terça-feira, 30 de junho de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 2

O essencial do diário não é ser secreto. O essencial do diário é que se escreva nele todos os dias. Não sei se isto é ou será um diário e muito menos se será secreto. Memória? Também não. É que não gosto de datas e nem me importo com a ordem das coisas, não me preocupo mais. A única coisa importante é continuar lembrando, escrevendo. Sempre e sempre. Porque escrever é um jeito de estar só e, ao mesmo tempo, acompanhada. Porque escrever é vingança e perdão, é esvaziamento e mudança, é sangue e inutilidade, é um meio de ouvir Nirvana e Beethoven, mesmo sem estar ouvindo Beethoven e Nirvana. É um jeito de dançar. Agora não escrevo, DANÇO. Entre as linhas. Entre as letras. Quer dançar comigo? Não venha tão desarmado, não sou mais tão criança. Os relâmpagos em vez de me amedrontarem deixam-me arrepiada. Sinto-os dentro de mim. Dentro do couro. Atrás da pele. Como se eu os tivesse engolido e eles ficassem brincando dentro de mim. Não sou mais tão criança... mas, às vezes, me sinto tão triste e há noites em que o vento sopra tão forte e faz tanto barulho lá fora. (P A I) perdoa-me porque pequei. Estou com o braço marcado escondido pela blusa e a porta do quarto está trancada há dias (P A I) entretanto ainda não me sinto segura. (P A I) perdoa-os, eles também não sabem o que fazem. Acendo um cigarro e fico observando como a fumaça vai embora fácil pela janela, fico observando como ela, a fumaça, brinca entre meus dedos, feito os dias, feito os anos, feito as luzes dos carros lá fora, subindo pela rodovia. Tudo parece tão claro agora! (P A I). Evito olhar pra parede onde teu retrato atlético (P A I) me recrimina e me tortura, talvez por causa do cigarro, talvez por causa de tudo. Sigo o fumo e escrevo. Esta evanescença é o único caminho. Peço perdão sim, mas estou pronta para morrer a qualquer momento (P A I) eu queria amor assim... porque este tipo de amor que o senhor me tem não dá certo... Fica então como ontem eu escrevi...
FADO, FADO.

A dor é necessária.

Estou morta e dôo,
Mas caminho entre as flores
E colho as crianças que brotam nos cantos do caminho.
Com minhas mãos translúcidas.
Já é algo.
Fuga entre jazigos.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA - 1

NOTA DO EDITOR.

O presente relato nos caiu em mãos em meados do ano de 2003. Logo que o encontramos, encaminhamos cópia à polícia civil do Estado de São Paulo que tratava do caso naquele momento. Hoje, muito tempo após o crime, e até porque o mesmo continua sem solução, resolvemos publicar este obscuro texto, que acreditamos valer não só pela contundência de seu conteúdo, como também por sua farta riqueza simbólica e por lançar, quem sabe, luz sobre aspectos psicológicos desta estranha família brasileira. O texto que se segue é publicado na integra, do mesmo modo como nos chegou em mãos, não há nele qualquer corte ou acréscimo, exceto os nomes que foram omitidos ou modificados para preservar a identidade dos envolvidos. A separação em capítulos corresponde a um esquema de separação que havia no próprio manuscrito, alguns trechos estavam digitados em folhas à parte, mas dobrados e colocados em diversas partes do diário, procuramos inseri-los no corpo do texto da melhor maneira possível.

sábado, 27 de junho de 2009

MEU MARFIM QUE SANGRA

MANCHETES RETIRADAS DOS PRINCIPAIS JORNAIS DE SÃO PAULO NO PRIMEIRO SEMESTRE DE 2003.


“FAMÍLIA MORRE ENVENENADA APÓS COMER MOUSSE DE MORANGO, APENAS FILHA ESCAPA.”

“PARA POLÍCIA, ASSASSINO QUERIA MATAR TODA A FAMILIA E SUICIDAR-SE.”

“MÉDICO ENVENENADO ESTAVA ENVOLVIDO COM SEITA SATANICA.”

“POLICIA INVESTIGA E-MAILS DA FAMÍLIA ENVENENADA.”

“EXAME APONTA METAL PESADO NO CORPO DA JOVEM .”

