segunda-feira, 3 de agosto de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 13

13.

Quando as férias chegaram, eu estava mesmo precisando de umas férias. Tinha completado sete anos. Pedi aos meus pais pra visitar minha avó por parte de mãe, a avó paterna tinha morrido fazia tempo, antes de eu nascer. A princípio ele não concordou, odiava a sogra. A avó tinha uma banca de peixe. Ele gostava do peixe, mas odiava a vó. Trabalhava na feira. Em Marília. Ele a chamava de porca. Achava-me parecida com ela, eu só podia ter puxado aquele lado ruim e sujo da família.
Minha mãe era a favor de eu passar uns dias na casa da avó. Adorava-me a vó. A mãe trabalhou bastante na campanha pró-férias em Marília. Há que se reconhecer que o trabalho dela não foi nada fácil. Ele não queria me ver longe. No final, entretanto, ela acabou conseguindo convencê-lo.
Quando se está predisposto, em tudo quanto é lugar se encontra poesia. Entramos no ônibus e pegamos a estrada. Sempre achei as estradas misteriosas. Há lirismo no asfalto quente. Nos formigueiros no meio do mato. No gado pastando. Nos postos velhos de gasolina abandonados. No canavial. No cafezal. Em todos os cheiros misturados. Estava contente. Estava indo pra longe de casa. Minha mãe, no banco ao lado, dormia com a boca aberta.

MEU MARFIM QUE SANGRA - 12

12.

Jesus em Getsêmani: Minha alma está profundamente triste até a morte.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 11

11.

Hoje fiz o décimo quarto corte. Tiraram o aparelho de som aqui do quarto. Primeiro foi computador depois a televisão e por último o som. Agora também não posso ouvir música. As coisas ficaram mais difíceis. Era bom de noite. Quando todos estavam dormindo. Eu colocava alguma coisa da Rita, dos Beatles, ou do Floyd, acendia um cigarro e ficava olhando as luzes dos caminhões subindo bem devagar a Raposo Tavares rumo a Paraguaçu Paulista, Presidente Prudente, Presidente Venceslau, cada caminhão uma cabine, cada cabine um caminhoneiro, cada caminhoneiro um mistério... atrás havia a sombra escura do canavial. Era bom ficar pensando. Escrevendo. Pintando. Agora levaram o som. Todavia ainda restam a rodovia, o canavial, os meus próprios pensamentos.
Sou um macaco olhando as estrelas. Só isto: um macaco olhando as estrelas.
Eu queria poder dizer algo sobre estas estrelas, escrever cru como a dor, mas a coisa toda fica presa um pouco antes de se transformar em palavras, em cores, em sons. É triste constatar, mas não há arte em mim. Estou a um passo da arte, mas não consigo alcançá-la. Sinto-me como um cego num quarto lavado de sol. É um milagre. Um macaco olhando as estrelas, tentando em vão tocá-las. De que adianta tanta juventude? Pôr fogo em tudo, inclusive em mim. Mas, enquanto não vem a coragem para o fogo, usar apenas a gillete: pra cortar os braços, as sobrancelhas, os cabelos rente à cabeça, deixar à mostra todo o couro cabeludo. Que confusão! A gente na vida só tem uma vida e olha só aonde a minha vida veio parar... Só rindo! Que confusão! Sofrimento puro. Sem arte, sem nada. Sofrer até pelo silêncio. Eu não sou Elis Regina!
A roupa dos forçados tem listras rosas e brancas. Uma frase comum. Construída com palavras comuns. Juntando-se mais algumas tem-se um romance. Entretanto um romance já não é uma coisa comum. Qual será a magia?
Olho novamente pros lados do canavial e imagino que lá há montanhas e que em cima das montanhas mora um gigante, e que o gigante gosta de fumar cachimbo, e que o cachimbo dele, do gigante, é enorme e faz esta fumaça que invade todas as noites à cidade inteira e aquele vermelho no horizonte que parece o fogo no canavial é, na verdade, o fumo queimando dentro do seu cachimbo, e no meio da fumaça do cachimbo do gigante, bailam uns casais de gambás, cantam umas cigarras e guitarras, abraçam-se e perpetuam suas histórias os fantasmas, no meio da fumaça sangram motocicletas e chicletes, e os elefantes dançam ao som de Verdi, no meio da fumaça minha avó sorri entre escamas de peixe, no meio da fumaça a dor está morta. Conta comigo.

sábado, 25 de julho de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 7 AO 10

7.

