quarta-feira, 15 de abril de 2009

PIANISTA BOXEADOR

Sempre gostei de rosas vermelhas!

Difícil é te explicar porque foi que eu resolvi escrever depois de tanto tempo. Tudo parece tão absurdo que eu não consigo sequer imaginar um meio de começar a te contar. Talvez pelo início seja o melhor meio, mas é difícil também saber onde e quando tudo se iniciou. Vou começar então por onde a gente terminou. Naquela manhã chuvosa de domingo em que te perdi pra sempre. Talvez tudo tenha começado exatamente naquele momento, quando comecei a descer as escadas pra fugir do teu quarto e continuei a descê-las, mesmo quando cheguei ao porão. E continuei a descê-las, mesmo quando não havia mais escadas e eu arranquei as lajotas com as mãos e continuei a cavar e a descer até me embrenhar entre os vermes, longe das flores. Você sabe, sempre gostei de rosas vermelhas, embora aqui embaixo nunca tenha havido muitas delas.

Quando saí da sua casa naquele dia percebi que não havia mais jeito, que não havia mais um meio de voltar àquele passado onde havíamos sido felizes, porque eu, sempre eu, tinha destruído tudo outra vez e, dessa vez, eu o sentia, era pra sempre. Então fugi. Abandonei os ringues, as luvas vermelhas, o cinturão de campeão brasileiro de boxe, categoria peso pesado. Então fugi e abandonei os pequenos palcos e o meu piano branco, e quebrei meus discos de vinil forte, e decidi que rolaria no estrume até onde minha alma pudesse suportar.

Voltei pro crime. Você sabe que eu tenho habilidade pra isso. Retornei também ao pó que sempre me fez subir, mas que também já me passou rasteiras imensas. Estava sujo outra vez, mais sujo que nunca. Entretanto, no panorama negro da noite, entre cartas de baralho, carreiras, copos sujos de vodka, de conhaque e homens que atiravam com a mesma espontaneidade com que sorriam, muitas vezes me vinha nítida aos olhos a tua figura. Então eu me levantava no meio do jogo e tudo, e corria pra tentar tocar teus cabelos sempre amarelos e soltos, mas, quando chegava perto e tocava, só havia a noite, quente e densa. Aí eu voltava pra mesa e sorria e meus companheiros, todos tão subterrâneos e brutos, alguns até mais subterrâneos e brutos que eu, aconselhavam-me para que parasse com o pó e deixasse um pouco o conhaque e a vodka de lado. Mas eles não entendiam que eu estava decidido. Não entendiam que nós havíamos sido crianças juntos. Você se lembra de quando me emprestava sua bicicleta verde e, à noite, brincávamos de pega-pega até nossas mães nos buscarem furiosas? Às vezes você ia na bicicleta e eu ia a pé, outras vezes eu ia na bicicleta e você ia a pé. As mães ainda existiam naquela época. Mas agora não há mais mães. Agora está tudo fora de lugar e eu apunhalei meu anjo, esqueci de Jesus, da nossa professora de catecismo. TE PERDI PRA SEMPRE!

***

Arquitetar crimes não é como compor canções, ou estudar um adversário no quadrilátero. Arquitetar crimes tem segredos e idiossincrasias específicas. Eu elaborei assaltos perfeitos. Transportei drogas em lugares que ninguém jamais poderia imaginar. Mas um dia falhei. Lembra do grande roubo a agência central do Banco do Brasil? Fui ferido. Na barriga.Quase morri, mas os anjos do mal que comigo andavam conseguiram um médico que aceitou me operar, mesmo num barraco de madeira podre onde a noite entrava por todos os lados, entre as frestas. Sobrevivi. Ganhei uma cicatriz imensa na barriga e algumas dezenas de rugas em cantos do rosto onde a barba não pode encobrir.

Estava novamente de pé, na noite, e novamente o pó me acolheu e me levantou. Por pura maldade atirei num cachorro branco que latia à noite na rua Guaianases. Atirei também em alguns dos que se esforçaram pra me salvar. Não pelo egoísmo de ficar com todo o dinheiro, mas pelo simples gosto da traição, da mais vil traição. Quando era pequeno também fiz desaparecer a aliança do teu padrasto, isto mesmo, fui eu quem roubou a aliança, e você apanhou até que na sua pele brotasse imensos vergões negros, feito lagartas. Você sabe... sempre gostei de rosas vermelhas.

