Desculpe Robin Williams por não ter respondido a tempo ao teu olhar. De
qualquer modo, tornei-me professor - Oh! Captain my captain - e deixo
meu Folhas de Relva aberto sobre o criado mudo, feito um livro sagrado.
Desculpe Robin Williams, por não ter respondido a tempo ao teu olhar, ao
teu desencaixe, a tua maneira certeira de dizer a piada certa na hora
certa. Só tem este timing quem sofre, só tem um sorriso como o teu quem
sofre, quem presa o riso como um metal precioso porque não o tem fácil.
Eu sou da América do Sul, eu sei... você nem vai saber, mas agora
respondo, não para mim, nem para você, porque a gente não responde ao
remetente, mas a um outro destinatário desconhecido. Assim como Vincent
tentou responder a Millet, mas chegou a mim. Assim como Lô tentou
responder a Lennon e McCartney, mas chegou a mim. Respondo agora, eu
sei... você nem vai saber do menino que brincava de caubói com estrela
de xerife... é que esta chama não se devolve, mas se passa adiante,
Robin. É o fogo entregue aos homens e que os homens dividem entre si nas
noites frias, de solidão, em que nem mesmo os dvds pornográficos
parecem funcionar e então a gente, em nostalgia, volta ao velho
Nostalgia do velho Tarkovsky, e se transforma no louco tentando
atravessar a fonte com a chama acesa. Essa chama é o amor que tenta se
manter aceso nos tempos do automatismo espiritual e da técnica. A gente
levanta a chama, velho, e espera que um outro solitário responda, aqui,
acolá, do outro lado do mundo. Essa chama é a chama que Milton
Nascimento protege, que Leandro assopra para que ganhe força, que
Fernando recolhe no olhar das crianças que repartem a merenda. Essa
chama é você tentando curar o gênio problemático, mantendo o mesmo olhar
no teu último filme ruim, de bigodes e óculos de John Lennon em Uma
noite no museu. Fala sério, este último você poderia muito bem ter
passado. I´m so sorry, Robin, por só agora ter comprado meu uniforme de
palhaço, meu quepe de vigia... é que a gente sempre só percebe quando
perde. Não faz mal, também tenho uns truques na manga, umas piadas
antigas que sempre funcionam e as novas que brotam a todo instante em
qualquer conversa, mas que eu sei e você sabe, vêm, inapelavelmente, do
pântano. Desculpe só agora ter me preocupado... é que você estava tão
distante, mas este seu sorriso puro e triste, este seu olhar puro e
triste, está também, agora e sempre, espalhado por aí, nos cabelos
estranhos dos jovens tristes que se reúnem pelas praças em busca de
compreensão, nos velhinhos que jogam dama nesta mesma praça enquanto a
noite cai inevitavelmente. Desculpe a minha letargia, eu buscava
outros, mais próximos de mim, para socorrer, meu pai e a próstata, e esqueci que, do outro lado
da tela, você gritava por socorro. Desculpe a lágrima que escapa por um
olho só enquanto todos dormem, é que sou homem e não pega bem chorar
com os dois olhos. Desculpe, Robin Williams, desculpe. Desculpe a todos
os que estão andando por aí... sofrendo, a gente se sente frustrado. É
que nunca chegamos a tempo.
sábado, 25 de outubro de 2014
quinta-feira, 2 de outubro de 2014
Resenha sobre o conto Pianista Boxeador
http://homoliteratus.com/programado-para-2-10-marcia-barbieri-resenha-seu-conto-predileto-pianista-boxeador-de-daniel-lopes/
Por Márcia Barbieri
Cola lá!
Por Márcia Barbieri
Cola lá!
quarta-feira, 16 de julho de 2014
Erosão
Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos
Mateus, 10:16
Ela
nunca havia me dito uma única palavra, até o dia em que o encanamento da
cozinha entupiu.
-
Começa como uma manchinha preta entre os azulaijos. A princípio, não dámos
importância. Botamos um pouco mais d’alvejante. Esfregamos o pano com mais
vontade. Adianta pouco, ó João. No dia seguinte, a mancha está lá d’novo, um
pouco mais graúda. Então surge um buraco ao redor do ralo que se espalha pela
cozinha, engole a casa, a Pátria, nosso coração, todo nosso povo. A vida
continua, mas, agora, nos desprendemos dela. Há um abismo entre nossa alma e o
mundo lá fora.
-
Dona Carmelita, o buraco pode parecer grande, mas não é nada demais. A água foi
infiltrando aos poucos no concreto, umedeceu a terra, por cima parecia que tava
tudo bem, mas debaixo do piso tava tudo oco. Um buraco enorme, reconheço, mas,
numa tarde de trabalho, resolvo o problema. É só trocar as manilhas próximas da
caixa de esgoto que podem estar rachadas, comprar um saco de cimento, um pouco
de pedra e areia e construir uma caixinha nova. Dia seguinte, tá tudo seco.
-
Pois bem, conversa com o Andrade – ela disse e subiu para a parte de cima do
prédio, onde ficavam tanto o escritório, quanto o quartinho no qual eu dormia.
Eu
saí de dentro do buraco, onde tinha entrado para avaliar o tamanho do estrago e
fui procurar meu patrão. Era de manhã, o comércio estava fechado. Seu Andrade,
marido de Dona Carmelita, um português da Ilha da Madeira, estava na parte da
frente da pizzaria, conferindo o estoque e anotando os pedidos que precisavam
ser feitos.
-
Como é João? Podes consertar?
-
Fácil, fácil, mas preciso comprar algum material.
-
Podes pegar no depósito, quando abrir, diga ao Lima que depois passo lá e acerto, ora pois!
Comprei
o material, consertei o encanamento e esta ficou sendo a primeira vez que Dona
Carmelita me dirigiu a palavra. Dona Carmelita tinha uns quarenta e cinco anos,
era loira, magra, os olhos azuis. Os bicos de seus peitos faltavam furar a
blusa. Pareciam dois beija-flores enfurecidos, dois beija-flores endemoniados.
Ela povoava todos os meus sonhos eróticos e minhas masturbações. Eu poderia
plantar uma roseira no rabo dela, fazer um colar de contas com seus pentelhos
amarelos, esculpir um Buda sorrindo de pernas cruzadas no bico dos seus seios,
mas havia Seu Andrade e meu dono era a solidão.
A pizzaria
ficava na Aclimação, numa travessa da Lins de Vasconcelos. Outro dia passei por
lá. Incrível. Coincidências dessas que acontecem e indicam que dois raios podem
sim cair no mesmo lugar. O rapaz entrou no meu táxi e deu o mesmo endereço do
lugar onde eu tinha vivido e trabalhado havia mais de vinte anos. Quase abri
mão da viagem, mas no final acabei aceitando. As contas chegam todo mês
enfurecidas na caixinha do correio – nunca uma notícia boa – e não podemos nos
dar ao luxo de preservar o coração. O prédio tinha sido reformado. Era
completamente outro. Abrigava um escritório de advocacia. Havia agora
carpete verde-escuro no chão e portas de vidro. Ali, eu poderia ter comido dona
Carmelita, Bruna Lombardi da Aclimação, se soubesse que se tratava de um adeus,
de uma despedida. Ela era toda ternura e delicadeza no trato com os outros, com
qualquer um. Mal sabia que todos nós, hienas, lobos ou chacais, tínhamos ânsia era
de devorá-la. Seu Andrade, talvez o mais faminto de todos nós, desconfiava e
seu ciúme era fera a espreitar a mulher a cada passo, a cada riso. Evocar
Andrade é preciso.
O português
era baixo, menos de um metro e setenta. Atarracado, forte, meio calvo,
geralmente irritadiço, Seu Andrade era um putanheiro. Em dia de pagamento,
quando o movimento na pizzaria era maior, fechávamos o estabelecimento mais
tarde e depois íamos todos juntos, patrões e funcionários, para a zona. Seu
Andrade pagava. Era sem vergonha, logo ciumento.
