sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

O ASTRONAUTA


O amor pega muito bem em canções pop
& romances românticos.
Na prática, é bicho frágil, não resiste aos encanamentos entupidos,
Contas acumuladas & roupas sujas.
Dura bem pouco, o amor:
Neblina na manhã e, quando abrimos as janelas, passou;
Já é início do processo de separação,
Este sim, demorado.
Para cada ano de amor, outros três são gastos em rompimento.
É a putrefação, não o encantamento o que pode durar uma vida inteira.
Animais adaptáveis, acostumamo-nos ao tédio.
Cedemos à preguiça,
Vamos ficando,
Carregando o cadáver nas costas,
Ignorando os vermes pelo chão.
***
Cuide da alimentação.
Controle o colesterol.
Não fique ao relento.
Sinto muito.
Quero ver você feliz.
Acabou.



quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

COMO UM MENINO FRENTE A DEUS

O ser cordeiro não é incapacidade de ser leão.
Ser cordeiro é crer que a doçura pode mais que a violência.
E isto de ser cordeiro não se define pela espera de um pastor:
Que dite caminhos, e observe costumes, e cague regras, e cobre dízimos.
O cordeiro vive livre pela montanha,
E, quando precisa estar só, também sabe se vestir de lobo.
O ser cordeiro remete à busca de um coração macio,
Receptivo;
No qual o Cristo-criança - chamado Outro - possa ser acolhido e cuidado.
Feito a pecadora, o cordeiro almeja ajoelhar-se aos pés divinos,
E lavá-los com as próprias lágrimas, e secá-los com os próprios cabelos,
E chorar de alegria; semblante-paz-plenitude; porque o Senhor voltou pra casa.
A quem muito amou, muito será perdoado.

sábado, 15 de dezembro de 2018

A ALMA QUE DEUS BEIJOU NA BOCA


Era um filhote de porco espinho parecido com todos os outros.
Só que sua pele,
Feito manto de Deusa-mãe,
Fora vestida ao avesso.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Visões de Dó


Menino ainda, achava meu pai parecido com o incrível Hulk.
Não quando estava verde e forte,
Mas depois,
Quando ia embora:
Cabeça baixa, olhar piedoso
E era apenas um homem,
Caminhando rumo ao desconhecido.

HERANÇA


Quero falar de coisas que, sendo idadosas, são ainda novas:
Velho com chapéu de jornal,
Madeira marcada,
Carro de boi de brinquedo,
Uma canção da jovem guarda;
A senhora que cultiva orquídeas e tranças:
- Tu és moço tão belo, vou dar-te um bezerrinho – ela diz.

Ser é acumular:
O bebê acumula pai, avô e tataravô.
O velho acumula a criança, o jovem e o homem.
Tudo é novo e velho ao mesmo tempo.
Desmontada a matrioshka, nosso destino não é a cova,
Mas a erva e o coração daqueles que cantam.

sábado, 8 de dezembro de 2018

FEITIÇO


A força não é ausência de delicadeza:
Vê como a tigresa lambe a cria,
Enquanto a amamenta.
A delicadeza não é ausência de força:
Contra a densidade do concreto,
Uma roseira abre fissuras,
Na travessia de pedestres do viaduto da China.
Quem conhece sua força
E, ainda assim, preserva a delicadeza imanente,
Descobre em si macho e fêmea
E tanto pode ir à guerra,
Quanto pode cuidar da cria.
Torna-se, portanto, a Fêmea do sol;
O Senhor da lua,
CAVALO:
Encantador dos dias.

domingo, 2 de dezembro de 2018

DE TUDO O QUE ACONTECE

(Sobre amizade e amor)
De tudo o que aconteceu,
Não me lembro mais de uma briga!
Ficou a lembrança de comermos da mesma panela,
De bebermos do mesmo copo.
O vinil rodando sem parar, acariciado pela agulha,
Os instrumentos espalhados pela casa,
Livros sobre as camas.
No final, o que fica é a amizade,
Vontade de cantar junto de novo ao redor da fogueira
No campinho da moradia.
De tudo o que acontece:
As brigas, palavras rudes, louça suja,
Chagas guardadas, enroladas em jornais antigos, na gaveta da pia;
O que vai ficar, quando um de nós se for, amor: o Amor.
Essa vontade de caminhar ao lado,
Dividindo a jornada da vida.
No final, as alfinetadas cotidianas, o chuveiro queimado, as contas atrasadas,
Viram pó.
Fica a lembrança do dia em que nos conhecemos.
E o velhinho ou velhinha que ficar só no mundo,
Mal saberá dar o nó dos próprios cadarços.