torcida pedindo informação e ele e seu amigo Loide dão a informação e ficam pensando que, caso fossem caras de sorte, poderiam muito bem entrar no ônibus e guiar as moças até seu destino.
- Tu gostaste do poema?
- É a coisa mais linda que já ouvi. Como é o nome?
- Fanatismo, já te disse.
- Não, o nome de quem escreveu.
- Florbela Espanca.
- Até o nome é bonito, profundo.
Ela tirou os óculos escuros. Seus dois olhos estavam roxos. Eu sabia que Seu Andrade era ciumento, que às vezes dava uns catiripapos na mulher, mas, daquela vez,  ele tinha ultrapassado todos os limites. Ela encostou seu rosto no meu. Leu outro poema, mas não pude entender mais nada. Apertou meu mamilo e o pau incendiou na mesma hora, com chamas ainda maiores e mais vermelhas que aquelas que devoravam os cavalos que eu pintava. Foi aí que eu abri a porra da boca:
- Dona Carmelita, – disse – Seu Andrade pode subir a qualquer minuto por aquela escada ali – e apontei para a escada onde, depois do primeiro degrau, tudo era consumido pela escuridão. Dona Carmelita estancou. Colocou os óculos escuros outra vez. Fechou o livro e mergulhou na escuridão da escada sem dizer mais nada.
Depois daquele dia, ela nunca mais apareceu na pizzaria. Tempos depois, numa noite de orgia, Seu Andrade nos falou baixinho, chorando, que ele e a mulher haviam se separado. Ela tinha voltado para Portugal, para sempre, ele disse. E ainda repetiu duas ou três vezes: para sempre!
A pizzaria ainda funcionou por uns tempos, mas Seu Andrade começou a beber demais e, em menos de um ano, se desfez do estabelecimento. Eu persisti o quanto pude com os novos donos, sempre gostei de trabalhar, mas parecia que tínhamos profanado alguma coisa. Os clientes diminuíram, os ratos aumentaram, uma ratazana, inclusive, passou em cima do pé de um fiscal enquanto ele fazia a inspeção no recinto, gerando um multa de proporções astronômicas. As baratas proliferavam nos vãos entre as chapas de fórmica. Os novos donos reformaram o estabelecimento, mas de nada adiantou, as baratas não diminuíram, muito pelo contrário. Pouco antes de a pizzaria fechar as portas, prestei vestibular numa universidade estadual e passei. Voltei para o interior com o intuito de estudar, financiado por uma bolsa do governo. Tempos depois, já formado, consegui juntar dinheiro suficiente para comprar um táxi. Outro dia, um passageiro entrou no meu carro e me deu o endereço do lugar onde antes funcionava a pizzaria. Hoje lá funciona um escritório de advocacia com portas de vidro e carpete verde-escuro, mas tudo o que vi foi um buraco, um buraco enorme, uma cratera, que engolia mais da metade da Aclimação, mesmo o parque havia desaparecido, mesmo o cemitério israelita havia sido engolido com suas lápides e seus mortos. E dona Carmelita, se ainda estiver viva lá no seu Portugal, tem hoje mais de sessenta e cinco anos. E eu tenho em casa as obras completas de Florbela Espanca. Jamais pude olvidar o nome, toda manhã, quando chego do trabalho, antes de dormir, leio um poema.


quinta-feira, 5 de junho de 2014

A Resiliência dos Peixes

No princípio, Deus criou os céus e a terra.
A terra estava informe e vazia;
as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas.
Gênese, cap. 1, vers. 1-2

