quarta-feira, 16 de março de 2011

A última revolta de Jesus Cristo

Baseado numa história que tudo indica ser real.
Doía, muito doía, e não havia nada que pudesse fazer para estancar o sangue, que escorria. A impotência doía. Doía e não enxergavam, não viam – ou não queriam ver? Doía e não era dor pouca, pois em todos os momentos se vira sozinho, todos desapareciam, sua única companhia era o desgosto, era. As aves no céu voavam indiferentes. E doía. Agora percebia enfim que doía, e não só percebia como sentia agora todas as dores passadas, agora. A solidão. A ausência machucava, doía. A ferida aberta, e os vermes vindouros. As mãos doíam, e muito. As pernas doíam, e muito. O tronco doía, muito. A flechada, os cuspes, a coroa, os espinhos – tudo doía. Os sarcasmos feriam, e doía. Os risos. Os socos tão-somente nesse instante sentia, e doíam, como socos dados em vão, porque em vão foram. Apenas serviram para aumentar a dor. A hostilidade. Valeria o sacrifício, valeria? O sol quente. O céu claro. A vontade de urinar doía. Os rins doíam, sobretudo. O suor que sujo escorria. O sal. O fel. O mau hálito. As lembranças também doíam. Herodes (Jesus ainda bebê) mandara matar todas as crianças abaixo de dois anos. As mentiras inventadas, a hipocrisia. Herodes não queria adorá-lo, não queria. E o Pai, sabia? Fora cúmplice? Não fora tudo profetizado, não estava escrito? Doía. A crueldade de Arquelau. Os avisos de Deus. As interferências. As tentações de Satanás – tudo premeditado. Doía. Sua história não fora escrita por Si mesmo? A morte de João feria e fazia doer. A cabeça ensanguentada de João. Sangue. Os demônios. A lepra. Os fariseus, que tramaram sua morte. Hipocrisia. Ai de Jerusalém! Doía, porque davam dízimo, conheciam as Escrituras, jejuavam, oravam, mas não viviam segundo a justiça e a fé. Muito. Doía. Os judeus hostis. As enganações doíam, e muito. Todas as dores possíveis nele se convergiam. O tremor. A ira. O ódio. A vingança. As mortes dos que não estavam na Arca de Noé. Doía a piedade e o consequente remorso que sentia, agora, só agora, pelos não privilegiados do Pai. As crianças afogadas nas águas do dilúvio. As crianças se debatendo contra as águas salgadas. Seriam salgadas, seriam? A compaixão que nutria, agora, e só agora, por Caim. O sofrimento de Jó era ele, Jesus, que sentia e doía, doía mais do que doeu em Jó. O gosto da fruta (amarga) que Adão comeu doía o estômago. A liberdade, a esperança perdidas, o paraíso, a felicidade perdidos – doíam, e era uma dor que feria. O pranto sobre a cidade condenada. A figueira estéril. As profecias doíam. A ambição dos homens. A agonia passada. E, após todo o sofrimento, a sentença. Meu Pai. Este suor que escorre e se mistura ao sangue, estas lágrimas que escorrem e se misturam ao sangue, esta saliva que escorre e se mistura ao sangue, estes cuspes que escorrem e se misturam ao sangue. As feridas. Os raios do sol nos olhos ardem, doem. Ver a mãe chorando e nada poder fazer dói. Ver os irmãos chorando e nada poder fazer dói. Ver os amigos, sobretudo os falsos, e nada poder fazer dói. Ver os inimigos zombando e nada poder fazer dói. E o Pai, sabia? Fora cúmplice? Não fora tudo profetizado, não estava escrito? Doía. Zombaria. Zombarias? Este peso nas costas dói. O fardo pesado. Os pecados de todos. Os erros. Os desvios de conduta. Os assassinatos. As vinganças. Os adultérios. As ingratidões. Doía. As feridas. As traições. As armadilhas e provações. O fardo. Os tapas no rosto. Os socos. Esta barba espessa e suja. Essa feiúra. Esta ausência. Trinta e três anos de falta doem. Trinta e três anos de mentiras e maldades doem. As marcas das correntes nos pulsos doem. Este zunido intenso nos ouvidos. Os zunidos, conseqüência dos gritos nos ouvidos, doem. Esse riso cínico dói, e muito, demais. As marcas profundas nas costas doem. As pernas cansadas, em conseqüência do longo trajeto com esta cruz pesada nos ombros, doem. E os tombos. Meu Deus, afaste este cálice de mim. Afaste a onisciência de mim, afaste essa capacidade de imaginar o futuro de mim. Afaste a lucidez de mim. Afaste este choro amargo de mim. Afaste de mim este soluço convulso que ninguém vê. Pai, por que não disseste antes que minha morte não era para todos? Pai, por que me enganaste? Pai, que culpa têm os que não reconheceram nem reconhecerão como verdade o que eu preguei? Pai, Tu me fizeste profetizar a traição de Judas. Pai, por que me fizeste antever que Pedro me negaria? Se tudo continuar assim, entre ódios privilégios injustiças rancores pesares mortes gratuitas, sobretudo por causa dos seres à imagem e semelhança de Ti, ó Pai, renego a condição de Salvador. Se for para eu ter remorsos eternos, renego, ó Pai. Pai, por que lhes perdoar o que fazem se eles sabem exatamente o que fazem e mesmo assim continuam fazendo? Essas zombarias. Se tu és o rei dos judeus… Não és tu o Cristo? …mas este nenhum mal fez. Mulher, eis aqui o teu filho. Sim, filho, e eis aqui tua mãe, chorando. Dor. Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste também desamparo a Ti e aos teus. Vede, chama por Elias. Tenho sede… Rãnnn. Este gosto acre. Ha-ha-ha. Sei, Pai, que sempre fizeste todas as coisas para os Teus próprios fins, e até o ímpio para o dia do mal. Sei, Pai, que tudo acontece para que as Escrituras se cumpram. Mas, Pai, que não seja feita mais a Tua vontade. Apenas por um segundo quero ter vontade, por um segundo apenas.
E (talvez porque ainda doía) com a pouquíssima força que restara enfim murmurou:
__ Pelos camelos…
Deus, perplexo, com toda autoridade possível:
__ QUÊ?! – esbravejou.
__ Pelos camelos… came… eu… eu vou… morrer… pelos camelos… – fechou os olhos e expirou.
Não escurecera. Nem escureceria.

