quinta-feira, 22 de outubro de 2020

O HUMOR DA FORCA


Quando estava na terceira série
Ganhei um trofeuzinho de brinquedo
Por ter interpretado bem o mocinho
Na comédia do dia dos pais
Mal sabia que eu era mesmo o mocinho
Mas também o vilão, e a bruxa, e a mocinha, e o próprio fracasso imitando Raul Seixas
Eu era o teatro inteiro,
Mudando de máscara conforme o público
Agora, já não ganho prêmio
Ou carimbo escrito "
Parabéns
, gatinho"
Agora, sou só eu comigo
Menino sentado, quase caindo, na beirinha do palco
E, quando conto a última piada, o teatro está vazio🌻

SEXO-AFETO

A vida com o outro é sobre afetar e ser afetado; desvelar e ser desvelado. Há pessoas que arrancam de nós uma face que sequer imaginávamos e multiplicam nossa capacidade de amar, criar, agir no mundo. Existem pessoas que chegam e nos fazem inteiros. Acho que nunca se falou tanto e tão abertamente sobre sexo. O problema é que a supressão do assunto, sua abordagem sob o signo do pecado, e o excesso de ênfase provêm da mesma raiz. Acho que nunca se falou tanto a respeito e nunca se fez um sexo tão ruim. As pessoas fazem cursos, utilizam engenhocas para fortalecer a musculatura, yogas, tantras, técnicas; prescrevem, umas as outras, bulas homogêneas para a prática: três vezes por semana e o casal está saudável. No sexo, no entanto, só há uma lei incontornável: não se pode obter prazer sem dar prazer. Talvez a falta de conexão não seja entre a boca e a genitália, mas entre um ser humano e outro. Podemos ter parceiros sexuais que nos despertem menos que uma masturbação. Por outro lado, pode-se muito bem ter um relacionamento profundo com uma pessoa sem se ter necessidade de ir pra cama. Lembro Your song, de Elton John. Bernie Taupin, o letrista, e Elton, no começo da carreira, viviam de favor na casa da mãe do pianista. Dívidas, dúvidas, perrengues; humilhações. Havia paixão platônica; mas Bernie era hétero. De modo que a relação se desenvolveu sob o matiz da amizade. Certa manhã, no entanto, ao ouvir o amigo tocando piano inconsolável; Bernie, caubói, de uma sentada, escreveu o poema de Your Song. Ali, uma alma desvelava, compreendia, potencializava e acolhia a outra. Que tipo de sexo pode soar como uma canção assim? Muito pouco, só aquele com pessoas especiais. As coisas acontecem naturalmente. Transar nunca deveria ser uma preocupação, só um acontecimento natural, prazeroso, bonito. Uma expressão de admiração e desejo. Um gozo

🌻

TODAS AS CONTAS CHEGAM NUMA SEXTA-FEIRA À TARDE...

 O céu sobre a estátua do Padre Cícero em Juazeiro do Norte

O amigo tirando a própria vida num cômodo vazio em frente ao Parque Buracão
Você fumando
Você subindo montanhas
Você gargalhando enquanto cheiro seu corpo
Você sob certa luz em uma cachoeira
Lar é uma terra distante e o que vivo não cabe
Sonho, eclipse, um rei vivendo sob o viaduto
O capitão coçando o nariz
A mãe chegando da creche
Meu pai-herói, o maior homem do mundo,
Disfarçado de cobrador da CMTC
E a peste levando embora pessoas queridas
E a vida levando meus amigos pra longe
Se você soubesse o tamanho da minha saudade!
Se imaginasse o volume de solidão neste invólucro magro!
Como eu poderia ser íntimo do Tao?
Como poderia crer no socialismo?
Eu que não creio no dono da padaria?
Todas as contas chegam numa sexta-feira à tarde
E o carteiro traz uma mala pesada
Cheia de boletos e carnês
E eu nunca fui bom ou ingênuo
E eu vejo o ego por trás de cada gesto bonito
E eu vejo a vaidade e a arrogância se erguer em nome do oprimido
E aqueles que corroboram a disputa são ainda piores
Então pergunto a mim mesmo:
Será a vida um fim de filme prolongado;
Os nomes descendo na tela até a tevê sair do ar?
E eu me lembro de você sorrindo em 18 de maio
Do primeiro olhar da Sofia no colo da enfermeira
E o João me achando o maior piloto do mundo
Enquanto eu colava irresponsável o ponteiro em cento e oitenta na rodovia Bandeirantes
E a rodoviária de Assis era vermelha
E eu sonhava escrever um livro jovem
Sobre viagens, fugas e beijos
Mas todas todas as contas chegam sexta-feira à tarde
Quem dera pudesse mentir a mim mesmo em nome de um amor qualquer
Quem dera pudesse crer na força transformadora da educação, na juventude, em Deus.
Os pássaros dialogam sobre o medo
As árvores caem sob a lâmina de um machado azul
Estou devendo ao banco, às mulheres que amei, aos amigos que esqueci, aos filhos que negligenciei
Não há piedade numa hora dessas
Foi num dia assim que penduraram Cristo numa cruz
Todas as contas chegam
Mais cedo ou mais tarde
Numa sexta-feira à tarde
Numa sexta-feira dolorosamente bonita assim.

