quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A Arte... A Inspiração... O Fora...

A Arte... A Inspiração... O Fora...

A literatura vive no salto, no imprevisível. Quanto mais tentamos fazer literatura, mais nos distanciamos dela. Vizinha do Desespero, de Eros e Tánatos, (que vizinhança hein!) ela irrompe como um desmoronamento, levando do morro a terra, as moradas, os rizomas, o lixo e as fezes. Ao mesmo tempo que passa pelo poeta e é dele, se perde dele, porque vem de um outro lugar, um outro lugar que pertence a todos os homens e mulheres (inconsciente coletivo, arquétipo primevo, mundo dos espíritos, angústia?). O objetivo do poeta, não importa se escreve prosa ou poesia, é transformar-se em palavras, transformar-se tão profundamente que mesmo o que não é só dele, mas de todo homem: o abismo, o enigma, também transborde do texto. O que o autor não sabe em si, é o que o outro ser humano também não sabe. Heidegger diz que os filósofos (e por que não os escritores?) dizem o mesmo, entretanto não dizem o igual. É dizer que desde que se toque o enigma, ou que o enigma toque aquele que escreve, o mais é irrelevante. O toque será diferente, porque os homens são diferentes e vivem em tempos diferentes, mas o Lugar será o mesmo: o espaço literário de que fala Blanchot. Segundo Pedro Nava, nem todo grande escritor é um BOM escritor. Acho que está para além das questões de forma e conteúdo. Dostoievski era acusado de repetir palavras em excesso, em Balzac censuravam o estilo sinuoso e, mesmo no aristocrático Henry James, apontavam o uso desmedido de advérbios. O texto é só a ponta do iceberg, nove terços estão submersos: correntes de desejo, fezes, orgasmos, ódios e amores irrompem na escrita, estão lá, ainda que não estejam no texto. Por isto acredito, com Artaud, que a literatura é uma possibilidade de existência, não uma coisa entre coisas, mas a Coisa, o corpo sem órgãos. Não se trata de pintar o cabelo de roxo para chocar os adultos, às vezes, uma existência terrena simples abriga uma vida interior desmedida, porque o planeta do artista é o planeta da Arte. O mundo historicamente instituído é onde ele está,  ele, contudo, vive num outro tempo, o tempo de Adão. A vida como obra de Arte é isto, é tornar a travessia, entre nonada e ∞, uma travessia espiritual. Poiesis brota de dentro pra fora e não o contrário, como querem os fincados no material. – Veja! Diz o poeta apontando o éden, mas o crítico formalista analisa rigorosamente o dedo e reclama da cutícula no indicador, e Blake, em consonância, diz: Vejam através da janela e não com a janela. O texto é a janela que aponta sempre para o aberto, porque o Todo, Deus se preferirem, é um círculo aberto, a imagem da circunferência, cujo centro está em todos os pontos e em nenhum, de Pascal. A palavra é a casa do Ser, afirma Heidegger, e Lautreámont sussura que o coiote uivando para a Lua é sua ânsia de infinito. É poiesis, sem palavra, só que no homem é a linguagem que o une ao sagrado e restitui-lhe à humanidade. Porque o Fado (Dasein se preferirem) do homem é muito mais próximo dos deuses que dos macacos, mesmo que o corpo, onde o homem mora, seja o de um macaco desenvolvido. Deus é mais Deus quando habita um livro sagrado. No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Esta é a dimensão da Literatura, não um apanhado de técnicas, não um conjunto de truques, não é o que se diz, nem o como se diz, mas o mistério do Dizer. A técnica é uma possibilidade do coração, do Dizer, mas a técnica sem o coração é uma velha tagarela: fala demais por não ter nada a dizer, como já sabia Renato Russo.
Escrevo para me tornar invisível, / Para perder a chave do abismo. Os versos de Murilo Mendes descrevem bem a ânsia do inspirado, porque o inspirado funciona como a agulha quando toca uma veia, ou a broca quando encontra o lençol freático. Depois que o líquido jorra, a agulha ou a broca são irrelevantes. Depois que encontra o espaço literário, o escritor se torna invisível, se perde, não é mais o dono de si, o próprio abismo toma forma de homem. O inspirado é aquele por onde o obscuro, ainda que misturado à sua gagueira ou à sua cor, jorra com mais veemência o enigma. O inspirado vomita Arte, é van Gogh possuído pela pintura nos últimos anos, é Cézanne monomaníaco, é Sade escrevendo como podia na cadeia, é Robert Walser martelando os microgramas no hospício. Alguns se assustam quando começam a desaparecer e então tentam manter diários enquanto escrevem livros que passam por eles. É o caso de Kafka quando percebe que vai se desmaterializar, ou de Kerouac quando percorre suas estradas.
