sexta-feira, 3 de julho de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 3

2.

A menina entrou no bosque escuro e...

... nunca mais saiu.

3.


De repente a gente abre os olhos, as narinas, os ouvidos, os sentidos, enfim, e está no meio da merda, no cerne dela, da merda, como aliás sempre esteve. Eu poderia ficar aqui agora tentando enxergar o lado bom das coisas, como sempre fazem os mais otimistas. Mas estou cheia. Não quero mais brincar. Não tenho mais paciência pra ficar vendo flores no meio desta porcaria toda.
Às vezes sinto como se estes braços, estas pernas, estes olhos não fizessem parte de mim. Vou ao espelho e presto bem atenção em mim e me toco pra ter certeza de que me sou. Mas nem assim consigo ter certeza de que estou dentro dessa carne toda. É como se uma parte, pequena, de mim estivesse dentro do meu corpo e a outra parte, a grande, estivesse distante, longe, olhando essa parte que se observa em frente ao espelho. Levanto os braços, fecho as pálpebras, dou pequenos saltos, danço e nem assim chego a ter certeza de que me sou inteira. Sou quase uma desconhecida de mim mesma. Puxa vida! Pelo menos posso abrir a torneira a qualquer momento e pôr os braços, a cabeça embaixo da água corrente. Não resolve, mas alivia um pouco. Meu espírito esperneia, se é que o espírito tem pernas, por só poder ser através dessa carne suja, imunda.
No começo havia o som de piano e aquela voz grave que me dizia coisas e eu era criança. 2002? 2001? 2000? Não antes, muito antes disso. 1999? 1998? 1997? Ainda não, caranguejos marcham pra trás na areia da praia: um exército. 1996? 1995? 1994? Sim, agora, sim, acho que a primeira vez que a voz veio acompanhar o piano foi em 1994. Foi impossível ficar calada. Sim. Estou sentada num banco de concreto no meio do pátio da escola. É um dia frio, cinza. Sinto medo. Estou sozinha, todas as outras crianças já foram embora, estão em suas casas brincando de boneca, de casinha, nunca gostei de brincar de casinha, estão jogando bola, bolinha de gude, soltando pipa. Será que é tempo de pipa? E eu ainda estou aqui. É por causa da música na minha cabeça. Sim. Disse coisas horríveis à professora. Mas foi a voz, a música que me fez gritar as coisas. Sim. Além do mais eu a vi, de noite, dentro do meu sonho, a professora, ela mesma, num carro vermelho, fazendo coisas com um cara de bigodes pretos. Mas não foi de noite que a música veio e insistiu pra que eu dissesse as coisas que tinha visto. Foi agora, há pouco, que ela, a música, veio. E ela, a professora não a música, nunca gostou de mim. Tem nojo de mim, me acha parecida com uma lesma, quando a gente joga sal em cima. É por causa dessa minha pele amarela, branca, transparente: transparente, mas suja. É por causa dessa gordura gosmenta que se junta embaixo da minha pele amarela. Suja. A professora é tão bonita!Tão mulher! Posso vê-la agora, enquanto escrevo. É tão bonita! Mas em 1994, durante a aula, os sons na minha orelha, dentro da minha cabeça, me azucrinam. Música imperativa. Gritei no meio da sala de aula as coisas que a professora andava fazendo, no meu sonho, com o cara de bigodes, dentro do carro vermelho. Agora estou esperando minha mãe sair. Ela está lá dentro. Sim. Na sala da diretora, junto com a professora. Estão me fritando. Minha mãe é brava e branca. Ela também parece uma lesma. E no queixo dela tem uns fiapos grossos de barba que ela vive arrancando com a pinça de noite, mas que sempre voltam. Acho que vou apanhar. Sim. Uma bela surra. Quando ela sair