Mas vivemos sob as chagas de Cristo e às vezes, sempre na noite, eu chorava. Chorava pela loucura e o mal que usavam meu corpo, minha mente, meus braços. Chorava pelo pai que nunca tive. Chorava pelo nosso bebê que eu fiz você arrancar da barriga. Chorava por todos os crimes que havia cometido e por todos que sabia que ainda iria cometer. Chorava por ter ferido você, o anjo que perdi pra sempre. Longe de você, das luvas, das teclas, toda energia boa ou má que existia em mim e que poderia se transformar num beijo terno, num bom cruzado no ringue ou numa canção bonita se tornava atos vis e criminosos.

Mas vivemos sob as chagas de Cristo e um dia, quando eu me sentia superior e imortal, senti brotar na minha barriga, ao lado da cicatriz da operação, um pequeno nódulo, talvez o primeiro sinal de uma inflamação. A princípio não dei atenção alguma, apenas continuei, na noite. Só que, quando amanheceu, eu vi que o nódulo havia explodido e que de dentro dele, além do pus, saía um pequeno pedaço de tecido vermelho. Tinha textura delicada, o tecido, parecia camurça, mas, por incrível que pareça, era ainda mais macio que a mais macia das camurças.

Ó Deus, por que não fugimos pro meio do mato enquanto ainda era tempo? Por que não fizemos uma casinha simples, no pé de uma serra onde nas janelas houvesse cortinas brancas, como se todas elas, as janelas, estivessem usando vestidos de noiva? Por que?

Agora é tarde, porque aquele pequeno pedaço de tecido que brotou na minha barriga, aos poucos, foi crescendo. E até que era bonito, mas o pus continuava a correr o tempo todo junto a ele e, Deus, como doía. Não soube muito bem o que fazer. Eu nunca soube muito bem o que fazer. Apenas ficava lá, suportando a dor e acariciando com a pontinha dos dedos aquele vermelho tão pequeno e delicado.

Vermelho que crescia e desabrochava e parecia sugar todas as minhas forças, uma vez que eu me sentia fraco e minha pele, e meus olhos, estavam anêmicos, amarelos. Todavia, apesar da dor e do cansaço, eu estava feliz, porque do meio de todo aquele pus e daquela ferida, que agora era enorme, surgia algo bonito.

Quer saber o que era aquele pedaço tão singelo de vermelho? Eu tive que esperar mais de uma dezena de dias pra que ele se mostrasse inteiro. Você não vai acreditar, eu mesmo não acreditaria se uma outra pessoa me dissesse. Apesar de, hoje, isto me parecer tão normal quanto uma espinha, naquele tempo eu custei muito a acreditar. Cheguei a pensar que estava enlouquecendo, ou que o pó já me dava alucinações. É difícil pra qualquer um ver brotar na sua barriga (violento, vermelho, macio, ereto) um botão de rosa. Isto mesmo, você sabe... sempre gostei de rosas vermelhas!

Só que a coisa não ficou num botão apenas. Dia após dia, sugavam-me as forças, os galhos, os espinhos, as flores de toda uma roseira. Meus olhos, eu via no espelho, não tinham mais cor alguma. Cada espinho, da roseira que crescia, que passava pela minha barriga, fazia-me sentir dor como a de um dente arrancado sem anestesia. Mas a roseira era linda, a mais linda que eu já havia visto. Era bom acordar pela manhã e vê-la lá, tão imponente na minha barriga. Difíceis eram as coisas simples, como conseguir comida, ir ao banheiro ou levantar da cama. Eu já tinha perdido trinta quilos. Era bonita, a roseira, mas estava me sugando a vida, e eu sou feio, egoísta e mal. Dar cabo da roseira era preciso, antes que ela desse cabo de mim.

Preparei minha navalha de cabo de marfim, um pano branco e o álcool indispensável. Manhã de outubro. Abri a navalha. Manhã de outubro. Bebi e fechei os olhos. Manhã de outubro. Segurei o pezinho da roseira com uma das mãos e com a outra passei-lhe a lâmina... O sangue jorrou e, por Deus, não existe dor maior no mundo... Apertei o pano forte contra a ferida e tentei me levantar, mas minhas vistas se escureceram e eu achei que tinha morrido.