Eu poderia ter
comido minha patroa, se soubesse que se tratava de uma despedida, de um adeus.
Um dia, eu estava no meu quartinho, na parte de cima da pizzaria. Era de manhã.
Sempre sofri de insônia. Hoje, na minha profissão, isso até que é bom. Para
corrida noturna, a taxa é sempre dobrada. Naquela época, eu me dava mal.
Passava a noite acordado e, dia seguinte, trabalhava o dia inteiro com sono,
meio mole, tendo vertigens, alucinações, vendo por toda parte imagens
estranhas, demoníacas. Na manhã em que Dona Carmelita
entrou no meu quartinho, eu tinha passado a noite toda acordado, pintando. Eu
pintava cavalos incendiados correndo pela campina, esculpia, com o bisturi,
bichos híbridos na massa da pizza, pássaros com cabeça de serpente, peixes com
cabeça de hipopótamo, e depois colocava pra assar. Dormir era difícil. De dia
eu trabalhava, mas, uma hora da manhã, quando a pizzaria fechava, os demônios
saíam do porão. Lembranças de ofensas sofridas há muito tempo, na minha cidade
do interior, lembranças de pessoas que eu tinha magoado e para quem eu nunca
mais poderia pedir perdão, lembranças de amigos que tinham sumido assim, pra
nunca mais e de Ana, a menina com quem eu tocava violão junto à fogueirinha de
papel. Diabo, eu sempre senti a passagem do tempo com dor. O prédio onde
funcionava a pizzaria, hoje é um escritório de advocacia. Onde foi parar o
cheiro bom de azeite, orégano e queijo assando? Sempre vivi atormentado, entre
a foice e o ponto de interrogação. É por isto que hoje dirijo a noite inteira.
Mas, naquela manhã, eu estava suado, sem camisa, os cabelos molhados, pintando
meus cavalos em chamas, quando Dona Carmelita entrou. Usava óculos escuros,
havia uma ferida perto da boca, seus braços estavam roxos. Ela tinha um livro
nas mãos. Olhou meus próprios poucos livros, acomodados nas caixas de madeira
que eu havia pintado e feito de estante.
- Então, tu
também gostas de ler, ó João?
Balancei a
cabeça afirmativamente.
- E também
pintas? - prosseguiu, observando meus cavalos pelas paredes.
Outra vez
balancei a cabeça.
- Então és um
artista!
Fiquei quieto.
Sou um camarada cheio furor, certa vez abri a cabeça de um cara com um taco de
sinuca no Bilhar do Papai, ali na Rua Aurora, só porque ele me secou numa bola,
mas, quando querem saber de mim assim, fico sem saber o que fazer, quero sair
correndo, pular pela janela mais próxima.
Ela me pegou
pela mão e me levou até o escritório. Abriu o livro em cima da mesa e então
disse:
- O título
deste é Fanatismo, como muitos outros, foi escrito para o irmão. Ela era
apaixonada pelo irmão – e então, Dona Carmelita leu:
Minh'alma, de sonhar-te, anda
perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!
Tudo no mundo é frágil, tudo passa...
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!..."
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!
Tudo no mundo é frágil, tudo passa...
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!..."
- Não é lindo?
Ela amava o próprio irmão. Mais que amor, sentia fanatismo. Bem que eu poderia
amar alguém deste jeito.
Eu emudeci,
acho que fiquei com a cara parecida com a do Jim Carey, no filme Debi &
Loide, quando passa um ônibus cheio de líderes de torcida pedindo informação e
ele e seu amigo Loide dão a informação e ficam pensando que, caso fossem caras
de sorte, poderiam muito bem entrar no ônibus e guiar as moças até seu destino.
- Tu gostaste do
poema?
- É a coisa
mais linda que já ouvi. Como é o nome?
- Fanatismo,
já te disse.
- Não, o nome
de quem escreveu.
- Florbela
Espanca.
- Até o nome é
bonito, profundo.
Ela tirou os
óculos escuros. Seus dois olhos estavam roxos. Eu sabia que Seu Andrade era
ciumento, que às vezes dava uns catiripapos na mulher, mas, daquela vez, ele tinha ultrapassado todos os limites. Ela
encostou seu rosto no meu. Leu outro poema, mas não pude entender mais nada.
Apertou meu mamilo e o pau incendiou na mesma hora, com chamas ainda maiores e mais
vermelhas que aquelas que devoravam os cavalos que eu pintava. Foi aí que eu
abri a porra da boca:
- Dona
Carmelita, – disse – Seu Andrade pode subir a qualquer minuto por aquela escada
ali – e apontei para a escada onde, depois do primeiro degrau, tudo era
consumido pela escuridão. Dona Carmelita estancou. Colocou os óculos escuros
outra vez. Fechou o livro e mergulhou na escuridão da escada sem dizer mais
nada.
Depois daquele
dia, ela nunca mais apareceu na pizzaria. Tempos depois, numa noite de orgia,
Seu Andrade nos falou baixinho, chorando, que ele e a mulher haviam se
separado. Ela tinha voltado para Portugal, para sempre, ele disse. E ainda
repetiu duas ou três vezes: para sempre!
A pizzaria
ainda funcionou por uns tempos, mas Seu Andrade começou a beber demais e, em
menos de um ano, se desfez do estabelecimento. Eu persisti o quanto pude com os
novos donos, sempre gostei de trabalhar, mas parecia que tínhamos profanado
alguma coisa. Os clientes diminuíram, os ratos aumentaram, uma ratazana,
inclusive, passou em cima do pé de um fiscal enquanto ele fazia a inspeção no
recinto, gerando um multa de proporções astronômicas. As baratas proliferavam
nos vãos entre as chapas de fórmica. Os novos donos reformaram o
estabelecimento, mas de nada adiantou, as baratas não diminuíram, muito pelo
contrário. Pouco antes de a pizzaria fechar as portas, prestei vestibular
numa universidade estadual e passei. Voltei para o interior com o intuito de
estudar, financiado por uma bolsa do governo. Tempos depois, já formado,
consegui juntar dinheiro suficiente para comprar um táxi. Outro dia, um
passageiro entrou no meu carro e me deu o endereço do lugar onde antes
funcionava a pizzaria. Hoje lá funciona um escritório de advocacia com portas
de vidro e carpete verde-escuro, mas tudo o que vi foi um buraco, um buraco
enorme, uma cratera, que engolia mais da metade da Aclimação, mesmo o parque
havia desaparecido, mesmo o cemitério israelita havia sido engolido com suas
lápides e seus mortos. E dona Carmelita, se ainda estiver viva lá no seu
Portugal, tem hoje mais de sessenta e cinco anos. E eu tenho em casa as obras completas
de Florbela Espanca. Jamais pude olvidar o nome, toda manhã, quando chego do
trabalho, antes de dormir, leio um poema.
quinta-feira, 5 de junho de 2014
A Resiliência dos Peixes
No princípio,
Deus criou os céus e a terra.
A terra estava
informe e vazia;
as trevas
cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas.
Gênese, cap. 1, vers. 1-2
Acordar. Arrumar a cama. Fazer café e esperar o dia passar,
olhando os peixes no aquário. A solidão é um privilégio que custa caro. Abrir
janelas. Juntar pedras no canto da sala. Tarefas que nada constroem. A vida dói
e eu deixo ela doer, mãe. Como você, ela não é do tipo que passa a mão na
cabeça. Antes de voltar a me deitar, observo a cama. Desde sempre, mantenho os
olhos em espanto. A cama pede que o olho se deslumbre. Ela não quer o
olho-indiferença, o olho-cotidiano, o olho-razoável, o olho-que-vê-a-cama-como-local-de-descanso
e não de sonho. E eu... Eu, mãe, carrego pesadelos: olho-pesadelo. E eu... Eu,
mãe, crio meus próprios fantasmas[1]. Enfim,
o que quero dizer é que, hoje, você é em mim. Deito outra vez e te procuro.
