segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

sábado, 11 de dezembro de 2010

BENEDITA

Se pudesse entender, não escreveria. Estava cansado, um bocado cansado mesmo, embora contente. Contente porque depois de três meses eu poderia me encontrar outra vez com Benedita, que é boa e eu amo. Contente por poder ficar longe de toda aquela correria do banco, daquele dinheiro todo, daqueles clientes todos, de todas aquelas gravatas coloridas e daqueles ternos bem e mal talhados. Estava feliz porque Benedita escrevia poesia e me esperava e era sexta-feira e o trem... o trem estava por vir, e me levar pro oeste, onde ela, Benedita, me esperava, usando seu vestido vermelho com elefantes indianos desenhados e a bíblia aberta sobre o criado-mudo.

Certo é que ainda sobrava tempo pra tomar um café e fumar um cigarro olhando os gêmeos colombianos tocarem suas flautas de bambu enquanto o trem não vinha. Enfim era tempo de sorrir, eu estava sem calor, de banho recém tomado, imaginando Benedita nua com seus olhos brilhando no meio do rosto alegre, o corpo deixando o vestido sair, as mãos prontas pra serem minhas. E pensar que em breve eu seria senhor de tudo aquilo! E pensar que em breve eu não estaria mais na estação vermelha esperando o trem, em breve São Paulo e suas neuroses seriam passado e eu beberia algumas cervejas bem geladas depois do amor.
Eram sete e trinta e sete da noite, quando olhei no relógio da estação e decidi que era hora de abandonar o café e embarcar. Por farra resolvi pular a catraca, justamente na frente do guarda pra ver qual seria sua reação. Embora eu pulasse devagar, ele, o guarda, não esboçou qualquer reação. Fez como se não me tivesse visto. Melhor pra mim que poderia guardar o dinheiro pra mais tarde.

O trem não demorou a encostar. Estranhei-o, porque era extremamente velho. Como é que uma coisa naquela situação poderia suportar atravessar o estado? De qualquer maneira eles, os chefes da estrada de ferro, deveriam saber o que estavam fazendo. Não colocariam pro serviço um veículo que não poderia fazê-lo.

Assim que as portas se abriram eu entrei. Já havia algumas pessoas, poucas, dentro do vagão. Achei que eram, principalmente por suas aparências, foragidas de algum circo. Havia um palhaço sentado no banco em frente ao meu que fazia crochê com lã vermelha, não consegui distinguir o que ele tecia. Um pouco mais adiante, sentados no mesmo banco, conversavam uma mulher barbada e um homem de terno negro e cartola, que eu deduzi ser o mago. No banco atrás do meu, dormia um senhor de uns noventa anos com roupa de trapezista.

Sentei. Sorri. E decidi que era hora de tomar o meu comprimido azul.

Lá fora a noite aumentava cada vez mais. E, aos poucos, uma névoa clara quase como nuvem envolvia o trem. Senti meu corpo amolecer. Estava relaxado da cabeça à ponta dos pés. O mágico acendeu seu cachimbo. Tinha um cheiro bom a fumaça que o cachimbo dele, do mágico, emitia.
O trem ganhou velocidade. Avançava na noite feito um tigre. Não sei se adormeci, ou se ainda estava acordado. Talvez fosse sonho, talvez meus olhos estivessem realmente vendo aquele rio lindo correndo ao lado dos trilhos, cercado de girassóis azuis, e no qual os peixes eram todos de cores exóticas. Ao longe havia montanhas em cujos cumes um fogo intenso crepitava. Foi estranho que nem eu, nem ninguém no trem tivemos a menor reação, quando aquela cruz enorme surgiu entre as montanhas, tingindo tudo ao seu redor de fogo, feito o sol quando se põe. Mais estranho ainda foi ver aquele pano roxo enorme descer sobre a cruz, encobrindo tudo, inclusive as montanhas... Talvez eu estivesse mesmo sonhando.