Entretanto acordei e me sentia forte. Continuar a viver era necessário e até que era bom poder viver, e caminhar pelas ruas, e ser livre. Mas minha liberdade, eu ainda não sabia, duraria pouco, pois a chaga da barriga mal cicatrizara e já me brotava outra roseira no braço direito. Novamente repeti o processo da navalha, do marfim, manhã de novembro. Mas aí começou a nascer o vermelho na minha perna. Da perna espalhou-se para a virilha e por mais que eu repita, até hoje, o processo da navalha, das toalhas brancas, sei que não vai adiantar.

Amanhã é natal. Cinco anos que eu não te vejo.Tenho aqui comigo um revólver. Quando terminar de ler esta carta, procure no jardim da sua casa a rosa que está num vaso de cerâmica branca. O corpo estará um pouco mais distante, na praça em frente à catedral.

Feliz natal! Se eu pudesse começar de novo, mudaria tudo.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

SOBRE FRIDA KAHLO NO AMÁLGAMA

PESSOAL, TEM UM TEXTO MEU SOBRE A FENOMENAL PINTORA MEXICANA FRIDA KAHLO NO AMÁLGAMA. OS INTERESSADOS POR FAVOR ACESSEM:

http://www.amalgama.blog.br/04/2009/frida-kahlo-maravilhosa-e-visceral

ESTA ARTISTA MERECE UMA LEITURA.

ABRAÇÃO A TODOS

segunda-feira, 6 de abril de 2009

DA ETERNA ADOLESCÊNCIA

Quem dentre todos os outros entenderá teu silêncio?
Quem dentre todos os outros vai perceber a cor quente do teu riso?
À meia-noite mil vultos teus me perseguem
Com os teus crucifixos de ouro
Com o teu olhar profundo
Com a tua energia louca
Nós fomos vassalo e susserana
Nós fomos servo e duquesa
Nós fomos escravos de tantos amores impossíveis
Tua mão em mim me faz flor de mal me quer
Criança magra dando show de calundu
Trovador elétrico uivando na varanda tua
Eu te faço mal
Eu confundo teu peito
Eu machuco teu braço
Mas não saio ileso
Trovador elétrico uivando na varanda tua
Eu descanso meu desespero no teu colo fecundo
E os teus olhos tão tristes?

Quem?
Quem dentre eles saberá dos teus sonhos?
Quem?

Fazê-la sorrir vale uma existência.
Saiba só que não estás sozinha
Fortaleza da minha agonia
Eu também descasco mistérios
E sonho com fantasmas árabes e adagas que mutilam.

terça-feira, 17 de março de 2009

...

Machuca como chuva numa tarde de domingo
O avesso do sim ainda dorme no teu paladar
E nós conversamos:
Dois fantasmas molhados num terreno baldio
Digo adeus aos sonhos de glória
Você se confraterniza com novos falos
Digo adeus aos sonhos de grandeza
Você constrói um mundo de metal
Digo adeus ao que fosse vermelho
Você cose bandeiras da juventude
E eu envelheci cinqüenta anos em cinco
A velhice não é para delicados
É preciso aprender a viver sem sonhos
Os afetos escorrem pelo ralo no final
Aqui onde as histórias terminam
Mora um vazio, um escuro, uma ausência
Um não sei que de triste, de aço, de frio
Construo conchas de estanho e desprezo as pérolas
O tempo cria covas nas minhas mãos e no meu destino
A incompreensão é uma aranha que tece e tece
E nós nunca nos entenderemos
Estamos todos sozinhos
Amor é nada
O egoísmo é a espada que decepa
Estamos todos sozinhos
Chove sempre
E a chuva afoga os anciãos
Estamos todos sozinhos.

terça-feira, 10 de março de 2009

fora por uns dias

Pessoal, o computador de casa deu pau geral. E no trabalho tem sido difícil acessar a net e cuidar blog e etc. De modo que ficarei fora por uns dias. Mas, assim que as coisas voltarem ao normal, colocarei em dia a leitura de todas as postagens. E voltarei com os meus textos.
Espero que tudo se resolva rápido.
Abraços,
Vcs são mais que amigos, são meus críticos, parceiros e confidentes.
Ronaldo a canção que vc falou do raul é metrô linha 743, né?
Adriana, estou enrolado, mas assim que tiver um tempinho mando o livro. I promisse.