Para minha surpresa, percebo que aos poucos você está desaparecendo. Aos
poucos, a barra do seu vestido se esfumaça. Aos poucos, seus olhos vão perdendo
a expressão. Aos poucos, suas mãos vão perdendo o contorno, seus cabelos vão
perdendo a cor, mais um grama de energia e eles se tornariam nova água viva no
aquário. Levanto. Faço café e bebo. Abro o guarda-roupa e pego nossos álbuns de
fotografia. Não quero te perder. Com a lupa, sondo seu rosto magro, seus olhos
claros, sua expressão de orfandade. Procuro você por fora, nas fotos, porque
sinto que por dentro você me deixa. Quer de vez partir. Nossos monólogos a dois
se tornam cada vez mais raros. Chamo e você não vem. Pergunto e você não
responde. Aceno e você finge que não vê. Eu
estou aqui. Ó mãe, porque em vez de ternura e compreensão, o que tínhamos
eram gritos e portas batendo? Por que, em vez de solidariedade, o que tínhamos
era solidão? Em vez de amor, bofetadas, tapas ardentes, recriminações? Agora
posso ver tudo, porque a alma vê a vida como um filme no cinema. Lá está você,
deitada com um de seus amantes na cama, enquanto eu estou na sala, tentando me
concentrar no Patolino, em meio aos seus gemidos. Lá está você, deitada na cama
com outro de seus amantes, enquanto eu estou no chão, tentando engatinhar, mas
recuando diante das palhas de aço no chão, limitado, da mesma maneira que os
peixes no aquário. Você espalhou palha de aço ao redor de mim e me deixou
conjurado, como demônio conjurado por fogo na idade média. Tudo isto pra você
poder foder melhor, pra trepar em paz, para chegar ao orgasmo mais profundo.
Vejo que minhas mãos sangram e eu choro, tenho apenas seis meses, porra! A cama
é lugar de sonho, mãe, e nela você construiu, um por um, todos os meus
pesadelos. Eu era jovem, também tive meus
sonhos frustrados, também fiquei sozinha, aos dezesseis anos, com um bebê pra
cuidar. Sei. Sexo, Drogas e Rock n´ Roll, não é? Essa sua vontade de
cantar... Essa sua vontade de ser uma estrela do showbizz... Dou graças ao seu
fracasso! Todo seu amor sempre foi direcionado à música, enquanto eu ficava
pelos cantos, catando as migalhas, suportando o frio, o deserto e a solidão.
Esperando a minha chance de te dar um beijo. Esperando infinitamente aquele
beijo de boa noite; com medo do diabo embaixo da cama; com medo do demônio
dentro do guarda-roupa; com medo de tudo e de todos. E quando eu me aproximava
pra te beijar... Pra te acariciar... Era tapa na cara que eu recebia. Por quê?
Por quê? Se o ser humano produz calor, amor não vai faltar, caramba. Você não percebia, mas, se eu deixasse, teu
ciúme me sufocaria. Você não me deixaria ser se eu deixasse, Dan. Você me
escravizaria. Como? Eu era só uma criança! Lembra do doutor Santana? Lembro. Então, numa das muitas vezes em que te levei pra consultar, ele foi
taxativo comigo: - O menino sofre dos nervos, disse. Você vai ter de ser dura
com ele. Qualquer deslize pode ser fatal. Nada de mimos. Se você ceder um
milímetro sequer, perde a mão desse moleque. É só uma criança, mas já é
possessivo, manipulador, inteligente, ciumento, arrogante... E dá-lhe tapa
então... Uma criança, porra... Não posso acreditar que eu fosse, que eu sou, tudo
isso... Mas é, do contrário, o que
explicaria tantos relacionamentos fracassados? Não é culpa minha. Foram os
tapas, a palha de aço, o peito que você sempre me negou. Fiquei imprestável
para o amor. Um trapo dos afetos... Um tarado da ternura... Um vampiro... Claro, é fácil me culpar. Nem depois da
morte nos entendemos. Como disse, é sua
personalidade, você está sempre incriminando alguém, colocando a culpa nos
outros. Eu tentei me aproximar. Tentei te beijar na sua primeira exposição
individual... Quadros tão tristes! Mas você me esbofeteou e me colocou pra
fora, como uma prostituta. Já era tarde demais. Nunca é demasiado tarde para o perdão. É muito cômodo para quem
quer ser perdoado. Quem bate esquece, quem apanha não. E eu levo bem guardado,
na latência da pele, na latência da face, cada tapa que levei. E eu levo bem
guardado, nos bolsos e no armário, os imensos castigos que recebi, enquanto
tudo o que você queria era trepar... Trepar... Trepar... Lembro bem do medo: a
porta do quarto trancada por fora e os demônios soltos no quarto, gargalhando,
dando piruetas, enfiando o dedo no meu cu, quando eu deitava de bruços e cobria
com o travesseiro a cabeça. Era tudo imaginação. Nunca houve demônios e
eu estava sempre sozinha no quarto ao lado, pensando em você. Lemba o que o
doutor Santana disse: Se você ceder um milímetro sequer, perde a mão desse
moleque. Como ousa dizer isso, que era imaginação, se você nunca veio
comigo? Se nunca quis saber do meu mundo? Se sempre se manteve em sua placa
tectônica e me manteve afastado, sozinho, com frio, na minha? Agora que você é adulto, me diz: É fácil? É
simples? E você? Por que nunca vai ver seus filhos, hein? Acaso quer passar
adiante a maldição? Acaso quer passar adiante o mármore da família? Era
menino ainda e já estava aleijado para o amor. Cedo desaprendi a sentir, no
estrondo de cada tapa, no gemido de cada orgasmo teu. Todos os teus amantes me
negaram a alcunha, sim a alcunha, de pai. Olho. Olhe comigo, porra! Corro a
lupa sobre minhas fotografias. Lá estou eu aos dois anos, reconhece este olhar?
Lá estou eu aos quatro, aos cinco, aos seis! A boca banguela, o cabelo
tigelinha e a expressão grave, feito um velho! Assim como hoje, homem, carrego
comigo o menino que fui pra poder pintar, pra olhar o mundo com olhos de
espanto, olhos-de-primeira-vez, e captar a luz-que-sente, a cor-que-sente, o
traço-que-sente; ainda menino, carregava o velho que virei a ser. Do ponto de
vista da alma, a vida é um cinema. Há anos reviro os álbuns de fotografia.
Inspeciono detalhadamente cada uma delas com a lupa e em nenhum lugar estou
sorrindo. Eu também, em nenhuma foto,
criança ou adulta, estou sorrindo. A gravidade é genética. O caralho! Os
tapas é que produzem a gravidade. Eu
devia ter partido de vez, não vale a pena voltar pra ouvir, como que num disco
arranhado, as mesmas recriminações de sempre. Eu jamais te deixaria partir,
agora que você é dentro de mim, quem manda sou eu. Talvez agora você esteja contente. Talvez agora seja possível atender
suas demandas. Lembro de uma vez que você estava dormindo no sofá, era um
dia frio, você tinha bebido vinho e sua respiração estava ofegante, o ar saía
branco de dentro, tão gelada estava a temperatura do lado de fora de você... E
eu fiquei espantado de você respirar e ser e de eu também respirar e ser... E encostei
meu nariz no seu corpo e quis te sugar, quis te sorver, quis te respirar e
respirar-me para dentro de mim, entretanto, eu sabia que, a partir do momento
em que te respirasse e me respirasse, viveríamos dentro de mim, mas de um mim
incorporal, atemporal, pura intensidade, velocidade da luz, num minuto dourado,
eterno, sagrado, longe das rodas do devir. Toda criança é metafísica e
cabeçuda, mãe, como certos filósofos. Quando ainda brincava, minha brincadeira
favorita era vivo ou morto: vivo... Morto... Vivo... Vivo... Morto... Morto.