lá de dentro vai me dar logo um baita de um beliscão no braço e dizer: “quando a gente chegar lá em casa você vai ver”. E aí, quando a gente chegar em casa, ela irá até o pé de manga que nunca deu uma manga sequer, só serve mesmo é pra fornecer os cipós com os quais ela me bate. Quando eu crescer vou arranjar um machado e arrancar esse pé de manga, bem perto da raiz e no toco que sobrar ainda vou colocar fogo. Sim. Mas por enquanto o pé de manga vai estar lá. Ela vai arrancar o cipó e me mandar ir tomar banho. Depois, quando eu estiver pelada no banheiro, ela vai bater na porta, mandando que eu a abra. “Espera um pouco mãe que eu tou pelada”. “Abre já está porta”. “Mas mãe é só um minuto”. “ AGORA!” Então eu abro a porta. Mal tenho tempo de destravar o trinco. Ela mete o pé com tudo na porta. Levanta o cipó e... vrrrrrrrruuuuuummm... Eu vou acabar deixando-a doente de tanto desgosto... Eu não valho mesmo nada... O que é que ela fez pra eu magoá-la tanto... vrrrrrrrrrruuuuuuummmmm... ela não sabe! Vvvvvvvvvrrrrrrrrrrrrrrrrruuuuuuuuummmmm... onde o cipó bate, logo cresce um vergão negro, feito uma lagarta... Ninguém merece uma filha assim... A filha de fulana é tão boa! A de cicrana então é ainda melhor! Só eu é que não presto. Eu, essa massa de carne flácida e branca. Pareço uma porca. Só sei fungar. Comer de boca aberta. Sim. Minha carne é flácida. Sou uma porca. Uma porca imensa. Sim. Pareço um verme gigante. Uma lesma. Uma coisa medonha! O que ela fez pra ter uma filha que nem eu, Jesus!?! Logo ela, uma serva tão fiel! No final, quando o couro tiver acabado, ela vai me mandar tomar um banho e ver se lavo bem os pés e as orelhas, eu, a porca. Sim. Vai acender um cigarro. Deve ter gozado a filha da puta. Está esgotada, cansada, fuma devagar, sorvendo bem a fumaça. As estátuas dos santos pela casa estão cobertas com panos roxos. Abro o chuveiro. “Isto é só o começo, quando o seu pai chegar é que você vai ver o que é bom”. Diz. Aí eu passo o resto do dia pensando na outra surra. O bom é que nessas horas a música na minha cabeça é bem calma. Ajuda a suportar um pouco. A tardinha chega o outro. O que o deixa passado é o meu silêncio. Quer que eu chore, que peça perdão, clemência, que me arrependa, que peide, sei lá. São iguais, os dois. A única diferença é que uma gosta da natureza, prefere os cipós, se não fosse tão burra acho até que faria parte do greenpeace. O outro gosta mais do cinto de couro, não está nem aí pra natureza.
Continuo sentada. Enfim ela sai da sala da diretora. Lá vem. Sim. Bufando com a carona vermelha. Fungando. A professora e a diretora vêm junto. Sinto vontade de correr. Entrar de vez pra dentro da minha cabeça grande e ficar lá, quieta... ouvindo a música.
Pararam na porta. Estão me olhando. Conversam e me olham. Sinto meu estômago virar, doer, embrulhar. Não agüento mais. Vou acabar vomitando em cima delas. Se pelo menos eu fosse invisível! O banco continua frio, mas eu suo muito. Despedem-se. A diretora sente pena de minha mãe. Ninguém merece uma filha como eu. Todos os alunos já sabiam escrever e eu mal copiava o meu próprio nome. Ficava o tempo todo contando aquelas histórias idiotas. Eu não valia mesmo a pena... às vezes queria morrer.
Lá vem. Primeiro o beliscão... A boca se abre no meio da cara branca e gorda... Os fiapos de barba sob o queixo... “Quando a gente chegar em casa você vai ver!” Quase vomito, mas prendo a respiração. Sim.

terça-feira, 30 de junho de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 2

