É só clicar aí.
Vai na fé.
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sábado, 6 de novembro de 2010
terça-feira, 2 de novembro de 2010
FRIDA KAHLO: MARAVILHOSA E VISCERAL
Que maravilha!
Consta nos diários de Cristóvão Colombo a frase acima para descrever os primeiros contatos do navegador genovês com o novo mundo. Séculos mais tarde, o escritor cubano Alejo Carpentier (1904-1980) aplicou o conceito de maravilhoso à realidade do continente americano e à Arte produzida nele. Para Carpentier, o mágico, o absurdo, ou, se preferirem, o surreal, em nosso continente, é parte integrante do cotidiano e de nossa realidade. Em nós, diferentemente do que ocorre com os europeus, consciente e inconsciente se fundem num só, não há uma divisão cartesiana entre o que é razão e o que é resquício. Fatos históricos e fenômenos naturais comprovam a magia e a maravilha de nosso continente. Basta-nos observar as linhas de Nazca, ou a arquitetura maia, ou ainda o Titicaca, lago navegável mais alto do mundo e berço da civilização Inca.
Consta nos diários de Cristóvão Colombo a frase acima para descrever os primeiros contatos do navegador genovês com o novo mundo. Séculos mais tarde, o escritor cubano Alejo Carpentier (1904-1980) aplicou o conceito de maravilhoso à realidade do continente americano e à Arte produzida nele. Para Carpentier, o mágico, o absurdo, ou, se preferirem, o surreal, em nosso continente, é parte integrante do cotidiano e de nossa realidade. Em nós, diferentemente do que ocorre com os europeus, consciente e inconsciente se fundem num só, não há uma divisão cartesiana entre o que é razão e o que é resquício. Fatos históricos e fenômenos naturais comprovam a magia e a maravilha de nosso continente. Basta-nos observar as linhas de Nazca, ou a arquitetura maia, ou ainda o Titicaca, lago navegável mais alto do mundo e berço da civilização Inca.
A mestiçagem também é um componente a mais para nos tornar um povo, de certa maneira, mais propenso, mais ligado à magia e ao “absurdo”. Nossa religiosidade é um misto de religiões africanas, europeias e indígenas. O vodu haitiano, ou o candomblé baiano são testemunhos do quão arraigado está em nossa carne o ilógico, e o onírico, o imaginado. Cogito ergo sum serve para descrever o nascimento do pensamento moderno europeu; mas, nas américas, Descartes enloquece; como sugeriu Leminski, fuma cannabis e despiroca.
É neste sentido que o “Maravilhosa” do título vem adjetivar Frida Kahlo (1904-1954), pintora “surrealista” mexicana. Diferentemente do que ocorre com os pintores surrealistas europeus, mais notadamente o expoente Salvador Dali, que têm uma grande influência e uma tremenda assimilação das teorias freudianas, em Frida o surrealismo parece ser algo intrínseco, quase que naïf, como se, para ela, aquela fosse a única maneira possível de se expressar e de pintar. A partir de uma abertura mágica, tudo o que os olhos veem é magia. Em Frida o ilógico é a única lógica. Nã há metáfora, mas uma descrição mítica do real que parece brotar tanto do centro de sua Terra, (observar os quadros O abraço amoroso entre o Universo, a Terra, (México), Eu, o Diego e o senhor Xólotl (1949), Flor da vida (1943), e O Sol e a vida (1947)) quanto de dentro dela mesma (observar as telas O veado ferido(1946) , Árvore da esperança (1946), A coluna partida (1944), esta última uma das telas mais fortes de todos os tempos na minha opinião).