            Acordar. Arrumar a cama. Fazer café e esperar o dia passar, olhando os peixes no aquário. A solidão é um privilégio que custa caro. Abrir janelas. Juntar pedras no canto da sala. Tarefas que nada constroem. A vida dói e eu deixo ela doer, mãe. Como você, ela não é do tipo que passa a mão na cabeça. Antes de voltar a me deitar, observo a cama. Desde sempre, mantenho os olhos em espanto. A cama pede que o olho se deslumbre. Ela não quer o olho-indiferença, o olho-cotidiano, o olho-razoável, o olho-que-vê-a-cama-como-local-de-descanso e não de sonho. E eu... Eu, mãe, carrego pesadelos: olho-pesadelo. E eu... Eu, mãe, crio meus próprios fantasmas[1]. Enfim, o que quero dizer é que, hoje, você é em mim. Deito outra vez e te procuro. Para minha surpresa, percebo que aos poucos você está desaparecendo. Aos poucos, a barra do seu vestido se esfumaça. Aos poucos, seus olhos vão perdendo a expressão. Aos poucos, suas mãos vão perdendo o contorno, seus cabelos vão perdendo a cor, mais um grama de energia e eles se tornariam nova água viva no aquário. Levanto. Faço café e bebo. Abro o guarda-roupa e pego nossos álbuns de fotografia. Não quero te perder. Com a lupa, sondo seu rosto magro, seus olhos claros, sua expressão de orfandade. Procuro você por fora, nas fotos, porque sinto que por dentro você me deixa. Quer de vez partir. Nossos monólogos a dois se tornam cada vez mais raros. Chamo e você não vem. Pergunto e você não responde. Aceno e você finge que não vê. Eu estou aqui. Ó mãe, porque em vez de ternura e compreensão, o que tínhamos eram gritos e portas batendo? Por que, em vez de solidariedade, o que tínhamos era solidão? Em vez de amor, bofetadas, tapas ardentes, recriminações? Agora posso ver tudo, porque a alma vê a vida como um filme no cinema. Lá está você, deitada com um de seus amantes na cama, enquanto eu estou na sala, tentando me concentrar no Patolino, em meio aos seus gemidos. Lá está você, deitada na cama com outro de seus amantes, enquanto eu estou no chão, tentando engatinhar, mas recuando diante das palhas de aço no chão, limitado, da mesma maneira que os peixes no aquário. Você espalhou palha de aço ao redor de mim e me deixou conjurado, como demônio conjurado por fogo na idade média. Tudo isto pra você poder foder melhor, pra trepar em paz, para chegar ao orgasmo mais profundo. Vejo que minhas mãos sangram e eu choro, tenho apenas seis meses, porra! A cama é lugar de sonho, mãe, e nela você construiu, um por um, todos os meus pesadelos. Eu era jovem, também tive meus sonhos frustrados, também fiquei sozinha, aos dezesseis anos, com um bebê pra cuidar. Sei. Sexo, Drogas e Rock n´ Roll, não é? Essa sua vontade de cantar... Essa sua vontade de ser uma estrela do showbizz... Dou graças ao seu fracasso! Todo seu amor sempre foi direcionado à música, enquanto eu ficava pelos cantos, catando as migalhas, suportando o frio, o deserto e a solidão. Esperando a minha chance de te dar um beijo. Esperando infinitamente aquele beijo de boa noite; com medo do diabo embaixo da cama; com medo do demônio dentro do guarda-roupa; com medo de tudo e de todos. E quando eu me aproximava pra te beijar... Pra te acariciar... Era tapa na cara que eu recebia. Por quê? Por quê? Se o ser humano produz calor, amor não vai faltar, caramba. Você não percebia, mas, se eu deixasse, teu ciúme me sufocaria. Você não me deixaria ser se eu deixasse, Dan. Você me escravizaria. Como? Eu era só uma criança! Lembra do doutor Santana? Lembro. Então, numa das muitas vezes em que te levei pra consultar, ele foi taxativo comigo: - O menino sofre dos nervos, disse. Você vai ter de ser dura com ele. Qualquer deslize pode ser fatal. Nada de mimos. Se você ceder um milímetro sequer, perde a mão desse moleque. É só uma criança, mas já é possessivo, manipulador, inteligente, ciumento, arrogante... E dá-lhe tapa então... Uma criança, porra... Não posso acreditar que eu fosse, que eu sou, tudo isso... Mas é, do contrário, o que explicaria tantos relacionamentos fracassados? Não é culpa minha. Foram os tapas, a palha de aço, o peito que você sempre me negou. Fiquei imprestável para o amor. Um trapo dos afetos... Um tarado da ternura... Um vampiro... Claro, é fácil me culpar. Nem depois da morte nos entendemos. Como disse, é sua personalidade, você está sempre incriminando alguém, colocando a culpa nos outros. Eu tentei me aproximar. Tentei te beijar na sua primeira exposição individual... Quadros tão tristes! Mas você me esbofeteou e me colocou pra fora, como uma prostituta. Já era tarde demais. Nunca é demasiado tarde para o perdão. É muito cômodo para quem quer ser perdoado. Quem bate esquece, quem apanha não. E eu levo bem guardado, na latência da pele, na latência da face, cada tapa que levei. E eu levo bem guardado, nos bolsos e no armário, os imensos castigos que recebi, enquanto tudo o que você queria era trepar... Trepar... Trepar... Lembro bem do medo: a porta do quarto trancada por fora e os demônios soltos no quarto, gargalhando, dando piruetas, enfiando o dedo no meu cu, quando eu deitava de bruços e cobria com o  travesseiro a cabeça. Era tudo imaginação. Nunca houve demônios e eu estava sempre sozinha no quarto ao lado, pensando em você. Lemba o que o doutor Santana disse: Se você ceder um milímetro sequer, perde a mão desse moleque. Como ousa dizer isso, que era imaginação, se você nunca veio comigo? Se nunca quis saber do meu mundo? Se sempre se manteve em sua placa tectônica e me manteve afastado, sozinho, com frio, na minha? Agora que você é adulto, me diz: É fácil? É simples? E você? Por que nunca vai ver seus filhos, hein? Acaso quer passar adiante a maldição? Acaso quer passar adiante o mármore da família? Era menino ainda e já estava aleijado para o amor. Cedo desaprendi a sentir, no estrondo de cada tapa, no gemido de cada orgasmo teu. Todos os teus amantes me negaram a alcunha, sim a alcunha, de pai. Olho. Olhe comigo, porra! Corro a lupa sobre minhas fotografias. Lá estou eu aos dois anos, reconhece este olhar? Lá estou eu aos quatro, aos cinco, aos seis! A boca banguela, o cabelo tigelinha e a expressão grave, feito um velho! Assim como hoje, homem, carrego comigo o menino que fui pra poder pintar, pra olhar o mundo com olhos de espanto, olhos-de-primeira-vez, e captar a luz-que-sente, a cor-que-sente, o traço-que-sente; ainda menino, carregava o velho que virei a ser. Do ponto de vista da alma, a vida é um cinema. Há anos reviro os álbuns de fotografia. Inspeciono detalhadamente cada uma delas com a lupa e em nenhum lugar estou sorrindo. Eu também, em nenhuma foto, criança ou adulta, estou sorrindo. A gravidade é genética. O caralho! Os tapas é que produzem a gravidade. Eu devia ter partido de vez, não vale a pena voltar pra ouvir, como que num disco arranhado, as mesmas recriminações de sempre. Eu jamais te deixaria partir, agora que você é dentro de mim, quem manda sou eu. Talvez agora você esteja contente. Talvez agora seja possível atender suas demandas. Lembro de uma vez que você estava dormindo no sofá, era um dia frio, você tinha bebido vinho e sua respiração estava ofegante, o ar saía branco de dentro, tão gelada estava a temperatura do lado de fora de você... E eu fiquei espantado de você respirar e ser e de eu também respirar e ser... E encostei meu nariz no seu corpo e quis te sugar, quis te sorver, quis te respirar e respirar-me para dentro de mim, entretanto, eu sabia que, a partir do momento em que te respirasse e me respirasse, viveríamos dentro de mim, mas de um mim incorporal, atemporal, pura intensidade, velocidade da luz, num minuto dourado, eterno, sagrado, longe das rodas do devir. Toda criança é metafísica e cabeçuda, mãe, como certos filósofos. Quando ainda brincava, minha brincadeira favorita era vivo ou morto: vivo... Morto... Vivo... Vivo... Morto... Morto. Depois, deixei de te cheirar, te troquei pela cocaína, podes crer. Ela era mais fácil. Só exigia dinheiro. Será que eu sou mesmo possessivo? E você ainda tem dúvidas? Mãe? Que? Havia alguma possibilidade, por menor que fosse, de nós termos dado certo? Falhei com você, filho, e reconheço. Fiz muita merda, muita coisa feia na vida, mas nunca... Nunca deixei de te amar... Você podia ter dito, ter demonstrado... É sempre muito tarde quando nos damos conta. Mãe? Que? Posso pentear seus cabelos? Sempre fui louco por eles, sempre sonhei tocá-los e penteá-los e tocá-los e penteá-los, por horas e horas a fio. A escova é toda sua. Vê, no aquário, como a água viva se movimenta entre os outros peixes? Lenta, leve, fugidia, transparente... De todas as criaturas de Deus, a água viva é a mais maligna.