O essencial do diário não é ser secreto. O essencial do diário é que se escreva nele todos os dias. Não sei se isto é ou será um diário e muito menos se será secreto. Memória? Também não. É que não gosto de datas e nem me importo com a ordem das coisas, não me preocupo mais. A única coisa importante é continuar lembrando, escrevendo. Sempre e sempre. Porque escrever é um jeito de estar só e, ao mesmo tempo, acompanhada. Porque escrever é vingança e perdão, é esvaziamento e mudança, é sangue e inutilidade, é um meio de ouvir Nirvana e Beethoven, mesmo sem estar ouvindo Beethoven e Nirvana. É um jeito de dançar. Agora não escrevo, DANÇO. Entre as linhas. Entre as letras. Quer dançar comigo? Não venha tão desarmado, não sou mais tão criança. Os relâmpagos em vez de me amedrontarem deixam-me arrepiada. Sinto-os dentro de mim. Dentro do couro. Atrás da pele. Como se eu os tivesse engolido e eles ficassem brincando dentro de mim. Não sou mais tão criança... mas, às vezes, me sinto tão triste e há noites em que o vento sopra tão forte e faz tanto barulho lá fora. (P A I) perdoa-me porque pequei. Estou com o braço marcado escondido pela blusa e a porta do quarto está trancada há dias (P A I) entretanto ainda não me sinto segura. (P A I) perdoa-os, eles também não sabem o que fazem. Acendo um cigarro e fico observando como a fumaça vai embora fácil pela janela, fico observando como ela, a fumaça, brinca entre meus dedos, feito os dias, feito os anos, feito as luzes dos carros lá fora, subindo pela rodovia. Tudo parece tão claro agora! (P A I). Evito olhar pra parede onde teu retrato atlético (P A I) me recrimina e me tortura, talvez por causa do cigarro, talvez por causa de tudo. Sigo o fumo e escrevo. Esta evanescença é o único caminho. Peço perdão sim, mas estou pronta para morrer a qualquer momento (P A I) eu queria amor assim... porque este tipo de amor que o senhor me tem não dá certo... Fica então como ontem eu escrevi...
FADO, FADO.

A dor é necessária.

Estou morta e dôo,
Mas caminho entre as flores
E colho as crianças que brotam nos cantos do caminho.
Com minhas mãos translúcidas.
Já é algo.
Fuga entre jazigos.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 1

NOTA DO EDITOR.

O presente relato nos caiu em mãos em meados do ano de 2003. Logo que o encontramos, encaminhamos cópia à polícia civil do Estado de São Paulo que tratava do caso naquele momento. Hoje, muito tempo após o crime, e até porque o mesmo continua sem solução, resolvemos publicar este obscuro texto, que acreditamos valer não só pela contundência de seu conteúdo, como também por sua farta riqueza simbólica e por lançar, quem sabe, luz sobre aspectos psicológicos desta estranha família brasileira. O texto que se segue é publicado na integra, do mesmo modo como nos chegou em mãos, não há nele qualquer corte ou acréscimo, exceto os nomes que foram omitidos ou modificados para preservar a identidade dos envolvidos. A separação em capítulos corresponde a um esquema de separação que havia no próprio manuscrito, alguns trechos estavam digitados em folhas à parte, mas dobrados e colocados em diversas partes do diário, procuramos inseri-los no corpo do texto da melhor maneira possível.

sábado, 27 de junho de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA

MANCHETES RETIRADAS DOS PRINCIPAIS JORNAIS DE SÃO PAULO NO PRIMEIRO SEMESTRE DE 2003.


“FAMÍLIA MORRE ENVENENADA APÓS COMER MOUSSE DE MORANGO, APENAS FILHA ESCAPA.”

“PARA POLÍCIA, ASSASSINO QUERIA MATAR TODA A FAMILIA E SUICIDAR-SE.”

