Ela pulsa, algo dentro de nós
reclama: há algo mais, tem de haver! A vida não pode se resumir a esses
simulacros: símbolos e signos sem significado. A vida não pode ser só o
edifício Richard Wagner, suas vizinhas fofoqueiras a contar as laranjas que
levamos na sacola, a especular sobre o trabalho convencional que não temos. Em
algum lugar neste planeta deve haver vida. Mas onde? Na Espanha, na Paris dos
anos 20 e da geração perdida de americanos; mas não terminaram quase todos mal?
Fitzgerald morrendo de delirium tremens,
Zelda esquizofrênica e internada? Hemingway com um tiro de espingarda de matar
elefantes na cabeça? “Claro que toda vida é um processo de demolição” – afirma Scott
num dos ensaios mais impressionantes do Crack
up. Vida, que vida? A companheira Virgínia que trabalha onze meses por ano
no cubículo de um banco de frente para uma grua-dragão para poder gozar um mês
de vida por ano? E Consuelo com seu vício em cocaína e seu namorado loser. E Luís manco tal qual personagem
machadiana, seu tio moribundo. E nossa mesquinhez, nossa fragilidade, a vontade
de fugir? Saudades de um Éden pré-natal: “Viajar é uma forma de sonhar. Também
um modo de fugir. Um velho truque para ser outro. Ou na verdade para ser você
mesmo.” (p.11)
Kerouac procurava, na estrada, a
pérola, achava que, na estrada, em algum momento, a pérola lhe seria ofertada,
o momento numinoso, vislumbre de infinito e paraíso, no qual perceberia que a
eternidade é uma festa, que ressaca não existe na eternidade, só o gás da primeira
cerveja. Também ele empreende sua primeira viagem sob o signo de uma ruptura,
na ficção de On the road, um divórcio;
mas, na vida real, o que o impeliu à primeira viagem de costa a costa foi a
morte do pai. De certo modo, no romance Um
dia toparei comigo mesmo (Foz, 2015), de Paula Fábrio é também uma morte
que enceta na narradora a ânsia de viajar. No caso do romance de Paula Fábrio,
trata-se da morte de um vizinho, Sr. Odair, que lembra à narradora, da morte
dolorosa de seu próprio pai e de que o tempo foge. Quando um velhinho morre, um
adulto tende a começar a ocupar seu lugar. Com a morte de seu Odair, a
narradora percebe que está envelhecendo[1],
deixa os rascunhos de sua dissertação de mestrado sobre a escrivaninha e foge
com a companheira Virgínia para, talvez, na estrada, encontrar a vida verdadeira,
longe dos simulacros baudrillardianos e quem sabe, entre trezentos e trezentos e
cinquenta, topar-se consigo.
É um romance triste, esse Um dia toparei comigo mesmo. Trata da
culpa que sentimos diante da morte de um ente querido, a culpa por sobreviver,
por continuar procurando a pérola, enquanto o outro está no esquife. E é por
isto que fugimos da morte, por isto que não queremos limpar a bunda do
moribundo. Não temos condições, não é nojo das fezes o que sentimos, é nojo da
morte, da nossa finitude, da nossa impotência, da sensação de que sempre
poderíamos ter dito mais, feito mais, demonstrado mais o carinho que sentíamos
pela pessoa que agora está morta: quem caga morre. O romance trata também da
instabilidade das relações humanas. Por mais que amemos uma pessoa, por vezes,
topamos com outras que nos fascinam, que revelam uma faceta nossa escondida, e
nos perdemos, pois não há a possibilidade de alguém não sair machucado. Ferimos
sempre quem mais amamos, talvez por estarem mais perto de nós. E a narradora se
envolve com o gauche Luís, entre uma
cerveja e outra. Poliamor? “Porque viver é sublime, quando não estamos pensando tanto.”
(p.47)
Para a viagem empreendida em Um dia toparei comigo mesmo, parece não
haver um roteiro prévio, um trajeto definido. O enredo parece ser construído no
próprio momento da escrita, empreendendo idas e vindas no tempo e no espaço: a Itaquera
italiana de Virgínia quando criança; o primeiro passeio de bicicleta da
protagonista fora do quintal de casa – talvez a primeira indicação de que o
si-mesmo está fora: no quintal a menina só pedalava em círculos. - O fato é que o
enredo do livro trata de uma busca, busca não definida, talvez seja uma
identidade, um eu, talvez a vida mesma – não é à toa que a narradora imagina
estabelecer residência em todo lugar isolado porque passa – talvez seja a mesma
pérola de Kerouac, mas o fato é que não encontra, não encontramos. A viagem é
mais importante que o destino. Feito nuvens, as personagens deste romance se
tocam se envolvem, misturam-se, arrancam pedaços umas das outras e seguem
adiante.
Talvez a chave para a compreensão do
romance esteja na afirmação da potência literária, enquanto potência criadora
de mundos, talvez o si-mesmo enquanto outro se estabeleça no diálogo com os
livros, com outros autores: de Hemingway a Julio Ramon Ribeyro; de Cervantes a Fitzgerald,
o mundo se faz a partir da lente dos livros: já aí o pai morto se torna um
soldadinho de chumbo, do mesmo modo que para o cavaleiro da triste figura[2],
os moinhos de vento eram monstros gigantes. É interessante notar que, além de
dialogar o tempo todo com suas leituras, a narradora afirma ter tido uma livraria:
“Quem lê, sempre tão solitário. Encouraçado. Quando encontra outro lobo,
encontra a si mesmo” (p.67)
Por outro lado há ainda uma questão
intrigante, o amor como espelho para a formação do si-mesmo. Há no amor
verdadeiro uma potência de nos fazer inteiros. Não é o caso de um amante
completar o outro, como se os dois fossem carne da mesma carne; mas da
possibilidade de habitar a solidão, de, com o outro, poder estar sozinho. Assim
como não se pode ler a dois, portanto, sempre que está lendo, a protagonista
está entregue a si e ao livro; para a amante, Virgínia, é inconcebível ir ao
zoológico acompanhada. É neste momento de solidão, frente aos bichos enjaulados,
assim como ela, que Virgínia bate de frente consigo, encara-se.
Enfim, foi uma alma que completa a
esfera que sou quem escreveu este Um dia
toparei comigo mesmo. Uma irmã em desamparo e, retomando as palavras da
própria narradora: “Quem lê, sempre tão solitário. Encouraçado. Quando encontra
outro lobo, encontra a si mesmo”. É bom quebrar, de vez em quando, a solidão.
[1]
Virgínia, a companheira da narradora, afirma que só começaria a envelhecer
quando o primeiro amigo morresse. O fato é que todos nós, num dado momento
percebemos que dobramos o pico do penhasco.
[2]
Acho o momento em que Sancho observa o rosto ferido do Dom e o chama de o
Cavaleiro da Triste Figura um dos mais belos de toda a literatura. Só comparado,
talvez, ao momento em que Sônia e Raskolnikóv, uma puta e uma assassino rezam
juntos o mais belo Pai Nosso.


3 comentários:
Daniel fiquei fascinada com seu texto sobre esse livro. Quero ler também! Já vai pra minha lista de futuras leituras!
Pra variar, genial amigo! Admiro te por isso tambem
maravilha de resenha.fiquei com água na boca de vontade de ler o livro!!!
Manuela
Postar um comentário