Depois, deixei de te cheirar, te troquei pela cocaína, podes crer. Ela era mais
fácil. Só exigia dinheiro. Será que eu sou mesmo possessivo? E você ainda tem dúvidas? Mãe? Que? Havia alguma possibilidade, por
menor que fosse, de nós termos dado certo? Falhei
com você, filho, e reconheço. Fiz muita merda, muita coisa feia na vida, mas nunca...
Nunca deixei de te amar... Você podia ter dito, ter demonstrado... É sempre muito tarde quando nos damos conta.
Mãe? Que? Posso pentear seus
cabelos? Sempre fui louco por eles, sempre sonhei tocá-los e penteá-los e
tocá-los e penteá-los, por horas e horas a fio. A escova é toda sua. Vê, no aquário, como a água viva se movimenta
entre os outros peixes? Lenta, leve, fugidia, transparente... De todas as
criaturas de Deus, a água viva é a mais maligna.
[1]
Demônios são entidades externas,
fluxos que passam, se detém por um tempo, e se vão. Fantasmas são internos.
Corpo é possessão, campo de forças onde a vencedora mantém as outras sob
domínio. Identidade é legião: sou todos os nomes da história. Também os peixes
no aquário são a ponta, a extremidade de uma força que se anula no vidro, mas
não parecem se importar. O olho do peixe é a imagem da resignação. Já as
águas-vivas não têm olhos, são a efetivação de uma potência demoníaca, o
escalpo transparente de bruxas ancestrais.
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
Chapeiro Bom
É sempre
assim... cada picada aberta me tem mais fechado em mim
Beto Guedes & Caetano Veloso
A padaria fica ao lado da maior
universidade do país.
Ele trabalha na padaria, mas nunca
entrou na universidade. Tem só dezessete anos e ainda cursa o ensino médio numa
escola estadual da periferia da cidade.
Ela estuda na universidade e é
cliente assídua da padaria. Veio de uma cidade no interior de Minas Gerais, uma
cidade pequena; ainda assim, a maior produtora de leite e seus derivados de
todo o país.
Ele gosta do campus por causa das
árvores. Também admira o conhecimento que supõe ser produzido lá dentro, embora
jamais tenha tido coragem de entrar pelos portões sempre abertos. Parecia haver
um campo magnético, como aqueles dos filmes de ficção científica, que o
mantinha eternamente trancafiado do lado de fora. Se tentasse entrar, ele seria
repelido por barreiras invisíveis e impossíveis de transpor. Tomaria choque.
Certeza.
Quanto às árvores, gosta delas
porque trabalha das seis da manhã às duas da tarde e, no verão, quando espera o
ônibus para voltar para casa, é sempre no horário em que o sol está mais
quente. Não fossem as árvores – o campus é bem arborizado -, seria uma tortura
ficar embaixo do sol quente depois de um dia inteiro trabalhando na chapa. Ele
é chapeiro. Chapeiro bom.
Ela tem vinte anos e acaba de
terminar o terceiro semestre de filosofia. Ama Jean-Jacques Rousseau e cheese
bacon. Acredita que a filosofia é a mais nobre ocupação humana. Participa de um
grupo de estudos de A Fenomenologia do
Espírito todas as segundas-feiras das 16:30 às 18:30, mas, como boa
interiorana, não abre mão de uma refeição bem preparada, geralmente coberta por
queijo derretido e seguida de um cafezinho preto.
O engraçado é que ela é magra. Deve
ter um metabolismo estupendo, pois em seu corpo jovem não há uma dobra fora do
lugar.
Os dois jamais tiveram oportunidade
de conversar. O movimento na padaria é imenso nos horários em que ela
aparece para comer... Ele gostaria de conversar com ela sobre seu mundo...
Falar a respeito dos livros que lia nas quatro horas que gastava para ir e vir do
trabalho todos os dias. Será que ela já tinha lido O morro dos ventos uivantes? Ou Pergunte
ao pó? Ou os quadrinhos de Will Eisner? Será que ela já tinha ouvido uma
balada do Black Sabbath chamada Solitude?
Ou mesmo Changes? Ou aquela balada
sobre lágrimas e chuva de uma banda grega que tinha o nome da deusa do amor?
Crianças da Deusa do Amor? Era bom ouvir a Antena
1 FM quando voltava da escola, depois das onze da noite, baladas e só
baladas, mas os amigos roqueiros não podiam saber. A reputação era mantida
gastando metade do salário em discos de bandas desconhecidas na galeria do
Rock. Em dia de pagamento, seguia a pé até a República, para economizar o
dinheiro da condução, e voltava para casa com um ou dois discos dentro da
sacola. É um prazer comparável ao sexo: ser adolescente, comprar um disco caro
que se vinha paquerando há meses, chegar em casa e colocar na vitrola para
tocar. O chiado da agulha percorrendo os sulcos negros é tão marcante quanto o
primeiro beijo. A música é a melhor amante para um solitário.
Mas agora era época de férias,
pouquíssimo movimento na padaria, e ela não tinha ido embora para casa. O
balcão estava praticamente vazio. A oportunidade perfeita, mas, como falar? O
que dizer?
Ela pediu um cheese salada no pão
francês. Ele jogou o hambúrguer na chapa e colocou a tampa por cima.
- Tira o miolo do pão pra mim. É que
não quero engordar, sabe? – ela disse e sorriu.
Ele escolheu o pão ideal, nem branco
demais, nem muito torrado. Partiu-o ao meio, passou maionese e colocou na chapa
para esquentar um pouco. Virou o hambúrguer e colocou duas fatias de queijo em
cima. Tampou novamente. Escolheu a mais verde das folhas de alface e partiu
novo tomate. Virou o pão, cujas bordas estavam douradas por causa da maionese
levemente derretida, e acomodou a salada ali. Tirou a tampa de cima do hambúrguer,
o queijo derretido borbulhava. Num movimento ágil, colocou o pão com a salada
em cima do hambúrguer e virou com a espátula. Acomodou tudo em cima da outra
metade e partiu ao meio. Um pouco de queijo derretido caiu sobre o dedão e o
queimou. Mesmo chapeiro bom cometia deslizes. Chacoalhou o dedo e não deu
importância. É assim que a gente faz.
- Huuuummm! Deve tá uma delícia!
Você é o melhor lancheiro que eu já conheci.
- Chapeiro.
- Que?
- Chapeiro, o nome da profissão é
chapeiro.
- Então você é o melhor chapeiro que
eu já conheci. O sanduíche está simplesmente divino! – disse e acolheu com o
dedo um pouco de queijo derretido que caía da boca depois da primeira mordida.
- Vai querer beber alguma coisa?
- Um suco de laranja.
Enquanto espremia as laranjas, ele
sabia que tinha de dizer alguma coisa. A Intuição gritava que este era o
momento. Se tentasse agora, poderia ter uma chance. Antes ou depois, como
saber? Era agora ou nunca. Dizer alguma coisa, sim, mas, como escolher, entre
todas as palavras, a palavra exata? Existia uma só palavra que o conduziria a
um futuro ao lado dela? Havia um futuro no qual os dois namorariam um tempo e
depois terminariam, ela voltaria para Minas e ele seguiria para Santa Cruz de
la Sierra. Havia um futuro em que os dois se casariam e teriam um casal de
filhos, o menino, o caçula, ficaria de recuperação todos os anos, da primeira à
oitava série. Havia um futuro em que cada um seguiria seu caminho sem olhar
para trás. Havia um bilhão de futuros possíveis. A felicidade dependia da
palavra certa, de uma única palavra certeira. Palavra que funcionaria como
chave numa porta ancestral.
Entregou o suco e disse:
- MORANGO!