O abraço amoroso entre o Universo, a Terra, (México), Eu, o Diego e o senhor Xólotl (1949)
Flor da vida (1943)
O Sol e a vida (1947)
O veado ferido(1946)
Árvore da esperança (1946)
A coluna partida (1944)
Há, no título deste artigo, dois adjetivos, um deles, maravilhosa, já foi explicado nos parágrafos anteriores. Para explicar o outro adjetivo, visceral, que vem de vísceras e quer coisa mais subjetiva do que as próprias vísceras? Vamos ter de dar uma pincelada em alguns dados biográficos da artista. Frida Kahlo teve uma vida recheada de dor. Filha de um pai epiléptico e de uma mãe extremamente religiosa; a pintora, aos seis anos, teve poliomielite, o que a deixou com uma perna mais fina que a outra e com o pé esquerdo atrofiado, além de lhe render o apelido de “perna de pau” na escola. Aos dezoito anos, ela sofreu um acidente de ônibus, que lhe esmagou a coluna vertebral e lhe deixou impossibilitada de ter filhos. Tudo isso, mais a ambivalência quanto à própria sexualidade e mais a questão da identidade são temas constantes na obra da artista. Para mim, a grande Arte é movida muito mais pela paixão que pela razão, e... Frida faz isso. Sua Arte é tão, íntima, tão pessoal, que se torna universal, humana. Toca o inconsciente coletivo. Suas telas são todas transposição em linguagem pictórica de fatos, opiniões, sentimentos e situações pessoais. Frida Kahlo nos seduz pelo coração e não pelo intelecto. É mais ou menos o que Vincent Van Gogh também procurava fazer.
Outro aspecto importante que não poderia ser deixado à margem é a questão da Arte feminina. A artista mexicana é uma das primeiras pintoras a abordar de fato questões relacionadas ao universo feminino, como a maternidade, ou a impossibilidade da maternidade, por exemplo, (ver as telas Nascimento (1932), A cama voadora (1932)) ou ainda a questão da violência contra a mulher, que a pintora retrata tão bem na tela Uns quantos golpes (1935).
Nascimento (1932)
A cama voadora (1932)
Uns quantos golpes (1935)
Toda a obra de Frida Kahlo é fascinante, mas todo artista tem aquelas obras que de fato são fora do comum, realmente impressionantes e que nos deixam boquiabertos. No caso da pintora mexicana, as duas obras de tirar o fôlego são a já citada A coluna partida e As duas Fridas (1939). Pintada pouco depois do divórcio da pintora com o também pintor Diego Rivera, a tela As duas Fridas é um auto-retrato composto por duas personalidades diferentes. Neste trabalho, Frida trata das emoções envolvidas na separação. A parte de si que era respeitada por Diego Rivera é a Frida mexicana, com trajes pré-colombianos e com uma pequena fotografia nas mãos, enquanto a outra Frida, não tão respeitada assim, leva um vestido branco mais europeu. Os corações das duas mulheres estão expostos e são ligados, um ao outro, apenas por uma artéria e a parte européia corre o perigo de se esvair em sangue até a morte, uma vez que uma das veias de seu coração, embora meio que obstruída, ainda sangra, manchando de vermelho o belo vestido branco.
As duas Fridas
É difícil pra mim, quando estudo, ou quando apenas aprecio a obra de Frida Kahlo, não estabelecer um paralelo com a canção Beatriz, do Chico Buarque, principalmente na voz de Milton Nascimento. Se repararmos nas expressões faciais da maioria das telas da artista, perceberemos uma certa imparcialidade de sentimentos, como uma atriz que se despe de si mesma para melhor se enxergar. Olhando somente para seu rosto, fico imaginando, “Será que ela é triste / Será que é o contrário / Será que é pintura... / E se eu pudesse entrar na sua vida...” Então me deparo com o quadro A Máscara (1945), que inverte o principio da máscara, onde encontramos a verdadeira Frida, nua e desesperada, com as lágrimas rolando... E então eu posso entrar na vida dela, mesmo vinte e tantos anos separando sua morte do meu nascimento. Hoje escrevi essas linhas só pra dizer a ela que a amo e a entendo. É pouco eu sei, mas “Se um dia ela despencar do céu / e se os pagantes exigirem bis / e se um arcanjo passar o chapéu...” quero estar por aqui e ter mãos carinhosas e palavras doces na língua pra dizer a ela. Beijos Frida.