“POLÍCIA QUER LAUDOS NO CASO DE FAMÍLIA ENVENENADA.”

“ HAVIA ARSÊNICO NO MOUSSE, AFIRMA O INVESTIGADOR.”

“FAMÍLIA ENVENENADA: SUSPEITA DE ABUSO SEXUAL.”

“MÉDICOS AFIRMAM QUE A ADOLESCENTE ESTAVA GRÁVIDA.”

terça-feira, 12 de maio de 2009

BILHAR

Cerveja pela metade.
Última tacada.
Bola quinze na caçapa do canto direito.
E o coração pergunta:
- Como pode o verde da mesa ter entrado nos teus olhos, menina?

(texto mais antigo)

domingo, 3 de maio de 2009

RISO APUNHALADO

Para Luís e João Silvério Trevisan

Submarino amarelo. É na profundeza escura das águas que se encontram as paixões mais espanholas... Espanha dos meus desejos tão distantes... Submarino amarelo, e a maioria deles não são mais que canoas flutuando na superfície dos afetos. Eu não... eu não me importo de me perder nas profundezas, não sou mesmo como você, que cria o amor como um bicho entre grades. Eu bem sei que eles te rejeitaram. Eu bem sei que você esconde um crisântemo violentado na lapela. Eu bem sei dos preconceitos injetados no teu falo e no teu ânus. Menino de ferro. Liberdade encarcerada dos teus vinte e poucos anos. De onde você se esconde pode ver as estrelas? Deus dos deslocados tende piedade daqueles que atravessam a vida inteira sem amor. Deus dos deslocados tende piedade daqueles que atravessam a vida sem poder dar amor. Escondem-se em escafandros e armaduras, mas no cerne do metal implantaram um coração vermelho que pulsa e pulsa. E o que se faz com isso, hein? Escarros do peito podre de meu pai fabricando a aurora e todos aqueles tios e primos gritando da margem da manhã que se iniciava:
- Joga ele no meio do rio que é pra aprender a ser homem.
Isso enquanto eu tentava, e pra minha sorte conseguia, sair do meio da correnteza. É doloroso recordar o esperma verde do fundo envolvendo feito membrana a pele dos meus pés. Mas sou forte e a superação é o trigo com que fabrico o pão cotidiano.
- Eu vou ser homem, mas jamais vou ser um homem como vocês. Eu disse.
Tudo isso me volta agora. Submarino amarelo dentro de mim. Talvez você não esteja preparado para passar o que as pessoas como nós têm de passar. Talvez você não esteja preparado para o escarro e o estrume. O crime é uma forma de se revoltar contra o que nos oprime por dentro. Se esse mundo não me quer, eu também não o quero. É isso ou estou errado? Sei que é duro ter de ficar o tempo todo provando que também se é humano. Às vezes cansa. Às vezes dá no saco. Sei que é duro, meu pequeno, entretanto, esqueça um pouco o mundo e sua dor, enquanto mergulha todas essas angústias que você leva por dentro no meu corpo gordo. É fato que jamais seremos felizes. É fato que nos tornaremos alcoólatras... Drogados... Criminosos. É fato que o amor não vai nos salvar nesta terra. Deixa, porém, isto tudo de lado nestes poucos minutos em que criamos a nossa fantasia de amor e brindamos o que sentimos sem champagne, mas inebriados de pinga de cadeia. Submarino amarelo. Forever.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