Recentemente li no facebook do Ivan Marques uma afirmação de Philip Roth: Amadores procuram por inspiração, a maioria de nós senta e escreve. Seria mais verdadeiro se ele tivesse dito: a maioria de nós senta e trabalha, porque os fincados no material, seja de esquerda ou de direita, querem porque querem transformar a Arte num trabalho. Parece que a Arte, a escrita no nosso caso, para ter alguma dignidade, tem de ser um trabalho. Existe quem vive de Literatura e quem vive para a Literatura. Eu? Fecho com Cioran: Se tivesse de abdicar do meu diletantismo, especializar-me-ia no uivo, ou com Orides Fontela: Se poesia fosse trabalho não escreveria porque não gosto de trabalhar. A imagem do vagabundo é o maior dos estigmas, mas trabalho não garante qualidade, pois a Arte não oferece garantias. São Paulo está cheia de gente que escreve das oito às oito sem direito a férias, horas extras, ou décimo terceiro. Trabalhando em condições assim, é de espantar que o sindicato dos escritores não tenha decretado ainda uma greve geral. E quantos livros verdadeiros foram publicados no último decênio? O trabalho existe porque a escrita é o continente da incerteza. O escritor tem uma visão intuitiva e, no primeiro ímpeto traz o bloco-poema, depois, tendo apenas a si por paradigma, procura deixar o texto mais próximo do próprio texto. Tudo oscila, os móveis da casa tremem, feito um cego num quarto lavado de Sol, o artista vai tateando, e teima, e sofre e sua e depois de dias, meses, anos de luta, desiste. Nunca estará satisfeito, porque a palavra não diz tudo, é uma fôrma muito pequena para um bolo grande demais. A ideia do poema que Diga o atormenta e quase que o impele à mudez, mas ele continuará a dizer, a gaguejar, sob pena de explodir se não disser, porque a linguagem vem do ser, passa pelo poeta e quer voltar para o ser. É um círculo. A inspiração, o momento da criação não passa de uma clareira, um instante no qual o ser se deixa vislumbrar em meio aos entes. Um corpo de carne e osso não suporta em si tais forças. É preciso deixá-las voar, é preciso abrir a boca e gaguejar nossa impotência.
Para Blanchot, toda obra é obra do acaso. E o acaso... O acaso é a vida. A obra é produto de uma biografia, ou a obra exige uma biografia? Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Acredito que toda obra existe em estado de possibilidade, espera apenas uma biografia que a encontre. O caos contém o que é e o que poderia ser em estado de não-forma, mas exige um homem, ou mulher que o traga ao mundo dos seres humanos. Alguém que transforme o númeno em fenômeno. Por habitar o mundo do númeno, da coisa em si, por viver na dobra do ser, o poeta dificilmente consegue habitar com tranquilidade o mundo historicamente instituído. Ele está sempre ausente, sempre excluído, sempre fora, de um Fora ainda mais distante que o mais distante dos foras. Não se trata de homossexualismo, alcoolismo, cor da pele, ou drogadição. Aqui não existem campanhas de inclusão. O poeta, o inspirado, é aquele que sente em todo o seu ser, desde menino, o peso insuportável de não poder participar, de ser sempre excluído. É o menino do estar não estando, do ser não sendo. É o menino do olhar que suporta o não-pertencimento, do olhar que não pode habitar o mundo, porque ele, o menino-já-poeta, nem sequer chegou a construir uma casa no corpo e é preciso um corpo para pisar o mundo. N’O processo, do Kafka, há uma cena em que um homem pára diante de uma porta, guardada por um polical, e fica ali esperando a vida toda para poder entrar. Quando por fim decide perguntar se pode ou não passar para o outro lado, o policial o olha fixamente e responde:
- Até o momento esta porta esteve sempre aberta, esperando só por você, mas você não se decidiu a entrar. Agora vou fechá-la e ela ficará fechada por todo o sempre.
Quem desejaria um destino destes?