É difícil pra mim, quando estudo, ou quando apenas aprecio a obra de Frida Kahlo, não estabelecer um paralelo com a canção Beatriz, do Chico Buarque, principalmente na voz de Milton Nascimento. Se repararmos nas expressões faciais da maioria das telas da artista, perceberemos uma certa imparcialidade de sentimentos, como uma atriz que se despe de si mesma para melhor se enxergar. Olhando somente para seu rosto, fico imaginando, “Será que ela é triste / Será que é o contrário / Será que é pintura... / E se eu pudesse entrar na sua vida...” Então me deparo com o quadro A Máscara (1945), que inverte o principio da máscara, onde encontramos a verdadeira Frida, nua e desesperada, com as lágrimas rolando... E então eu posso entrar na vida dela, mesmo vinte e tantos anos separando sua morte do meu nascimento. Hoje escrevi essas linhas só pra dizer a ela que a amo e a entendo. É pouco eu sei, mas “Se um dia ela despencar do céu / e se os pagantes exigirem bis / e se um arcanjo passar o chapéu...” quero estar por aqui e ter mãos carinhosas e palavras doces na língua pra dizer a ela. Beijos Frida.
A Máscara (1945)
sábado, 23 de outubro de 2010
Para Pensar
"Em 1837 Liszt deu em Paris um concerto, onde se anunciava uma peça de Beethoven e outra de Pixis, obscuro compositor já então considerado de qualidade ínfima. Por inadvertência, o programa trocou os nomes, atribuindo a um a obra de outro, de tal modo que a assistência, composta de gente musicalmente culta e refinada, cobriu de abraços calorosos a de Pixis, que aparecia como de Beethoven, e manifestou fastio desprezivo em relação a esta, chegando muitos a se retirarem."
O trecho acima está no livro Literatura e Sociedade, de Antonio Candido, página 32 e serve para ilustrar o tamanho da importância do reconhecedor de talentos, do cara que se destaca do grande público e da massa e tem a capacidade e a sensibilidade de sentir e perceber o diferente. Talvez a figura que falte no cenário cultural brasileiro não seja a do escritor de talento, do músico de talento ou do pintor de talento. Talvez o que falte seja o cara que tenha tempo, paciência, boa vontade e generosidade para trazer à tona o trabalho de artistas ainda obscuros. Quando falta esse cara, honesto, bem intencionado e imparcial, as panelas e os conchavos tomam conta e muita gente boa acaba ficando de fora, enquanto outros, cujas obras têm qualidade questionável acabam em evidência, mais por questões políticas que artísticas.
O que seria de Manoel de Barros sem a resenha de Millor Fernandes no Pasquim? O que seria de Jean Michel Basquiat, sem o artigo de René Ricard? Não estou dizendo que Manoel de Barros e Basquiat não teriam alcançado o sucesso sem as críticas de René e Millor, mas que as coisas teriam sido muito mais dificeis, lá isso teriam. Sem dúvida.
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
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terça-feira, 24 de agosto de 2010
CAVALOS
É no mínimo estranho encontrar agora, pouco antes do casamento do meu único filho, esse cachimbo que foi de meu avô. O sangue da vida se comunica com a gente das maneiras mais inimagináveis. Chega a ser mórbido o modo como a experiência se repete e a pessoa para quem gostaríamos de dizer: “Você tinha razão o tempo todo”, já não está mais aqui para ouvir que enfim aprendemos.
Ele costumava fumar esse cachimbo enquanto me ensinava a jogar xadrez. Parecia fazer também parte de seu corpo, o cachimbo, um prolongamento de suas idéias e de sua boca enérgica. Era quando a mãe não estava em casa que ele ia me visitar, ou então ele me pegava na saída da escola e passávamos a tarde junto. Meu pai, seu genro, parecia gostar muito mais dele do que a própria filha. Era condescendente, o pai. Ela, a mãe, não conseguia perdoá-lo. Ela nunca conseguiria dizer pra ele: - Eu te perdoo.
- Você precisa aprender a dominar os cavalos. Eles são imprevisíveis. Andam em L. Você pode surpreender o adversário ou ser surpreendido por ele de um instante para o outro. É preciso dominar os cavalos. – Costumava dizer meu avô.