terça-feira, 15 de março de 2011

Dimas Macedo e o doce lar das letras (Nilto Maciel)

(UMA CRÔNICA DE NILTO MACIEL)


Minhas amizades com escritores cearenses se iniciaram em três etapas: até meados de 1977 (quando me retirei para Brasília); deste tempo até setembro de 2002 (período em que vivi na Capital Federal); e o depois disto. A primeira começou pouco antes do surgimento da revista O Saco: Airton Monte, Batista de Lima, Carlos Emílio, Gilmar de Carvalho, Jackson Sampaio, Oswald Barroso, Paulo Veras, Renato Saldanha, Rosemberg Cariry, Yehudi Bezerra e outros. Na segunda, sobretudo quando a Fortaleza vinha de férias, me aproximei mais de Adriano Espínola, Floriano Martins, Carlos Augusto Viana, Luciano Maia, Márcio Catunda, Nirton Venâncio e Rogaciano Leite Filho, participantes do grupo Siriará. A seguir, conheci Dimas Macedo. Não me lembro da apresentação, quem a fez, onde e quando. Pode ter sido numa das noitadas no Estoril. Não sei, pois bebíamos além do que sorviam os idólatras de Baco e, assim, quase todo o meu viver de então o arrastou o vórtice do olvido ou se afundou nas reentrâncias da memória.


Sei, porém, que é de 1980 a divulgação de seu primeiro conjunto de poemas – A distância de todas as coisas –, que me ofereceu e li, com deleite, quer à primeira refeição, quer a desoras, vésperas de calar a boca. E escrevi um artigo, publicado em jornais: “Poemas das Lavras de um poeta”. A seguir, em 1986, compôs o prefácio, intitulado “Contos picarescos e alegóricos”, para minha terceira coleção de contos: Punhalzinho cravado de ódio. Não sei se lhe pedi (devo ter pedido) tão grande favor. Se pleiteei, o fiz por ver nele não apenas o poeta, mas o crítico. Eu havia lido Leitura e conjuntura, de 1984, seu primeiro volume de artigos de análise literária. Estávamos amigos e enamorados, eu de sua poesia e seu modo de ver a Literatura, e ele, certamente, de minha prosa de ficção. Passamos a nos corresponder. Cartas longas e curtas, sempre cheias de notícias e comentários de livros. Veio, então, o tempo da revista Literatura. 1992. Convidei-o, desde a primeira hora, para fazer parte do conselho editorial e colaborar com artigos e poemas.

