quarta-feira, 28 de junho de 2017

QUANDO OS CAMELOS CHORAM

Momentaneamente não estarei só. No útero, acompanhava-me a placenta; no colo, os braços da mãe; no parque, os olhos do pai e, nas primeiras brigas, o cuidado do irmão mais velho. E, quando o inverno chegar, quero adormecer entre os meus; velhinho, netos e filhos à beira da jangada, ajudando-me a atravessar o rio. Sozinho, nem corno um homem consegue ser. O outro se instala por dentro e se torna parte de mim, que também me lanço em direção a alguém. Então só existe o rio e isto que chamamos de eu é o obstáculo, o pequeno graveto em atrito com a água que forma um redemoinho e depois desaparece.
Sempre vivi rodeado de amigos. Eles tornam meu riso mais alegre e o fardo mais leve, quando o fardo vem. Tenho amigos em São Paulo, em Minas, no Rio, no Nordeste. Eles me dizem que, quando eu chegar, a porta estará aberta. Tenho amigos na Espanha, em Portugal, no Japão. Tenho amigos em diferentes lugares do espaço e, o mais estranho, do tempo. Mal amanhece o dia e convido Drummond para um café com pão na chapa na padaria. De tarde, saio pra caminhar com Friedrich, filho de um pastor alemão. Quando anoitece, invoco Charles e Agenor, caras que não conseguem dormir cedo: “a solidão é pretensão de quem fica, escondido fazendo fita”. A arte é uma forma de amizade que atravessa o tempo. Um modo de dar colo aos que foram escorraçados, de acolher os que foram incompreendidos, de abraçar os que foram esbofeteados. Durante muitos anos, Vincent van Gogh estudou e incorporou elementos da pintura japonesa à sua própria pintura. Um século depois, Akira Kurosawa, o maior cineasta japonês, abre o seu filme Sonhos, com uma sequência de quadros do atormentado pintor holandês. Eu, nos meus próprios sonhos, vejo-os caminhando lado a lado, numa manhã ensolarada, em Arles, batendo papo. Neste exato momento; meu irmão, minha irmã; você não está só. A Humanidade inteira, com tudo o que tem de bom e de ruim, te faz companhia. Abre a janela e deixa o ar entrar!

O Amor é Deus.

sábado, 24 de junho de 2017

E QUANDO VIREI GÓTICO?

Meu, que tristeza! Eu nunca fui do tipo que você pergunta: “E aí, como você tá?”. E o cara responde: “Só alegria!” Mas também nunca morei em Manchester, uai. Tudo começou com a leitura d’O morro dos ventos uivantes, depois foi o som do Joy Division. Como Ian Curtis, eu queria morrer aos vinte e três. Quando você tem quinze, vinte e três parece tempo pra dedéu. Sonhava com o meu velório tocando Love will tear us apart... As meninas chorando... Os amigos desconsolados... Todos com aquele sentimento tipo: um menino tão bom! Um cara tão legal! Um gênio entre nós e não demos valor, íamos todos à palestra do Mia Couto😪! Tem de morrer pra germinar. Só pode. Pobre quando quer ser celebrado tem de bater as botas.
Nessa época, eu já tomava conta da Casa do Norte que abri com meu velho. E não tinha mais Luiz Gonzaga pra ninguém. Quer comer seu jabá, tomar seu caldo de mocotó, pode tomar, mas vai ser ouvindo The cure e gemendo na beira do abismo! Nordestino não tem motivo pra andar alegre. Vocês não sabem da seca, da corrupção, porra? Os clientes ficavam indignados. O movimento diminuiu. O pai brigou e aí eu fiquei ainda mais triste. Pô vida cruel, meu coroa não me entende! Troquei o The cure pelo Sisters of Mercy. Durante a noite, eu ia gemer e beber vinho com meus amigos no Cemitério da Saudade. De vez em quando, esquecia que era triste e contava uma piada. O povo ria um pouco; mas, depois, todos lembrávamos que éramos tristes e voltávamos à gemedeira: estão destruindo o planeta! Ninguém me entende! Estou na fase do exército e não consigo arranjar emprego! Fernando Henrique filho da puta! Fala aí tínhamos ou não motivo para ser tristes? Um dia, cheguei de madrugada, com minha CB velha e a mãe estava me esperando com o terço na mão:
- Dan, vamos ter uma conversa séria.
- Pô mãe, conversa séria a essas horas? Pô, pô  - parecia o jovem do Chico Anysio.
- Pois é, senta aí, agora! – o papo era reto; dessa vez, eu teria motivo pra chorar.
- Que foi?
- Dona Creusomar, mãe da Rubicreusa, disse que viu tu cheirando maconha com um monte de vagabundo no cemitério da saudade😲!
- Pô, mãe, Dona Creusomar é a maior fofoqueira aí, todo mundo sabe!
- É, mas quando ela disse que a Jucileilde tava grávida, sete meses depois o nenê tava chorando. A partir de amanhã, não quero mais tu andando com esses vagabundo. E pode parar com esse negócio de só vestir roupa preta. Um calor desgraçado, sol rachando a cabeça, 40 graus, e tu aí, só de preto. Dá até agonia...
- Pô, mãe, a vida não faz sentido!
Ela levantou a varinha feita de um galho do pé de manga...
- E essa varinha faz?
Fazia. Xim, xim, craro! Dia seguinte, coloquei uma camiseta vermelha e fui ser rebelde ouvindo Roberto Carlos na Casa do Norte. Os fregueses ficaram contentes. O pai também. Tudo voltava ao normal...

