Há no Taoísmo e no Zen a crença num Deus – vamos dizer assim - adormecido sob camadas de entulho no interior de cada ser humano. A razão pode ser conduzida por esta instância mais poderosa, se permitirmos. A partir do silêncio, inclusive de “meus” pensamentos, ansiedades e preocupações, nosso ser verdadeiro emerge. E lembrar este ser é lembrar-se de Deus, posto que tal abertura é o modo como Deus se mostra ao mundo através de cada um de nós. O homem erra no mundo porque perdeu qualquer contato consigo. Sem ouvir a própria voz, que é o modo como o Incomensurável se diz em cada elétron, o que resta é um mundo hostil de solidão e desencanto. O filho pródigo foi procurar longe o que estava sob seus pés. O homem busca nos confins do Universo o que está em seu coração. Mas quero falar do milagre dos peixes, dos dois. No evangelho, uma multidão segue Jesus, que se retira para um deserto próximo de Betsaida, depois da morte de João Batista. No avançado da hora, os discípulos procuram o Mestre e pedem que ele dispense a multidão para que busquem alimento. Mas Jesus vivia o tempo todo em contato com essa força interior que se revela no homem e em tudo – é isto a fé – e ordena que os discípulos reúnam todo alimento disponível. Aí vem um detalhe importante: “CADA UM DÁ O QUE TEM” e chegam a cinco pães e dois peixes. Pouca coisa; no entanto, mais de cinco mil pessoas se fartam e ainda sobra alimento. Penso agora no disco de 1973 e no modo como Milton Nascimento e seus amigos criavam. Há ali, antes de mais, a fé. Segundo os membros do Clube, quando se abriam as portas do estúdio, os músicos-moleques corriam para os instrumentos, aleatória-mente, e, daí por diante, acontecia o milagre. Cada qual dava o que tinha e, no fim das contas, acontecia o milagre artístico: “E eu apenas sou um a mais, um a mais / A falar dessa dor, a nossa dor / Desenhando nessas pedras”. Ao contrário do que acontece com outros movimentos da música popular brasileira, como, por exemplo, o tropicalismo que é um projeto racional; o Clube da esquina é místico, intuitivo, fenomenológico. É a generosidade de cada um que faz sobrar o talento do grupo. Sempre que os homens se reúnem em torno de um propósito amoroso maior, sem fins meramente egoísticos, uma força poderosa se revela (é dando que se recebe). Você pode chamar essa força de Deus, ou do que quiser; só não pode ignorá-la. Ela está registrada em cada faixa.
quinta-feira, 22 de outubro de 2020
O ESCRITOR HUMILDE
A genialidade não basta, é preciso que ela venha coroada com a joia da humildade. O gênio dificilmente é reconhecido por seus pares. Escreve sempre à posteridade, a um povo ainda por nascer. Schopenhauer só foi compreendido no final da vida. Nietzsche pagava as edições do próprio bolso. Mesmo Fernando Pessoa morreu bêbado, fazendo propaganda para a Coca-cola. De modo que não é suficiente criar uma obra estupenda, é preciso que ela seja ornada pelo caráter firme de um ser húmil. Eu, por exemplo, sei que escrevo coisas deslumbrantes, mas nunca vendi mais de vinte livros. As obras que mudam o mundo sempre foram para poucos. Também nunca fiz questão de falar em lugares elegantes ou aceitar prêmios. Certa vez, doei meia centena de livros a uma unidade do CEU para a qual deveria fazer palestra na semana das crianças. Foi a condição que impuseram para que eu fosse um dos convidados. As normalistas tentaram ler meus livros com os educandos; minha palavra, todavia, é densa demais. De modo que não conseguiram. Então, na data agendada, fui de terno e gravata porque levo a sério meu ofício, cruzei a cidade num trânsito infernal, demorei mais de três horas para chegar ao último bairro da Zona Sul; quando chegou minha hora, no entanto, não havia público. Ninguém havia se inscrito para ouvir a palavra nova que eu tinha a dizer. Envergonhado, o Diretor saiu pelo recinto recrutando pessoas para constituir o público. As únicas que aceitaram, contudo, foram as faxineiras, porque aquele dia precisavam lavar todo o prédio e, caso assistissem a palestra, estariam dispensadas do trabalho. Qualquer outro artista poderia se sentir humilhado diante de tal situação; mas sou húmile e, quando peguei do microfone, deixei minha alma naquele minúsculo mezanino:
- Minha obra – comecei – não é senão o registro da vida fascinante que tenho levado...
Cinco horas depois
, boa parte das faxineiras tinha preferido voltar ao trabalho e duas ou três dormiam pelos cantos. Encerrei meu pronunciamento e fui para casa com a sensação de dever cumprido. No ano seguinte, quando voltei ao CEU, desta vez tendo doado toda a aparelhagem da sala de vídeo e mais a reforma da biblioteca, as faxineiras estavam impacientes para me ouvir e todas liam. Uma carregava um exemplar do Ulisses, de Joyce; outra, uma caixa com todos os volumes de Proust; uma terceira lia Dostoievski no original. Você pode não acreditar. Pode dizer que, como ficcionista iluminado e singelo, inventei tudo. Respondo que não. Eu, por meu turno, poderia dizer que foi em virtude de minha curta fala que as camareiras deram tal guindada cultural, mas sou discreto, despretensioso, humilde. Reforçando o que disse no início, a genialidade é frívola se não vier acompanhada de uma personalidade que não louva a si mesma
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