Dimas esteve duas vezes em minha residência de Brasília. Conversamos muito, ele a me pedir informações dos escritores de lá, a me falar dos de cá (sempre com elogios aos mais velhos, assim como aos novos) e de Fortaleza, cidade muito amada dele. Quando a nossa capital visitava, ele me conduzia, de carro, aos mais requintados bares e restaurantes, me apresentava a personalidades da política e das artes, a mulheres elegantes, a noviços das letras, como se eu fosse um príncipe exilado: Fulano, este é Nilto Maciel, o mais... Já ouvi falarem do senhor. Sim, mas não o conhecia de perto. Sempre solícito, sempre bem humorado, sempre muito educado. E sempre sabedor de tudo: de obras a serem publicadas, da biografia quer dos antepassados, quer dos contemporâneos, do folclore que forja a aura de muitos, das dificuldades financeiras deste, da opulência daquele.

Em Brasília, todos o sabiam de nome e de livros. Nem precisava apresentá-lo. Então este é Dimas Macedo? Não o imaginava tão jovem. Admiro demais a sua poesia, rapaz. Um dos melhores poetas do Ceará, terra de grandes escritores. E choviam elogios, que se repetiam muito depois de ele regressar às praias.

Nunca falávamos de política, futebol, mulher, religião, clima, ciência ou qualquer outro assunto que não fosse literatura. Como vai sua família? Não, isso não perguntávamos. Pois não éramos amigos. Nem o somos. Falo de amigos no sentido popular ou tradicional da palavra. Não contamos um ao outro nossos conflitos pessoais ou questões familiares, como costumam fazer os amigos. Não tratamos de confidências do tipo “apaixonei-me por fulana”. Não, isso não. Porque essas comunicações de segredos não as fazem os escritores. Não precisam disso. Elas são traduzidas em poemas, principalmente. Ou nas memórias. Somos, pois, amigos pela literatura ou nela.

Dimas exerce mais de uma atividade profissional, como quase todo escritor, e a elas se dedica com abnegação. Entretanto, se difere de seus colegas na divisão do ano. Seis meses jurista e professor, seis meses poeta e crítico. Chegado o tempo destes, abandona a cátedra, o fórum e o gabinete de procurador do Estado, e se consagra a ler e escrever, participar de lançamentos de livros, festas literárias, encontros, proferir palestras, frequentar bares, restaurantes e livrarias. E eu não sabia disso, por não viver na mesma cidade. Quando recebi carta dele, na qual comunicava seu afastamento temporário das lides literárias, tomei um susto: “Não me escreva até o final do ano, não me mande livros ou quaisquer outras publicações...” Pensei loucuras: o coitado deve ter sofrido imensa decepção. Enviei cartas a amigos para saber o motivo de tão esquisita decisão. Todos me deram a mesma explicação: Não se preocupe, Nilto. Ele é assim mesmo. Logo voltará ao nosso doce lar de ilusões. E voltava mesmo. Com o ímpeto de antes, nova reunião de poemas, novo conjunto de estudos, projetos e mais projetos.

E assim tem sido esse poeta magnífico, esse teórico de ampla visão, esse pensador de altos voos.

Fortaleza, 16 de fevereiro de 2011.

domingo, 6 de março de 2011

Don´t worry, baby

E continuamos nos debatendo
depois do fim
como um rabo
cujo lagarto deceparam

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Ao Longo do Caminho


And in the end
The love you take
Is equal to the love you make.