“MÉDICO ENVENENADO ESTAVA ENVOLVIDO COM SEITA SATANICA.”

“POLICIA INVESTIGA E-MAILS DA FAMÍLIA ENVENENADA.”

“EXAME APONTA METAL PESADO NO CORPO DA JOVEM .”

“POLÍCIA QUER LAUDOS NO CASO DE FAMÍLIA ENVENENADA.”

“ HAVIA ARSÊNICO NO MOUSSE, AFIRMA O INVESTIGADOR.”

“FAMÍLIA ENVENENADA: SUSPEITA DE ABUSO SEXUAL.”

“MÉDICOS AFIRMAM QUE A ADOLESCENTE ESTAVA GRÁVIDA.”

terça-feira, 12 de maio de 2009

BILHAR

Cerveja pela metade.
Última tacada.
Bola quinze na caçapa do canto direito.
E o coração pergunta:
- Como pode o verde da mesa ter entrado nos teus olhos, menina?

(texto mais antigo)

domingo, 3 de maio de 2009

RISO APUNHALADO

Para Luís e João Silvério Trevisan

Submarino amarelo. É na profundeza escura das águas que se encontram as paixões mais espanholas... Espanha dos meus desejos tão distantes... Submarino amarelo, e a maioria deles não são mais que canoas flutuando na superfície dos afetos. Eu não... eu não me importo de me perder nas profundezas, não sou mesmo como você, que cria o amor como um bicho entre grades. Eu bem sei que eles te rejeitaram. Eu bem sei que você esconde um crisântemo violentado na lapela. Eu bem sei dos preconceitos injetados no teu falo e no teu ânus. Menino de ferro. Liberdade encarcerada dos teus vinte e poucos anos. De onde você se esconde pode ver as estrelas? Deus dos deslocados tende piedade daqueles que atravessam a vida inteira sem amor. Deus dos deslocados tende piedade daqueles que atravessam a vida sem poder dar amor. Escondem-se em escafandros e armaduras, mas no cerne do metal implantaram um coração vermelho que pulsa e pulsa. E o que se faz com isso, hein? Escarros do peito podre de meu pai fabricando a aurora e todos aqueles tios e primos gritando da margem da manhã que se iniciava:
- Joga ele no meio do rio que é pra aprender a ser homem.
Isso enquanto eu tentava, e pra minha sorte conseguia, sair do meio da correnteza. É doloroso recordar o esperma verde do fundo envolvendo feito membrana a pele dos meus pés. Mas sou forte e a superação é o trigo com que fabrico o pão cotidiano.
- Eu vou ser homem, mas jamais vou ser um homem como vocês. Eu disse.
Tudo isso me volta agora. Submarino amarelo dentro de mim. Talvez você não esteja preparado para passar o que as pessoas como nós têm de passar. Talvez você não esteja preparado para o escarro e o estrume. O crime é uma forma de se revoltar contra o que nos oprime por dentro. Se esse mundo não me quer, eu também não o quero. É isso ou estou errado? Sei que é duro ter de ficar o tempo todo provando que também se é humano. Às vezes cansa. Às vezes dá no saco. Sei que é duro, meu pequeno, entretanto, esqueça um pouco o mundo e sua dor, enquanto mergulha todas essas angústias que você leva por dentro no meu corpo gordo. É fato que jamais seremos felizes. É fato que nos tornaremos alcoólatras... Drogados... Criminosos. É fato que o amor não vai nos salvar nesta terra. Deixa, porém, isto tudo de lado nestes poucos minutos em que criamos a nossa fantasia de amor e brindamos o que sentimos sem champagne, mas inebriados de pinga de cadeia. Submarino amarelo. Forever.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