sexta-feira, 23 de junho de 2017

PROCRASTINAÇÃO, CAOS E (É) PROGRESSO

Já não esquento a cabeça com o Brasil, até porque sou brasileiro. Nosso país é uma longa espera, uma demora, uma eterna procrastinação: igualzinho a mim. Primeiro seríamos a terceira opção: entre o imperialismo e o comunismo, seríamos a alegria e o samba. Depois seríamos o topo do mundo, ouvi dizer, em dez anos, superaríamos os E.U.A. Aí, depois, seríamos não sei o que lá... O Brasil nunca acontece, é sempre véspera. Quer saber? Ainda bem! Não nos imagino mandando no mundo, prefiro um feriado; melhor deixar isso pra depois de amanhã.
Primeiro eu amava Macunaíma. Depois eu odiava Macunaíma: tipo "que é isso, sou cidadão do mundo, gosto mais de Chuck Berry que de Luiz Gonzaga." Agora, amo Macunaíma outra vez. Disse o alemão Gottfried Benn: “quando olho pra mim só vejo a sociologia e o vazio”. Você consegue imaginar um Heidegger brasileiro? Alguém escrevendo Ser e tempo num quiosque em Xerém? E um Zeca Pagodinho alemão, na Floresta Negra? Caetano dizia que nosso gênero literário seria a canção: errou. Nosso gênero literário não é o ensaio, nem o poema, nem a canção: é a piada – amanhã explico melhor isso. Entre provar qualquer coisa e deixar a vida me levar, deixo a vida me levar. Dou risada. Toco o barco. Detesto toda forma de pragmatismo, de análise; toda coisa séria, burocrática, antiburlesca. Sou contra todo espírito de gravidade, assim como Nietzsche, que odiava os alemães, e que se encantou com a Itália porque não esteve no Brasil: já imaginaram um Nietzsche brasileiro? Seria triplamente nietzschiano. E Shakespeare, que, depois de uma visita a Salvador, escreveu: “O caos concebeu sua obra-prima.” Bartleby tinha sangue brazuca. Lao-Tsé e Chuang Tzu também. Melhor não perturbar a ordem do Cosmos: quanto menos interferirmos, melhor, sabe... E Bezerra da Silva me fala mais íntimo que Descartes. Se colocarmos os dois no liquidificador, beberemos a antropofagia. Como não temos caráter fixo, incorporamos, roubamos, comemos, bebemos o caráter de tudo o que pinta por aqui.
O que nossa intelligentsia tem de perceber é que não queremos ser a França, a Alemanha, os Estados Unidos e nem mesmo a Rússia - embora eu perceba um parentesco com essa última: a cachaça e a vodca são irmãs gêmeas, mas nós temos o sol que os russos não têm. - Quem é maior Marx ou Tom Jobim? Comparação estapafúrdia não é mesmo? Cada qual no seu quadrado. Os pensadores do Brasil precisam descobrir nosso quadrado, mas as melhores universidades fazem colóquios de uma semana para descobrir se o signo deleuziano é do âmbito virtual ou atual😲! O povo queremos coisas simples: a pança cheia, um pouco de sonho, um tanto de música, as crianças na escola aprendendo, uns médicos no hospital, pracinhas bonitinhas; só isso já basta. Não queremos disputa, não queremos comandar o mundo. Deixa a vida me levar, deveria ser o lema estampado na bandeira. Ordem e progresso é lema pra francês, americano, alemão...