The Beatles

            Desci as escadas do prédio porque precisava respirar. Não suportava mais ouvir os soluços da minha mãe, no quarto dela,  e aquele cheiro de flores e mortos flutuando pela casa, deixando o ar tão denso que, se quiséssemos, poderíamos cortar a atmosfera com um punhal.
            Era mês de janeiro, um calor dos diabos. A rua não tinha aquele cheiro do nosso apartamento, mas, mesmo assim, continuava difícil de respirar lá fora por causa do calor. Havia dias que a moça do tempo anunciava uma chuva forte pro dia seguinte, mas, no dia seguinte, a chuva nunca vinha. Todas as tardes, o céu ficava carregado, com umas nuvens pretas bem feias, mas depois anoitecia e amanhecia de novo e lá estava o Sol, Amarelo e Soberano, como sempre. Eu ficava imaginando que ele, o Sol, tinha uma boca, e que quando todos se deitavam pra dormir, ele abria sua boca enorme e engolia as nuvens.
            Minha garganta estava doendo, ou porque estava ficando inflamada, (ela ficava sempre inflamada, só melhorou uns tempos depois, quando retirei as amídalas numa operação)  ou porque eu estava com aquela tremenda vontade de chorar. Tudo em mim estava pesado... tudo parecia pesar uns quinhentos quilos... os braços... as mãos... as pernas... o coração... a garganta... no entanto, eu não chorava. Só queria chegar até as escadas da igreja. Ela, a igreja, ficava em frente à praça, bem no centro da Cohab. Sabia que os outros moleques estavam todos lá. Eles sempre ficavam na rua até tarde... principalmente... quando eram as férias e fazia calor... E agora era janeiro e não chovia havia dias.
            Estavam todos sentados, mas se levantaram quando viram que era eu quem estava chegando:
            - E aí Dan? Beleza? – Disse o Lindo pegando na minha mão. Chamavam ele de Lindo não porque fosse bonito, muito pelo contrário, é que o nome dele era Lindomar. Dezessete anos, um metro e cinqüenta, o Lindo, magro, feinho, mas não perdia uma briga, era o baixinho mais ligeiro de todas as Cohabs. A fama dele corria longe.
            - Beleza, Lindo.
            - Senta aí, Dan. – Disse o Piolho, irmão mais novo do Lindo.
            Sentei.
            Eu tinha saído de casa porque não suportava mais a pressão, mas os olhos dos caras e o silêncio que aconteceu depois da minha chegada, fizeram com que eu me sentisse ainda mais pressionado.
            - Alguém tem um cigarrinho aí? – Perguntei pra quebrar um pouco o gelo.
            - Eu tenho. Pega aí. – Disse o Boião me jogando o cigarro.
            - Tem fósforos também?
            - Tenho. – E jogou a caixa de fósforos pra mim.
            Acendi o cigarro e fiquei quieto. Eles também continuaram quietos, me olhando. Queriam que eu desse logo alguma notícia. Só que eu não tava a fim de falar. Não mesmo. Acho que o Gordo percebeu.
            - Essa mina aí dá em troca de três geladinho e um sabugo de milho. – Ele falou, apontando com a cabeça uma menina que acabara de passar lá do outro lado, na praça.
            - Três geladinho e um sabugo de milho?
            - Sim senhor, três geladinho e um sabugo de milho. Aquele moleque loiro que mora lá no prédio 8 já comeu ela. Ele que me falou.
            - Ô Gordo, a menina dar por três geladinho até que eu entendo, mas que diabos ela ia fazer com o sabugo de milho? – Isso aí quem falou foi o Boião.
            - E eu é que sei. O moleque que me falou e deve ser verdade mesmo, você não viu a cara dela não? Tem uma carinha de safada não tem não?
            - Lá isso tem, Gordo, mas esse negócio de sabugo só se for pra ela enfiar no teu cu. – Disse o Lindo e nós todos rimos, até eu. Mas aí, foi como se todos se lembrassem no mesmo instante, e caiu sobre nós, ali, na frente da igreja, um silêncio ensurdecedor, como se não fossem dez ou doze meninos que estivessem ali, mas dez ou doze homens tristes e experientes.
            - E aí, como ele tá? – Interrogou por fim, o Lindo.
            - Tá indo né, Lindo, mas acho que não vai muito longe não. Quando o médico deu alta, foi só pra ele morrer em casa. Não sei se passa dessa noite. Minha mãe tá foda, não consegue sair do quarto.
            - Que bosta!
            - É, que bosta!
            Estávamos falando do meu irmão mais velho, Samuel. Uma lenda lá na Cohab até hoje. O cara que nunca tinha perdido uma luta. O líder do nosso bando, Os guerreiros. O cara que era uma referência e um orgulho pra todo mundo. O melhor jogador da zona Leste. O amor da minha mãe. O cara que trabalhara desde os onze anos, quando nosso pai foi embora, para ajudar minha mãe a sustentar a casa e a mim. O meu herói. O capoeirista que uma vez, quando estavam cavando os alicerces para construir novos prédios, e choveu, e os buracos encheram de água, e eu estava nadando pelado e apareceram três moleques que ninguém nunca tinha visto por ali e quiseram comer minha bunda, surgiu do nada e bateu nos três sozinho e salvou meu rabo. O cara que sempre tinha levado as porradas da vida por mim. O cara  que parecia imortal pra mim e que agora estava morrendo aos dezessete anos com uma doença que os médicos dos hospitais públicos não conseguiam e também nem se esforçavam pra identificar. Samuel, puta que pariu, meu irmão.
            - Vamo fumá um baseado aí. Tá calor demais. – Sugeriu o Boião.
            - Aqui não, o Padre pode aparecer. A gente tem que respeitar.
            - Lá na praça então.
            - Espera aí, Dan, que a gente já volta.
            - Espera aí é o caralho eu também vou fumá essa porra.
            - Rapaz, se teu irmão descobre! Ele nunca ia te deixar fumá.
            - Descobrir de que jeito, Lindo?
            - Tu tá certo, vamo com a gente lá na praça então.
            Fumamos. Eu dei só um pega e já fiquei muito louco, dando risada a toa. Foi bom sair um pouco de mim, até porque eu já não tava mais agüentando ser eu mesmo. Até a dor na garganta sarou.
            Voltamos pra frente da igreja e ficamos todos ali. Sentados bem perto uns dos outros, quase abraçados, pra aumentar a energia que corria entre nós, contando mentiras e dando risadas, até que começaram a falar do meu irmão e inventaram façanhas e mais façanhas para ele. Como daquela em que ele fez cinqüenta e cinco gols numa partida de dois tempos de quinze minutos, nenão Piolho? Ou da vez em que beijou dezessete meninas num único baile balck! Ou da vez em que bateu em dezoito caras sozinho, ta lembrado, Chupeta? Ou da vez em que comeu trinta e oito bananas em doze minutos.
A imagem imensa do meu irmão veio vindo na minha direção... entre os prédios... ainda era ele, Samuel, mas estava maior que todos os prédios... eles, os prédios, não batiam nem na cintura dele... veio vindo... um sorriso grande rabiscado nos lábios... cantando three litle birds, do Bob... veio vindo... uma caneta na mão... ficou bem na minha frente... sorriu ainda mais bonito e me entregou a caneta.
- Conte a nossa história. – Disse – não deixe que isso desapareça pra sempre.

