quinta-feira, 27 de junho de 2019

ISSO QUE A GENTE CHAMA DE VIDA

Tem um livro. Sempre que a terra se abre e eu esqueço quem sou, volto a ele pra me lembrar. É o Pequeno príncipe. Li todos os livros do mundo, sabe. Durante um tempo, eu não vivia; só lia. Hoje, não consigo mais ler quase nada da ficção ocidental. Cansei das peripécias desse eu de superfície, deprimido, sem Deus, errando pelo mundo em sofrimento. Cansei porque é tão fácil sair disso! Basta observar e perceber que nada de fato nos falta. A Terra é uma grande Bodhissatva que nos supre com água boa, ar fresquinho, verduras e frutos. No meu caso, a tristeza foi um caso de ingratidão. Eu não agradecia o arroz com feijão que alguém muito simples plantou e colheu lá longe e que a Terra preparou em seu seio com todo amor pra me alimentar. E, além disso, como se não bastasse, a Terra ainda me alimenta de beleza com suas flores e bichos e pássaros coloridos. Se isso ainda não é suficiente, a Terra me oferta homens e mulheres capazes de criar a beleza por meio de sua arte. Tenho tudo e não quero ser dono de nada. Hoje, vivo em completo abandono, feito o sol que surge sem porque depois de dias de chuva. Luto as lutas que se me apresentam, mas não levo as derrotas para o travesseiro. E essas controvérsias entre homens e mulheres, eu não entendo. Recuso o poder. Quero estender o tapete para que o outro brilhe, porque, afinal, eu me realizo muito na alegria dos que amo. Larguei de vez a carcaça, entreguei-a a Deus. É como se eu não tivesse eu, porque pra mim esse eu aí foi só uma dor, e um peso, e uma angústia. Renasci do meu próprio coração e voltei a ser menino. Fico espantado com tudo, sabe, porque tudo é milagre mesmo, uai! E quando dói aquela saudade de um outro lugar, deixo ela doer porque sei que estou voltando pra casa. Isso tudo é só travessia, a gente mal nasce e já começa a morrer. E morrer depois de ter honrado a vida é o maior orgasmo do mundo. Outro dia, estava tentando ler pela centésima vez o Ulisses, do Joyce, mas meu filho queria brincar com os cachorros e estava me chamando. Quando reparei na voz dele, perguntei a mim mesmo: “o que ainda estou fazendo aqui com esse livro chato na mão?”
Não tenho qualquer ambição, a não ser esquecer meu próprio nome.
Não entendo o poder.
Gosto de música.
Nada tenho a ver com a cultura-rédea e a civilização.
Eu pertenço é à Terra e almejo ser um cadáver saboroso para os vermes.🌻

Um comentário:

Gabriel Felipe Jacomel disse...

um dos teus textos mais lindos, mano!