O SAL DAS LÁGRIMAS

Para o meu amigo Serginho,
porque nunca me esqueci de todos aqueles dias.
" Na praça vazia um grito, um aí."
Milton Nascimento e Fernando Brant
O Astrólogo gostava de beber. O Astrólogo gostava muito de beber. Eu também gostava, mas o Astrólogo gostava muito mais que eu. Eu andava triste e passava a maior parte do tempo no meu canto, observando tudo. Desde pequeno que eu gostava de ficar no meu canto. Desde pequeno que as pessoas diziam que eu era um esquisito. O astrólogo também ficava no canto dele, atrás da banca de jornal da praça. Tinha um amor mal-sucedido, o Astrólogo, no entanto esse amor tinha dado errado havia mais de trinta anos, mesmo assim ele continuava cultivando a tristeza como quem cultivas flores num jardim. Quando estava bêbado, o Astrólogo gostava de jogar o seu tarô sobre um pano muito branco que ele guardava não sei bem onde. Quando estava muito bêbado, ele cantava canções do Roberto Carlos e ficava com os olhos brilhantes e até as rugas da face dele desapareciam. Era um negócio meio mágico. Acho que só tinha uma coisa que o Astrólogo gostava mais do que da bebida, do ocultismo e do Roberto Carlos. Não... não era do seu amor fracassado, era de um cachorro Vira-Latas, marrom e branco, branco não, amarelo, porque a sujeira era muita, que ele trazia sempre ao pé de si. Agora não consigo me lembrar do nome do Vira-Latas. Sei que quando conseguia um torresmo, um salgado, ou um churrasquinho, o Astrólogo sempre dividia com o seu cão, contudo a divisão nunca era feita em duas partes iguais. Uma parte sempre ficava maior que a outra. A parte grande era do cachorrinho, a menor era do Astrólogo, que demorava mais de meia-hora pra comer até migalha de pão. Dizia que não precisava de alimento, vivia por meio da natureza e da força dos astros.

Quem não gostava muito do cachorro do Astrólogo era o Chinês, dono da lanchonete onde costumávamos beber. Era o bicho pôr as patas no boteco que logo vinha o Chinês praguejando em sua língua, ou na nossa, com uma caneca, dessas de fazer café, cheia de água pra jogar no bicho e no dono também, se qualquer dos dois bobeasse.

Vivíamos assim.

Até que um dia, o Astrólogo, milagrosamente, me pagou uma cerveja. Estava com dinheiro. Fiquei imaginando onde ele tinha arranjado a grana, porque ele me mostrou o maço de notas e era muita grana. As pessoas da lanchonete disseram que um artista muito famoso (eu também era artista, mas estava escrito nas cartas que eu nunca seria famoso) tinha vindo de muito longe pra fazer um mapa com ele e o tal artista tinha dado toda aquela pacoteira pra ele, pois as previsões eram positivas, mas não eram inventadas. Havia muita verdade em tudo o que ele, o Astrólogo, fazia em relação ao seu trabalho. Como diz o ditado, ele não brincava em serviço. Trabalhando, até sua fisionomia se tornava mais austera.

Voltando à lanchonete... o que sei é que bebi naquela noite até o apagamento. O Astrólogo continuou bebendo até o apagamento por mais três dias e três noites. Já disse que ele gostava de beber. Quando pude me curar da ressaca e retornar ao meu banco na lanchonete, me disseram que o Astrólogo estava internado no Hospital Municipal. A força dos astros não tinha sido o suficiente dessa vez e os médicos tiveram que fazer seu trabalho com a glicose e o soro habitual. Fiquei por ali com uma cerveja aberta, sem fazer nada, olhando as coisas e as pessoas como sempre fazia, até que reparei no Vira-Latas do Astrólogo atravessando a rua. Senti pena do cão. Como seria que ele estava se virando sem seu dono e o alimento que dele provinha? Chamei o bicho estalando os dedos e joguei o resto de um bolinho de ovo que tinha nas mãos para o animal. Nesse dia era a Chinesa e não o Chinês quem atendia no balcão. O Chinês estava fazendo os salgados lá pra dentro e, quando vinha trazendo uma bandeja recheada de quibes, e viu o cão dentro de seu estabelecimento, o homem ficou doido. Largou os salgados sobre o balcão e, sempre resmungando em seu idioma indecifrável, correu outra vez pra dentro da cozinha. Eu ainda estava rindo, como todo mundo dentro da lanchonete, quando o Chinês veio correndo com um tacho cheio de óleo quente e jogou inteiro no rosto do Vira-Latas do Astrólogo.