***
            Acho que desmaiei. Quando acordei, estavam todos em volta de mim, dentro da igreja e o Padre com um pano encharcado em álcool na mão.
            - Tá melhor, Dan?
            - Tou bem. Que aconteceu?
            - Você passou mal. – O padre falou.
            - Deve ser o calor. – Disse o Lindo e piscou  pra mim com malícia.
            - É, acho que foi o calor. – Repeti e pisquei de volta.
            - Já é tarde. Vão embora meninos. Podem ir todos pra casa.
            - Posso ficar um pouco, Padre? – Perguntei.
            - Claro filho. Quer conversar?
            - Não Padre, eu só queria fazer uma oração, aqui, sozinho.
            - Tudo bem. – e virando-se pros outros – Vamos... vamos... todos pra casa,  já. Chispa, chispa.
            Despediram-se e foram embora contando alto grandes mentiras.
            - Tem certeza que não quer conversar?
            - Tenho Padre. Vou só fazer uma oração rapidinho e vou embora.
            - Está se sentindo bem?
            - Sim Padre, é claro. Pode ficar tranqüilo.
            - Então vou lá pros meus aposentos. Vou deixar aporta só encostada tá bom?
            - Beleza.
            O padre foi pro quarto dele que ficava nos fundos da igreja. Eu me ajoelhei diante do Cristo crucificado. Juntei as mãos e comecei: Senhor das coisas que te pedi até hoje, o Senhor nunca me deu nada. Eu pedi uma bicicleta e nunca ganhei, eu pedi que meu pai voltasse pra casa e ele nunca voltou. Eu pedi que minha mãe arranjasse algum outro emprego que não fosse de empregada doméstica, e ela continua lavando banheiros até hoje. Mas agora, Senhor, é sério. Dizem que não cai uma folha de uma árvore se o Senhor não quiser... então, Pai, eu peço a Ti que tudo pode: Um milagre. É a última coisa que vou pedir, um milagre, depois nunca mais peço nada nessa vida. E aí rezei um Pai Nosso, uma Ave Maria e fui-me embora.
            Quando cruzei a porta da igreja, houve um relâmpago imenso, acompanhado de sonoro trovão. Depois houve outro relâmpago, e mais outro, e mais outro, e ainda outro. Sem dúvida, nessa noite, a chuva ia cair. Atravessei correndo a praça, os primeiros pingos já caiam grossos. Uma mulher, na rua, com um carrinho de bebe, também começou a correr. Eu vi um opala preto virando a esquina e o barulho da sirene da polícia atrás. A cena toda aconteceu diante dos meus olhos, como se fosse em câmera lenta. Tentei gritar, mas a coisa toda aconteceu antes do grito sair da garganta. O opala  pegou o carrinho em cheio e a mulher de raspão. Eu só vi o pacotinho voando pelos ares (a mulher caiu pra trás) e indo parar bem em cima de uma moita. Só aí meu grito saiu. O opala já sumia na outra esquina. A viatura parou em frente à igreja. A mulher gritava desesperada, em choque. O policiais viram o carrinho de bebê caído, a mulher se descabelando. Eu voltei a mim e corri até a moita. Tinha medo. Não queria nem olhar. Ó Deus! Então escutei o choro de bebê bem alto. Peguei o pacotinho nas minhas mãos. Tirei a fralda rosa pra olhar. O rosto negro com olhos verdes olhava assustado pra mim e berrava... berrava... berrava... Levantei a menina, que mexia as perninhas, na altura da minha cabeça...
            - Ela está bem!!! – Gritei.
            Os policiais e a mãe correram pra mim. Entreguei a menina à mulher. O padre abriu a porta da igreja e gritou:
            - Gente, o que está acontecendo aí?
            A tempestade despencou violenta.
            Eu?
            Eu cai de joelhos e chorei, por fim. Ali, embaixo dos pingos grossos que chegavam a doer quando batiam na pele da gente.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

