domingo, 28 de novembro de 2010
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
ROLETA
Gozei forte, de olhos fechados no rabo dela.
Ela me falava da pequenez das nossas vidas. Da pequenez dos astros e do nosso amor de ontem.
Criou-se o universo, embora imensurável, o universo é composto de um número limitado de matéria. Não é infinito, o Universo. Já o tempo...
- Eu não consigo abrir as mãos. - ela disse e nosso amor estava todo condensado como um amendoim na palma da mão dela.
A matéria se combina das mais variadas formas. Imaginem que a combinação perfeita de átomos, de moléculas, de letras, números e partículas tivesse nos levado, ela e eu, àquele momento. Todas as coincidências, todos os acasos tinham me levado até ali, até aquele quarto, àquele final, àquele rabo maravilhoso que agora eu perdia. Perdia? Difícil. Eu sou o Deus deste mundo.
- Eu ainda te amo, mas não quero mais te ver... nunca mais...
O casal de gatos dela brincava no tapete. Não são inocentes (os gatos nunca foram inocentes) carregam no olhar o brilho de quem conhece todo o mistério. A crueldade faz parte do amor dos gatos. Já meu cão, meu cão tinha o coração puro, era todo ternura, mas não sabia. Ele, meu cão. Os gatos sim sabem de tudo aquilo que é pra sempre no tempo. O princípio e o fim de um rio ainda é o mesmo rio, eles diziam pelo olhar, os gatos. Filhos da puta.
Haverá trilhões e trilhões e trilhões de combinações, eu sei. Mesmo essa combinação de palavras já existe e tornará a existir depois que se for. Os átomos dançarão sozinhos, farão surubas imensas, os átomos. Juntar-se-ão... Perder-se-ão. Durante o inimaginável do tempo, eles vão se unir e se separar. A matéria vai continuar a se expandir e expandir, mas depois vai voltar a condensar e condensar de novo até o mesmo grão de antes do Big Bang. Nada de novo sob o Sol, como disse Salomão. E então o mesmo casal de átomos vai se encontrar novamente e dizer sim e todas as combinações tornarão a se repetir na noite imensa do Tempo que não é um rio, mas uma rocha, uma serpente devorando o próprio rabo. Dejà vu. Um carrossel incessante que gira e gira para delírio de Deus.
- Vai embora agora... Ela diz, puxando o lençol... por favor saía de vez da minha vida...
Eu limpo, na ponta do lençol branco, o pau sujo de merda e porra. Um cu contem o mistério do mundo. O buraco negro, como o próprio nome diz, é o cu do Universo. É lá que está a resposta, se é que há alguma resposta.
Eu me levanto. Sou o demônio. Um demônio de mármore. Toda maldade me é sensual. É no sexo mais depravado que eu, o Demônio de mármore, vivo. Por isso Buda, Cristo e todo o resto tentaram ficar longe da carne, porque a carne é o sexo e o sexo é o mal, quanto mais sujo melhor.
Agora ela chora. Os gatos continuam brincando no tapete do quarto. Tudo isso se repetirá infinitamente. Embora grande, continua a ser uma gaiola, essa na qual nos debatemos. Estamos presos, como o corvo no laboratório de Paracelso. Meu pau ainda fede. Não me importo. Cheiro de merda me excita. Eu abandonaria a crueldade por ela, mas ela não acredita mais. Gaviões, tigres, leões e lobos me esperam lá fora. Eles sabem que sou um deles. Eu posso me transformar em tudo o que quiser, basta imaginar. Os gatos se arrepiam quando me aproximo deles. Acaricio a vagina da gatinha e o pênis do gato. Toda perversão me agrada, mas ela não para de chorar.
- Vou embora hoje. – Digo para consola-la – Mas amanhã voltarei da mesma forma que ontem. Divirta-se um pouco enquanto me espera. - Ela não levanta a cabeça do travesseiro.
Caminho até a janela... abro minhas asas... entoo um ditirambo... os bichos peçonhentos me esperam no leito da floresta. As plantas murcham quando passo. Meu lar é a ruína. Se fosse eunuco, seria um anjo de luz. Toda maldade é sensual.
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
MALÍCIA FEMININA
HOJE
Minha menina dormiu a tarde toda comigo
E eu fiquei sem saber
se ela gostava de mim,
ou de dormir.
sábado, 6 de novembro de 2010
terça-feira, 2 de novembro de 2010
FRIDA KAHLO: MARAVILHOSA E VISCERAL
Que maravilha!
Consta nos diários de Cristóvão Colombo a frase acima para descrever os primeiros contatos do navegador genovês com o novo mundo. Séculos mais tarde, o escritor cubano Alejo Carpentier (1904-1980) aplicou o conceito de maravilhoso à realidade do continente americano e à Arte produzida nele. Para Carpentier, o mágico, o absurdo, ou, se preferirem, o surreal, em nosso continente, é parte integrante do cotidiano e de nossa realidade. Em nós, diferentemente do que ocorre com os europeus, consciente e inconsciente se fundem num só, não há uma divisão cartesiana entre o que é razão e o que é resquício. Fatos históricos e fenômenos naturais comprovam a magia e a maravilha de nosso continente. Basta-nos observar as linhas de Nazca, ou a arquitetura maia, ou ainda o Titicaca, lago navegável mais alto do mundo e berço da civilização Inca.