Estava pintando quando meu pai chegou. Gostava de inventar rostos de pessoas, pintá-los, dar um nome, um drama, uma história pra eles. Não o vi, ele estava às minhas costas, mas senti a música do seu cinto cortando o ar... vrrrrrrrrruuuuuuummmmm. Pá. AAAAAAIIIIIIIIIIIIIII. Com ele era assim. Primeiro a surra depois as perguntas e as explicações.... vrrrrrrrruuuuuuuuuuuummmmmmmmmmm. Pá. De novo eram as notas, eu sabia. Tinha dado fim às provas, mas não sei de que jeito ele acabou encontrando. Eu ia acabar matando-o, ele dizia, eu só dava mesmo era desgosto. Só rindo. A culpa é sua Ana, gritava. Nós merecemos isto, foi você Ana, foi você sua vaca, que deixou essa menina desse jeito, sempre protegendo, protegendo, protegendo. Suava, gritava, passava a mão com força pela cabeça, arrancava os cabelos. Vrrrrrrrrrummmmmmmmmmm. Pá. Eu não agüento mais, dou duro o dia inteiro, atendo aquele bando de morféticos: tuberculose, gripe, gonorréia, pinga daqui pinga de lá, sífilis, chato, aids, sarampo, o diabo! E o que é que eu ganho? Pra que tudo isto? Não há quem agüente. Vrrrrrrrrrummmmmmmmmm. Pá. E essa menina? Você pensa que ela está arrependida, Ana? Pensa que ela está? Olha a cara dela, não derrama uma lágrima sequer, é ruim como o diabo, puxou aquela sua família, sua mãe, aquela velha suja. Eu mereço! Eu mereço! Eu mereço! Vrrrrruuuuuuummmmmmmm. Pá. Será que você não entende menina, será que não percebe que desse jeito você não vai a lugar algum? Pra que tanta teimosia?” “Não, ela não vai tomar jeito nunca.” Diz minha mãe e virando-se pra mim: fala menina o que é que você quer? Você quer mesmo é matar a gente de desgosto? É isto que você quer? Mas o que é isto? Está toda mijada esta porca! Ele grita voltando da cozinha com o copo cheio de café. Fico com vontade de pedir um pouquinho de café, mas ele, num acesso de raiva, espatifa o copo contra a parede.
- Calma Antonio! Ela grita.
- Calma porra nenhuma, eu não agüento mais vocês. Tenha santa paciência. Eu não mereço isto. Eu devo ter jogado pedra na cruz.
Ela começa a chorar. Bem feito mesmo!
Ele pega o cinto e começa a colocá-lo na calça. Irrita-se de novo. Tira o cinto e me dá mais umas três cintadas nas costas que é pra eu aprender a lição. Aí põe de vez o cinto na calça e sai pra rua. Antes de sair ainda me manda ir logo pro banheiro e lavar bem as orelhas, os pés, o pescoço.
No banheiro é que eu consigo chorar um pouco, baixo, sozinha, em frente ao espelho.
Quando saio, a outra está com o terço na mão, ajoelhada, rezando por seu Antonio querido.Tão esforçado! Tão sofredor! Eu também rezo pelo meu pai, todas as noites, faço pactos e mais pactos com Deus pra que ele não consiga acordar nunca mais. Mas ele sempre acorda.
Na cama. Dentro da minha cabeça a música começa linda, um piano calmo que sobe e desce precipícios. Antes de adormecer totalmente vejo se aproximar um tigre e se sentar perto da minha cama. Em seguida, ao longe, já não mais no meu quarto, mas numa imensa savana, vêm correndo um bando de leões. Eu sorrio, estou em cima do maior e mais veloz deles. Boa noite mamãe. Boa noite papai. Boa noite. Sonhem com os anjos!

8.