quarta-feira, 18 de maio de 2011

O ENORME PESO DO NADA

O objetivo do presente texto... Não, assim, não. Formal demais. Não é minha cara... “A verdade, meu amor, mora num poço, é Pilatos lá na Bíblia quem...” Também não. Ainda não é o que eu queria. Todo texto é uma escavação... Uma busca... Um parto... Há escritores que acreditam que o leitor não deve ter contato com esse processo. Ao leitor, segundo tais autores, deve ser ofertado o magma e só. Acho válido, mas não consigo trabalhar assim. Quero tirar o leitor pra dançar e dizer sinceramente ao pé do ouvido que estou tão perdido quanto ele... Daí meu gosto por reticências. Estou escavando também, não tenho certeza do que quer que seja. Incomoda-me muito o fato de meio mundo hoje escrever como se conhecesse cada detalhe do cosmos a que deseja dar a luz. Eu sou míope, enxergo muito pouco do outro lado. Há uma neblina densa que envolve o ambiente. O que vejo pode ser e pode não ser. Daí, como já disse, meu gosto por reticências... Nunca sei se estou acertando.
            Mas não é sobre as reticências que quero tratar. Não aqui. O objetivo do presente texto, como diz o excerto do Noel Rosa aí em cima, é a verdade. Somente a verdade, nada além da verdade.
            Comprei, ainda ontem, um livro sobre tarô surrealista. Sou ligado ao ocultismo, mesmo que me considere um cético. Na verdade, (que verdade?) nunca conheci cético que não fosse crente. Crente na ciência... Na Arte... Num destino grandioso para a humanidade... Numa ética laica. Ninguém consegue suportar sem subterfúgios “o enorme peso do nada”, como diria Joseph de Maistre.
            Esqueçam Berkeley, se levarmos em consideração as melhores ferramentas que temos, a razão e os sentidos, todas as evidências, desde o nosso lugar no Universo, até tudo o que tocamos, vemos e ouvimos, nos levam a crer que nossa existência aqui na Terra é fruto de uma miríade de acasos e coincidências e que a vida não tem fim Sublime algum. No final, nossas cinzas estarão espalhadas pelo chão de qualquer boteco, feito as cinzas de Murphy no final cômico e triste do livro de Samuel Beckett. Sem fantasias, o nada é a verdade. E agora? Como lidar com isso?E agora que tanto faz escrever como não escrever diante da noite imensa do tempo? Mesmo os vencedores perderam. Um dia a língua em que escrevemos não existirá. Um dia o planeta no qual nos preocupamos com as contas a pagar e com amor vai se dissolver no espaço, ainda menor que o grão de areia que respiramos sem perceber e que nos faz espirrar e praguejar logo em seguida. “A vida está cheia de som de fúria rumo ao nada”. Diz Macbeth, num momento de rara clarividência, logo depois da morte de Lady Macbeth. O nome de Deus não é Javé ou Alá, o nome de Deus é Tanto Faz.
            Sinto cheiro de carniça. A verdade, meu amigo, é uma carranca malcheirosa. De certa maneira, todos somos o boi esfolado de Chaïm Soutine. Você consegue sentir o cheiro podre das cores e o zumbizar das moscas?
            É por essas e outras que eu quero que a verdade se foda. A escrita é a coisa mais importante pra mim. Então, que mintam pra mim e me digam que eu escrevo como um Deus. Mintam-se todos uns aos outros. A crítica, como tudo o mais, é um lance de dados, não tem nada a ver com mentira ou verdade. Se a moça é estrábica, de canelas finas e barriguda, mintam pra ela e digam que ela é a cara da Audrey Hepburn em Tiffany´s Breakfast. Se tiverem estômago, dêem-lhe também um beijo na boca, não precisa pôr a língua nem nada, só um selinho que é pra ela acreditar de fato. Todo ser humano merece um selinho de vez em quando.
            Nietzsche, que acertou em tudo, disse que “temos a Arte para não perecermos em consequência da verdade.” Eu diria que não só a Arte, mas a ciência, a religião, o amor, a amizade, tudo isto existe para não perecermos em consequência da verdade. Os homens construíram a humanidade e o progresso para fugir da verdade. O Vácuo uiva no fundo da Caverna. Acho que foi Nietzsche também, sempre ele, quem cravou: “Se conhecêssemos a Verdade, ela nos aniquilaria”. Ou é isso, ou é qualquer coisa assim.
            Não fui dotado dos genes da Felicidade. Desde menino, a sombra negra sempre me acompanhou, silenciosa e sorrateira, junto à respiração, como o olhar de um urubu. Eu podia estar jogando bola, eu podia estar jogando bem. De repente, sem mais nem menos, vinha o vazio e a certeza de que alguma coisa terrível aconteceria, mais cedo ou mais tarde. Deus era um alívio nessa hora. Nietzsche nunca perdoou a razão por ter destruído sua fé. Eu também não. Ainda rezo às vezes, mas não é mais a mesma coisa, não existe conforto. Tomo um comprimido. Bebo um copo com água. Peço à minha mulher pra repetir que tudo vai ficar bem. Nada alivia. É preciso aprender a conviver com a verdade e suportar sua visão desoladora e seu cheiro de ruína.
            Em verdade, em verdade vos digo que estamos mesmo é num mato sem cachorro e que chove “uma triste chuva de resignação”. Do outro lado da estrada, a morte vem a galope como uma puta com as tetas de fora.