Daniel

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

SIM, TODO AMOR É SAGRADO

Quando nos encontramos pela primeira vez, eu não estava vivendo bons tempos. Tinha acabado de passar por um processo de separação dos mais difíceis e olha que eu só tinha dezenove anos. Não que eu seja muito mais velho agora, isso faz uns dois anos, mas naquela época eu era muito mais inconseqüente. Foi assim: eu estava embriagado, dor de corno se é que me entendem, dentro de um táxi e ela, num semáforo, sem mais nem menos abriu a porta do carro correndo e entrou. Não que ela fosse linda, não era, mas feia também não era, ela era diferente e tinha uns olhos que mudavam de cor. Dependendo de como a gente olhava pra eles, os olhos ficavam verdes, azuis, castanhos e até pretos. Como seu nariz estivesse sangrando, eu arranquei a camiseta e entreguei pra que ela estancasse o líquido que brotava em jorros.

- Filho da puta. – Era tudo o que ela dizia e redizia.

Do meu lado, foi amor à primeira vista. Sou um cara muito impressionável. Todo mundo diz. Tenho a mania de ver magia nos seres e nas coisas. Tenho a mania de ficar procurando poesia em pessoas que muitas vezes são ocas, ou que, como ela mesma repetia, naquela noite, são umas verdadeiras filhas da puta. Sei lá eu o que é isso. Vício de sofrer, ou parcialidade talvez. Sei que, mesmo amando daquele jeito, fiquei com o pé atrás comigo mesmo. Nunca fui veado nem nada, de qualquer forma, estava mesmo cansado de tomar no cu. Chega uma hora em que a gente tem de pôr os pingos nos is e parar de fantasiar. Mas ela me disse que ele batia nela o tempo todo e que era um cara muito rico e poderoso. Eu nunca quis bater em ninguém e nem nuca fui rico ou poderoso. Também nunca quis nada dessas coisas, o que eu procurava mesmo era a paz. Todo mundo se fode na vida, todo mundo se despedaça de vez em quando, contudo eu me dava mal o tempo todo. Uma vez, eu contei minha história a um carroceiro, desses que pegam lixo reciclável, e até o burro chorou. Sem brincadeira, pra vocês verem como a coisa andava feia pro meu lado. Não cheguei a perguntar por que ela não largava o tal poderoso, tava na cara. O dinheiro impressiona as pessoas e faz dos homens seres confiantes e fortes. A maioria das mulheres gosta disso. Vai entender as mulheres.

No fim, fomos parar no apartamento dela e fizemos amor, mesmo sem sexo ou qualquer coisa assim. Ficamos nus e nos masturbamos mutuamente. De masturbação eu sempre entendi bastante. Acho que ela gostou, porque, daquele dia em diante, passamos a nos ver com alguma freqüência e, depois, essa alguma freqüência tornou-se um sempre.

*********************************************************************************

- Você consegue sentir a dor? Algumas feridas não cicatrizam nunca. – Ela me diz, enquanto eu acaricio seu rosto inchado. Porra... algumas coisas são intoleráveis. Palavra.
- Por que porra você não manda de uma vez esse cara à merda? Você não precisa dele. A gente pode ter uma vida diferente juntos. Mesmo sem muita grana nem nada. A gente podia visitar uns museus. Assistir uma peça, ou ir ao cinema de vez em quando. Isso não te faria bem? Não te deixaria feliz?
- Talvez fizesse, mas é que eu amo esse cara. Queria sentir por você o que sinto por ele. Caralho... vocês não podem imaginar como dói ouvir uma coisa dessas assim... na lata. É mesmo coisa de fazer o camarada perder de vez as esperanças.
- Você o ama, mas ele te arrebenta as fuças o tempo todo!
- Sei que ele pode ser um pouco bruto, mas é a forma dele me dar amor. Ele teve muitos problemas na infância, é um cara confuso.
- E quem é que não teve problemas na infância. A minha mesmo foi uma merda. Nem por isso fico por aí arrebentando a cara dos outros. Ele é um filho da puta mesmo, isso sim.
- Talvez eu também seja culpada.
- Claro que é. Isso não se discute, mas você sabe que esse tipo de coisa não te faz bem. Que não vai te levar a lugar algum.
- Quando ele me bate, eu me sinto viva. – Ela diz e então acende um cigarro. Com essas últimas palavras, até eu fiquei com vontade de acabar de arrebentar a cara dela, pra ela deixar de ser idiota. Entretanto, tudo o que fiz foi dar um beijo no rosto dela e atravessar a rua sem dizer adeus. Sabia que tudo estava consumado. Meu coração era uma ferida rasgada por trás das costelas. O fim de um amor, quando ainda se ama, dói como uma morte. Não é fácil enterrar um filho, ou uma mãe, ou um parente próximo. Não é fácil enterrar um amor vivo. É como colocar um ente querido no caixão e joga-lo pra dentro da terra enquanto ele ainda respira. Talvez eu tenha olhado uma, ou duas vezes para trás. Ela estava olhando pra mim. Não sei se ela percebeu que eu não voltaria mais. Nunca mais. Ao todo ficamos juntos sete meses. Sei que pode parecer pouco, mas sinto que vou levá-la dentro de mim pra sempre. Caras sonhadores, como eu, apaixonam-se fácil, não há diferença entre nós e um cachorro vira-latas. Basta um elogio, uma carícia e já estamos conquistados pra sempre. É mesmo de dar nojo.