Gostava de jogar com as peças pretas. Nesta altura da vida tinha aprendido a dominar seus cavalos negros, mas nem sempre fora assim. Meu avô foi um daqueles caras que errou feio e errou bastante. Por muito tempo quis sugar o magma da vida, não se conformava em acompanhar apenas o balanço da maré. Ele quis construir novos oceanos, navegar lugares desconhecidos, arrancar com os dentes pedaços da carne cinza das horas. Isto tem um preço, às vezes alto demais. Leu filosofia, escreveu tratados. Estudou artes, pintou quadros. Participou de revoluções, houvesse um lugar onde a tirania e a barbárie ameaçassem o espírito e a liberdade dos homens e lá se ia meu avô. Arma em punho idéias na cabeça, defender o que acreditava. Viajou o mundo. Amou mulheres. Meu pai também gostava de ouvir suas histórias, mas sabia o quanto era difícil e perigoso ter um coração assim... em fogo ardente o tempo inteiro. É preciso aprender a dominar os cavalos.
***
- Ariel – Grita a esposa de dentro da casa – você não é o pai da noiva, nem ela pode se atrasar Deus que nos livre, mas se continuar demorando assim vai atrasar o casamento do nosso filho e o padre avisou que tem dez casamentos para fazer hoje. Casal que atrasar mais de quinze minutos não casa mais.
- Já vou, mulher. – Ele grita de volta da garagem. O cachimbo nas mãos. É um dia frio e lá fora começa a garoar. – É preciso aprender a dominar os cavalos! - repete baixinho olhando o céu de chumbo lá fora, como se alguém por trás das nuvens pudesse ouvi-lo.
***
- Vovô, por que a mãe não conversa com o senhor?
- É uma longa história, filho. Concentre-se no jogo.
- Por que vô? Ela não é sua filha? Por que ela não te pede nem a benção? O senhor é um homem tão bom, todo mundo adora o senhor. Só ela é que não quer nem te ver. Isso não tá certo, vou falar com a mãe. Vou dar uma dura nela. Ela precisa mudar isso.
- Você é só um menino, não se meta em assunto de adulto.
- Mas vô!
- Ponha-se no seu lugar, você é só um menino. Além disso, ela tem os motivos dela. Quem sabe um dia isso tudo passa. Quando estiver maiorzinho você vai compreender.
Eu devia ter uns doze anos nessa época. Ofendia-me quando alguém dizia que eu era só um menino. Eu já fumava e queria agir como um homem, queria também ser respeitado como um homem.
- Por que, afinal de contas, a mãe não conversa com o vô, pai? – Perguntei nessa mesma noite, enquanto tomávamos um leite na cozinha, meu pai e eu. A mãe estava na faculdade de Filosofia. Era a terceira faculdade que ela terminava... E lia, o tempo inteiro, embora nunca conversassem, os mesmos livros sobre os quais meu avô me falava.
- Isso não é da sua conta. Você ainda é muito jovem pra se meter nesses assuntos de adulto.
- Todo mundo diz isso que eu sou jovem... sou jovem... mas eu já sou um homem, sei muito bem compreender as coisas. Vocês deviam me respeitar um pouco mais.
- Você é que devia me respeitar, afinal de contas eu sou seu pai.
- Eu não estou te desrespeitando pai, só queria saber da verdade.
- Tudo bem, já que você quer tanto saber, lá vai... Não é nada de outro mundo. Quando sua mãe tinha uns dez anos, seu avô pegou as coisas dele, montou no cavalo e foi embora de casa com um rabo de saia. Deixou sua vó, sua mãe e seus tios, sem eira nem beira. Sua mãe, que era a mais velha, teve de largar os estudos e trabalhar como faxineira na casa da tia Alice para ajudar no sustento da casa. Cinco anos depois, ele voltou com o rabo entre as pernas, arrependido, sua avó o aceitou de volta e o perdoou, seus tios e tias também. Sua mãe, não. Desde o dia em que ele partiu até hoje, nunca mais trocou uma palavra com ele.
- E isso já tem mais de trinta anos, né?
- Pois é, mas você conhece a sua mãe. É a melhor pessoa do mundo, desde que você não pise na bola com ela.
***
- Ariel!!! Pelo amor de Deus homem. Vem logo se arrumar. A gente vai perder o casamento do João!!!
- Já vou... já vou...
- Agora!
- Estou indo.