Depois das pancadas era a hora dos carinhos. Eu não sabia o que era pior. Sempre a mesma história. Inventava um jeito de fazer a mulher sair, comprar alguma coisa diferente pro jantar. Começava com os exercícios e aí me chamava. Pra buscar um suco. É que ele estava muito quente, dos exercícios, sabe. Eu pegava o suco e levava pra ele. Aí ele queria conversar. Crescia o cheiro de mofo entre os azulejos da casa. Você sabe que o papai te ama, não sabe, que só quer o seu bem... Sempre a mesma cantilena. Com o tempo, esse blá, blá, blá acabava me fazendo mais mal que a coisa em si. Papai te ama! Papai te ama! Papai te ama uma ova! Eu preferia que ele tirasse a coisa logo de uma vez, sem falar demais. Mas aquilo devia ser uma briga dele lá com a consciência dele. Aquele era o seu jeito de me dar amor. Pra cima e pra baixo. UHUHU....UHUHUHU....UHUHUHU... com as duas mãos... UHUHUHU...UHUHUHU.... pra cima e pra baixo... UUHUHUH...HUHUHUUHUH... pra cima e pra baixo ... mais rápido. Aaiii... Aiiii... Aaiiii... Slopfit... Aí soltava aquilo em cima de mim e me mandava tomar banho. Direito!
Quando minha mãe chegava, toda contente porque tinha encontrado os filés de frango mais perfeitos, ou o peixe mais fresco, ia direto pra cozinha preparar o jantar do seu marido. Não havia como conversar com ela. O jeito era suportar tudo sozinha e calada.
Uma coisa é preciso dizer: eu também não era boba, mas de que adiantava? O que é que eu podia fazer? Nada, ou quase nada. Só que um dia resolvi não descer. Ele ficou lá embaixo me chamando. Bufava. Desça aqui agora! Não e não e não. Desça! Eu não iria descer mesmo. Ele podia espancar, esfolar, matar, vomitar que eu não iria descer. Fiquei só esperando o momento em que ele iria aparecer na porta, não sentia medo, eu esperava apenas. Mas ele não apareceu. Nem sinal. Continuei ouvindo a música que vinha da sala de musculação até a hora em que minha mãe chegou. Contudo ainda não me sentia segura. Sabia que na primeira oportunidade ele se vingaria. Certeza.

9.

Este é o décimo terceiro dia que estou trancada no quarto. Sei disso por causa dos pequenos cortes que faço com a gilete no braço. Faço um corte por dia. Hoje fiz o décimo terceiro. A única pessoa que eu vejo é a Francisca, a empregada. Ela também não conversa comigo, mas pelo menos traz a comida e uns dois ou três cigarros. É boa gente. Arrisca-se. Por minha causa. É uma pena que um dia ela também desaparecerá. Tudo desaparece.Tenho saudades dos meninos e meninas que brincavam comigo na pré-escola. Permaneceram apenas nas fotos, com seus conguinhas vermelhos e as camisetas brancas. Foram todos embora e eu fiquei sozinha neste quarto. Ground control to major Tom… Sobreviver não é fácil! Queria segurar pelo menos a Francisca pelo braço e prendê-la, pra que ela nunca pudesse fugir, sumir, desaparecer. Mas ela também vai desaparecer, vai se esquecer de tudo, pra sempre, é pra sofrer menos, cada um se defende como pode. Ground control to major Tom. Eu escrevo. Foi o que sobrou, já que até hoje ainda não consegui aprender a tocar um instrumento sequer. Mal sei assobiar. Então escrevo. Não me dá prazer, mas eu escrevo, feito uma escrava. É uma obrigação. Agora por exemplo estou lutando com um conto sobre uma mulher velha, viciada, que vive numa casa também velha e destruída com um monte de ratos. Gosto da mulher. Ela gosta dos ratos.
Nunca acho bom o que escrevo. Às vezes tenho esperança, enquanto estou escrevendo, mas, quando termino, tudo desmorona. Tudo que eu queria era ser uma pessoa diferente pra poder dizer coisas belas. Uma pessoa com menos coisas estranhas na cabeça, com menos coisas quebradas por dentro, com um pouco mais de fé e de esperança, mas não há mais em mim fé ou esperança. Tudo o que existe é uma conformação, uma conformação triste e a possibilidade de, de vez em quando, escapar da carne, de ficar longe da minha boca, dos meus olhos, das tripas. Há momentos em que me transformo em rosa vermelha, em outros sou serpente. And the papers want to know whose shirts you wear. Um sonho, aprender tocar bateria, foi.......

10.