quarta-feira, 21 de junho de 2017

QUANDO UM MIA COUTO FALA, O OUTRO ABAIXA A ORELHA

Confesso que tenho uma tremenda má vontade para ouvir artistas e, em especial, escritores falando. Acho um porre; mas, por insistência da patroa, fui lá ver o Mia Couto. De tanto que enrolei, quando chegamos, a palestra já tinha terminado. Dei graças a Deus, uma amiga, porém, convidou:
- Vamos tomar um café com o Mia, vocês não querem vir com a gente?
Se tivesse superpoderes teria fulminado a moça na mesma hora com um raio cósmico, mas sou apenas um homem comum.
E lá fomos nós.
Pra começo de conversa, desconfio de quem usa cachecol e camiseta e era bem assim que tiozinho estava vestido. Daí por diante, ele podia ter escrito O idiota que eu leria de má vontade. Inveja, vocês vão dizer.  E acertaram. O pessoal, professores universitários, escritores, artistas plásticos, gente de teatro, babava ao redor do bom angolano.
Sentamo-nos para o café. Ele pediu um pão de queijo. Bebericou o café com o dedo mindinho levantado, mordiscou a iguaria mineira e então fez menção de falar. Todos em volta fizeram silêncio. O gênio abriria a boca! Ó pá! Um dos professores, inclusive, acenou para que os pássaros nas árvores parassem de cantar: o pior foi que os pássaros obedeceram. Os carros na rua pararam...
- Exte paum d’caijo tem textura dilicada.
- ÓÓÓÓ!!! – disse um mar de vozes. – Ele podia dizer que o pão de queijo estava macio, mas não, quanta sensibilidade! E que inteligência! Um poeta! Textura delicada! Que coisa linda! Maravilha! Só um gênio mesmo... – Daí em diante trabalharam as selfies para o facebook.
Eu também tinha pedido meu pão de queijo, de modo que pensei: “dos livros não sei, mas posso fazer melhor que isso aí.” Mordisquei também meu pão de queijo e metralhei, levantando o pão de queijo como se fosse a hóstia sagrada:
- Exte paum d’caijo extá taum quente quanto a alcova da Lucíola, de José de Alencar.
A primeira que me deu um tabefe na  glândula pineal foi minha própria companheira. “Cala a boca, abestalhado”. Os outros se contentaram em me esbofetear com os olhos. Daí pra frente não disse mais nada. Pus as mãozinhas entre as pernas, igual criança arteira e fiquei pensando apenas na nossa necessidade de ídolos, de celebridades. Aquele povo ali não diferia muito das adolescentes que ficaram seis meses acampadas para ver a um show do Justin Bieber. Seu Justin Bieber era apenas mais estragadinho. Pensei também em nosso complexo de vira-latas; com tanto escritor ruim aqui para idolatrar, precisamos importar mais um de fora.
imagem: Ramón Muniz