Imagem: Beef carcass paintings, de Chaïm Soutine

sexta-feira, 15 de abril de 2011

IV ENCONTRO PRÁTICA DE ESCRITA



O Encontro Prática de Escrita acontece informalmente desde 2001, mas há quatro anos o evento ganhou periodicidade e formato e vem se tornando parte da agenda de quem gosta de literatura. O principal objetivo do encontro é reunir pessoas que não só apreciam a literatura, mas também tudo que circunda a prática de escrita literária. A programação é dividida em dois tempos, o primeiro gira em torno das mesas com palestrantes, que discorrem sobre assuntos que permeiam o universo da literatura; o segundo tempo é das oficinas de criação literária. Pelo evento já passaram nomes como: Milton Hatoum, Marcelino Freire, Raphael Draccon, Kizzy Ysatis, Roberto de Souza Causo, Sérgio Pereira Couto, entre outros.O evento deste ano tem como convidados: o escritor, jornalista e apresentador do programa Metrópolis, da TV Cultura, Cadão Volpato; a jornalista, escritora e apresentadora do programa Letras & Leitura, na Rádio Eldorado, Mona Dorf; e o escritor e jornalista, apresentador do programa Perfil Literário, na Rádio Unesp,Oscar D’ambrósio. Cadão falará sobre sua prática literária; Mona Dorf e Oscar tratarão do universo literário, compartilhando suas experiências em centenas de entrevistas com escritores.O encontro deste ano acontece no dia 7 de maio, sábado, das 10h às 16h30, na Universidade Cruzeiro do Sul, campus Liberdade e é organizado pela Terracota editora como parte da programação do curso de lato sensuem Criação Literária. A inscrição deve ser feita aqui:http://terracotaeditora.com.br/pcl/?p=545
O limite de vagas é 120 para as mesas e 15 por oficina.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Trem de doido