[1] Demônios são entidades externas, fluxos que passam, se detém por um tempo, e se vão. Fantasmas são internos. Corpo é possessão, campo de forças onde a vencedora mantém as outras sob domínio. Identidade é legião: sou todos os nomes da história. Também os peixes no aquário são a ponta, a extremidade de uma força que se anula no vidro, mas não parecem se importar. O olho do peixe é a imagem da resignação. Já as águas-vivas não têm olhos, são a efetivação de uma potência demoníaca, o escalpo transparente de bruxas ancestrais.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Chapeiro Bom

É sempre assim... cada picada aberta me tem mais fechado em mim
Beto Guedes & Caetano Veloso

            A padaria fica ao lado da maior universidade do país.
            Ele trabalha na padaria, mas nunca entrou na universidade. Tem só dezessete anos e ainda cursa o ensino médio numa escola estadual da periferia da cidade.
            Ela estuda na universidade e é cliente assídua da padaria. Veio de uma cidade no interior de Minas Gerais, uma cidade pequena; ainda assim, a maior produtora de leite e seus derivados de todo o país.
            Ele gosta do campus por causa das árvores. Também admira o conhecimento que supõe ser produzido lá dentro, embora jamais tenha tido coragem de entrar pelos portões sempre abertos. Parecia haver um campo magnético, como aqueles dos filmes de ficção científica, que o mantinha eternamente trancafiado do lado de fora. Se tentasse entrar, ele seria repelido por barreiras invisíveis e impossíveis de transpor. Tomaria choque. Certeza.
            Quanto às árvores, gosta delas porque trabalha das seis da manhã às duas da tarde e, no verão, quando espera o ônibus para voltar para casa, é sempre no horário em que o sol está mais quente. Não fossem as árvores – o campus é bem arborizado -, seria uma tortura ficar embaixo do sol quente depois de um dia inteiro trabalhando na chapa. Ele é chapeiro. Chapeiro bom.
            Ela tem vinte anos e acaba de terminar o terceiro semestre de filosofia. Ama Jean-Jacques Rousseau e cheese bacon. Acredita que a filosofia é a mais nobre ocupação humana. Participa de um grupo de estudos de A Fenomenologia do Espírito todas as segundas-feiras das 16:30 às 18:30, mas, como boa interiorana, não abre mão de uma refeição bem preparada, geralmente coberta por queijo derretido e seguida de um cafezinho preto.
            O engraçado é que ela é magra. Deve ter um metabolismo estupendo, pois em seu corpo jovem não há uma dobra fora do lugar.
            Os dois jamais tiveram oportunidade de conversar. O movimento na padaria é imenso nos horários em que ela aparece para comer... Ele gostaria de conversar com ela sobre seu mundo... Falar a respeito dos livros que lia nas quatro horas que gastava para ir e vir do trabalho todos os dias. Será que ela já tinha lido O morro dos ventos uivantes? Ou Pergunte ao pó? Ou os quadrinhos de Will Eisner? Será que ela já tinha ouvido uma balada do Black Sabbath chamada Solitude? Ou mesmo Changes? Ou aquela balada sobre lágrimas e chuva de uma banda grega que tinha o nome da deusa do amor? Crianças da Deusa do Amor? Era bom ouvir a Antena 1 FM quando voltava da escola, depois das onze da noite, baladas e só baladas, mas os amigos roqueiros não podiam saber. A reputação era mantida gastando metade do salário em discos de bandas desconhecidas na galeria do Rock. Em dia de pagamento, seguia a pé até a República, para economizar o dinheiro da condução, e voltava para casa com um ou dois discos dentro da sacola. É um prazer comparável ao sexo: ser adolescente, comprar um disco caro que se vinha paquerando há meses, chegar em casa e colocar na vitrola para tocar. O chiado da agulha percorrendo os sulcos negros é tão marcante quanto o primeiro beijo. A música é a melhor amante para um solitário.
            Mas agora era época de férias, pouquíssimo movimento na padaria, e ela não tinha ido embora para casa. O balcão estava praticamente vazio. A oportunidade perfeita, mas, como falar? O que dizer?
            Ela pediu um cheese salada no pão francês. Ele jogou o hambúrguer na chapa e colocou a tampa por cima.
            - Tira o miolo do pão pra mim. É que não quero engordar, sabe? – ela disse e sorriu.
            Ele escolheu o pão ideal, nem branco demais, nem muito torrado. Partiu-o ao meio, passou maionese e colocou na chapa para esquentar um pouco. Virou o hambúrguer e colocou duas fatias de queijo em cima. Tampou novamente. Escolheu a mais verde das folhas de alface e partiu novo tomate. Virou o pão, cujas bordas estavam douradas por causa da maionese levemente derretida, e acomodou a salada ali. Tirou a tampa de cima do hambúrguer, o queijo derretido borbulhava. Num movimento ágil, colocou o pão com a salada em cima do hambúrguer e virou com a espátula. Acomodou tudo em cima da outra metade e partiu ao meio. Um pouco de queijo derretido caiu sobre o dedão e o queimou. Mesmo chapeiro bom cometia deslizes. Chacoalhou o dedo e não deu importância. É assim que a gente faz.
            - Huuuummm! Deve tá uma delícia! Você é o melhor lancheiro que eu já conheci.
            - Chapeiro.
            - Que?
            - Chapeiro, o nome da profissão é chapeiro.
            - Então você é o melhor chapeiro que eu já conheci. O sanduíche está simplesmente divino! – disse e acolheu com o dedo um pouco de queijo derretido que caía da boca depois da primeira mordida.
            - Vai querer beber alguma coisa?
            - Um suco de laranja.
            Enquanto espremia as laranjas, ele sabia que tinha de dizer alguma coisa. A Intuição gritava que este era o momento. Se tentasse agora, poderia ter uma chance. Antes ou depois, como saber? Era agora ou nunca. Dizer alguma coisa, sim, mas, como escolher, entre todas as palavras, a palavra exata? Existia uma só palavra que o conduziria a um futuro ao lado dela? Havia um futuro no qual os dois namorariam um tempo e depois terminariam, ela voltaria para Minas e ele seguiria para Santa Cruz de la Sierra. Havia um futuro em que os dois se casariam e teriam um casal de filhos, o menino, o caçula, ficaria de recuperação todos os anos, da primeira à oitava série. Havia um futuro em que cada um seguiria seu caminho sem olhar para trás. Havia um bilhão de futuros possíveis. A felicidade dependia da palavra certa, de uma única palavra certeira. Palavra que funcionaria como chave numa porta ancestral.
            Entregou o suco e disse:
            - MORANGO!
            - Quié?
            - Se você quiser, coloco alguns morangos no suco pra você e bato no liquidificador.
            - E fica bom?
            - Como você mesma sempre diz, fica divino.
            - Então faz pra mim.
            Ele colocou o suco de laranja no liquidificador, acrescentou duas pedras de gelo e meia dúzia de morangos. Bateu a mistura por cerca de um minuto e depois entregou a ela.
            Experimentou.
            - Huuuummmmm, delícia! Tudo o que você faz é divino!
            Terminado o lanche, ela pagou tudo e foi embora. Deixou dois reais de caixinha. Ele não sabia se tinha dito a palavra certa. A gente nunca sabe. Morangos?
            Quando estavam no vestiário, trocando de roupa para ir embora, ele comentou com Severino, o copeiro, seu amigo, um pouco mais velho, tudo o que estava acontecendo.
            - E por que tu num chega e fala pra ela? Assim... Na lata! Aproveita que o movimento tá fraco.
            - Não consigo... Ela nunca se interessaria por um pé-rapado como eu... Tentei falar hoje, mas pensei uma coisa e disse outra.
            - Bicho, ou vai ou racha! O que mulher não guenta é home mole, mofino, sem decisão. Sou franco em falar.
            Terminaram de se trocar. Ele contou as moedas que tinha na carteira e colocou os fones do walk-man nos ouvidos.