Consta nos diários de Cristóvão Colombo a frase acima para descrever os primeiros contatos do navegador genovês com o novo mundo. Séculos mais tarde, o escritor cubano Alejo Carpentier (1904-1980) aplicou o conceito de maravilhoso à realidade do continente americano e à Arte produzida nele. Para Carpentier, o mágico, o absurdo, ou, se preferirem, o surreal, em nosso continente, é parte integrante do cotidiano e de nossa realidade. Em nós, diferentemente do que ocorre com os europeus, consciente e inconsciente se fundem num só, não há uma divisão cartesiana entre o que é razão e o que é resquício. Fatos históricos e fenômenos naturais comprovam a magia e a maravilha de nosso continente. Basta-nos observar as linhas de Nazca, ou a arquitetura maia, ou ainda o Titicaca, lago navegável mais alto do mundo e berço da civilização Inca.
A mestiçagem também é um componente a mais para nos tornar um povo, de certa maneira, mais propenso, mais ligado à magia e ao “absurdo”. Nossa religiosidade é um misto de religiões africanas, europeias e indígenas. O vodu haitiano, ou o candomblé baiano são testemunhos do quão arraigado está em nossa carne o ilógico, e o onírico, o imaginado. Cogito ergo sum serve para descrever o nascimento do pensamento moderno europeu; mas, nas américas, Descartes enloquece; como sugeriu Leminski, fuma cannabis e despiroca.
É neste sentido que o “Maravilhosa” do título vem adjetivar Frida Kahlo (1904-1954), pintora “surrealista” mexicana. Diferentemente do que ocorre com os pintores surrealistas europeus, mais notadamente o expoente Salvador Dali, que têm uma grande influência e uma tremenda assimilação das teorias freudianas, em Frida o surrealismo parece ser algo intrínseco, quase que naïf, como se, para ela, aquela fosse a única maneira possível de se expressar e de pintar. A partir de uma abertura mágica, tudo o que os olhos veem é magia. Em Frida o ilógico é a única lógica. Nã há metáfora, mas uma descrição mítica do real que parece brotar tanto do centro de sua Terra, (observar os quadros O abraço amoroso entre o Universo, a Terra, (México), Eu, o Diego e o senhor Xólotl (1949), Flor da vida (1943), e O Sol e a vida (1947)) quanto de dentro dela mesma (observar as telas O veado ferido(1946) , Árvore da esperança (1946), A coluna partida (1944), esta última uma das telas mais fortes de todos os tempos na minha opinião).
O abraço amoroso entre o Universo, a Terra, (México), Eu, o Diego e o senhor Xólotl (1949)
Flor da vida (1943)
O Sol e a vida (1947)
O veado ferido(1946)
Árvore da esperança (1946)
A coluna partida (1944)
Há, no título deste artigo, dois adjetivos, um deles, maravilhosa, já foi explicado nos parágrafos anteriores. Para explicar o outro adjetivo, visceral, que vem de vísceras e quer coisa mais subjetiva do que as próprias vísceras? Vamos ter de dar uma pincelada em alguns dados biográficos da artista. Frida Kahlo teve uma vida recheada de dor. Filha de um pai epiléptico e de uma mãe extremamente religiosa; a pintora, aos seis anos, teve poliomielite, o que a deixou com uma perna mais fina que a outra e com o pé esquerdo atrofiado, além de lhe render o apelido de “perna de pau” na escola. Aos dezoito anos, ela sofreu um acidente de ônibus, que lhe esmagou a coluna vertebral e lhe deixou impossibilitada de ter filhos. Tudo isso, mais a ambivalência quanto à própria sexualidade e mais a questão da identidade são temas constantes na obra da artista. Para mim, a grande Arte é movida muito mais pela paixão que pela razão, e... Frida faz isso. Sua Arte é tão, íntima, tão pessoal, que se torna universal, humana. Toca o inconsciente coletivo. Suas telas são todas transposição em linguagem pictórica de fatos, opiniões, sentimentos e situações pessoais. Frida Kahlo nos seduz pelo coração e não pelo intelecto. É mais ou menos o que Vincent Van Gogh também procurava fazer.
Outro aspecto importante que não poderia ser deixado à margem é a questão da Arte feminina. A artista mexicana é uma das primeiras pintoras a abordar de fato questões relacionadas ao universo feminino, como a maternidade, ou a impossibilidade da maternidade, por exemplo, (ver as telas Nascimento (1932), A cama voadora (1932)) ou ainda a questão da violência contra a mulher, que a pintora retrata tão bem na tela Uns quantos golpes (1935).