terça-feira, 20 de junho de 2017

O CASO DO CABRITO

O áudio era Antônio Marcos, Roberto Carlos, Tião Carreiro e Pardinho, ou Gonzagão.
O bairro onde moro, no extremo leste de São Paulo, é um reduto nordestino em São Paulo. Temos até uma Av. Nordestina. Nos anos 90, pedi a conta da padaria no Bom Retiro onde trabalhava e, com a ajuda do meu pai que continuou trabalhando numa metalúrgica, abri uma Casa do Norte. O problema é que sempre tive mais dom para a farra que para negócios, mas isso não vem ao caso aqui.
Foi num domingo de tarde, depois do jogo, que combinamos de fazer um cabrito na quarta-feira à noite, também dia de jogo. Sempre fazíamos um galo. Mas alguém deu a ideia, os outros acataram, e ninguém aguentava mais tanto galo. Fizemos uma vaquinha e ficou combinado que, no dia seguinte, Mula-manca – aposentado - e eu compraríamos um cabrito ainda vivo para matar e preparar na quarta. Aí, era só descer cachaça e brahma gelada.
E na segunda-feira de manhã, lá fomos nós. O sítio não era muito perto e andávamos devagar porque Seo Mula-manca sofria de gota e não conseguia acelerar o passo. Compramos um cabrito exemplar. Amarramos o bicho com um pedaço de cordão de varal e nos preparamos para a jornada de volta. É árduo o caminho do autoconhecimento, irmãos e irmãs.
Como a viagem era longa e cada um de nós tinha uma pedra de sal na garganta, paramos para tomar uma gelada logo que saímos do sítio, com um quebra-gelo para acompanhar. Andamos mais um pouco e paramos em outro boteco, repetimos a dose. Mais um quilômetro e outro boteco. Aqui o que mais tem é igreja, boca e bar. Jogamos um pouco de dominó valendo cerveja. O cabrito amarrado no poste lá fora. Como éramos parceiros de longa data, ganhamos vários raios. Saímos de novo, mas tinha muitos bares mais antes de chegarmos até nosso destino.
Quando chegamos, meu pai já tinha aberto o estabelecimento. Passavam das cinco da tarde. A turma de sempre saboreava seus aperitivos.
- Ué, cadê o cabrito? – O Tonhão perguntou logo da porta.
O Mula-manca, com uma ponta da corda na mão, apontou para a outra ponta e foi então que vimos. Não era um cabrito, não era uma cabra, não era um porco, não era uma ovelha, não era o super-homem e nem a mulher-maravilha... Na outra ponta da corda estava um cachorro sarnento, banguela, mais feio que bater na mãe por causa de salsicha.
O jeito foi rir e cuidar do cão que morreu menos de um mês depois.

Na quarta-feira, comemos galo outra vez. 

segunda-feira, 19 de junho de 2017

QUEM SÃO ESSAS MULHERES NOS MEUS SONHOS?

QUEM SÃO ESSAS MULHERES NOS MEUS SONHOS? Quem são esses seres que me envolvem em orgias etéreas, ou acalantos maternais? Dizem os junguianos que são expressões da anima, a parte feminina da psique masculina. Certos pós-junguianos como, por exemplo, Roberto Gambini, Ginette Paris e James Hillman, ampliam o conceito e apontam que se, no fundo, toda psique é regida pelo inconsciente coletivo, então anima e animus seriam expressões do masculino e do feminino universais: o diagrama do taiji, como já sabiam uns chineses de muito, muito tempo atrás. Mas, por serem tão reais, duvido que sejam apenas imagens sem substância. Cada uma delas tem um caráter, uma silhueta que me aparece em detalhes, com espinhas, celulites, cabelos longos ou curtos, e tudo o mais... Todas têm um modo de falar próprio e, inclusive, um sotaque. Nunca saio de uma noite em que sonho com uma elas do mesmo modo que entrei. Essas mulheres em meus sonhos são seres que nunca encontrei na vida desperta. Há uma delas, a mais depravada de todas, que retorna mais frequentemente. Sempre vem acompanhada por outras mulheres. Sei pouco de sua vida. Seu assunto é o silêncio e o sexo; desenfreado, sem regras. Há outra, sempre vestida de azul claro, que tem sotaque português, mas fala um português muito, muito arcaico. Entendemo-nos, porque, nos sonhos, não precisamos de uma língua comum para nos entender. Ela é pálida, magra, parece meio adoecida. Sempre traz palavras de conforto e tem uma fé inabalável no Bem. Algumas delas, aparecem uma vez para nunca mais voltar, mas surgem com um riqueza de detalhes físicos, anímicos e psicológicos que não há como crer que sejam criações de uma mente adormecida. Seriam fantasmas? Seres de outro tempo e lugar? Expressões de desejos reprimidos? Se soubesse desenhar, faria retrato de cada uma delas, tamanha é a realidade com que me surgem. Como não desenho ou pinto, tento anotar tudo em detalhes num diário de sonhos