A vida é um osso duro de roer. Desenterro os dias. Rizomas mortos. Enfio os dentes e perfuro até chegar ao tutano. Tenro. As moscas brancas cercam minha cara e incomodam. Olhos de boi. Estou há três dias soltando as tripas. Mais um dia de merda. As varejeiras continuam me fodendo a vida, rondando meu rabo. Oroboro o caralho. Nunca fui dado ao misticismo. Mandalas nunca me acalmaram. Gatos de Alice sarcásticos na janela. O suicídio é pra poucos.
Não consigo parar de pensar naquela cadela, a vaca só queria mesmo ser comida, depois sumiu, foi dar pra outro. E eu uivando feito tonto. Pau a pique. O amor é mesmo uma construção burguesa. Fico horas olhando as roupas secando no varal. Toda intimidade exposta a céu aberto. Pardais ciscam no quintal, sempre em cima do muro. É difícil assumir uma posição.
Se não bastassem os três dias de diarréia, ontem fui atravessar a rua e um idiota de um moleque me atropelou. Lembrei do Rogério e sua crônica sobre um animal de pelo curto e amarelo. Gosto de imaginar o amarelo sangrento no asfalto, feito um piche inventado. Baleia zonza debaixo do sol. Agora a minha perna está em carne viva, posso escutar o sorriso desses malditos mosquitos. Larvas me devoram e eu ainda não morri. Como pode um animal se conformar em viver sob a pele de outro? Parasitas me causam nojo.
Sinto tanta dor que o suor e a saliva escorrem abundantes pela minha língua. Acordo e o meu corpo está todo dolorido e não para de coçar, parece que carrapatos perfuraram a pele e fizeram ninho na ferida exposta.
Era só o que me faltava mesmo. Vejo duas mãos enormes. Luvas brancas. Já até imagino o que me espera. É o Rogério. Ele aperta com força. Duas, três, quatro vezes. Uma berne salta e se esparrama elegante no chão. Tento agarrá-la. A coceira para. Mas preciso ficar deitado até essa perna sarar, ele alerta enquanto afaga entre minhas orelhas. Eu não posso mais perseguir o centro de mim. E afinal, o que mais pode um cão fazer além de correr atrás do próprio rabo? Hidrofobia. Mordo a canela do meu dono.

um texto de Marcia Barbieri: http://www.avidanaovaleumconto.blogspot.com/

domingo, 20 de março de 2011

NO TEU ROSTO O PÓ DE ARROZ, NO MEU PEITO A CRUZ DE MALTA

Meu sorriso cínico & orgulhoso desaparece do teu lado
Naquelas fotos que tiramos juntos
Meus olhos tristes & desengonçados desaparecem do teu lado
Naquelas fotos que tiramos juntos
Meus próprios rostos (eu tenho sete) não estão mais
Naquelas fotos que tiramos juntos
É como se nunca tivéssemos existido.

Guardado no porão dos teus dentes
Vai ficar o gosto agridoce do meu pênis
& entre teus seios, as cicatrizes causadas pelo meu esperma quente
Quando algum estranho perguntar por aquelas marcas profundas na tua pele
Quando alguém perguntar pelo gosto selvagem na tua boca
Aí e só aí
Vai surgir minha lembrança
Feito a cor cinza de um dia de chuva
Feito um véu evangélico
Feito a Burca surrada no rosto castrado de uma afegã de olhos azuis
- Será verdade?
Você vai indagar com teu coração de ficcionista
Enquanto eu
Caminhando para o outro lado dos retratos
De mãos nos bolsos
Vou assobiando um samba duro:
No seu rosto o pó de arroz, No meu peito a cruz de malta

