Momentaneamente não estarei só. No útero, acompanhava-me a placenta;
no colo, os braços da mãe; no parque, os olhos do pai e, nas primeiras brigas,
o cuidado do irmão mais velho. E, quando o inverno chegar, quero adormecer entre
os meus; velhinho, netos e filhos à beira da jangada, ajudando-me a atravessar
o rio. Sozinho, nem corno um homem consegue ser. O outro se instala por dentro
e se torna parte de mim, que também me lanço em direção a alguém. Então só
existe o rio e isto que chamamos de eu é o obstáculo, o pequeno graveto em
atrito com a água que forma um redemoinho e depois desaparece.
Sempre vivi rodeado de amigos. Eles tornam meu riso mais alegre e o
fardo mais leve, quando o fardo vem. Tenho amigos em São Paulo, em Minas, no
Rio, no Nordeste. Eles me dizem que, quando eu chegar, a porta estará aberta.
Tenho amigos na Espanha, em Portugal, no Japão. Tenho amigos em diferentes
lugares do espaço e, o mais estranho, do tempo. Mal amanhece o dia e convido
Drummond para um café com pão na chapa na padaria. De tarde, saio pra caminhar
com Friedrich, filho de um pastor alemão. Quando anoitece, invoco Charles e
Agenor, caras que não conseguem dormir cedo: “a solidão é pretensão de quem
fica, escondido fazendo fita”. A arte é uma forma de amizade que atravessa o
tempo. Um modo de dar colo aos que foram escorraçados, de acolher os que foram
incompreendidos, de abraçar os que foram esbofeteados. Durante muitos anos,
Vincent van Gogh estudou e incorporou elementos da pintura japonesa à sua
própria pintura. Um século depois, Akira Kurosawa, o maior cineasta japonês,
abre o seu filme Sonhos, com uma sequência de quadros do atormentado pintor
holandês. Eu, nos meus próprios sonhos, vejo-os caminhando lado a lado, numa
manhã ensolarada, em Arles, batendo papo. Neste exato momento; meu irmão, minha
irmã; você não está só. A Humanidade inteira, com tudo o que tem de bom e de
ruim, te faz companhia. Abre a janela e deixa o ar entrar!
O Amor é Deus.