Sei que quando dei por mim novamente os alto-falantes do trem anunciavam que dentro de dez minutos chegaríamos à estação onde eu deveria descer. Notei que os outros passageiros não estavam mais no trem. Fiquei feliz ao pensar que em vinte minutos, no máximo, eu teria Benedita só pra mim.

Assim que o trem parou, pulei com minha mochila, entretanto estranhei a estação, não parecia ser mais a mesma. O mofo havia tomado conta de todas as paredes, que em muitos lugares estava destruída ou deixava os tijolos à mostra. Havia um cheiro azedo no ar. Pensei em tomar um café, uma cerveja, ou qualquer coisa assim, mas o telhado da estação, onde ficava o bar, havia desabado. Saí para a rua e a cidade inteira não estava em melhor estado. Era absurdo que as coisas tivessem mudado tanto em apenas três meses. O cheiro de carne podre empesteava o ar.

Nas ruas não havia mais asfalto, apenas buracos, buracos enormes. Resolvi caminhar. Viva alma não encontrei em toda a cidade, apenas aranhas, teias de aranhas e o zumbir das moscas, alimento. Pelo menos as ruas ainda existiam, embora as casas estivessem destruídas e as pessoas estivessem longe, invisíveis.

Dobrei uma esquina, depois a outra, segui em frente...

Então, mesmo com medo de olhar, avistei a casa. Como a estação e todo o resto da cidade, não era mais que um emaranhado de ruínas, a casa. Continuei ... A porta estava escancarada. Em algumas partes da parede os tijolos também apareciam, porque o reboco havia caído. Onde os tijolos ainda não apareciam, o mofo cobria tudo. Um mofo negro, áspero.

Entrei devagar, sentindo o assoalho velho ranger sob meus pés. Ouvi vozes baixas que vinham do quarto onde Benedita dormia. Fui até lá. Meu coração disparou. A porta do quarto estava fechada. Pensei em bater, mas desisti e acabei entrando de uma vez.

Havia uma velhinha deitada na cama, segurando na mão de uma menina de uns doze anos. Conversavam. Não pude entender o que diziam. Aproximei-me da cama. A menina não se moveu um milímetro sequer. A velhinha, entretanto, virou-se pra mim e sorriu. Apesar de velho, era um rosto bonito o dela, e os olhos azuis, embora acinzentados pelo tempo, ainda brilhavam. Eu conhecia aqueles olhos. Ela disse meu nome calma, como se me conhecesse de longa data. Percebi pelos olhos, o sorriso, a voz que aquela senhora ali, deitada, de alguma forma, era Benedita, a minha Benedita. Havia uma cadeira encostada na parede. Tudo o que pude fazer foi me sentar e segurar a outra mão dela.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

NOVO LIVRO DE MÁRCIO ALMEIDA



Márcio Almeida lança
A minificção do Brasil:
 em defesa dos frascos & dos comprimidos
livro raro na crítica do país sobre o gênero do futuro