***
Era mil novecentos e oitenta e eu tocava numa banda punk quando fui visitá-lo no hospital. Estava morrendo, meu avô. Efisema pulmonar. Ele fumara demais por tempo demais. Já estava bem velhinho, encarquilhado, acho que nos últimos anos, ele tinha encolhido uns dez centímetros, era o contrário de mim que crescia como um uma girafa acasalando. Um adolescente ao contrário, meu avô. Estava dormindo quando eu cheguei, tinha um cano de plástico em forma de anzol espetado na boca e sondas nos braços. Deus o tinha fisgado. Não era um anzol muito especial aquele em sua boca, não para um peixe tão importante.
Eu me encostei do lado da cama e segurei a mão dele. Acariciava com meu dedão as costas de sua mão. Até os pêlos dos dedos estavam totalmente brancos.
Ele abriu os olhos, devagar. Parecia que as pálpebras pesavam uma tonelada. Queriam se fechar pra sempre, mas ele era um cara duro... cada ruga de seu rosto desvendava um rosário de erros e acertos. Era só um homem, mas qualquer mulher que tivesse um pouquinho de alma gostaria de beijá-lo na boca naquele momento. Não era um velho ali, diante de mim, era o mistério da vida com tudo o que ela tem de tristeza e de alegria.
- Que bom que você veio, filho – Disse – mas que cabelo ridículo é este? - Eu fui um daqueles caras que teve uma adolescência rebelde e prolongada, talvez herança do meu avô. Nos últimos tempos, tinha me afastado de toda família, até do meu avô. A gente faz cada bobagem nessa vida.
Passei a mão nos poucos cabelos que ele tinha na cabeça.
- Não fala nada vô, descansa. Eu só quero ficar aqui com o senhor.
- Eu só gostaria de ter o meu cachimbo aqui. – Sorriu. Respirou outra vez com dificuldades – Você guarda alguma mágoa minha, filho? Eu fiz muitas coisas erradas... muitas vezes...
- O rock n´ roll não julga ninguém vô.
- Que mané rock n´ roll... eu estou falando é da vida.
- Eu sei porque a mãe não fala com o senhor.
- Eu sei que você sabe. Está magoado com tudo o que aconteceu?
- Não vô, todo mundo faz cagada.
- Você acha que algum dia ela vai me perdoar?
- Já perdoou vô, mas é orgulhosa demais pra admitir isso. Acho que ela queria que o senhor fosse até ela, talvez de joelhos, pra pedir perdão. Nesse assunto de vocês ela ainda não cresceu. Continua estudando como uma doida só pra te provar alguma coisa. Talvez ache que você não a ame, que o senhor nunca a amou de verdade. Ela é exigente no amor. Acho que só estuda tanto porque acha que assim um dia o senhor vai admirá-la e amá-la de fato.
- Eu a amo mais que tudo. – Disse e pareceu se engasgar com a própria saliva. Soluçou. - Vocês também estão brigados, não é? Seu pai me disse.
- É que ela é muito mandona... exige demais dos outros.
- Todos nós dessa família, e isto inclui você, tem esse coração impulsivo e em brasas. Mas você se lembra o que eu te dizia quando jogávamos xadrez? É preciso aprender a dominar os cavalos, caso contrário, seremos derrotados... fracassaremos... seja no jogo... seja na vida.
Quando saí do hospital naquele dia, os olhos dele me acompanhavam. Acho que olhei umas quatro ou cinco vezes pra trás e ele continuava olhando para a porta de vidro, além de observar a minha partida, esperava, muito mais, que alguém chegasse. Mas esse alguém que ele esperava não foi vê-lo e então, antes de outro dia amanhecer, ele morreu. Existem homens que se tornam imensos quando estão morrendo. É necessário, mais que viver, ser homem o bastante para morrer sem espernear.
No funeral havia muita gente. Contavam histórias e mais histórias sobre meu avô. Ele tinha de fato muitas histórias. Minha mãe estava lá. Não quis nem que meu pai permanecesse por perto. Ficou agachada num canto. As lágrimas grossas escorrendo em silêncio pelo rosto. Ela não deu um pio. Quando desceram o caixão, aproximou-se da cova e jogou um punhado de terra. Acho que, só neste dia, ela envelheceu uns quinze anos, talvez mais. O cabelo, no decorrer do enterro, de negro ficou totalmente branco. As rugas despencaram de uma vez sobre os lábios. Era triste ver o quanto ela sofria. Tentei abraçá-la, mas ela me repeliu. Queria ficar só com sua dor como um canceroso que se agarra a seu tumor enquanto ele o mata.