sábado, 11 de dezembro de 2010

BENEDITA

Se pudesse entender, não escreveria. Estava cansado, um bocado cansado mesmo, embora contente. Contente porque depois de três meses eu poderia me encontrar outra vez com Benedita, que é boa e eu amo. Contente por poder ficar longe de toda aquela correria do banco, daquele dinheiro todo, daqueles clientes todos, de todas aquelas gravatas coloridas e daqueles ternos bem e mal talhados. Estava feliz porque Benedita escrevia poesia e me esperava e era sexta-feira e o trem... o trem estava por vir, e me levar pro oeste, onde ela, Benedita, me esperava, usando seu vestido vermelho com elefantes indianos desenhados e a bíblia aberta sobre o criado-mudo.

Certo é que ainda sobrava tempo pra tomar um café e fumar um cigarro olhando os gêmeos colombianos tocarem suas flautas de bambu enquanto o trem não vinha. Enfim era tempo de sorrir, eu estava sem calor, de banho recém tomado, imaginando Benedita nua com seus olhos brilhando no meio do rosto alegre, o corpo deixando o vestido sair, as mãos prontas pra serem minhas. E pensar que em breve eu seria senhor de tudo aquilo! E pensar que em breve eu não estaria mais na estação vermelha esperando o trem, em breve São Paulo e suas neuroses seriam passado e eu beberia algumas cervejas bem geladas depois do amor.
Eram sete e trinta e sete da noite, quando olhei no relógio da estação e decidi que era hora de abandonar o café e embarcar. Por farra resolvi pular a catraca, justamente na frente do guarda pra ver qual seria sua reação. Embora eu pulasse devagar, ele, o guarda, não esboçou qualquer reação. Fez como se não me tivesse visto. Melhor pra mim que poderia guardar o dinheiro pra mais tarde.

O trem não demorou a encostar. Estranhei-o, porque era extremamente velho. Como é que uma coisa naquela situação poderia suportar atravessar o estado? De qualquer maneira eles, os chefes da estrada de ferro, deveriam saber o que estavam fazendo. Não colocariam pro serviço um veículo que não poderia fazê-lo.