O SAL DAS LÁGRIMAS

Para o meu amigo Serginho,
porque nunca me esqueci de todos aqueles dias.
" Na praça vazia um grito, um aí."
Milton Nascimento e Fernando Brant
O Astrólogo gostava de beber. O Astrólogo gostava muito de beber. Eu também gostava, mas o Astrólogo gostava muito mais que eu. Eu andava triste e passava a maior parte do tempo no meu canto, observando tudo. Desde pequeno que eu gostava de ficar no meu canto. Desde pequeno que as pessoas diziam que eu era um esquisito. O astrólogo também ficava no canto dele, atrás da banca de jornal da praça. Tinha um amor mal-sucedido, o Astrólogo, no entanto esse amor tinha dado errado havia mais de trinta anos, mesmo assim ele continuava cultivando a tristeza como quem cultivas flores num jardim. Quando estava bêbado, o Astrólogo gostava de jogar o seu tarô sobre um pano muito branco que ele guardava não sei bem onde. Quando estava muito bêbado, ele cantava canções do Roberto Carlos e ficava com os olhos brilhantes e até as rugas da face dele desapareciam. Era um negócio meio mágico. Acho que só tinha uma coisa que o Astrólogo gostava mais do que da bebida, do ocultismo e do Roberto Carlos. Não... não era do seu amor fracassado, era de um cachorro Vira-Latas, marrom e branco, branco não, amarelo, porque a sujeira era muita, que ele trazia sempre ao pé de si. Agora não consigo me lembrar do nome do Vira-Latas. Sei que quando conseguia um torresmo, um salgado, ou um churrasquinho, o Astrólogo sempre dividia com o seu cão, contudo a divisão nunca era feita em duas partes iguais. Uma parte sempre ficava maior que a outra. A parte grande era do cachorrinho, a menor era do Astrólogo, que demorava mais de meia-hora pra comer até migalha de pão. Dizia que não precisava de alimento, vivia por meio da natureza e da força dos astros.

Quem não gostava muito do cachorro do Astrólogo era o Chinês, dono da lanchonete onde costumávamos beber. Era o bicho pôr as patas no boteco que logo vinha o Chinês praguejando em sua língua, ou na nossa, com uma caneca, dessas de fazer café, cheia de água pra jogar no bicho e no dono também, se qualquer dos dois bobeasse.

Vivíamos assim.

Até que um dia, o Astrólogo, milagrosamente, me pagou uma cerveja. Estava com dinheiro. Fiquei imaginando onde ele tinha arranjado a grana, porque ele me mostrou o maço de notas e era muita grana. As pessoas da lanchonete disseram que um artista muito famoso (eu também era artista, mas estava escrito nas cartas que eu nunca seria famoso) tinha vindo de muito longe pra fazer um mapa com ele e o tal artista tinha dado toda aquela pacoteira pra ele, pois as previsões eram positivas, mas não eram inventadas. Havia muita verdade em tudo o que ele, o Astrólogo, fazia em relação ao seu trabalho. Como diz o ditado, ele não brincava em serviço. Trabalhando, até sua fisionomia se tornava mais austera.

Voltando à lanchonete... o que sei é que bebi naquela noite até o apagamento. O Astrólogo continuou bebendo até o apagamento por mais três dias e três noites. Já disse que ele gostava de beber. Quando pude me curar da ressaca e retornar ao meu banco na lanchonete, me disseram que o Astrólogo estava internado no Hospital Municipal. A força dos astros não tinha sido o suficiente dessa vez e os médicos tiveram que fazer seu trabalho com a glicose e o soro habitual. Fiquei por ali com uma cerveja aberta, sem fazer nada, olhando as coisas e as pessoas como sempre fazia, até que reparei no Vira-Latas do Astrólogo atravessando a rua. Senti pena do cão. Como seria que ele estava se virando sem seu dono e o alimento que dele provinha? Chamei o bicho estalando os dedos e joguei o resto de um bolinho de ovo que tinha nas mãos para o animal. Nesse dia era a Chinesa e não o Chinês quem atendia no balcão. O Chinês estava fazendo os salgados lá pra dentro e, quando vinha trazendo uma bandeja recheada de quibes, e viu o cão dentro de seu estabelecimento, o homem ficou doido. Largou os salgados sobre o balcão e, sempre resmungando em seu idioma indecifrável, correu outra vez pra dentro da cozinha. Eu ainda estava rindo, como todo mundo dentro da lanchonete, quando o Chinês veio correndo com um tacho cheio de óleo quente e jogou inteiro no rosto do Vira-Latas do Astrólogo.

O animal atravessou a rua correndo e foi se esconder nos trapos do seu dono, atrás da banca de jornal, chorando de um jeito que eu nunca tinha visto nenhum ser vivo chorar até então. As pessoas dentro do bar ameaçaram espancar o Chinês. Confesso que até eu mesmo senti vontade de arrebentar com a cara do filho da puta, mas me lembrei dos Beatles e de John Lennon, vai saber porque, e resolvi dar uma chance à paz. O fato é que acabei salvando a pele do China. Porque não era bobo nem nada, assim que pôde o oriental baixou as portas e desapareceu com sua esposa. Não sei se chegou a perceber o tamanho da merda que tinha feito.