***
- Ariel!!! Pelo amor de Deus homem.
O homem acaricia o cachimbo em suas mãos como um menino acaricia seu cachorro companheiro. Guarda o objeto no bolso da blusa e pensa que na volta da festa vai ter de passar em alguma tabacaria e comprar fumo. Pretende também comprar um tabuleiro de xadrez, uma vez que hoje é o casamento do filho e os netos não devem tardar. Nada de novo sob o sol. Experiência que se repete. É preciso domar os... mas longe dali nos estábulos das fazendas que circundam a cidade os cavalos se revoltam... há cavalos baios... negros.. brancos... malhados... eles correm sob as chuva fina em direção ao poente. Aqui na cidade, enquanto caminha para o banheiro, Ariel não sabe nada disso, mas alguma coisa se agita em seu peito.
- Você tinha razão o tempo todo. – Repete baixinho e passa a mão nos cabelos umedecidos pela chuva. Vida que segue.
Ele costumava fumar esse cachimbo enquanto me ensinava a jogar xadrez. Parecia fazer também parte de seu corpo, o cachimbo, um prolongamento de suas idéias e de sua boca enérgica. Era quando a mãe não estava em casa que ele ia me visitar, ou então ele me pegava na saída da escola e passávamos a tarde junto. Meu pai, seu genro, parecia gostar muito mais dele do que a própria filha. Era condescendente, o pai. Ela, a mãe, não conseguia perdoá-lo. Ela nunca conseguiria dizer pra ele: - Eu te perdoo.
- Você precisa aprender a dominar os cavalos. Eles são imprevisíveis. Andam em L. Você pode surpreender o adversário ou ser surpreendido por ele de um instante para o outro. É preciso dominar os cavalos. – Costumava dizer meu avô.
Gostava de jogar com as peças pretas. Nesta altura da vida tinha aprendido a dominar seus cavalos negros, mas nem sempre fora assim. Meu avô foi um daqueles caras que errou feio e errou bastante. Por muito tempo quis sugar o magma da vida, não se conformava em acompanhar apenas o balanço da maré. Ele quis construir novos oceanos, navegar lugares desconhecidos, arrancar com os dentes pedaços da carne cinza das horas. Isto tem um preço, às vezes alto demais. Leu filosofia, escreveu tratados. Estudou artes, pintou quadros. Participou de revoluções, houvesse um lugar onde a tirania e a barbárie ameaçassem o espírito e a liberdade dos homens e lá se ia meu avô. Arma em punho idéias na cabeça, defender o que acreditava. Viajou o mundo. Amou mulheres. Meu pai também gostava de ouvir suas histórias, mas sabia o quanto era difícil e perigoso ter um coração assim... em fogo ardente o tempo inteiro. É preciso aprender a dominar os cavalos.
***
- Ariel – Grita a esposa de dentro da casa – você não é o pai da noiva, nem ela pode se atrasar Deus que nos livre, mas se continuar demorando assim vai atrasar o casamento do nosso filho e o padre avisou que tem dez casamentos para fazer hoje. Casal que atrasar mais de quinze minutos não casa mais.
- Já vou, mulher. – Ele grita de volta da garagem. O cachimbo nas mãos. É um dia frio e lá fora começa a garoar. – É preciso aprender a dominar os cavalos! - repete baixinho olhando o céu de chumbo lá fora, como se alguém por trás das nuvens pudesse ouvi-lo.
***
- Vovô, por que a mãe não conversa com o senhor?
- É uma longa história, filho. Concentre-se no jogo.
- Por que vô? Ela não é sua filha? Por que ela não te pede nem a benção? O senhor é um homem tão bom, todo mundo adora o senhor. Só ela é que não quer nem te ver. Isso não tá certo, vou falar com a mãe. Vou dar uma dura nela. Ela precisa mudar isso.
- Você é só um menino, não se meta em assunto de adulto.