Assim que as portas se abriram eu entrei. Já havia algumas pessoas, poucas, dentro do vagão. Achei que eram, principalmente por suas aparências, foragidas de algum circo. Havia um palhaço sentado no banco em frente ao meu que fazia crochê com lã vermelha, não consegui distinguir o que ele tecia. Um pouco mais adiante, sentados no mesmo banco, conversavam uma mulher barbada e um homem de terno negro e cartola, que eu deduzi ser o mago. No banco atrás do meu, dormia um senhor de uns noventa anos com roupa de trapezista.

Sentei. Sorri. E decidi que era hora de tomar o meu comprimido azul.

Lá fora a noite aumentava cada vez mais. E, aos poucos, uma névoa clara quase como nuvem envolvia o trem. Senti meu corpo amolecer. Estava relaxado da cabeça à ponta dos pés. O mágico acendeu seu cachimbo. Tinha um cheiro bom a fumaça que o cachimbo dele, do mágico, emitia.
O trem ganhou velocidade. Avançava na noite feito um tigre. Não sei se adormeci, ou se ainda estava acordado. Talvez fosse sonho, talvez meus olhos estivessem realmente vendo aquele rio lindo correndo ao lado dos trilhos, cercado de girassóis azuis, e no qual os peixes eram todos de cores exóticas. Ao longe havia montanhas em cujos cumes um fogo intenso crepitava. Foi estranho que nem eu, nem ninguém no trem tivemos a menor reação, quando aquela cruz enorme surgiu entre as montanhas, tingindo tudo ao seu redor de fogo, feito o sol quando se põe. Mais estranho ainda foi ver aquele pano roxo enorme descer sobre a cruz, encobrindo tudo, inclusive as montanhas... Talvez eu estivesse mesmo sonhando.

Sei que quando dei por mim novamente os alto-falantes do trem anunciavam que dentro de dez minutos chegaríamos à estação onde eu deveria descer. Notei que os outros passageiros não estavam mais no trem. Fiquei feliz ao pensar que em vinte minutos, no máximo, eu teria Benedita só pra mim.

Assim que o trem parou, pulei com minha mochila, entretanto estranhei a estação, não parecia ser mais a mesma. O mofo havia tomado conta de todas as paredes, que em muitos lugares estava destruída ou deixava os tijolos à mostra. Havia um cheiro azedo no ar. Pensei em tomar um café, uma cerveja, ou qualquer coisa assim, mas o telhado da estação, onde ficava o bar, havia desabado. Saí para a rua e a cidade inteira não estava em melhor estado. Era absurdo que as coisas tivessem mudado tanto em apenas três meses. O cheiro de carne podre empesteava o ar.

Nas ruas não havia mais asfalto, apenas buracos, buracos enormes. Resolvi caminhar. Viva alma não encontrei em toda a cidade, apenas aranhas, teias de aranhas e o zumbir das moscas, alimento. Pelo menos as ruas ainda existiam, embora as casas estivessem destruídas e as pessoas estivessem longe, invisíveis.

Dobrei uma esquina, depois a outra, segui em frente...

Então, mesmo com medo de olhar, avistei a casa. Como a estação e todo o resto da cidade, não era mais que um emaranhado de ruínas, a casa. Continuei ... A porta estava escancarada. Em algumas partes da parede os tijolos também apareciam, porque o reboco havia caído. Onde os tijolos ainda não apareciam, o mofo cobria tudo. Um mofo negro, áspero.

Entrei devagar, sentindo o assoalho velho ranger sob meus pés. Ouvi vozes baixas que vinham do quarto onde Benedita dormia. Fui até lá. Meu coração disparou. A porta do quarto estava fechada. Pensei em bater, mas desisti e acabei entrando de uma vez.

Havia uma velhinha deitada na cama, segurando na mão de uma menina de uns doze anos. Conversavam. Não pude entender o que diziam. Aproximei-me da cama. A menina não se moveu um milímetro sequer. A velhinha, entretanto, virou-se pra mim e sorriu. Apesar de velho, era um rosto bonito o dela, e os olhos azuis, embora acinzentados pelo tempo, ainda brilhavam. Eu conhecia aqueles olhos. Ela disse meu nome calma, como se me conhecesse de longa data. Percebi pelos olhos, o sorriso, a voz que aquela senhora ali, deitada, de alguma forma, era Benedita, a minha Benedita. Havia uma cadeira encostada na parede. Tudo o que pude fazer foi me sentar e segurar a outra mão dela.