***

Eu estava comprando cigarros, uns dois dias depois do incidente do óleo, na banca de jornal, porque agora eu não entrava mais na lanchonete do Chinês, quando avistei o Astrólogo atravessando a praça. Senti um aperto no coração. Ele tinha acabado de sair do hospital. Estava até mais corado, só que, quando viu seu cachorro, esse homem desmoronou. Caiu no chão e chorou ainda mais dolorido que seu animal. Os pêlos da minha barba e do meu corpo inteiro se arrepiaram. Eu estava diante do supra-sumo, do caldo da dor. O homem não gritava, não falava, não reclamava, mas perdia o ar como um menino de dois anos quando chora demais. Era um sofrimento de trincar os ossos e quebrar os dentes. Ali, agarrados, os dois choravam juntos, mas se consolovam, se entendiam, esfregavam seus corações dilacerados um no outro, porque sabiam que um compreendia o que o outro estava sentindo. E o Vira-Latas dizia ao seu dono:
- Vamos não chore, eu vou ficar bem.
E o Astrólogo dizia ao seu cão:
- Vamos, não chore, eu vou cuidar de você.
Entretanto, ambos continuavam chorando e se abraçando.
Há sal demais nas lágrimas. Até nas minhas. Devo confessar que também chorei. Chorei pelos bichos e pelos homens e pelos filhos dos bichos e pelos filhos dos homens, que se arrebentam mutuamente sobre a crosta dessa ferida aberta em busca de alimento. Chorei por Vincent Van Gogh, sofrendo com uma bala encravada no peito uns duzentos anos atrás. Chorei pelo Théo que morreu sem ver o sucesso do irmão. Chorei pela insanidade de tudo e por mim também que nunca seria uma artista de verdade. Quando começou a juntar gente pra ver e caçoar ou se compadecer, eu fui embora.

Dias depois voltei até à praça onde tudo o que estou contando aconteceu e soube que o cachorro ia sobreviver e que o Astrólogo não bebia havia mais de uma semana. Tinha de se manter sóbrio pra cuidar de seu bicho, era o que ele e as pessoas diziam. Cheguei a ver os dois sentados juntos sob a luz de um Sol matinal e fresco de abril. Pensei em ir até lá e dizer alguma coisa, mas me calei. Era o melhor a fazer. Fiquei ainda mais um tempo observando os dois irmãos, ou o pai e o filho, ou os dois amigos, ou o que vocês preferirem, conversarem, depois dei as costas e fui-me embora. Pra onde? Nem eu sabia. Eu tinha um boné de maquinista na cabeça e uma mochila nas costas. O emprego tinha ido pras cucuias. Tudo o que me restava era a certeza de que não pertencia mais àquele lugar, embora soubesse que aquele lugar moraria dentro de mim pra sempre. Ponta de areia. Ponto final.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

PIANISTA BOXEADOR

Sempre gostei de rosas vermelhas!

Difícil é te explicar porque foi que eu resolvi escrever depois de tanto tempo. Tudo parece tão absurdo que eu não consigo sequer imaginar um meio de começar a te contar. Talvez pelo início seja o melhor meio, mas é difícil também saber onde e quando tudo se iniciou. Vou começar então por onde a gente terminou. Naquela manhã chuvosa de domingo em que te perdi pra sempre. Talvez tudo tenha começado exatamente naquele momento, quando comecei a descer as escadas pra fugir do teu quarto e continuei a descê-las, mesmo quando cheguei ao porão. E continuei a descê-las, mesmo quando não havia mais escadas e eu arranquei as lajotas com as mãos e continuei a cavar e a descer até me embrenhar entre os vermes, longe das flores. Você sabe, sempre gostei de rosas vermelhas, embora aqui embaixo nunca tenha havido muitas delas.