O animal atravessou a rua correndo e foi se esconder nos trapos do seu dono, atrás da banca de jornal, chorando de um jeito que eu nunca tinha visto nenhum ser vivo chorar até então. As pessoas dentro do bar ameaçaram espancar o Chinês. Confesso que até eu mesmo senti vontade de arrebentar com a cara do filho da puta, mas me lembrei dos Beatles e de John Lennon, vai saber porque, e resolvi dar uma chance à paz. O fato é que acabei salvando a pele do China. Porque não era bobo nem nada, assim que pôde o oriental baixou as portas e desapareceu com sua esposa. Não sei se chegou a perceber o tamanho da merda que tinha feito.

***

Eu estava comprando cigarros, uns dois dias depois do incidente do óleo, na banca de jornal, porque agora eu não entrava mais na lanchonete do Chinês, quando avistei o Astrólogo atravessando a praça. Senti um aperto no coração. Ele tinha acabado de sair do hospital. Estava até mais corado, só que, quando viu seu cachorro, esse homem desmoronou. Caiu no chão e chorou ainda mais dolorido que seu animal. Os pêlos da minha barba e do meu corpo inteiro se arrepiaram. Eu estava diante do supra-sumo, do caldo da dor. O homem não gritava, não falava, não reclamava, mas perdia o ar como um menino de dois anos quando chora demais. Era um sofrimento de trincar os ossos e quebrar os dentes. Ali, agarrados, os dois choravam juntos, mas se consolovam, se entendiam, esfregavam seus corações dilacerados um no outro, porque sabiam que um compreendia o que o outro estava sentindo. E o Vira-Latas dizia ao seu dono:
- Vamos não chore, eu vou ficar bem.
E o Astrólogo dizia ao seu cão:
- Vamos, não chore, eu vou cuidar de você.
Entretanto, ambos continuavam chorando e se abraçando.
Há sal demais nas lágrimas. Até nas minhas. Devo confessar que também chorei. Chorei pelos bichos e pelos homens e pelos filhos dos bichos e pelos filhos dos homens, que se arrebentam mutuamente sobre a crosta dessa ferida aberta em busca de alimento. Chorei por Vincent Van Gogh, sofrendo com uma bala encravada no peito uns duzentos anos atrás. Chorei pelo Théo que morreu sem ver o sucesso do irmão. Chorei pela insanidade de tudo e por mim também que nunca seria uma artista de verdade. Quando começou a juntar gente pra ver e caçoar ou se compadecer, eu fui embora.

Dias depois voltei até à praça onde tudo o que estou contando aconteceu e soube que o cachorro ia sobreviver e que o Astrólogo não bebia havia mais de uma semana. Tinha de se manter sóbrio pra cuidar de seu bicho, era o que ele e as pessoas diziam. Cheguei a ver os dois sentados juntos sob a luz de um Sol matinal e fresco de abril. Pensei em ir até lá e dizer alguma coisa, mas me calei. Era o melhor a fazer. Fiquei ainda mais um tempo observando os dois irmãos, ou o pai e o filho, ou os dois amigos, ou o que vocês preferirem, conversarem, depois dei as costas e fui-me embora. Pra onde? Nem eu sabia. Eu tinha um boné de maquinista na cabeça e uma mochila nas costas. O emprego tinha ido pras cucuias. Tudo o que me restava era a certeza de que não pertencia mais àquele lugar, embora soubesse que aquele lugar moraria dentro de mim pra sempre. Ponta de areia. Ponto final.