- Quié?
- Se você quiser, coloco alguns
morangos no suco pra você e bato no liquidificador.
- E fica bom?
- Como você mesma sempre diz, fica
divino.
- Então faz pra mim.
Ele colocou o suco de laranja no
liquidificador, acrescentou duas pedras de gelo e meia dúzia de morangos. Bateu
a mistura por cerca de um minuto e depois entregou a ela.
Experimentou.
- Huuuummmmm, delícia! Tudo o que
você faz é divino!
Terminado o lanche, ela pagou tudo e
foi embora. Deixou dois reais de caixinha. Ele não sabia se tinha dito a
palavra certa. A gente nunca sabe. Morangos?
Quando estavam no vestiário,
trocando de roupa para ir embora, ele comentou com Severino, o copeiro, seu
amigo, um pouco mais velho, tudo o que estava acontecendo.
- E por que tu num chega e fala pra
ela? Assim... Na lata! Aproveita que o movimento tá fraco.
- Não consigo... Ela nunca se
interessaria por um pé-rapado como eu... Tentei falar hoje, mas pensei uma
coisa e disse outra.
- Bicho, ou vai ou racha! O que
mulher não guenta é home mole, mofino, sem decisão. Sou franco em falar.
Terminaram de se trocar. Ele contou
as moedas que tinha na carteira e colocou os fones do walk-man nos ouvidos.
- Taí, tu não gosta de música? Por
que é que tu não grava uma fita pra ela? Só com aquelas lenta de melá a cueca?
Ela vai se ligá, bicho.
Era isso. Severino tinha razão.
Ficou em casa durante a noite,
gravando uma sequência de baladas matadoras. Como diria o DJ de uma rádio
brega: só as mais mais. Começou lá nos anos 1950, gravando Elvis Presley e Etta
James. Passou para a década de 60 com Joni Mitchell e Crosby, Stills & Nash.
Da década de 70, pinçou Gal Costa, Lô Borges e Beto Guedes. Dos anos 80, gravou
Just like honey, do Jesus and Mary Chain e Por enquanto, da Legião Urbana. O
espaço era curto. Para expressar o que era de fato, precisaria gravar umas dez
fitas e resenhar uns cinquenta livros. Era o que dava pra fazer. Sentia-se
satisfeito. A fita estava bonita.
Dia seguinte, acordou às quatro
horas da manhã e foi trabalhar. Apesar do sono, aproveitava o trajeto para ler,
afinal, eram duas horas de viagem. Colocou os fones nos ouvidos, a touca por
cima e abriu o Crime e Castigo.
Durante as primeiras horas da manhã,
não trabalhou bem, embora o serviço fosse fácil. Geralmente, neste horário, as
pessoas pediam pão com manteiga, no máximo um misto quente. Easy... Easy... Só
que, nesta manhã, ele deixou dois pães com manteiga caírem no chão ao
retirá-los da chapa.
Motivo?
A fita k7 ardia no peito.
Era mais de nove horas quando ela
apareceu. Ele lavava as verduras. Chapeiro bom tem tudo preparado na hora do
almoço.
- Oi... Huuuummmm, tô morrendo de
fome! Não jantei ontem. O que você me sugere?
- Churrasco com queijo, pode ser?
- Hummm, não sei. Você põe umas
fatias de bacon pra mim?
- Você é quem manda.
- E um pouco de vinagrete também?
- Já disse, você é quem manda.
- Então faz lá, capricha, tô mesmo
morrendo de fome.
Ele colocou o contrafilé e quatro
fatias de bacon na chapa.
Saiu um pouco de seu posto de
trabalho.
Estava disposto a entregar a fita.
Ela lia um livro de capa vermelha.
Judas, o obscuro, de Thomas Hardy.
- Já li esse livro.
- Jura? É muito triste, mas estou
adorando.
- Todo livro bom é meio triste.
- Tem razão. Então, além de fazer
estes lanches maravilhosos, você também gosta de ler?
- Ahã. Esse aí eu li duas vezes. É a
história de um cara pobre que quer ser intelectual, né? Ele tenta de todas as
formas e, no final, fracassa.
- Não conta o final, ainda não estou
nem na metade.
- Desculpe. Tenho uma coisa pra te
dizer. Espera só um pouco...
Nisto, ele teve de ir até a chapa
para virar o bife e o bacon. Quando voltou, um homem que ele conhecia,
professor da faculdade, barba e cabelos grisalhos, estava sentado ao lado dela,
com o braço ao redor de seus ombros.
- Que livro é esse que você está
lendo? – Perguntou o professor.
Ela mostrou a capa.
- Uma porcaria! Já falei que você
tem de ler Sartre.
- Já li Sartre – interrompeu o
chapeiro.
O professor fez uma careta. Estava
incrédulo, embora fosse um humanista de Moema. Um chapeiro que lia Sartre era
inimaginável! Nem em Paris! Ou então era mentira mesmo...
- Que livro de Jean Paul Sartre você
leu? O Ser e o Nada? A Náusea?
- Não, nenhum dos dois, o título era
A idade da razão. Gostei principalmente de um personagem homossexual que afoga
seus gatos, e ele amava demais os gatos, no Sena.
- Além de fazer lanches divinos, ele
conhece um bocado de livros.
Ele sorriu e teve de correr até a
chapa. Em menos de um minuto, colocou o vinagreta para esquentar, cortou um pão
francês e também pôs sobre a chapa. Duas fatias de queijo sobre o bife, o bacon
por cima. O bife por baixo e o bacon por cima derreteriam o queijo mais
rapidamente. Por fim, juntou o vinagrete e, num movimento milimétrico, montou o
lanche. Aí era só partir o lanche ao meio e levar para ela.
Quando se aproximava do balcão da
copa, entretanto, ela e o professor estavam se beijando. Ali, bem no meio da
padaria e da manhã. Então eles estavam juntos? Como homem e mulher? Juntos? Ele
tinha idade para ser pai dela, forçando até avô, porra! Até aquele momento, nem
sequer tinha desconfiado. O lanche quase despencou de suas mãos. A fita k7
tremeu sozinha no bolso do guarda-pó. A barriga doeu. Peidou... Encostou-se ao
balcão.
Severino percebeu tudo e foi rápido
em recolher o lanche de suas mãos.
- Tais passando mal, menino? – O Português
perguntou do caixa.
Severino voltou correndo com um copo
de suco bem doce.
- Tá não, seu Joaquim, o menino tá é
bem.
No balcão, o professor discutia com
a menina, na medida em que ia lendo as notícias do jornal:
- Isto é uma vergonha! Eu exijo que
Israel liberte a Palestina! Mas como? Outro caso de pedofilia na igreja católica?
Sinto-me enojado!
Entre um comentário e outro, ela
tenta beijá-lo, mas é repelida:
- Você está com a boca cheia de
gordura, anjinho, depois nos beijamos. Deixe-me terminar de ler o jornal, mas,
o que é isto? Temos de acabar de fato com a polícia, tanto a civil, quanto a
militar...
- O que é que você queria me dizer? –
a menina pergunta ao chapeiro enquanto o professor continua lendo o jornal e,
dessa vez, exige que os Estados Unidos retirem, de uma vez por todas, todas as
suas tropas do Oriente Médio.
- Deixa, quieto – ele responde e se
dirige ao outro lado da padaria para cortar os frios. É preciso ter tudo pronto
para a hora do almoço.
O casal termina a refeição.
Vão de mãos dadas até o caixa.
Ele paga a conta e pede um maço de
cigarros. Antes de irem embora, o professor grita ao chapeiro:
- Segura aí! – E atira uma moeda de
um real.
A moeda bate no peito e vai parar no
vão embaixo do balcão. Ele agacha e tenta apanhá-la.
- Tava gostoso demais da conta.
- Obrigado – ele responde e continua
tentando apanhar a moeda. Não consegue. É preciso buscar o rodo lá no cozinha.