A GRANDE OBRA É A VIDA


Imagine que a eternidade não está no futuro, em outra dimensão, fora da Terra; mas na repetição infinita de cada mínima fração de segundo. O tempo não como linha reta, mas como ouroboros. O eterno construído exatamente agora, enquanto você me lê; porque, no tempo-catavento, este momento repetir-se-á infinitamente. O instante não acaba. Neste contexto, você estaria condenado ao paraíso ou ao inferno? Quando o alquimista acordou, o homúnculo sorria-lhe à beira da cama. Era um duplo, mas um duplo menor, do tamanho de um anão de jardim. Nele, o alquimista condensara tudo o que havia de pequeno em si. E, num relance, pôde ver a vileza de seu ciúme, autopiedade, inveja, ressentimento, rancor. Exposto à luz do meio dia, o anão derreteu como se fosse de cera. Centrado, então, sobre o próprio eixo, o alquimista disse sim até ao passado, ao tempo em que levava o anão por dentro. É preciso coragem para querer que retorne o primeiro beijo errado, a humilhação na sala de aula; o nascimento dos filhos, mas também a coleção de divórcios. Em uma sinfonia, cada nota é essencial. Sim, a eternidade está sendo construída agora, e não como banco, no qual receberemos com juros o bem feito; mas como instante, no qual o bom é aquilo que está de acordo com a lei de nosso coração. Despindo-se de toda densidade, o alquimista se prepara para levantar voo. Sua alma tem parentesco com tudo o que é leve e suave: bolha de sabão, querubim, borboleta, asa de pássaro. Porque é forte, o alquimista aceitaria viver a mesma vida redonda - eternamente🌻

QUANDO MEU FILHO ERA PEQUENO

 QUANDO MEU FILHO ERA PEQUENO, houve uma noite, no mês de junho, em que fez muito frio. Antes de ele se deitar, benzi-lhe a testa e o cobri bem quentinho. O menino, porém, se levantou, pegou de uma manta, e cobriu todos os seus ursinhos. Só então tornou a se deitar e me disse, como se não tivesse realizado um milagre:

- Boa noite, pai. Dorme com Deus.

MEU MUNDO E NADA MAIS

- É um quarto sem portas ou janelas.

- E como você faz para entrar?
- O problema não é entrar, mas sair. Estou preso lá dentro e é escuro e frio; como o túmulo de um enterrado vivo.

A TRISTEZA DE ZABÉ


Dona Izabel bebia pinga. Quando abria a porta, ela já esperava. Da primeira dose, mais derramava que bebia. Enternecia-me, porque ela carregava uma dor muda - de amor. Os mais velhos diziam. Dona Izabel fora dama. Das esposas, a mais elegante. A casa, um brinco; sempre encerada. Podia-se pentear os cabelos no brilho das panelas. Quando o marido, que trabalhava na GM em São Caetano, chegava, a janta estava sempre pronta, a casa limpa, Dona Izabel perfumada, de banho recém tomado. Cuidados de esposa; não tinha outra igual. Mas esse mesmo marido, certa feita, arranjou amante e, com o tempo, saiu de casa. Izabel enlouqueceu: virou Zabé. Inconformada, questionou: "O que ela tem? É melhor na cama que eu?" E o sádico: "Não, ela cuida melhor da casa e de mim". Zabé, então, tresloucou . Nunca mais nem vassoura que passou. E deu de beber, e descuidou do asseio. Quando morreu, demoraram três dias pra achar. O corpo já tinha bicho; e a casa, lixo até o teto; ratos e gatos dividindo carne podre.