********************************************************************************

Agora dirijo meu opala velho, para fugir dela, nessa estrada que leva sempre ao Norte. Não há nada além da poeira e do caminho. É estranho, mas não trafegam outros automóveis. Não existem postos de gasolina. Não há hotéis, ou coisa que o valha. A memória é um pântano e uma desgraça. Não consigo me esquecer dela. Tudo é motivo pra lembranças. Faz calor. O Sol frita meu cérebro, meu carro velho e meu corpo. A gasolina está quase no fim e eu faria qualquer coisa por um banho e uma cerveja bem gelada. E aquele filho da puta continuaria a espancá-la e ela continuaria a amá-lo. Se eu tivesse tendências, depois dessa, teria me tornado um serial killer. É sério. O inferno é que sou mesmo um covarde e que o suor escorre o tempo todo pelo meu rosto. Calor. Calor cremoso e sufocante, daqueles que deixa trêmula a estrada inteira. Até o asfalto parece que vai derreter. Nos filmes americanos chamam isso de deserto. Por aqui o calor tem o nome de Sertão e eu não passo de um cara triste do sul.

- Nem o inferno pode ser tão quente! – Digo e neste exato instante, como se fosse uma resposta divina, avisto a igrejinha velha quase que em ruínas. - Senhor tende piedade dos fracos, dos sensíveis e dos que perderam as esperanças. Obrigado Deus! Eu sou um deles.

Desço do carro, estico os músculos e entro na igreja. Por dentro, a coisa não tem muito que ver com uma igreja. Há luzes vermelhas que piscam anunciando: IRENE´S BOITE, um imenso balcão, bebidas, algumas mesas, moscas e um rádio que toca uma canção brega qualquer. Calipso, talvez, não sei ao certo. Atrás do balcão e ao lado das bebidas, existe uma porta enfeitada com uma cortina de pérolas vermelhas. Como não há ninguém, eu finjo tossir um pouco pra ver se surge alguém que me atenda, todavia não aparece viva alma. É então que eu reparo no pequeno sino, encostado num canto. Pego-o e chacoalho-o. Não demora muito e uma mulher morena, de cabelos lisos, na altura dos ombros, baixa, de nariz grande, lábios salientes e sorriso lindo surge por detrás da cortina.
- Boa tarde, senhor. O que deseja? - Ela me pergunta esticando ainda mais o sorriso.
- Eu gostaria de tomar um bom banho, beber alguma coisa gelada e depois comer algo bem leve.
- Acho que posso ajudá-lo. – Ela diz ainda sorrindo e colocando um cd da Ivete Sangalo pra tocar. – Pode me seguir. - Continua em seguida, enquanto abre uma portinha na lateral do balcão.

Eu a sigo feliz da vida até um banheiro onde há uma imensa banheira branca e antiga. Ela, delicadamente, retira minhas roupas, sem jamais deixar cair seu sorriso baiano do rosto. Passa a mão na minha própria face, enquanto a banheira enche, e fica me olhando como se me conhecesse há muito, quem sabe até desde outras encarnações.