quarta-feira, 16 de março de 2011

A última revolta de Jesus Cristo

Baseado numa história que tudo indica ser real.
Doía, muito doía, e não havia nada que pudesse fazer para estancar o sangue, que escorria. A impotência doía. Doía e não enxergavam, não viam – ou não queriam ver? Doía e não era dor pouca, pois em todos os momentos se vira sozinho, todos desapareciam, sua única companhia era o desgosto, era. As aves no céu voavam indiferentes. E doía. Agora percebia enfim que doía, e não só percebia como sentia agora todas as dores passadas, agora. A solidão. A ausência machucava, doía. A ferida aberta, e os vermes vindouros. As mãos doíam, e muito. As pernas doíam, e muito. O tronco doía, muito. A flechada, os cuspes, a coroa, os espinhos – tudo doía. Os sarcasmos feriam, e doía. Os risos. Os socos tão-somente nesse instante sentia, e doíam, como socos dados em vão, porque em vão foram. Apenas serviram para aumentar a dor. A hostilidade. Valeria o sacrifício, valeria? O sol quente. O céu claro. A vontade de urinar doía. Os rins doíam, sobretudo. O suor que sujo escorria. O sal. O fel. O mau hálito. As lembranças também doíam. Herodes (Jesus ainda bebê) mandara matar todas as crianças abaixo de dois anos. As mentiras inventadas, a hipocrisia. Herodes não queria adorá-lo, não queria. E o Pai, sabia? Fora cúmplice? Não fora tudo profetizado, não estava escrito? Doía. A crueldade de Arquelau. Os avisos de Deus. As interferências. As tentações de Satanás – tudo premeditado. Doía. Sua história não fora escrita por Si mesmo? A morte de João feria e fazia doer. A cabeça ensanguentada de João. Sangue. Os demônios. A lepra. Os fariseus, que tramaram sua morte. Hipocrisia. Ai de Jerusalém! Doía, porque davam dízimo, conheciam as Escrituras, jejuavam, oravam, mas não viviam segundo a justiça e a fé. Muito. Doía. Os judeus hostis. As enganações doíam, e muito. Todas as dores possíveis nele se convergiam. O tremor. A ira. O ódio. A vingança. As mortes dos que não estavam na Arca de Noé. Doía a piedade e o consequente remorso que sentia, agora, só agora, pelos não privilegiados do Pai. As crianças afogadas nas águas do dilúvio. As crianças se debatendo contra as águas salgadas. Seriam salgadas, seriam? A compaixão que nutria, agora, e só agora, por Caim. O sofrimento de Jó era ele, Jesus, que sentia e doía, doía mais do que doeu em Jó. O gosto da fruta (amarga) que Adão comeu doía o estômago. A liberdade, a esperança perdidas, o paraíso, a felicidade perdidos – doíam, e era uma dor que feria. O pranto sobre a cidade condenada. A figueira estéril. As profecias doíam. A ambição dos homens. A agonia passada. E, após todo o sofrimento, a sentença. Meu Pai. Este suor que escorre e se mistura ao sangue, estas lágrimas que escorrem e se misturam ao sangue, esta saliva que escorre e se mistura ao sangue, estes cuspes que escorrem e se misturam ao sangue. As feridas. Os raios do sol nos olhos ardem, doem. Ver a mãe chorando e nada poder fazer dói. Ver os irmãos chorando e nada poder fazer dói. Ver os amigos, sobretudo os falsos, e nada poder fazer dói. Ver os inimigos zombando e nada poder fazer dói. E o Pai, sabia? Fora cúmplice? Não fora tudo profetizado, não estava escrito? Doía. Zombaria. Zombarias? Este peso nas costas dói. O fardo pesado. Os pecados de todos. Os erros. Os desvios de conduta. Os assassinatos. As vinganças. Os adultérios. As ingratidões. Doía. As feridas. As traições. As armadilhas e provações. O fardo. Os tapas no rosto. Os socos. Esta barba espessa e suja. Essa feiúra. Esta ausência. Trinta e três anos de falta doem. Trinta e três anos de mentiras e maldades doem. As marcas das correntes nos pulsos doem. Este zunido intenso nos ouvidos. Os zunidos, conseqüência dos gritos nos ouvidos, doem. Esse riso cínico dói, e muito, demais. As marcas profundas nas costas doem. As pernas cansadas, em conseqüência do longo trajeto com esta cruz pesada nos ombros, doem. E os tombos. Meu Deus, afaste este cálice de mim. Afaste a onisciência de mim, afaste essa capacidade de imaginar o futuro de mim. Afaste a lucidez de mim. Afaste este choro amargo de mim. Afaste de mim este soluço convulso que ninguém vê. Pai, por que não disseste antes que minha morte não era para todos? Pai, por que me enganaste? Pai, que culpa têm os que não reconheceram nem reconhecerão como verdade o que eu preguei? Pai, Tu me fizeste profetizar a traição de Judas. Pai, por que me fizeste antever que Pedro me negaria? Se tudo continuar assim, entre ódios privilégios injustiças rancores pesares mortes gratuitas, sobretudo por causa dos seres à imagem e semelhança de Ti, ó Pai, renego a condição de Salvador. Se for para eu ter remorsos eternos, renego, ó Pai. Pai, por que lhes perdoar o que fazem se eles sabem exatamente o que fazem e mesmo assim continuam fazendo? Essas zombarias. Se tu és o rei dos judeus… Não és tu o Cristo? …mas este nenhum mal fez. Mulher, eis aqui o teu filho. Sim, filho, e eis aqui tua mãe, chorando. Dor. Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste também desamparo a Ti e aos teus. Vede, chama por Elias. Tenho sede… Rãnnn. Este gosto acre. Ha-ha-ha. Sei, Pai, que sempre fizeste todas as coisas para os Teus próprios fins, e até o ímpio para o dia do mal. Sei, Pai, que tudo acontece para que as Escrituras se cumpram. Mas, Pai, que não seja feita mais a Tua vontade. Apenas por um segundo quero ter vontade, por um segundo apenas.
E (talvez porque ainda doía) com a pouquíssima força que restara enfim murmurou:
__ Pelos camelos…
Deus, perplexo, com toda autoridade possível:
__ QUÊ?! – esbravejou.
__ Pelos camelos… came… eu… eu vou… morrer… pelos camelos… – fechou os olhos e expirou.
Não escurecera. Nem escureceria.