            - Taí, tu não gosta de música? Por que é que tu não grava uma fita pra ela? Só com aquelas lenta de melá a cueca? Ela vai se ligá, bicho.
            Era isso. Severino tinha razão.
            Ficou em casa durante a noite, gravando uma sequência de baladas matadoras. Como diria o DJ de uma rádio brega: só as mais mais. Começou lá nos anos 1950, gravando Elvis Presley e Etta James. Passou para a década de 60 com Joni Mitchell e Crosby, Stills & Nash. Da década de 70, pinçou Gal Costa, Lô Borges e Beto Guedes. Dos anos 80, gravou Just like honey, do Jesus and Mary Chain e Por enquanto, da Legião Urbana. O espaço era curto. Para expressar o que era de fato, precisaria gravar umas dez fitas e resenhar uns cinquenta livros. Era o que dava pra fazer. Sentia-se satisfeito. A fita estava bonita.
            Dia seguinte, acordou às quatro horas da manhã e foi trabalhar. Apesar do sono, aproveitava o trajeto para ler, afinal, eram duas horas de viagem. Colocou os fones nos ouvidos, a touca por cima e abriu o Crime e Castigo.
            Durante as primeiras horas da manhã, não trabalhou bem, embora o serviço fosse fácil. Geralmente, neste horário, as pessoas pediam pão com manteiga, no máximo um misto quente. Easy... Easy... Só que, nesta manhã, ele deixou dois pães com manteiga caírem no chão ao retirá-los da chapa.
            Motivo?
            A fita k7 ardia no peito.
            Era mais de nove horas quando ela apareceu. Ele lavava as verduras. Chapeiro bom tem tudo preparado na hora do almoço.
            - Oi... Huuuummmm, tô morrendo de fome! Não jantei ontem. O que você me sugere?
            - Churrasco com queijo, pode ser?
            - Hummm, não sei. Você põe umas fatias de bacon pra mim?
            - Você é quem manda.
            - E um pouco de vinagrete também?
            - Já disse, você é quem manda.
            - Então faz lá, capricha, tô mesmo morrendo de fome.
            Ele colocou o contrafilé e quatro fatias de bacon na chapa.
            Saiu um pouco de seu posto de trabalho.
            Estava disposto a entregar a fita.
            Ela lia um livro de capa vermelha.
            Judas, o obscuro, de Thomas Hardy.
            - Já li esse livro.
            - Jura? É muito triste, mas estou adorando.
            - Todo livro bom é meio triste.
            - Tem razão. Então, além de fazer estes lanches maravilhosos, você também gosta de ler?
            - Ahã. Esse aí eu li duas vezes. É a história de um cara pobre que quer ser intelectual, né? Ele tenta de todas as formas e, no final, fracassa.
            - Não conta o final, ainda não estou nem na metade.
            - Desculpe. Tenho uma coisa pra te dizer. Espera só um pouco...
            Nisto, ele teve de ir até a chapa para virar o bife e o bacon. Quando voltou, um homem que ele conhecia, professor da faculdade, barba e cabelos grisalhos, estava sentado ao lado dela, com o braço ao redor de seus ombros.
            - Que livro é esse que você está lendo? – Perguntou o professor.
            Ela mostrou a capa.
            - Uma porcaria! Já falei que você tem de ler Sartre.
            - Já li Sartre – interrompeu o chapeiro.
            O professor fez uma careta. Estava incrédulo, embora fosse um humanista de Moema. Um chapeiro que lia Sartre era inimaginável! Nem em Paris! Ou então era mentira mesmo...
            - Que livro de Jean Paul Sartre você leu? O Ser e o Nada? A Náusea?
            - Não, nenhum dos dois, o título era A idade da razão. Gostei principalmente de um personagem homossexual que afoga seus gatos, e ele amava demais os gatos, no Sena.
            - Além de fazer lanches divinos, ele conhece um bocado de livros.
            Ele sorriu e teve de correr até a chapa. Em menos de um minuto, colocou o vinagreta para esquentar, cortou um pão francês e também pôs sobre a chapa. Duas fatias de queijo sobre o bife, o bacon por cima. O bife por baixo e o bacon por cima derreteriam o queijo mais rapidamente. Por fim, juntou o vinagrete e, num movimento milimétrico, montou o lanche. Aí era só partir o lanche ao meio e levar para ela.
            Quando se aproximava do balcão da copa, entretanto, ela e o professor estavam se beijando. Ali, bem no meio da padaria e da manhã. Então eles estavam juntos? Como homem e mulher? Juntos? Ele tinha idade para ser pai dela, forçando até avô, porra! Até aquele momento, nem sequer tinha desconfiado. O lanche quase despencou de suas mãos. A fita k7 tremeu sozinha no bolso do guarda-pó. A barriga doeu. Peidou... Encostou-se ao balcão.
            Severino percebeu tudo e foi rápido em recolher o lanche de suas mãos.
            - Tais passando mal, menino? – O Português perguntou do caixa.
            Severino voltou correndo com um copo de suco bem doce.
            - Tá não, seu Joaquim, o menino tá é bem.
            No balcão, o professor discutia com a menina, na medida em que ia lendo as notícias do jornal:
            - Isto é uma vergonha! Eu exijo que Israel liberte a Palestina! Mas como? Outro caso de pedofilia na igreja católica? Sinto-me enojado!
            Entre um comentário e outro, ela tenta beijá-lo, mas é repelida:
            - Você está com a boca cheia de gordura, anjinho, depois nos beijamos. Deixe-me terminar de ler o jornal, mas, o que é isto? Temos de acabar de fato com a polícia, tanto a civil, quanto a militar...
            - O que é que você queria me dizer? – a menina pergunta ao chapeiro enquanto o professor continua lendo o jornal e, dessa vez, exige que os Estados Unidos retirem, de uma vez por todas, todas as suas tropas do Oriente Médio.
            - Deixa, quieto – ele responde e se dirige ao outro lado da padaria para cortar os frios. É preciso ter tudo pronto para a hora do almoço.
            O casal termina a refeição.
            Vão de mãos dadas até o caixa.
            Ele paga a conta e pede um maço de cigarros. Antes de irem embora, o professor grita ao chapeiro:
            - Segura aí! – E atira uma moeda de um real.
            A moeda bate no peito e vai parar no vão embaixo do balcão. Ele agacha e tenta apanhá-la.
            - Tava gostoso demais da conta.
            - Obrigado – ele responde e continua tentando apanhar a moeda. Não consegue. É preciso buscar o rodo lá no cozinha. Ao se ajoelhar para tentar pegar a moeda com o rodo, a fita k7 cai de seu bolso. Ele recolhe a moeda e a fita e vai até a copa.
            - Tomaí – diz Severino.
            - O que é?
            - Bebe, rapaz.
            É um líquido amarelo. Parece fanta laranja, mas deve ter alguma bebida alcoólica dentro.
            Depois de virar o copo, o chapeiro tira a fita do avental e atira no meio da rua. Um caminhão de bebidas que estacionava para a primeira entrega do dia, imediatamente esmaga a música. O barulho do acrílico sendo triturado se parece com o barulho de ossos quebrando.
            - Fica desse jeito não, a vida é assim mesmo. Se tu quisé, te levo na zona, menino, hoje mesmo.
            - Deixa quieto, Severino.
            E aí um cliente chega e, sem titubear, exige:
            - Quero dez cheese tudo pra viagem!
            - É pra já!
            Imediatamente, o chapeiro corre até a chapa e coloca cinco hambúrgueres para fritar. Depois quebra cinco ovos e junta um punhado de bacon que é para dar o gosto.  Não dava para fazer os lanches todos de uma só vez. Teria de fazer metade e metade. Normal. É profissional. Chapeiro. Uma profissão tão inglória e gloriosa quanto outra qualquer. Os gênios entre os egípcios manejavam a desempenadeira. Eram pedreiros. Ergueram as pirâmides. Ele é chapeiro. Chapeiro bom.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Quase-Hermes


Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas.
Guimarães Rosa.

Introdução
Desde a Grécia antiga, filosofia e literatura sempre caminharam juntas, ora mais próximas, irmanadas; ora distanciadas, inimigas. Tanto o logos, quanto o mito são maneiras de pensar o real e a vida, mas enquanto o primeiro procura a verdade, o segundo a cria. Literatura e filosofia são tentativas, por caminhos diferentes, de ganhar e tentar responder as mesmas questões. Para nós, o filósofo e o escritor têm em comum o fato de partilharem o mesmo estranhamento diante do mundo. A pergunta que a filosofia lança por meio de Martin Heidegger no início do seu Introdução à metafísica: por que existem os entes e não antes o nada? Atravessa a obra de escritores fundamentais como Franz Kafka, Virgínia Woolf e Clarice Lispector. No entanto, enquanto a filosofia empreende a tarefa absurda de compreender e explicar a realidade por meio do conceito, a literatura funda um mundo, que, embora dialogue com o mundo real e intervenha nele, mantêm-se autônomo, de pé sobre suas próprias fundações. Quando Drummond diz: “As casas espiam os homens / que correm atrás de mulheres” cria uma casa que não tem qualquer intimidade com a palavra casa e nem com a casa real, porque aqui a casa espia. É a partir do poema que tal casa existe e passa a ser. A palavra poética não rotula, ela funda, faz e é.
[...] também o poeta usa a palavra, mas não assim como os que habitualmente falam e escrevem, que precisam desgastar as palavras. Ele pelo contrário, usa-a de tal maneira que somente assim a palavra se torne e permaneça verdadeiramente uma palavra. (HEIDEGGER, 2010, p. 119)

Enquanto a filosofia busca saber, a literatura busca fazer – a palavra poesia vem do grego ποιησις (poiésis) derivado de poiein, que significa realizar, fazer - e, no entanto, ambas só existem por meio da palavra, ambas buscam a verdade possível da palavra.  Tanto uma quanto a outra intentam “a libertação da linguagem dos grilhões da gramática e a abertura de um espaço essencial mais original [que] está reservado como tarefa para o pensar e o poetizar.” (HEIDEGGER, 2005, p.09)
Neste ensaio, procuraremos demonstrar de que maneira a filosofia por meio da hermenêutica busca compreender as obras literárias. Tomaremos por base o trabalho de Benedito Nunes, Hans-Georg Gadamer e Martin Heidegger.