A oportunidade dele surgiu numa sexta-feira. Foi no dia em que eu tinha dito as coisas à professora. Minha mãe não perdeu tempo. Só esperou ele tomar seu primeiro banho de duas horas e depois foi bater com a língua nos dentes. Era o que ele esperava. Sim. Eu já estava toda dolorida da surra que ela havia me dado, mas o que viria a seguir eu não podia sequer imaginar. Naquele dia ele não usou a sala de ginástica, sua sala de ginástica foi minhas costas. Aquela surra poderia ter entrado pro guinness como A maior surra de todos os tempos. Uma surra memorável. Tentei segurar o choro, mas não consegui. No começo até que não chorei, mas depois, à medida que ele batia e eu não chorava, as pancadas vinham com mais e mais força, era uma violência sem limites, até minha mãe ficou assustada, só que não disse nada, não era boba, podia sobrar pra ela também. Ele suava, urrava, parecia um bicho. Eu achei que iria morrer. Mas não morri. Fiquei vinte dias sem aparecer na escola. Estávamos esperando as marcas desaparecerem.
- E bico fechado! Ou está achando que essa surra foi pouco? Se este assunto sair aqui de casa, a senhorita vai achar que esta surra foi pequena se comparada com a próxima que eu vou te dar.
Eu podia até ser um bocado rebelde, mas não era doida. Fiquei em silêncio.Tanta pancada até que teve um lado que não foi de todo ruim: fiquei resistente à dor, não me assusto mais com ela. Não mesmo.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

A CASA DOS AFETOS EM RUÍNAS

Escurece
Pelas paredes os fantasmas se dissipam feito fumaça de cigarro
Sinto que por trás das coisas existe algo
Como o sonho de um sonho inalcançável
E eu me perco de você!
Cortam os anos o coração de um cavalo
Dor dor dor dor dor dor dor dor
Gritam seus cascos ao cortar o chão
A morte estende o pijama no coradouro
E você nem me vê
As crianças cantam e atestam que nada vai mudar
O amor é lepra e faz feridas
Pra que tudo isto?
Na noite de outro século
Meus antepassados construíram essa casa
Restam agora as ruínas
E os demônios nos rejuntes dos azulejos
Onde ainda há azulejos
Que cantam canções deste outro lado que existe e eu não entendo.

Pessoas como você encaram os dias e os fatos
É preciso fabricar um novo vinho
E suportar a mudança das modas
A mudança das ruas
A mudança da casa destruída
Um câncer sobe as escadas até o cérebro
O que foi feito de todos os mortos?
O que foi feito de todos aqueles chapéus que adornavam as cabeças e os pensamentos nos anos vinte?
Lisboa no meu som
Sempre a mesma ladainha na guitarra de DEUS.
E eu tenho pena de DEUS e de sua solidão
Por isso entendo seu rancor e sua crueldade
DEUS nunca dormiu no seio de uma mulher
No lugar de flores macias recebemos plantas carnívoras
A casa será demolida
Grãos de areia refletem a luz da lua
DEUS é a aventura
Tudo é o mesmo sempre
Viver é arrancar sangue-sugas do pau.
O mar é tão profundo!
E eu me perco de você.
Eu me perco sempre.

terça-feira, 21 de julho de 2009

GO

(ALGUÉM AÍ SE SENTE COMO EU?)

Você é livre pra viajar
Você é livre pra curtir a noite e os bares
Você é livre pra beijar e pra foder
Afinal de contas a boceta é mesmo sua
Você é livre pra aprender inglês ou esperanto
Você é livre pra escrever talvez com s
E esquecer os pequenos detalhes e ritos que constroem um amor e uma história
Você só não é livre pra levar na carteira todo amor que havia nos meus olhos
Não é livre pra fazer (como já fez) piada do meu desespero
Não é livre pra sonhar sozinha ou acompanhada os sonhos que sonhamos juntos:
O filho de pé no quintal
Os quadros na parede da sala
O padre e suas bençãos feito o cobertor de um amor normal
Assim como o amor dos teus pais
Assim como o amor dos meus pais

Fica de tudo a enchente desse teu vestido vermelho

Enquanto eu,
do meu lado,
recolho a matéria clara que restou do teu gozo
E fabrico lãminas que decapitam
E as cordas negras que engravatam os suicidas

Entre nosso futuro ergue-se um muro maravilhoso...

A ALQUIMIA E O BOI

AINDA ME TRANSFORMO EM BOI
E AÍ ENFRENTAREI A BREVIDADE DA VIDA
E A FALTA DE SENTIDO DE TUDO MASCANDO CAPIM
E BABANDO PELOS CANTOS DA BOCA
ALÉM DISSO, OS CHIFRES SERÃO MEROS ADEREÇOS
E NÃO PROVOCARÃO MAIS TANTA DOR
NEM ESTE ÍMPETO DE SUICIDAR-ME