terça-feira, 15 de março de 2011

Dimas Macedo e o doce lar das letras (Nilto Maciel)

(UMA CRÔNICA DE NILTO MACIEL)


Minhas amizades com escritores cearenses se iniciaram em três etapas: até meados de 1977 (quando me retirei para Brasília); deste tempo até setembro de 2002 (período em que vivi na Capital Federal); e o depois disto. A primeira começou pouco antes do surgimento da revista O Saco: Airton Monte, Batista de Lima, Carlos Emílio, Gilmar de Carvalho, Jackson Sampaio, Oswald Barroso, Paulo Veras, Renato Saldanha, Rosemberg Cariry, Yehudi Bezerra e outros. Na segunda, sobretudo quando a Fortaleza vinha de férias, me aproximei mais de Adriano Espínola, Floriano Martins, Carlos Augusto Viana, Luciano Maia, Márcio Catunda, Nirton Venâncio e Rogaciano Leite Filho, participantes do grupo Siriará. A seguir, conheci Dimas Macedo. Não me lembro da apresentação, quem a fez, onde e quando. Pode ter sido numa das noitadas no Estoril. Não sei, pois bebíamos além do que sorviam os idólatras de Baco e, assim, quase todo o meu viver de então o arrastou o vórtice do olvido ou se afundou nas reentrâncias da memória.