sábado, 17 de junho de 2017

, POIS OS ANIMAIS SABEM MORRER

A primeira gata que tivemos aqui em casa foi a Clarice. Ela tinha esse nome em homenagem à minha escritora predileta: Cecília Meireles. Clarice era uma gata siamesa, com os olhos azuis e os pelos do rosto mais negros que a asa da graúna. De todos os gatos que tivemos, ela era a mais geniosa, a mais orgulhosa: uma rainha. Não gostava de demonstrar carinho. E só aceitava receber carinho quando bem entendia. Certa vez, inventei de dar banho nela e quase fui parar no hospital para tomar pontos nos arranhões que, a bem da verdade, eram cortes e não arranhões.
A dureza de Clarice, entretanto, assim como a da escritora, era apenas superficial. No fundo, ela era pura ternura. Quando dormíamos, ela se deitava bem no meio da cama e ficava sem jeito quando acordávamos primeiro e a encontrávamos ali, feito uma menininha entre os pais. Saía miando brava, desconfiada, olhando para trás e pulava a janela.
                Clarice ficou conosco por pouco mais de um ano e então desapareceu. Foi terrível quando sumiu. O João, meu filho funkeiro, chorou. Saímos procurando a gata pelo bairro. Imprimimos fotos dela e colamos no açougue, na quitanda, na farmácia, na padaria... Eu, entretanto, tinha um segredo que não podia contar ao João: sabia que Clarice não voltaria mais, nunca mais.
                Eu não andava muito bom da cabeça naquela época, mas percebi, durante a tarde, que ela estava mais triste que o normal. Ela não era brincalhona, Clarice, era séria, mas não triste. Naquele dia, os olhos azuis dela estavam opacos, melancólicos. Quando a noite chegou, ela recusou a comida. A gente só percebe as coisas quando é tarde demais. Durante a madrugada, acordei. A coberta estava encharcada de vômito. Levantei e troquei; não dei, entretanto, a devida atenção. Clarice não estava, o que também não era nada anormal uma vez que os gatos têm hábitos noturnos.
                Dia seguinte, chacoalhei a vasilha de ração e ela não apareceu. Sempre vinha correndo, mas, naquele dia, não apareceu. E não voltou nunca mais. No mesmo dia, perguntei para o rapaz que recolhe material reciclável no bairro. Ele disse que tinha visto uma gata, com as características que eu tinha descrito, morta, embaixo de uma árvore, na outra esquina, duas quadras rua acima. Ela tinha partido para morrer longe das pessoas que amava. Não sei se a envenenaram, nem o que aconteceu, porque foi tudo muito rápido. Mas vi que era Clarice. Coloquei-a numa caixa de sapatos e a enterrei num terreno baldio, sob um pé de manga, enquanto o João estava na escola.

                Os animais não fazem escândalo para morrer. Não querem que aqueles que os amam sofram. Pensam no outro até na hora de partir... Encaram o fim com muito mais dignidade que nós, humanos, que estamos sempre batendo as pernas, gritando, fazendo barulho, Arte. Que é a literatura se não o trabalho de um sujeito que passa a vida toda brigando com a morte, dizendo sempre as últimas palavras?