Nascimento (1932)
A cama voadora (1932)
Uns quantos golpes (1935)
Toda a obra de Frida Kahlo é fascinante, mas todo artista tem aquelas obras que de fato são fora do comum, realmente impressionantes e que nos deixam boquiabertos. No caso da pintora mexicana, as duas obras de tirar o fôlego são a já citada A coluna partida e As duas Fridas (1939). Pintada pouco depois do divórcio da pintora com o também pintor Diego Rivera, a tela As duas Fridas é um auto-retrato composto por duas personalidades diferentes. Neste trabalho, Frida trata das emoções envolvidas na separação. A parte de si que era respeitada por Diego Rivera é a Frida mexicana, com trajes pré-colombianos e com uma pequena fotografia nas mãos, enquanto a outra Frida, não tão respeitada assim, leva um vestido branco mais europeu. Os corações das duas mulheres estão expostos e são ligados, um ao outro, apenas por uma artéria e a parte européia corre o perigo de se esvair em sangue até a morte, uma vez que uma das veias de seu coração, embora meio que obstruída, ainda sangra, manchando de vermelho o belo vestido branco.
As duas Fridas
É difícil pra mim, quando estudo, ou quando apenas aprecio a obra de Frida Kahlo, não estabelecer um paralelo com a canção Beatriz, do Chico Buarque, principalmente na voz de Milton Nascimento. Se repararmos nas expressões faciais da maioria das telas da artista, perceberemos uma certa imparcialidade de sentimentos, como uma atriz que se despe de si mesma para melhor se enxergar. Olhando somente para seu rosto, fico imaginando, “Será que ela é triste / Será que é o contrário / Será que é pintura... / E se eu pudesse entrar na sua vida...” Então me deparo com o quadro A Máscara (1945), que inverte o principio da máscara, onde encontramos a verdadeira Frida, nua e desesperada, com as lágrimas rolando... E então eu posso entrar na vida dela, mesmo vinte e tantos anos separando sua morte do meu nascimento. Hoje escrevi essas linhas só pra dizer a ela que a amo e a entendo. É pouco eu sei, mas “Se um dia ela despencar do céu / e se os pagantes exigirem bis / e se um arcanjo passar o chapéu...” quero estar por aqui e ter mãos carinhosas e palavras doces na língua pra dizer a ela. Beijos Frida.
É difícil pra mim, quando estudo, ou quando apenas aprecio a obra de Frida Kahlo, não estabelecer um paralelo com a canção Beatriz, do Chico Buarque, principalmente na voz de Milton Nascimento. Se repararmos nas expressões faciais da maioria das telas da artista, perceberemos uma certa imparcialidade de sentimentos, como uma atriz que se despe de si mesma para melhor se enxergar. Olhando somente para seu rosto, fico imaginando, “Será que ela é triste / Será que é o contrário / Será que é pintura... / E se eu pudesse entrar na sua vida...” Então me deparo com o quadro A Máscara (1945), que inverte o principio da máscara, onde encontramos a verdadeira Frida, nua e desesperada, com as lágrimas rolando... E então eu posso entrar na vida dela, mesmo vinte e tantos anos separando sua morte do meu nascimento. Hoje escrevi essas linhas só pra dizer a ela que a amo e a entendo. É pouco eu sei, mas “Se um dia ela despencar do céu / e se os pagantes exigirem bis / e se um arcanjo passar o chapéu...” quero estar por aqui e ter mãos carinhosas e palavras doces na língua pra dizer a ela. Beijos Frida.
A Máscara (1945)
sábado, 23 de outubro de 2010
Para Pensar
"Em 1837 Liszt deu em Paris um concerto, onde se anunciava uma peça de Beethoven e outra de Pixis, obscuro compositor já então considerado de qualidade ínfima. Por inadvertência, o programa trocou os nomes, atribuindo a um a obra de outro, de tal modo que a assistência, composta de gente musicalmente culta e refinada, cobriu de abraços calorosos a de Pixis, que aparecia como de Beethoven, e manifestou fastio desprezivo em relação a esta, chegando muitos a se retirarem."
O trecho acima está no livro Literatura e Sociedade, de Antonio Candido, página 32 e serve para ilustrar o tamanho da importância do reconhecedor de talentos, do cara que se destaca do grande público e da massa e tem a capacidade e a sensibilidade de sentir e perceber o diferente. Talvez a figura que falte no cenário cultural brasileiro não seja a do escritor de talento, do músico de talento ou do pintor de talento. Talvez o que falte seja o cara que tenha tempo, paciência, boa vontade e generosidade para trazer à tona o trabalho de artistas ainda obscuros. Quando falta esse cara, honesto, bem intencionado e imparcial, as panelas e os conchavos tomam conta e muita gente boa acaba ficando de fora, enquanto outros, cujas obras têm qualidade questionável acabam em evidência, mais por questões políticas que artísticas.
O que seria de Manoel de Barros sem a resenha de Millor Fernandes no Pasquim? O que seria de Jean Michel Basquiat, sem o artigo de René Ricard? Não estou dizendo que Manoel de Barros e Basquiat não teriam alcançado o sucesso sem as críticas de René e Millor, mas que as coisas teriam sido muito mais dificeis, lá isso teriam. Sem dúvida.
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
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