domingo, 9 de fevereiro de 2020

A SOMBRA E O SER: DUAS POSSIBILIDADES DO MASCULINO

PORRA, MANO!
Eu o conheci na quarta-série e era só um menino catarrento como todos nós; pretos ou brancos, sardentos ou cabeçudos; meninos, enfim, de favela e nunca nos mudamos. Só que eu cresci e me tornei professor (não que seja melhor, ou pior, ou igual. Só existem diferenças) ao passo que ele se tornou. Benedita também estudou conosco, durante muito tempo, e se, fui eu o primeiro a beijá-la, foi com ele que ela se casou. Todos do bairro sempre soubemos que ele batia. A opressão de verdade não acontece quando nos agridem, mas quando nos impedem de chorar. “Engole o choro!” – É o que o tirano diz. Mas ela não conseguia ficar em silêncio e gritava. Quanto mais ele batia, mais ela gritava, até que os vizinhos fomos conversar com ele. Domingo de noite; quem tinha trabalho tendo de acordar cedo na segunda-feira; e, no barraco deles, aquele furduncio, aquela gritaria, coisas quebrando, álcool, catiripapos, violência e dor, dor, dor. Feito um cavalo batendo os cascos no asfalto. Ele acenou com a cabeça. Estávamos certos. Daria um jeito no problema. A conclusão a que todos chegamos foi que deixaria de agredi-la, mas ele estava distante demais de seu coração e, em vez de buscar serenidade, cortou a língua da própria mulher para que ela aprendesse a apanhar calada. Porra, mano!
OS HOMENS DA ESQUINA
Mas eu sonhei com um lugar onde os homens poderiam ser diferentes: na barra do vestido de Kuan Yin. Uma esquina, um bairro, ou um planeta inteiro onde não teríamos vergonha de beijar o rosto uns dos outros, como fez o Cristo. E, quando um irmão tivesse uma enfermidade qualquer nas costas, o outro irmão não teria vergonha de tocá-lo em massagem, pois não haveria em cada qual o medo da própria sexualidade. Os homens desse lugar, estaríamos em paz com nosso próprio feminino e não teríamos vergonha de pintar o rosto ou a boca, ou de usar brincos grandes e roupas coloridas. Tudo isso seria muito natural; não fruto da vaidade - esse câncer, mas de um cultivo cotidiano do belo. Assim como o jardineiro cuida do jardim, cada homem cuidaria do próprio corpo. Todos estaríamos bem próximos de nossa natureza angelical e fazer um favor não seria questão de poder; mas de amorosidade, carinho, cuidado, kindness: de homem para homem, de homem para mulher, de mulher para mulher e de mulher para homem. Não nascemos para estar em guerra, mas para caminhar juntos, de mãos dadas; os deuses caminham em pares dentro de nós. E as noites aí seriam para o fogo, a dança e a música; porque as armas estariam proibidas, mas os instrumentos musicais nunca não. Eu vi com meu olho de dentro. Vem comigo! Vamos construir! A cura a Terra dá. Eu posso muito bem passar seu vestido, enquanto você colhe flores para o nosso quarto, entoando um lalalá🌻.


Um comentário:

Bruxa Interrompida disse...

Que possamos todos ser inteiros, sem necessidade de anular o nosso anima/animus, seria incrível todos assumirem a dualidade que existe em nós