Ao se ajoelhar para tentar pegar a moeda com o rodo, a fita k7 cai de seu
bolso. Ele recolhe a moeda e a fita e vai até a copa.
- Tomaí – diz Severino.
- O que é?
- Bebe, rapaz.
É um líquido amarelo. Parece fanta
laranja, mas deve ter alguma bebida alcoólica dentro.
Depois de virar o copo, o chapeiro
tira a fita do avental e atira no meio da rua. Um caminhão de bebidas que
estacionava para a primeira entrega do dia, imediatamente esmaga a música. O
barulho do acrílico sendo triturado se parece com o barulho de ossos quebrando.
- Fica desse jeito não, a vida é
assim mesmo. Se tu quisé, te levo na zona, menino, hoje mesmo.
- Deixa quieto, Severino.
E aí um cliente chega e, sem
titubear, exige:
- Quero dez cheese tudo pra viagem!
- É pra já!
Imediatamente, o chapeiro corre até
a chapa e coloca cinco hambúrgueres para fritar. Depois quebra cinco ovos e
junta um punhado de bacon que é para dar o gosto. Não dava para fazer os lanches todos de uma
só vez. Teria de fazer metade e metade. Normal. É profissional. Chapeiro. Uma
profissão tão inglória e gloriosa quanto outra qualquer. Os gênios entre os
egípcios manejavam a desempenadeira. Eram pedreiros. Ergueram as pirâmides. Ele
é chapeiro. Chapeiro bom.
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
Quase-Hermes
Vivendo, se
aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas.
Guimarães Rosa.
Introdução
Desde
a Grécia antiga, filosofia e literatura sempre caminharam juntas, ora mais
próximas, irmanadas; ora distanciadas, inimigas. Tanto o logos, quanto o mito são maneiras de pensar o real e a vida, mas
enquanto o primeiro procura a verdade, o segundo a cria. Literatura e filosofia
são tentativas, por caminhos diferentes, de ganhar e tentar responder as mesmas
questões. Para nós, o filósofo e o escritor têm em comum o fato de partilharem
o mesmo estranhamento diante do mundo. A pergunta que a filosofia lança por
meio de Martin Heidegger no início do seu Introdução
à metafísica: por que existem os entes e não antes o nada? Atravessa a obra
de escritores fundamentais como Franz Kafka, Virgínia Woolf e Clarice
Lispector. No entanto, enquanto a filosofia empreende a tarefa absurda de
compreender e explicar a realidade por meio do conceito, a literatura funda um
mundo, que, embora dialogue com o mundo real e intervenha nele, mantêm-se
autônomo, de pé sobre suas próprias fundações. Quando Drummond diz: “As casas
espiam os homens / que correm atrás de mulheres” cria uma casa que não tem qualquer
intimidade com a palavra casa e nem com a casa real, porque aqui a casa espia.
É a partir do poema que tal casa existe e passa a ser. A palavra poética não
rotula, ela funda, faz e é.
[...]
também o poeta usa a palavra, mas não assim como os que habitualmente falam e
escrevem, que precisam desgastar as palavras. Ele pelo contrário, usa-a de tal
maneira que somente assim a palavra se torne e permaneça verdadeiramente uma
palavra. (HEIDEGGER, 2010, p. 119)
Enquanto a filosofia busca saber, a
literatura busca fazer – a palavra poesia vem do grego ποιησις (poiésis)
derivado de poiein, que significa
realizar, fazer - e, no entanto, ambas só existem por meio da palavra, ambas
buscam a verdade possível da palavra.
Tanto uma quanto a outra intentam “a libertação da linguagem dos
grilhões da gramática e a abertura de um espaço essencial mais original [que]
está reservado como tarefa para o pensar e o poetizar.” (HEIDEGGER, 2005, p.09)
Neste
ensaio, procuraremos demonstrar de que maneira a filosofia por meio da
hermenêutica busca compreender as obras literárias. Tomaremos por base o
trabalho de Benedito Nunes, Hans-Georg Gadamer e Martin Heidegger.
A linguagem é a casa do Ser
Não é exagero dizer que o homem é um
ser hermenêutico. Tornamo-nos humanos à medida que compreendemos e
interpretamos o mundo que nos cerca e compreendemos e interpretamos a nós
mesmos. Há um corpo... Há um cérebro... Há um fígado... Um coração... Um rim...
Um emaranhado de cadeias de carbono... Para a ciência, somos feitos de átomos,
mas isto apenas não nos define, somos feitos, sobretudo, de histórias. É na
palavra que o homem faz morada - poeticamente,
o homem habita - e a natureza até então viva, mas silenciosa se abre para
compreender-se, refletir-se e cantar-se. Não fosse o homem, e o homem é
linguagem, as coisas todas ainda estariam aí, os planetas em suas rotas, os
pássaros nas árvores, o oceano em seu berço, mas não saberiam, elas, as coisas,
apenas seriam, sem jamais saber que são. Nós, que nascemos já na segunda metade
do século XX, fomos lançados do ventre materno para um mundo dado. As ferrovias
já estavam aí, as bibliotecas já estavam aí, o conhecimento
já estava aí e os livros também. Tornamo-nos gente à medida que interpretamos o
mundo ao nosso redor e que vamos construindo nossa identidade, melhor, nossa
alma, enquanto somos rasgados pelo saber, pelas obras, pelas histórias que
nossos antepassados mais remotos produziram. Isto que somos torna-se um eu à
medida que é atravessado pelo mundo, pelas produções humanas e que reflete
sobre o mundo e sobre si mesmo. Nós somos um diálogo que se enriquece enquanto
compreendemos um pouco mais quem somos, onde estamos e de onde viemos. Mas,
afinal de contas, o que é compreender? Compreender não se separa da vida, mas
adere-se à vida e a transpassa em todos os momentos. Compreender é nossa
atitude mais primária, o bebê compreende o olho da mãe. Compreender não é uma
atividade que se faz trancado num escritório ou laboratório, observando o rio à
distância. No momento em que nos afastamos da coisa, nós a perdemos e se depois
a explicamos cientificamente é porque ela, a coisa, já tinha desaparecido.
Explicamos sem ter compreendido. Se vamos falar de vida, e, a nosso ver, a
questão primordial é onde está a vida?, então o imperativo não é olhe o rio,
mas entre no rio, coloque os pés na
água, sinta o frescor e a turbulência, o musgo verde no fundo, o cheiro de lírios;
ouça os gritos dos afogados.
A compreensão não vem depois da vida,
mas a permeia em seus momentos todos. Compreendemos o outro quando com ele
falamos; uma ferramenta quando a utilizamos; os acontecimentos cotidianos
quando nos atingem; o ambiente ou o mundo em que vivemos. (NUNES, 2011, p.
270).
Se vamos falar da obra, e o assunto aqui é a obra
literária, ou melhor, o olhar da filosofia sobre a literatura, então o
imperativo não é observe a obra, conte as palavras e os tijolos, procure no
dicionário os trezentos significados possíveis, mas sim: penetre a obra e seja
por ela penetrado. A obra é viva, é vida. Um provérbio zen diz “o sábio aponta
a lua, mas o tolo olha para o dedo”, eu completaria; e ainda reclama da
cutícula. Parece ser este o trabalho crítico que temos feito, reclamar da
cutícula no dedo. É preciso penetrar a obra - que é atemporal e vive no eterno
presente da origem, com suas raízes fincadas no solo da Arte - pela porta de
nosso tempo, ano de 2013 da era comum e deixar que a porta permaneça aberta
para que a obra fale uma vez mais. O homem é um ser hermenêutico e a Arte é a
mais encantadora das produções humanas. Vejamos de que maneira a hermenêutica
trata a obra de arte literária.