A linguagem é a casa do Ser

            Não é exagero dizer que o homem é um ser hermenêutico. Tornamo-nos humanos à medida que compreendemos e interpretamos o mundo que nos cerca e compreendemos e interpretamos a nós mesmos. Há um corpo... Há um cérebro... Há um fígado... Um coração... Um rim... Um emaranhado de cadeias de carbono... Para a ciência, somos feitos de átomos, mas isto apenas não nos define, somos feitos, sobretudo, de histórias. É na palavra que o homem faz morada - poeticamente, o homem habita - e a natureza até então viva, mas silenciosa se abre para compreender-se, refletir-se e cantar-se. Não fosse o homem, e o homem é linguagem, as coisas todas ainda estariam aí, os planetas em suas rotas, os pássaros nas árvores, o oceano em seu berço, mas não saberiam, elas, as coisas, apenas seriam, sem jamais saber que são. Nós, que nascemos já na segunda metade do século XX, fomos lançados do ventre materno para um mundo dado. As ferrovias já estavam aí, as bibliotecas já estavam aí, o conhecimento já estava aí e os livros também. Tornamo-nos gente à medida que interpretamos o mundo ao nosso redor e que vamos construindo nossa identidade, melhor, nossa alma, enquanto somos rasgados pelo saber, pelas obras, pelas histórias que nossos antepassados mais remotos produziram. Isto que somos torna-se um eu à medida que é atravessado pelo mundo, pelas produções humanas e que reflete sobre o mundo e sobre si mesmo. Nós somos um diálogo que se enriquece enquanto compreendemos um pouco mais quem somos, onde estamos e de onde viemos. Mas, afinal de contas, o que é compreender? Compreender não se separa da vida, mas adere-se à vida e a transpassa em todos os momentos. Compreender é nossa atitude mais primária, o bebê compreende o olho da mãe. Compreender não é uma atividade que se faz trancado num escritório ou laboratório, observando o rio à distância. No momento em que nos afastamos da coisa, nós a perdemos e se depois a explicamos cientificamente é porque ela, a coisa, já tinha desaparecido. Explicamos sem ter compreendido. Se vamos falar de vida, e, a nosso ver, a questão primordial é onde está a vida?, então o imperativo não é olhe o rio, mas  entre no rio, coloque os pés na água, sinta o frescor e a turbulência, o musgo verde no fundo, o cheiro de lírios; ouça os gritos dos afogados.

A compreensão não vem depois da vida, mas a permeia em seus momentos todos. Compreendemos o outro quando com ele falamos; uma ferramenta quando a utilizamos; os acontecimentos cotidianos quando nos atingem; o ambiente ou o mundo em que vivemos. (NUNES, 2011, p. 270).



Se vamos falar da obra, e o assunto aqui é a obra literária, ou melhor, o olhar da filosofia sobre a literatura, então o imperativo não é observe a obra, conte as palavras e os tijolos, procure no dicionário os trezentos significados possíveis, mas sim: penetre a obra e seja por ela penetrado. A obra é viva, é vida. Um provérbio zen diz “o sábio aponta a lua, mas o tolo olha para o dedo”, eu completaria; e ainda reclama da cutícula. Parece ser este o trabalho crítico que temos feito, reclamar da cutícula no dedo. É preciso penetrar a obra - que é atemporal e vive no eterno presente da origem, com suas raízes fincadas no solo da Arte - pela porta de nosso tempo, ano de 2013 da era comum e deixar que a porta permaneça aberta para que a obra fale uma vez mais. O homem é um ser hermenêutico e a Arte é a mais encantadora das produções humanas. Vejamos de que maneira a hermenêutica trata a obra de arte literária.
Antes de prosseguirmos, cumpre, porém, deixar claro o que significa de fato a palavra hermenêutica. O termo, cuja origem é o verbo grego herméneuein e significa exprimir, explicar, traduzir, remete ao deus grego Hermes, o mensageiro dos deuses, a quem os gregos atribuíam à origem da linguagem e da escrita e a quem consideravam o patrono da comunicação e do entendimento humano.  Segundo Benedito Nunes:

Desde a Antiguidade grega, sob a custódia do deus mensageiro Hermes, patrono-mor da interpretação de Homero na época helenística e depois do labor interpretativo das Escrituras hebraico-cristãs, a hermenêutica é, na acepção corrente e generalizada, a arte de extrair as mensagens implícita ou explicitamente contidas nos escritos literários, jurídicos ou religiosos. Sua incumbência consiste, portanto, na interpretação dos textos, mediante um trabalho de exegese. (NUNES, 2011, p. 269).


            Basicamente, a hermenêutica se divide em duas escolas: Sensus litteralis, que se ocupa da interpretação gramatical e filológica dos textos e Sensus allegoricus, que se ocupa do sentido espiritual dos textos. O reponsável pela entrada definitiva da hermenêutica para o âmbito da filosofia é Friedrich Schleiermacher, que a definiu como uma teoria geral da compreensão. Para Schleiermacher, a hermenêutica deveria ser capaz de estabelecer os princípios gerais de toda e qualquer compreensão e interpretação de manifestações lingüísticas. Onde houvesse linguagem, ali se aplicaria sempre a interpretação, pois tudo o que é objeto da compreensão é linguagem. Mais recentemente, filósofos das mais variadas tendências como Martin Heidegger, Wilhelm Dilthey, Paul Ricour e Hans-Georg Gadamer utilizaram o método hermenêutico na construção de seu pensamento filosófico.
            Como vimos, a hermenêutica é uma teoria da compreensão que não se liga só ao texto escrito, mas a diversas atividades. No dia a dia, estamos o tempo todo interpretando. Nosso modo de compreender se organiza por meio de uma cadeia de perguntas e respostas. Paramos no posto de gasolina. Abastecemos o carro. Perguntamos ao frentista:
- Ei, amigo, quanto ficou?
E ele reponde:
- Duzentos reais.
- Aceita cartão de crédito?
- Sim, senhor, a propósito, o senhor já verificou o óleo? Estamos com uma promoção sensacional.
- Não é necessário, troquei o óleo semana passada.
- Então, só isto mesmo?
- Só.
Perguntas e respostas, sempre perguntas e respostas. Por meio da palavra nos localizamos no mundo, nos entendemos ou nos desentendemos, mas conseguimos nos comunicar. Quando há dúvidas, sempre se pode parar, perguntar uma vez mais, pedir que o interlocutor esclareça aonde quer chegar. A palavra falada é viva. A palavra escrita não é morta, todavia o interlocutor, geralmente, não está mais lá para esclarecer dúvidas, ou explicar exatamente o que quis dizer. Sem contar que o texto que se pode chamar de artístico, ou literário, sempre vai além das intenções de seu autor. Dostoiévski queria escrever um panfleto para alertar o povo russo a respeito dos problemas que o uso excessivo de álcool poderia causar: saiu-lhe Crime e castigo.
Além disso, grandes mestres da humanidade foram, sobretudo, mestres orais. Pitágoras, Buda, Jesus de Nazaré e Sócrates não escreveram. O Cristo até escreveu algumas palavras que ninguém jamais soube o que diziam porque a areia se encarregou de apagá-las e Sócrates, além de não escrever, desconfiava da palavra escrita, assim como seu discípulo mais eminente, Platão,  que escreveu muito, mas procurou resolver está inércia do texto escrito por meio da criação de diálogos. Para dificultar ainda mais o nosso trabalho, sobrevem ainda a questão de que, nos nossos diálogos cotidianos, falamos de coisas que existem, a gasolina, o carro, a rua, o cartão de crédito. Na literatura e na filosofia, entretanto, falamos do que não há no mundo concreto. Que é o ser? O espírito? Mônada? Uma tarde azul, como a de Drummond? Compreender um texto não literário, uma reportagem, por exemplo, não é tão difícil, pois nos reconhecemos nele, temos os referenciais no mundo concreto:

Quando leio uma frase em um ensaio qualquer, em um texto científico, em uma carta, ou em uma notícia, então é simples dizer o que significa aí compreender, a saber, o fato de eu saber o que o outro quer dizer. Eu compreendi a pergunta em vista da qual o que é dito conquista a sua significação. Este modelo de pergunta e resposta caracteriza todo o nosso conhecimento. (GADAMER, 2010, p.99)


Como, porém, interpretar poetas como Lautreámont, ou Rimbaud, ou mesmo o São João que escreve o Apocalipse? Quando lemos uma carta ou um jornal, podemos jogá-los fora, eles cumpriram sua missão de comunicar, mas um poema não se esgota, mesmo que o decoremos. Um poema funda um mundo. Mantem-se e é vivo independentemente do tempo histórico e do mundo historicamente instituído e, se o mundo real não o reconhece, tanto pior para o mundo real. As palavras cotidianas são como as fôrmas que usamos para assar um bolo, elas nos dão uma noção das coisas, de como o bolo é, dão a forma ao bolo, mas tais palavras não são o bolo, o bolo é maior, extravasa as extremidades da fôrma. No poema, forma é conteudo, a própria fôrma é bolo. Heidegger, em Origem da obra de arte, pergunta pela arché da obra, afirma que é impossível separar forma e conteúdo. Se no próprio utensílio a forma já é conteúdo (quando vou fazer uma capa de chuva, devo conseguir material impermeável, quando vou colocar um cabo num machado, devo usar madeira resistente), como então dissociar uma coisa da outra na obra de arte? Pior ainda, se ao menos colocamos a questão em termos de forma e conteúdo, no caso do texto literário som e sentido, já estamos no caminho errado, o caminho da metafísica. Depois da descrição de um sapato de camponês, não por meio do sapato real, ou da descrição da fabricação do sapato, mas por meio dos sapatos de camponeses pintados por van Gogh[1], Heidegger sentencia: “Então a essência da arte seria esta: O pôr-se em obra da verdade do sendo. Mas até agora a arte só tinha a ver com o belo e a beleza e não com a verdade.” (HEIDEGGER, 2010, p. 87). Na China antiga, quando alguém pintava uma palmeira, não retratava a palmeira, mas o TAO por meio da palmeira, e na Índia, os Upanixades...
Parece que estamos nos dispersando. Já fomos até a China antiga. Voltemos. Falávamos de literatura e filosofia, texto e compreensão, dissemos que compreendemos as coisas na linguagem por meio de um mecanismo de pergunta e resposta, mas que o texto literário é mudo, fechado, nenhuma palavra mais pode ser inserida. Chegamos então a um impasse. Como ganhar no texto e pelo texto a pergunta possível?
Gadamer divide a questão em três partes:
1-) A obra literária é sempre escrita.
2-) A transposição para a escrita significa a perda da imediatidade própria à fala “Só compreendemos quando alguém lê como se falasse”. (GADAMER, 2010, p.99)
3-) “Uma espécie de idealidade é própria a toda transposição para a escrita”. (GADAMER, 2010, p.97). E é aqui que ganhamos a pergunta de fato. O texto fala quando penetramos em sua idealidade atemporal. A comunicação ocorre apesar da palavra e não por causa dela. E, se há buracos no tecido, eles são preenchidos; e, se há vazios, eles são completados. Clarice Lispector cravou: “Se for para escrever, que não se esmaguem com palavras as entrelinhas.” Voltemos ao provébio zen “O sábio aponta a lua, mas o tolo olha para o dedo.” O texto fala quando olhamos a lua e não o dedo. Para os muçulmanos,

o Corão é anterior à criação, anterior à língua árabe; é um dos atributos de Deus, não uma obra de Deus; é como sua misericórdia ou sua justiça. No Corão fala-se de forma bastante misteriosa da mãe do livro. A mãe do livro é um exemplar do Corão escrito no céu. Viria a ser o arquétipo platônico do Corão, e esse mesmo livro – afirma o Corão -, esse livro está escrito no céu, que é atributo de Deus e anterior à criação. É o que proclamam os ulemás, os doutores muçulmanos.  (BORGES, 2010, p. 14-15).