            Com uma variedade de nomes – miniconto, conto breve, microrrelato, minitexto, relato microscópico, mininarrativa, ficção minimalista, nanonarrativa, escritura fragmentária, conto fractal, entre muitos outros, a minificção é, hoje, segundo Lauro Zavala, um de seus mais importantes especialistas, “o gênero mais didático, lúdico, irônico e fronteiriço da literatura”, porque “incita os leitores  a tornarem-se viciados em literatura.” Criado pelo mineiro Elias José, no início da década de 1960, o miniconto é hoje objeto de pós-graduação em universidade como a de Austin, Texas; sucesso absoluto através da Coleção O Bairro, de Gonçalo Tavares, na Europa; motivou o Prêmio Jabuti ao minicontista Leonardo Brasiliense, em 2006; best-seller através do livro Os cem menores contos brasileiros, organizado por Marcelino Freire; tema de dissertações e teses acadêmicas, como a de Marcelo Spalding e Pedro Gonzaga; pauta de matérias especiais da Folha de São Paulo; gênero de gênios como Dalton Trevisan e Adrino Aragão; mantenedor de publicações especializadas no mundo como a cult El Cuento, El cuento en red, Ekuóreo, The rose metal press field guide to flash fiction, Fictícia, Bestiário, Veredas, Página do livro, A casa das mil portas, Minimínimos, Twitteratura, entre tantas outras, além de ser responsável por um novo boom de leitura nos Estados Unidos e de consolidar-se com significativa importância no mercado editorial brasileiro e latino-americano.
            Minificção do Brasil – em defesa dos frascos & comprimidos, de Márcio Almeida, tem 313 páginas e foi lançado no final de novembro pela Editora Clube de Autores, de São Paulo. É uma das raríssimas publicações no país exclusivamente dedicada à análise do gênero através da obra de mais de 30 autores, com o objetivo de reconhecer e dar visibilidade à inventiva, ao talento e ao prazer de uma leitura rápida, mas vertical, contribuindo com seriedade e competência para a constituição de uma referência que envolve 45 anos de produção de mininarrativa, com metodologia baseada nos melhores autores sobre o gênero do mundo.
            Entre os autores analisados estão Elias José e os escritores pioneiros dos “Cadernos 20”, de Guaxupé – Francisca Vilas Boas, Marco Antonio S. de Oliveira e Sebastião Resende; Adrino Aragão, Uilcon Pereira, Pedro Maciel, Jaime Prado Gouvêa, Duílio Gomes, Carlos Herculano Lopes, Adriana Versiani, Adalgisa Botelho de Mendonça, Marcelo Spalding, Marcelino Freire, PJ Ribeiro, Marcelo Freitas, Oskar Kellner Neto, Fernando Bonassi, Silvana  Guimarães, Lia Beltrão, Nina Rizzi, Romina Conti, Tatiana Alves, Valéria Tarelho, Márcia Maia, Mariza Lourenço, Cida Pedrosa, Virna Teixeira, Gertrude Patrícia Fahne. O livro inclui o ensaio lítero-fotográfico intitulado “Gregorovius & Lucana”, de Adriana Versiani e Dioli, capa e diagramação de Oskar Kellner Neto.     
            Márcio Almeida, Oliveira, MG, 1947, é professor universitário, mestre em Literatura, jornalista, autor de 41 publicações, inclusive o livro de minicontos Estranhos muito íntimos, bilíngüe, (Editora Multifoco, RJ, 2010) e várias no exterior; detentor de dezenas de prêmios literários em nível nacional, crítico de raridades há décadas, com efetiva produção em revistas eletrônicas como Cronópios, Germina, Caos e Letras, Tanto, Iniciação Científica, além do Suplemento Literário do Minas Gerais, Dezfaces, Pensar, Gazeta de Minas, Agora (Divinópolis) e outros. Dedica-se há dois anos à produção do livro “História Contemporânea de Oliveira”, com apoio da Eletrobrás e uma equipe de 10 profissionais da área, com lançamento previsto para o dia 19 de setembro de 2011.
Como ter o livro
O livro não será vendido em livrarias ou bancas, e os interessados deverão fazer pedido pelo endereço virtual http://www.clubedeautores.com.br/book/34366 - a_minificcao_do_brasil_em_defesa_dos_frascos_dos_comprimidos.   
Contato com o autor: marcioalmeidas@hotmail.com