Antes de prosseguirmos, cumpre, porém, deixar claro o que
significa de fato a palavra hermenêutica. O termo, cuja origem é o verbo grego herméneuein e significa exprimir,
explicar, traduzir, remete ao deus grego Hermes, o mensageiro dos deuses, a quem os gregos atribuíam à origem da linguagem e da escrita e a quem consideravam o patrono da comunicação e do entendimento humano. Segundo Benedito Nunes:
Desde a Antiguidade grega, sob a custódia do deus
mensageiro Hermes, patrono-mor da interpretação de Homero na época helenística
e depois do labor interpretativo das Escrituras hebraico-cristãs, a
hermenêutica é, na acepção corrente e generalizada, a arte de extrair as
mensagens implícita ou explicitamente contidas nos escritos literários,
jurídicos ou religiosos. Sua incumbência consiste, portanto, na interpretação
dos textos, mediante um trabalho de exegese. (NUNES, 2011, p. 269).
Basicamente, a hermenêutica se divide em duas escolas: Sensus litteralis, que se ocupa da
interpretação gramatical e filológica dos textos e Sensus allegoricus, que se ocupa do sentido espiritual dos textos.
O reponsável pela entrada definitiva da hermenêutica para o âmbito da filosofia
é Friedrich Schleiermacher, que a definiu como uma teoria geral da compreensão.
Para Schleiermacher, a hermenêutica deveria ser capaz de estabelecer os
princípios gerais de toda e qualquer compreensão e interpretação de
manifestações lingüísticas. Onde houvesse linguagem, ali se aplicaria sempre a
interpretação, pois tudo o que é objeto da compreensão é linguagem. Mais
recentemente, filósofos das mais variadas tendências como Martin Heidegger,
Wilhelm Dilthey, Paul Ricour e Hans-Georg Gadamer utilizaram o método
hermenêutico na construção de seu pensamento filosófico.
Como vimos, a hermenêutica é uma teoria da compreensão
que não se liga só ao texto escrito, mas a diversas atividades. No dia a dia,
estamos o tempo todo interpretando. Nosso modo de compreender se organiza por
meio de uma cadeia de perguntas e respostas. Paramos no posto de gasolina.
Abastecemos o carro. Perguntamos ao frentista:
- Ei, amigo,
quanto ficou?
E ele
reponde:
- Duzentos
reais.
- Aceita
cartão de crédito?
- Sim,
senhor, a propósito, o senhor já verificou o óleo? Estamos com uma promoção sensacional.
- Não é
necessário, troquei o óleo semana passada.
- Então, só
isto mesmo?
- Só.
Perguntas e
respostas, sempre perguntas e respostas. Por meio da palavra nos localizamos no
mundo, nos entendemos ou nos desentendemos, mas conseguimos nos comunicar.
Quando há dúvidas, sempre se pode parar, perguntar uma vez mais, pedir que o
interlocutor esclareça aonde quer chegar. A palavra falada é viva. A palavra
escrita não é morta, todavia o interlocutor, geralmente, não está mais lá para
esclarecer dúvidas, ou explicar exatamente o que quis dizer. Sem contar que o
texto que se pode chamar de artístico, ou literário, sempre vai além das
intenções de seu autor. Dostoiévski queria escrever um panfleto para alertar o
povo russo a respeito dos problemas que o uso excessivo de álcool poderia
causar: saiu-lhe Crime e castigo.
Além disso,
grandes mestres da humanidade foram, sobretudo, mestres orais. Pitágoras, Buda,
Jesus de Nazaré e Sócrates não escreveram. O Cristo até escreveu algumas
palavras que ninguém jamais soube o que diziam porque a areia se encarregou de
apagá-las e Sócrates, além de não escrever, desconfiava da palavra escrita, assim
como seu discípulo mais eminente, Platão,
que escreveu muito, mas procurou resolver está inércia do texto escrito
por meio da criação de diálogos. Para dificultar ainda mais o nosso trabalho,
sobrevem ainda a questão de que, nos nossos diálogos cotidianos, falamos de
coisas que existem, a gasolina, o carro, a rua, o cartão de crédito. Na
literatura e na filosofia, entretanto, falamos do que não há no mundo concreto.
Que é o ser? O espírito? Mônada? Uma tarde azul, como a de Drummond?
Compreender um texto não literário, uma reportagem, por exemplo, não é tão
difícil, pois nos reconhecemos nele, temos os referenciais no mundo concreto:
Quando leio uma frase em um ensaio qualquer, em um texto
científico, em uma carta, ou em uma notícia, então é simples dizer o que
significa aí compreender, a saber, o fato de eu saber o que o outro quer dizer.
Eu compreendi a pergunta em vista da qual o que é dito conquista a sua
significação. Este modelo de pergunta e resposta caracteriza todo o nosso
conhecimento. (GADAMER, 2010, p.99)
Como, porém, interpretar poetas como Lautreámont, ou
Rimbaud, ou mesmo o São João que escreve o Apocalipse? Quando lemos uma carta
ou um jornal, podemos jogá-los fora, eles cumpriram sua missão de comunicar,
mas um poema não se esgota, mesmo que o decoremos. Um poema funda um mundo.
Mantem-se e é vivo independentemente do tempo histórico e do mundo
historicamente instituído e, se o mundo real não o reconhece, tanto pior para o
mundo real. As palavras cotidianas são como as fôrmas que usamos para assar um bolo,
elas nos dão uma noção das coisas, de como o bolo é, dão a forma ao bolo, mas
tais palavras não são o bolo, o bolo é maior, extravasa as extremidades da
fôrma. No poema, forma é conteudo, a própria fôrma é bolo. Heidegger, em Origem da obra de arte, pergunta pela arché da obra, afirma que é impossível
separar forma e conteúdo. Se no próprio utensílio a forma já é conteúdo (quando
vou fazer uma capa de chuva, devo conseguir material impermeável, quando vou
colocar um cabo num machado, devo usar madeira resistente), como então
dissociar uma coisa da outra na obra de arte? Pior ainda, se ao menos colocamos
a questão em termos de forma e conteúdo, no caso do texto literário som e
sentido, já estamos no caminho errado, o caminho da metafísica. Depois da descrição
de um sapato de camponês, não por meio do sapato real, ou da descrição da
fabricação do sapato, mas por meio dos sapatos de camponeses pintados por van
Gogh[1],
Heidegger sentencia: “Então a essência da arte seria esta: O pôr-se em obra da
verdade do sendo. Mas até agora a arte só tinha a ver com o belo e a beleza e
não com a verdade.” (HEIDEGGER,
2010, p. 87). Na China antiga, quando alguém pintava uma palmeira, não
retratava a palmeira, mas o TAO por meio da palmeira, e na Índia, os
Upanixades...
Parece que estamos nos dispersando. Já
fomos até a China antiga. Voltemos. Falávamos de literatura e filosofia, texto
e compreensão, dissemos que compreendemos as coisas na linguagem por meio de um
mecanismo de pergunta e resposta, mas que o texto literário é mudo, fechado,
nenhuma palavra mais pode ser inserida. Chegamos então a um impasse. Como
ganhar no texto e pelo texto a pergunta possível?
Gadamer
divide a questão em três partes:
1-)
A obra literária é sempre escrita.
2-) A transposição para a escrita significa
a perda da imediatidade própria à fala “Só compreendemos quando alguém lê como
se falasse”. (GADAMER, 2010, p.99)
3-) “Uma espécie de idealidade é própria
a toda transposição para a escrita”. (GADAMER,
2010, p.97). E é aqui que ganhamos a pergunta de fato. O texto fala quando
penetramos em sua idealidade atemporal. A comunicação ocorre apesar da palavra
e não por causa dela. E, se há buracos no tecido, eles são preenchidos; e, se
há vazios, eles são completados. Clarice Lispector cravou: “Se for para
escrever, que não se esmaguem com palavras as entrelinhas.” Voltemos ao
provébio zen “O sábio aponta a lua, mas o tolo olha para o dedo.” O texto fala
quando olhamos a lua e não o dedo. Para os muçulmanos,
o Corão é
anterior à criação, anterior à língua árabe; é um dos atributos de Deus, não uma
obra de Deus; é como sua misericórdia ou sua justiça. No Corão fala-se de forma
bastante misteriosa da mãe do livro. A mãe do livro é um exemplar do Corão
escrito no céu. Viria a ser o arquétipo platônico do Corão, e esse mesmo livro
– afirma o Corão -, esse livro está escrito no céu, que é atributo de Deus e
anterior à criação. É o que proclamam os ulemás, os doutores muçulmanos. (BORGES, 2010, p. 14-15).