E os versos que abrem o Tao Té Ching são: “O caminho que poder seguido / não é o caminho perfeito. / O nome que pode ser dito / não é o nome eterno. / No princípio está o que não tem nome.” (TSÉ, L. 1993, p.1) Se achamos os dois exemplos anteriores místicos demais, fiquemos com Blanchot:

“As Sereias: consta que elas cantavam, mas de uma maneira que não satisfazia, que apenas dava a entender em que direção se abriam as verdadeiras fontes e a verdadeira felicidade do canto. Entretanto, por seus cantos imperfeitos, que não passavam de um canto ainda por vir, conduziam o navegante em direção àquele espaço onde o cantar começava de fato. Elas não o enganavam portanto, levavam-no realmente ao objetivo. Mas, tendo atingido o objetivo, o que acontecia? O que era esse lugar? Era aquele onde só se pode desaparecer, porque a música, naquela região de fonte e origem, tinha também desaparecido, mais completamente do que em qualquer outro lugar do mundo; mar onde, com orelhas tapadas, soçobravam os vivos e onde as Sereias, como prova de sua boa vontade, acabavam desaparecendo elas mesmas.” (BLANCHOT, 2005, p.3)

            Sim, é preciso penetrar a idealidade do texto porque a

tese é, a de que a obra literária tem em uma medida maior ou menor a sua existência voltada para o ouvido interior. O ouvido interior apreende a construção linguística ideal – algo que ninguém nunca pode ouvir, pois a construção linguística ideal exige da voz humana algo inatingível – e justamente este é o modo de ser de um texto literário. (GADAMER, 2010, p.98).


            Para alcançar um diálogo verdadeiro e uma certa intimidade com a obra de arte literária “temos de afastar das coisas o escutar, distanciar delas o nosso ouvido, ou seja, escutar abastratamente.” (HEIDEGGER, 2010, p. 59-60). Ninguém disse que seria fácil, mas quem foi que disse que Arte tem alguma coisa a ver com facilidade?
            Até agora tratamos de como ganhar a questão, do que a hermenêutica procura fazer. Em nenhum momento nos referimos ao como. Isto não é em vão. É que não acreditamos em métodos puros, cristalinos. Segundo Benedito Nunes, Paul Ricouer teceu o seguinte comentário a respeito do livro Verdade e Método, de Hans-Georg Gadamer: “A questão é de saber até que ponto a obra de Gadamer merece denominar-se Verdade e Método; talvez fosse preferível intitular-se Verdade ou Método. (NUNES, 2011, p. 270).
Toda forma de se aproximar de um texto é uma boa forma, desde que a crítica não procure fazer ciência. Não existe objetividade de fato, pois o intérprete chega ao texto a partir de seu presente, que é diferente do presente do autor. Ele, o intérprete, não chega ao texto vazio, feito uma folha em branco, existe toda uma formação anterior,

nisso os românticos estavam certos. A interpretação de um texto não começa no grau zero de escrita ou num patamar nulo de sentido a ser preenchido, pouco a pouco, pelo verdadeiro. Ele começa in media res, com certos referenciais, numa determinada perspectiva. O preconceito nada mais é do que o correspondente histórico da antecipação da experiência humana. Mas constitui a única entrada possível na matéria – entrada a que necessariamente não ficamos presos. (NUNES, 2011, p. 273).

            Para a hermenêutica, o intérprete de um texto é aquele que avança até este outro presente que foi o passado, para daí penetrar no tempo da obra que não é história, mas origem:

é na direção do passado que avança o historiador, seguindo a pista, o vestígio, que lhe deixou uma fonte documental [o próprio texto] [...] no entanto, o tempo decorrido não é neutro: interpôs-se entre nós e a sociedade pretérita uma distância insuperável – o que não significa bloqueio, fechamento, mas a abertura, sobre essa sociedade outra, de uma perspectiva que só o presente pode dar-nos. Compreendemos essa época distante, infamiliar, aproximando-a do presente, do familiar, onde nos situamos.” (NUNES, 2011, p. 274) 

A partir do confronto entre os tempos históricos, o que é essencial na obra vem à tona.

Conclusão

            Procuramos nestas poucas páginas demonstrar de que modo a filosofia se debruça sobre a literatura para criticá-la por meio do método hermenêutico. Para isto nos baseamos na obra de filósofos fundamentais como Heidegger e Gadamer. Contudo, por mais que tenhamos defendido o método hermenêutico, acreditamos que não há um método puro, exato, certeiro, para a análise de uma obra de Arte. A obra sempre esgota a interpretação, mas a interpretação jamais poderá esgotar a obra. Há sempre uma espécie de silêncio da obra, no qual ela se fecha e de onde continua jorrando seu mistério através dos tempos. Para encerrar, nada melhor do que evocar mais uma vez o pastor alemão, que a nosso ver, penetrou mais fundo neste mistério que qualquer outro homem:
            “As reflexões precedentes dizem respeito ao enigma da arte, ao enigma que é a própria arte. Está longe a pretensão de resolver o engima. Permanece a tarefa de ver o enigma.” (HEIDEGGER, 2010, p. 81). Trocando em miúdos, foi isto que procuramos fazer, nada mais do que trazer o enigma à luz.

Bibliografia

BLANCHOT, M. O livro por vir. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
BORGES, J.L. Borges oral & sete noites. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
GADAMER, H.G. Hermenêutica da obra de arte. São Paulo: Martins Fontes, 2010.
HEIDEGGER, M. A origem da Obra de Arte. São Paulo: Edições 70, 2010.
____________. Carta sobre o Humanismo. São Paulo: Centauro, 2005.
____________. Ensaios e Conferências. Rio de Janeiro: Vozes, 2012.
NUNES, B. Ensaios Filosóficos. São Paulo: Martins Fontes, 2011.
TSÉ, L. Tao Té Ching, o livro do caminho perfeito. São Paulo, 1993.



[1]  Um par de sapatos de camponês e nada mais. E contudo...
Da escura abertura do interior gasto dos sapatos a fadiga dos passos do trabalho olha firmemente. No peso denso e firme dos sapatos se acumula a tenacidade do lento caminhar através dos alongados e sempre mesmos sulcos do campo, sobre o qual sopra contínuo um vento áspero. No couro está a umidade e a fartura do solo. Sob as solas insinua-se a solidão do caminho do campo em meio à noite que vem caindo. Nos sapatos vibra o apelo silencioso da Terra, sua calma doação do grão amadurecente e o não esclarecido recusar-se do ermo terreno não-cultivado do campo invernal. Através deste utensílio perpassa a apreensão sem queixa pela certeza do pão, a alegria sem palavras da renovada superação da necessidade, o tremor diante do anúncio do nascimento e o calafrio diante da ameaça da morte. À terra pertence este utensílio e no Mundo da camponesa está ele abrigado. A partir deste pertencer que abriga, o próprio utensílio surge para seu repousar-em-si. (HEIDEGGER, 2010, p. 81).