- Mas vô!
- Ponha-se no seu lugar, você é só um menino. Além disso, ela tem os motivos dela. Quem sabe um dia isso tudo passa. Quando estiver maiorzinho você vai compreender.
Eu devia ter uns doze anos nessa época. Ofendia-me quando alguém dizia que eu era só um menino. Eu já fumava e queria agir como um homem, queria também ser respeitado como um homem.
- Por que, afinal de contas, a mãe não conversa com o vô, pai? – Perguntei nessa mesma noite, enquanto tomávamos um leite na cozinha, meu pai e eu. A mãe estava na faculdade de Filosofia. Era a terceira faculdade que ela terminava... E lia, o tempo inteiro, embora nunca conversassem, os mesmos livros sobre os quais meu avô me falava.
- Isso não é da sua conta. Você ainda é muito jovem pra se meter nesses assuntos de adulto.
- Todo mundo diz isso que eu sou jovem... sou jovem... mas eu já sou um homem, sei muito bem compreender as coisas. Vocês deviam me respeitar um pouco mais.
- Você é que devia me respeitar, afinal de contas eu sou seu pai.
- Eu não estou te desrespeitando pai, só queria saber da verdade.
- Tudo bem, já que você quer tanto saber, lá vai... Não é nada de outro mundo. Quando sua mãe tinha uns dez anos, seu avô pegou as coisas dele, montou no cavalo e foi embora de casa com um rabo de saia. Deixou sua vó, sua mãe e seus tios, sem eira nem beira. Sua mãe, que era a mais velha, teve de largar os estudos e trabalhar como faxineira na casa da tia Alice para ajudar no sustento da casa. Cinco anos depois, ele voltou com o rabo entre as pernas, arrependido, sua avó o aceitou de volta e o perdoou, seus tios e tias também. Sua mãe, não. Desde o dia em que ele partiu até hoje, nunca mais trocou uma palavra com ele.
- E isso já tem mais de trinta anos, né?
- Pois é, mas você conhece a sua mãe. É a melhor pessoa do mundo, desde que você não pise na bola com ela.
***
- Ariel!!! Pelo amor de Deus homem. Vem logo se arrumar. A gente vai perder o casamento do João!!!
- Já vou... já vou...
- Agora!
- Estou indo.
***
Era mil novecentos e oitenta e eu tocava numa banda punk quando fui visitá-lo no hospital. Estava morrendo, meu avô. Efisema pulmonar. Ele fumara demais por tempo demais. Já estava bem velhinho, encarquilhado, acho que nos últimos anos, ele tinha encolhido uns dez centímetros, era o contrário de mim que crescia como um uma girafa acasalando. Um adolescente ao contrário, meu avô. Estava dormindo quando eu cheguei, tinha um cano de plástico em forma de anzol espetado na boca e sondas nos braços. Deus o tinha fisgado. Não era um anzol muito especial aquele em sua boca, não para um peixe tão importante.
Eu me encostei do lado da cama e segurei a mão dele. Acariciava com meu dedão as costas de sua mão. Até os pêlos dos dedos estavam totalmente brancos.
Ele abriu os olhos, devagar. Parecia que as pálpebras pesavam uma tonelada. Queriam se fechar pra sempre, mas ele era um cara duro... cada ruga de seu rosto desvendava um rosário de erros e acertos. Era só um homem, mas qualquer mulher que tivesse um pouquinho de alma gostaria de beijá-lo na boca naquele momento. Não era um velho ali, diante de mim, era o mistério da vida com tudo o que ela tem de tristeza e de alegria.
- Que bom que você veio, filho – Disse – mas que cabelo ridículo é este? - Eu fui um daqueles caras que teve uma adolescência rebelde e prolongada, talvez herança do meu avô. Nos últimos tempos, tinha me afastado de toda família, até do meu avô. A gente faz cada bobagem nessa vida.
Passei a mão nos poucos cabelos que ele tinha na cabeça.
- Não fala nada vô, descansa. Eu só quero ficar aqui com o senhor.
- Eu só gostaria de ter o meu cachimbo aqui. – Sorriu. Respirou outra vez com dificuldades – Você guarda alguma mágoa minha, filho? Eu fiz muitas coisas erradas... muitas vezes...