E os versos
que abrem o Tao Té Ching são: “O caminho que poder seguido / não é o caminho
perfeito. / O nome que pode ser dito / não é o nome eterno. / No princípio está
o que não tem nome.” (TSÉ, L. 1993, p.1) Se achamos os dois exemplos anteriores
místicos demais, fiquemos com Blanchot:
“As Sereias: consta que elas cantavam, mas de uma maneira
que não satisfazia, que apenas dava a entender em que direção se abriam as
verdadeiras fontes e a verdadeira felicidade do canto. Entretanto, por seus
cantos imperfeitos, que não passavam de um canto ainda por vir, conduziam o
navegante em direção àquele espaço onde o cantar começava de fato. Elas não o
enganavam portanto, levavam-no realmente ao objetivo. Mas, tendo atingido o
objetivo, o que acontecia? O que era esse lugar? Era aquele onde só se pode
desaparecer, porque a música, naquela região de fonte e origem, tinha também
desaparecido, mais completamente do que em qualquer outro lugar do mundo; mar
onde, com orelhas tapadas, soçobravam os vivos e onde as Sereias, como prova de
sua boa vontade, acabavam desaparecendo elas mesmas.” (BLANCHOT, 2005, p.3)
Sim, é preciso penetrar a idealidade do texto porque a
tese é, a de que a obra literária tem em uma medida maior
ou menor a sua existência voltada para o ouvido interior. O ouvido interior
apreende a construção linguística ideal – algo que ninguém nunca pode ouvir,
pois a construção linguística ideal exige da voz humana algo inatingível – e
justamente este é o modo de ser de um texto literário. (GADAMER, 2010, p.98).
Para alcançar um diálogo verdadeiro e uma certa
intimidade com a obra de arte literária “temos de afastar das coisas o escutar,
distanciar delas o nosso ouvido, ou seja, escutar abastratamente.” (HEIDEGGER, 2010,
p. 59-60). Ninguém disse que seria fácil, mas quem foi que disse que Arte tem
alguma coisa a ver com facilidade?
Até agora tratamos de como ganhar a
questão, do que a hermenêutica procura fazer. Em nenhum momento nos referimos
ao como. Isto não é em vão. É que não acreditamos em métodos puros,
cristalinos. Segundo Benedito Nunes, Paul Ricouer teceu o seguinte comentário a
respeito do livro Verdade e Método,
de Hans-Georg Gadamer: “A questão é de saber até que ponto a obra de Gadamer
merece denominar-se Verdade e Método; talvez
fosse preferível intitular-se Verdade ou
Método.” (NUNES, 2011, p. 270).
Toda forma de se aproximar de um texto é
uma boa forma, desde que a crítica não procure fazer ciência. Não existe
objetividade de fato, pois o intérprete chega ao texto a partir de seu
presente, que é diferente do presente do autor. Ele, o intérprete, não chega ao
texto vazio, feito uma folha em branco, existe toda uma formação anterior,
nisso os
românticos estavam certos. A interpretação de um texto não começa no grau zero
de escrita ou num patamar nulo de sentido a ser preenchido, pouco a pouco, pelo
verdadeiro. Ele começa in media res, com
certos referenciais, numa determinada perspectiva. O preconceito nada mais é do
que o correspondente histórico da antecipação da experiência humana. Mas
constitui a única entrada possível na matéria – entrada a que necessariamente
não ficamos presos. (NUNES, 2011, p. 273).
Para a hermenêutica, o intérprete de um texto é aquele
que avança até este outro presente que foi o passado, para daí penetrar no
tempo da obra que não é história, mas origem:
é na direção do passado que avança o historiador,
seguindo a pista, o vestígio, que lhe deixou uma fonte documental [o próprio
texto] [...] no entanto, o tempo decorrido não é neutro: interpôs-se entre nós
e a sociedade pretérita uma distância insuperável – o que não significa
bloqueio, fechamento, mas a abertura, sobre essa sociedade outra, de uma
perspectiva que só o presente pode dar-nos. Compreendemos essa época distante,
infamiliar, aproximando-a do presente, do familiar, onde nos situamos.” (NUNES,
2011, p. 274)
A partir do confronto entre os tempos históricos, o que é
essencial na obra vem à tona.
Conclusão
Procuramos nestas poucas páginas demonstrar de que modo a
filosofia se debruça sobre a literatura para criticá-la por meio do método
hermenêutico. Para isto nos baseamos na obra de filósofos fundamentais como
Heidegger e Gadamer. Contudo, por mais que tenhamos defendido o método
hermenêutico, acreditamos que não há um método puro, exato, certeiro, para a
análise de uma obra de Arte. A obra sempre esgota a interpretação, mas a
interpretação jamais poderá esgotar a obra. Há sempre uma espécie de silêncio
da obra, no qual ela se fecha e de onde continua jorrando seu mistério através
dos tempos. Para encerrar, nada melhor do que evocar mais uma vez o pastor
alemão, que a nosso ver, penetrou mais fundo neste mistério que qualquer outro
homem:
“As reflexões precedentes
dizem respeito ao enigma da arte, ao enigma que é a própria arte. Está longe a
pretensão de resolver o engima. Permanece a tarefa de ver o enigma.” (HEIDEGGER, 2010,
p. 81). Trocando em miúdos, foi isto que procuramos fazer, nada mais do que
trazer o enigma à luz.
Bibliografia
BLANCHOT,
M. O livro por vir. São Paulo:
Martins Fontes, 2005.
BORGES,
J.L. Borges oral & sete noites. São
Paulo: Companhia das Letras, 2010.
GADAMER,
H.G. Hermenêutica da obra de arte. São
Paulo: Martins Fontes, 2010.
HEIDEGGER,
M. A origem da Obra de Arte. São
Paulo: Edições 70, 2010.
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Centauro, 2005.
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Ensaios e Conferências. Rio de
Janeiro: Vozes, 2012.
NUNES,
B. Ensaios Filosóficos. São Paulo:
Martins Fontes, 2011.
TSÉ,
L. Tao Té Ching, o livro do caminho
perfeito. São Paulo, 1993.
[1] Um par de sapatos
de camponês e nada mais. E contudo...
Da escura abertura do interior gasto dos sapatos a fadiga dos passos do
trabalho olha firmemente. No peso denso e firme dos sapatos se acumula a
tenacidade do lento caminhar através dos alongados e sempre mesmos sulcos do
campo, sobre o qual sopra contínuo um vento áspero. No couro está a umidade e a
fartura do solo. Sob as solas insinua-se a solidão do caminho do campo em meio
à noite que vem caindo. Nos sapatos vibra o apelo silencioso da Terra, sua
calma doação do grão amadurecente e o não esclarecido recusar-se do ermo
terreno não-cultivado do campo invernal. Através deste utensílio perpassa a
apreensão sem queixa pela certeza do pão, a alegria sem palavras da renovada
superação da necessidade, o tremor diante do anúncio do nascimento e o calafrio
diante da ameaça da morte. À terra pertence este utensílio e no Mundo da
camponesa está ele abrigado. A partir deste pertencer que abriga, o próprio
utensílio surge para seu repousar-em-si. (HEIDEGGER, 2010, p. 81).
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