Sei, porém, que é de 1980 a divulgação de seu primeiro conjunto de poemas – A distância de todas as coisas –, que me ofereceu e li, com deleite, quer à primeira refeição, quer a desoras, vésperas de calar a boca. E escrevi um artigo, publicado em jornais: “Poemas das Lavras de um poeta”. A seguir, em 1986, compôs o prefácio, intitulado “Contos picarescos e alegóricos”, para minha terceira coleção de contos: Punhalzinho cravado de ódio. Não sei se lhe pedi (devo ter pedido) tão grande favor. Se pleiteei, o fiz por ver nele não apenas o poeta, mas o crítico. Eu havia lido Leitura e conjuntura, de 1984, seu primeiro volume de artigos de análise literária. Estávamos amigos e enamorados, eu de sua poesia e seu modo de ver a Literatura, e ele, certamente, de minha prosa de ficção. Passamos a nos corresponder. Cartas longas e curtas, sempre cheias de notícias e comentários de livros. Veio, então, o tempo da revista Literatura. 1992. Convidei-o, desde a primeira hora, para fazer parte do conselho editorial e colaborar com artigos e poemas.

Dimas esteve duas vezes em minha residência de Brasília. Conversamos muito, ele a me pedir informações dos escritores de lá, a me falar dos de cá (sempre com elogios aos mais velhos, assim como aos novos) e de Fortaleza, cidade muito amada dele. Quando a nossa capital visitava, ele me conduzia, de carro, aos mais requintados bares e restaurantes, me apresentava a personalidades da política e das artes, a mulheres elegantes, a noviços das letras, como se eu fosse um príncipe exilado: Fulano, este é Nilto Maciel, o mais... Já ouvi falarem do senhor. Sim, mas não o conhecia de perto. Sempre solícito, sempre bem humorado, sempre muito educado. E sempre sabedor de tudo: de obras a serem publicadas, da biografia quer dos antepassados, quer dos contemporâneos, do folclore que forja a aura de muitos, das dificuldades financeiras deste, da opulência daquele.

Em Brasília, todos o sabiam de nome e de livros. Nem precisava apresentá-lo. Então este é Dimas Macedo? Não o imaginava tão jovem. Admiro demais a sua poesia, rapaz. Um dos melhores poetas do Ceará, terra de grandes escritores. E choviam elogios, que se repetiam muito depois de ele regressar às praias.

Nunca falávamos de política, futebol, mulher, religião, clima, ciência ou qualquer outro assunto que não fosse literatura. Como vai sua família? Não, isso não perguntávamos. Pois não éramos amigos. Nem o somos. Falo de amigos no sentido popular ou tradicional da palavra. Não contamos um ao outro nossos conflitos pessoais ou questões familiares, como costumam fazer os amigos. Não tratamos de confidências do tipo “apaixonei-me por fulana”. Não, isso não. Porque essas comunicações de segredos não as fazem os escritores. Não precisam disso. Elas são traduzidas em poemas, principalmente. Ou nas memórias. Somos, pois, amigos pela literatura ou nela.

Dimas exerce mais de uma atividade profissional, como quase todo escritor, e a elas se dedica com abnegação. Entretanto, se difere de seus colegas na divisão do ano. Seis meses jurista e professor, seis meses poeta e crítico. Chegado o tempo destes, abandona a cátedra, o fórum e o gabinete de procurador do Estado, e se consagra a ler e escrever, participar de lançamentos de livros, festas literárias, encontros, proferir palestras, frequentar bares, restaurantes e livrarias. E eu não sabia disso, por não viver na mesma cidade. Quando recebi carta dele, na qual comunicava seu afastamento temporário das lides literárias, tomei um susto: “Não me escreva até o final do ano, não me mande livros ou quaisquer outras publicações...” Pensei loucuras: o coitado deve ter sofrido imensa decepção. Enviei cartas a amigos para saber o motivo de tão esquisita decisão. Todos me deram a mesma explicação: Não se preocupe, Nilto. Ele é assim mesmo. Logo voltará ao nosso doce lar de ilusões. E voltava mesmo. Com o ímpeto de antes, nova reunião de poemas, novo conjunto de estudos, projetos e mais projetos.

E assim tem sido esse poeta magnífico, esse teórico de ampla visão, esse pensador de altos voos.

Fortaleza, 16 de fevereiro de 2011.