domingo, 28 de novembro de 2010

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

ROLETA

...a  matéria estava toda condensada e então houve o Big Bang.
Gozei forte, de olhos fechados no rabo dela.
Ela me falava da pequenez das nossas vidas. Da pequenez dos astros e do nosso amor de ontem.
Criou-se o universo, embora imensurável, o universo é composto de um número limitado de matéria. Não é infinito, o Universo. Já o tempo...
- Eu não consigo abrir as mãos. - ela disse e nosso amor estava todo condensado como um amendoim na palma da mão dela.
A matéria se combina das mais variadas formas. Imaginem que a combinação perfeita de átomos, de moléculas, de letras, números e partículas tivesse nos levado, ela e eu,  àquele momento. Todas as coincidências, todos os acasos tinham me levado até ali, até aquele quarto, àquele final, àquele rabo maravilhoso que agora eu perdia. Perdia? Difícil. Eu sou o Deus deste mundo.
- Eu ainda te amo, mas não quero mais te ver... nunca mais...
O casal de gatos dela brincava no tapete. Não são inocentes (os gatos nunca foram inocentes) carregam no olhar o brilho de quem conhece todo o mistério. A crueldade faz parte do amor dos gatos. Já meu cão, meu cão tinha o coração puro, era todo ternura, mas não sabia. Ele, meu cão. Os gatos sim sabem de tudo aquilo que é pra sempre no tempo. O princípio e o fim de um rio ainda é o mesmo rio, eles diziam pelo olhar, os gatos. Filhos da puta.
Haverá trilhões e trilhões e trilhões de combinações, eu sei. Mesmo essa combinação de palavras já existe e tornará a existir depois que se for. Os átomos dançarão sozinhos, farão surubas imensas, os átomos. Juntar-se-ão... Perder-se-ão. Durante o inimaginável do tempo, eles vão se unir e se separar. A matéria vai continuar a se expandir e expandir, mas depois vai voltar a condensar e condensar de novo até o mesmo grão de antes do Big Bang. Nada de novo sob o Sol, como disse Salomão. E então o mesmo casal de átomos vai se encontrar novamente e dizer sim e todas as combinações tornarão a se repetir na noite imensa do Tempo que não é um rio, mas uma rocha, uma serpente devorando o próprio rabo. Dejà vu. Um carrossel incessante que gira e gira para delírio de Deus.
- Vai embora agora... Ela diz, puxando o lençol... por favor saía de vez da minha vida...
Eu limpo, na ponta do lençol branco, o pau sujo de merda e porra. Um cu contem o mistério do mundo. O buraco negro, como o próprio nome diz, é o cu do Universo. É lá que está a resposta, se é que há alguma resposta.
Eu me levanto. Sou o demônio. Um demônio de mármore. Toda maldade me é sensual. É no sexo mais depravado que eu, o Demônio de mármore, vivo. Por isso Buda, Cristo e todo o resto tentaram ficar longe da carne, porque a carne é o sexo e o sexo é o mal,  quanto mais sujo melhor.
Agora ela chora. Os gatos continuam brincando no tapete do quarto. Tudo isso se repetirá infinitamente. Embora grande, continua a ser uma gaiola, essa na qual nos debatemos. Estamos presos, como o corvo no laboratório de Paracelso. Meu pau ainda fede. Não me importo. Cheiro de merda me excita. Eu abandonaria a crueldade por ela, mas ela não acredita mais. Gaviões, tigres, leões e lobos me esperam lá fora. Eles sabem que sou um deles. Eu posso me transformar em tudo o que quiser, basta imaginar. Os gatos se arrepiam quando me aproximo deles. Acaricio a vagina da gatinha e o pênis do gato. Toda perversão me agrada, mas ela não para de chorar.
- Vou embora hoje. – Digo para consola-la – Mas amanhã voltarei da mesma forma que ontem. Divirta-se um pouco enquanto me espera. - Ela não levanta a cabeça do travesseiro.
Caminho até a janela... abro minhas asas... entoo um ditirambo... os bichos peçonhentos me esperam no leito da floresta. As plantas murcham quando passo. Meu lar é a ruína. Se fosse eunuco, seria um anjo de luz. Toda maldade é sensual.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

MALÍCIA FEMININA


HOJE


Minha menina dormiu a tarde toda comigo


E eu fiquei sem saber


se ela gostava de mim,


ou de dormir.