- Eu te esperei tanto tempo! – Diz e em seguida me coloca dentro da banheira e sai pra logo depois voltar com um belo cálice de vinho nas mãos. Entrega-me o vinho. Eu noto que em seu braço moreno existem pequenas cicatrizes brancas.
- Você consegue sentir a dor? Algumas feridas não cicatrizam nunca. – Eu digo.
- Eu sinto a dor o tempo todo. – Ela responde e sai outra vez. Eu, por meu lado, vou bebericando o vinho e curtindo a água quente, sentindo meu corpo, aos poucos, ficar completamente relaxado, como se não me pertencesse mais. Tudo me agrada e eu quase sorrio. O sono vem leve e pesado feito um som do Led Zeppelin. A última coisa que percebo é a luz vermelha piscando no teto e ainda repito por umas três ou quatro vezes a palavra: AMOR. Pelos meus ouvidos ecoa a voz de Luciano Pavaroti. Ela deve ter posto alguma coisa no vinho.

********************************************************************************
É com dificuldade que consigo abrir os olhos e ver a luz forte e branca brilhando sobre o meu rosto. Tento me levantar, mas percebo que estou fortemente amarrado sobre a cama que não é uma cama, mas uma mesa de operações. Passeio a vista pelo cômodo branco e percebo nas paredes cabeças de homens empalhadas como se fossem cabeças de alces. Há homens de todas as idades. Diante de meus pés o corpo inteiro de um jovem negro e forte permanece em pose de ataque. Seus olhos são desesperadores. Ao meu lado, é um senhor moreno e barrigudo que está empalhado da cintura pra cima, na base que sustenta esse corpo está escrito em letras douradas: Vincent. Tento outra vez escapar, mas não há maneira. Estou fortemente amarrado.

A mulher volta cantarolando uma antiga canção do grupo só pra contrariar. Mesmo na minha situação consigo distinguir a música. Além de tudo, ela tem um péssimo gosto musical. Traz nas mãos facas, adagas e punhais. “Tomei no cu direitinho dessa vez!”. Eu penso e sorrio, não há mais o que fazer.

- Por que isso, hein? – Eu pergunto.
- É pelo filho que não tivemos e pela vida que não levamos. – Ela responde.
- Mas, você nem me conhece. – Retruco.
- Conheço sim. Você é Daniel, ou não é?

Já não pergunto mais nada. Eu me chamo efetivamente Daniel.

- Não se preocupe. Não vai doer nada. Logo a anestesia fará efeito e você irá dormir profundamente. – Ela diz.

Eu ainda tento balbuciar alguma palavra, mas minha língua não obedece mais ao meu cérebro. Sinto apenas cócegas na barriga, depois a ouço gritar alto.

- Belinha! Belinha!

Surge uma cachorrinha latindo e minhas tripas são jogadas ao chão para servir de alimento. Um belo jantar. Não sinto mais nada direito, mas minha mente continua funcionando. O sono está a caminho, posso sentir, o sono derradeiro. Antes de fechar de vez os olhos, ainda vejo-a se aproximar, beijar minha boca e dizer baixinho, como se fosse uma forma de consolo.

- Eu te amo.
Sei que é verdade, mas também sei que serei só mais uma peça, uma de suas obras de arte entre tantas outras. Por mais estranho que possa parecer, estou feliz em morrer assim e em me tornar isso. Do meu corpo dilacerado vejo decolarem entrelaçados anjos e demônios. Não tenho mais forças, mas mantenho meu sorriso. Ela também mantém o seu.

E eu que pensei que o alcoolismo fosse um problema.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Tão longa estrada

Por que você não me deixou de uma vez caído?
Por que você foi tão boa pra mim?
Por que o teu café me faz tão bem?
Tão longa estrada, a nossa...
Tão cheia de obstáculos...
Estrelas famintas se lambuzam no teu brilho
Pena eu não ter sido prudente o suficiente
Espinhos te fodem o útero
Meus mil demônios fanáticos no teu rabo
Fazem do teu grito meu orgasmo
Quero arrancar teus olhos
Beber teu rio
Devorar teus mamilos
Rasgar em dez milhões de pedaços tua alma azul clara
Te fazer chorar de farra
Só pra ser consolo
Afogue-me no teu ódio
Esfole-me o sexo agora
Teu desespero me excita
Faz do meu pau um pau de aço
Obsceno psicopata sem coragem de matar
Eu me escondo em você, porque o mundo não me quer
E por mais que tenha medo
Quero estar de frente
E encarar contigo os pesadelos.