- O rock n´ roll não julga ninguém vô.
- Que mané rock n´ roll... eu estou falando é da vida.
- Eu sei porque a mãe não fala com o senhor.
- Eu sei que você sabe. Está magoado com tudo o que aconteceu?
- Não vô, todo mundo faz cagada.
- Você acha que algum dia ela vai me perdoar?
- Já perdoou vô, mas é orgulhosa demais pra admitir isso. Acho que ela queria que o senhor fosse até ela, talvez de joelhos, pra pedir perdão. Nesse assunto de vocês ela ainda não cresceu. Continua estudando como uma doida só pra te provar alguma coisa. Talvez ache que você não a ame, que o senhor nunca a amou de verdade. Ela é exigente no amor. Acho que só estuda tanto porque acha que assim um dia o senhor vai admirá-la e amá-la de fato.
- Eu a amo mais que tudo. – Disse e pareceu se engasgar com a própria saliva. Soluçou. - Vocês também estão brigados, não é? Seu pai me disse.
- É que ela é muito mandona... exige demais dos outros.
- Todos nós dessa família, e isto inclui você, tem esse coração impulsivo e em brasas. Mas você se lembra o que eu te dizia quando jogávamos xadrez? É preciso aprender a dominar os cavalos, caso contrário, seremos derrotados... fracassaremos... seja no jogo... seja na vida.
Quando saí do hospital naquele dia, os olhos dele me acompanhavam. Acho que olhei umas quatro ou cinco vezes pra trás e ele continuava olhando para a porta de vidro, além de observar a minha partida, esperava, muito mais, que alguém chegasse. Mas esse alguém que ele esperava não foi vê-lo e então, antes de outro dia amanhecer, ele morreu. Existem homens que se tornam imensos quando estão morrendo. É necessário, mais que viver, ser homem o bastante para morrer sem espernear.
No funeral havia muita gente. Contavam histórias e mais histórias sobre meu avô. Ele tinha de fato muitas histórias. Minha mãe estava lá. Não quis nem que meu pai permanecesse por perto. Ficou agachada num canto. As lágrimas grossas escorrendo em silêncio pelo rosto. Ela não deu um pio. Quando desceram o caixão, aproximou-se da cova e jogou um punhado de terra. Acho que, só neste dia, ela envelheceu uns quinze anos, talvez mais. O cabelo, no decorrer do enterro, de negro ficou totalmente branco. As rugas despencaram de uma vez sobre os lábios. Era triste ver o quanto ela sofria. Tentei abraçá-la, mas ela me repeliu. Queria ficar só com sua dor como um canceroso que se agarra a seu tumor enquanto ele o mata.
***
- Ariel!!! Pelo amor de Deus homem.
O homem acaricia o cachimbo em suas mãos como um menino acaricia seu cachorro companheiro. Guarda o objeto no bolso da blusa e pensa que na volta da festa vai ter de passar em alguma tabacaria e comprar fumo. Pretende também comprar um tabuleiro de xadrez, uma vez que hoje é o casamento do filho e os netos não devem tardar. Nada de novo sob o sol. Experiência que se repete. É preciso domar os... mas longe dali nos estábulos das fazendas que circundam a cidade os cavalos se revoltam... há cavalos baios... negros.. brancos... malhados... eles correm sob as chuva fina em direção ao poente. Aqui na cidade, enquanto caminha para o banheiro, Ariel não sabe nada disso, mas alguma coisa se agita em seu peito.
- Você tinha razão o tempo todo. – Repete baixinho e passa a mão nos cabelos umedecidos pela chuva. Vida que segue.
domingo, 18 de abril de 2010
sexta-feira, 2 de abril de 2010
na germina
TEM TRES CONTOS QUE VCS JÁ CONHECEM NA GERMINA. DE QUALQUER FORMA, SE QUISEREM CONFERIR O ENDEREÇO É:
http://www.germinaliteratura.com.br/2010/naberlinda_daniellopes_mar10.htm
ABRAÇO
http://www.germinaliteratura.com.br/2010/naberlinda_daniellopes_mar10.htm
ABRAÇO
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