Quando saí da sua casa naquele dia percebi que não havia mais jeito, que não havia mais um meio de voltar àquele passado onde havíamos sido felizes, porque eu, sempre eu, tinha destruído tudo outra vez e, dessa vez, eu o sentia, era pra sempre. Então fugi. Abandonei os ringues, as luvas vermelhas, o cinturão de campeão brasileiro de boxe, categoria peso pesado. Então fugi e abandonei os pequenos palcos e o meu piano branco, e quebrei meus discos de vinil forte, e decidi que rolaria no estrume até onde minha alma pudesse suportar.

Voltei pro crime. Você sabe que eu tenho habilidade pra isso. Retornei também ao pó que sempre me fez subir, mas que também já me passou rasteiras imensas. Estava sujo outra vez, mais sujo que nunca. Entretanto, no panorama negro da noite, entre cartas de baralho, carreiras, copos sujos de vodka, de conhaque e homens que atiravam com a mesma espontaneidade com que sorriam, muitas vezes me vinha nítida aos olhos a tua figura. Então eu me levantava no meio do jogo e tudo, e corria pra tentar tocar teus cabelos sempre amarelos e soltos, mas, quando chegava perto e tocava, só havia a noite, quente e densa. Aí eu voltava pra mesa e sorria e meus companheiros, todos tão subterrâneos e brutos, alguns até mais subterrâneos e brutos que eu, aconselhavam-me para que parasse com o pó e deixasse um pouco o conhaque e a vodka de lado. Mas eles não entendiam que eu estava decidido. Não entendiam que nós havíamos sido crianças juntos. Você se lembra de quando me emprestava sua bicicleta verde e, à noite, brincávamos de pega-pega até nossas mães nos buscarem furiosas? Às vezes você ia na bicicleta e eu ia a pé, outras vezes eu ia na bicicleta e você ia a pé. As mães ainda existiam naquela época. Mas agora não há mais mães. Agora está tudo fora de lugar e eu apunhalei meu anjo, esqueci de Jesus, da nossa professora de catecismo. TE PERDI PRA SEMPRE!

***

Arquitetar crimes não é como compor canções, ou estudar um adversário no quadrilátero. Arquitetar crimes tem segredos e idiossincrasias específicas. Eu elaborei assaltos perfeitos. Transportei drogas em lugares que ninguém jamais poderia imaginar. Mas um dia falhei. Lembra do grande roubo a agência central do Banco do Brasil? Fui ferido. Na barriga.Quase morri, mas os anjos do mal que comigo andavam conseguiram um médico que aceitou me operar, mesmo num barraco de madeira podre onde a noite entrava por todos os lados, entre as frestas. Sobrevivi. Ganhei uma cicatriz imensa na barriga e algumas dezenas de rugas em cantos do rosto onde a barba não pode encobrir.

Estava novamente de pé, na noite, e novamente o pó me acolheu e me levantou. Por pura maldade atirei num cachorro branco que latia à noite na rua Guaianases. Atirei também em alguns dos que se esforçaram pra me salvar. Não pelo egoísmo de ficar com todo o dinheiro, mas pelo simples gosto da traição, da mais vil traição. Quando era pequeno também fiz desaparecer a aliança do teu padrasto, isto mesmo, fui eu quem roubou a aliança, e você apanhou até que na sua pele brotasse imensos vergões negros, feito lagartas. Você sabe... sempre gostei de rosas vermelhas.

Mas vivemos sob as chagas de Cristo e às vezes, sempre na noite, eu chorava. Chorava pela loucura e o mal que usavam meu corpo, minha mente, meus braços. Chorava pelo pai que nunca tive. Chorava pelo nosso bebê que eu fiz você arrancar da barriga. Chorava por todos os crimes que havia cometido e por todos que sabia que ainda iria cometer. Chorava por ter ferido você, o anjo que perdi pra sempre. Longe de você, das luvas, das teclas, toda energia boa ou má que existia em mim e que poderia se transformar num beijo terno, num bom cruzado no ringue ou numa canção bonita se tornava atos vis e criminosos.

Mas vivemos sob as chagas de Cristo e um dia, quando eu me sentia superior e imortal, senti brotar na minha barriga, ao lado da cicatriz da operação, um pequeno nódulo, talvez o primeiro sinal de uma inflamação. A princípio não dei atenção alguma, apenas continuei, na noite. Só que, quando amanheceu, eu vi que o nódulo havia explodido e que de dentro dele, além do pus, saía um pequeno pedaço de tecido vermelho. Tinha textura delicada, o tecido, parecia camurça, mas, por incrível que pareça, era ainda mais macio que a mais macia das camurças.

