Clara
O nome era Clara, mas lá chamavam-na Sabrina. Aos outros podia
parecer que sim, mas seu trabalho não era fácil, não mesmo. Ela era seu corpo?
Seus olhos e boca? Suas mãos e dedos? Seu sexo e nariz? Ou era outra coisa
qualquer? Suas ideias e sentimentos, por exemplo? Que é espírito? Não era o
leilão do corpo que machucava. Não, com o tempo acostuma-se. O que doía era a
impossibilidade da paixão. Desejo sublimado pela banalidade. Um obeso sem
papilas gustativas, sério. Com o tempo não existem clientes feios ou bonitos,
todos os bonecos são o mesmo boneco. Quando Lúcia Se Deitava, pensava nos
navios coloridos que costumava ver em Santos aos onze, doze anos. Ela, quando se
deitava, não pensava em nada, nem mesmo nas freiras que tinham cuidado dela na
infância, nem mesmo no menino de dentes tão brancos. Anoitecia e não havia
estrelas no céu que era. Demorou, mas aprendera a se desligar. Não porque
sofresse, principalmente porque se entediava. Entretanto, havia o menino, que
era corpo ágil, sorriso e um sonho de futebol. Havia também a tia cega, que
gostava de cozinhar e que cuidava do menino com tanta delicadeza. A verdade é
que precisava do dinheiro, enquanto não terminava a faculdade de jornalismo e
tinha tantos sonhos, dos outros, pra equilibrar. Que fazer se o bezerro de ouro
comandava o mundo? No pátio dos fundos lá do colégio onde as freiras ensinavam,
havia um poço de segredos de Santo Agostinho. Abbadón é um anjo louro... Bonito.
E o que é que se pode dar a um cliente além do mistério? Clara, Ana ou Sabrina?
Podia alugar o corpo, mas, a parte maior do que era, perfumava-se e partia para
um baile ao lado das esferas. Havia esferas incandescentes, ao lado das quais
outras esferas, mais frias por serem menores, giravam. Havia esferas brancas,
vermelhas, amarelas e azuis. O universo visto de fora é bonito. Parece o
brinquedo de um Deus-Menino. Arrancava os olhos da face, fechava as pálpebras e
os olhos ficavam lá do alto, soltos... Por vezes observando o corpo na cama e o
boneco por cima, ou por baixo, ou do lado... Por vezes sentindo o... Coisa
entre coisas, objeto entre objetos. Então era isto? O que é este aglomerado de
matéria que pensa e que pisca, cujo nome é EU? O eu? O eu é a corda que
prende o feixe de lenhas. Pra ela era fácil desfazer o nó e se soltar. Talvez
fosse um dom. Praticava porque gostava, não porque quisesse se aperfeiçoar.
Alguns cantam, outros pintam, outros erguem casas. Ela dispersava-se, seu dom,
sua obsessão, dom é só um outro nome para obsessão.
Agora, apesar do som alto e do constante piscar das luzes que ela,
em sua loucura, associava a estrelas, Clara esperava. Esperava o quê? O próximo
cliente? O fim da noite? O fim do fim de semana? O fim do mês? O fim da vida?
Há um mês fora ao dentista. Passara por doloroso tratamento de canal. Na sala
de espera, ela e mais duas meninas aguardavam, olhando-se mutuamente com
apreensão. Ouviam a música dolorosa do motorzinho trabalhando interruptamente
lá dentro. Em silêncio, questionavam-se: quem será a próxima? Essa espera
angustiada é a Viagem. A Terra é a sala de espera. E o dentista é a Morte, cujo
instrumento de trabalho não é uma broca, ou uma foice, mas uma imensa
britadeira. Não há como fugir, porque a porta do consultório está
hermeticamente trancada pelo lado de fora. A secretária que é Deus e que
poderia abrir a porta comeu demais no almoço e agora cochila. Sua sesta dura
setecentos anos. Não adianta bater à porta. Os pacientes sabem disso e esperam
com paciência, enquanto da sala do dentista escapa um grito de desespero. No
vaso, ao lado da mesa de revistas, um girassol gargalha amarelo.
- Vamos pro quarto?
- Você pode me adiantar o dinheiro?
- Quanto é?
- Duzentos reais.
- Tá aqui.
Ela guarda o dinheiro no bolso e observa o rosto do rapaz. Branco.
Bonito. Sorri. Sorriem. É que há muito tempo todos os bonecos eram o mesmo
boneco pra ela. E, no entanto, agora, conseguia ver a beleza no rapaz com
cicatrizes nos pulsos e sobre os lábios. Essa dos lábios, cicatriz,
provavelmente era desenhada por uma cirurgia para a correção de palato cindido.
Ainda não sabia que o nome dele era Matheus.