Ó Deus, por que não fugimos pro meio do mato enquanto ainda era tempo? Por que não fizemos uma casinha simples, no pé de uma serra onde nas janelas houvesse cortinas brancas, como se todas elas, as janelas, estivessem usando vestidos de noiva? Por que?

Agora é tarde, porque aquele pequeno pedaço de tecido que brotou na minha barriga, aos poucos, foi crescendo. E até que era bonito, mas o pus continuava a correr o tempo todo junto a ele e, Deus, como doía. Não soube muito bem o que fazer. Eu nunca soube muito bem o que fazer. Apenas ficava lá, suportando a dor e acariciando com a pontinha dos dedos aquele vermelho tão pequeno e delicado.

Vermelho que crescia e desabrochava e parecia sugar todas as minhas forças, uma vez que eu me sentia fraco e minha pele, e meus olhos, estavam anêmicos, amarelos. Todavia, apesar da dor e do cansaço, eu estava feliz, porque do meio de todo aquele pus e daquela ferida, que agora era enorme, surgia algo bonito.

Quer saber o que era aquele pedaço tão singelo de vermelho? Eu tive que esperar mais de uma dezena de dias pra que ele se mostrasse inteiro. Você não vai acreditar, eu mesmo não acreditaria se uma outra pessoa me dissesse. Apesar de, hoje, isto me parecer tão normal quanto uma espinha, naquele tempo eu custei muito a acreditar. Cheguei a pensar que estava enlouquecendo, ou que o pó já me dava alucinações. É difícil pra qualquer um ver brotar na sua barriga (violento, vermelho, macio, ereto) um botão de rosa. Isto mesmo, você sabe... sempre gostei de rosas vermelhas!

Só que a coisa não ficou num botão apenas. Dia após dia, sugavam-me as forças, os galhos, os espinhos, as flores de toda uma roseira. Meus olhos, eu via no espelho, não tinham mais cor alguma. Cada espinho, da roseira que crescia, que passava pela minha barriga, fazia-me sentir dor como a de um dente arrancado sem anestesia. Mas a roseira era linda, a mais linda que eu já havia visto. Era bom acordar pela manhã e vê-la lá, tão imponente na minha barriga. Difíceis eram as coisas simples, como conseguir comida, ir ao banheiro ou levantar da cama. Eu já tinha perdido trinta quilos. Era bonita, a roseira, mas estava me sugando a vida, e eu sou feio, egoísta e mal. Dar cabo da roseira era preciso, antes que ela desse cabo de mim.

Preparei minha navalha de cabo de marfim, um pano branco e o álcool indispensável. Manhã de outubro. Abri a navalha. Manhã de outubro. Bebi e fechei os olhos. Manhã de outubro. Segurei o pezinho da roseira com uma das mãos e com a outra passei-lhe a lâmina... O sangue jorrou e, por Deus, não existe dor maior no mundo... Apertei o pano forte contra a ferida e tentei me levantar, mas minhas vistas se escureceram e eu achei que tinha morrido.

Entretanto acordei e me sentia forte. Continuar a viver era necessário e até que era bom poder viver, e caminhar pelas ruas, e ser livre. Mas minha liberdade, eu ainda não sabia, duraria pouco, pois a chaga da barriga mal cicatrizara e já me brotava outra roseira no braço direito. Novamente repeti o processo da navalha, do marfim, manhã de novembro. Mas aí começou a nascer o vermelho na minha perna. Da perna espalhou-se para a virilha e por mais que eu repita, até hoje, o processo da navalha, das toalhas brancas, sei que não vai adiantar.

Amanhã é natal. Cinco anos que eu não te vejo.Tenho aqui comigo um revólver. Quando terminar de ler esta carta, procure no jardim da sua casa a rosa que está num vaso de cerâmica branca. O corpo estará um pouco mais distante, na praça em frente à catedral.

Feliz natal! Se eu pudesse começar de novo, mudaria tudo.