segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

OGUM

Quando por uma série de erros, presépios e mancadas fui parar na cadeia, havia lá um cara chamado Caubói. Não importam as circunstâncias, muito menos o lugar, um homem é o que é. Ou verdadeiro, ou canalha. Esse tal Caubói era tipo capitão do mato; falava alto com os detentos e manso com os guardas. Estava sempre do lado do poder. Vivia tramando contra os outros, inventando fofocas, manipulando a tudo e a todos... Em suma, a canalhice em forma, corpo e sorriso humanos. Sempre que apertava as mãos dele, olhava-o nos olhos e segurava firme. Sou o que sou, tanto para o bem quanto para o mal. Não me faço de anjo; pois, como disse, já fui parar no xadrez; mas também não conspiro contra os mais frágeis. Eu sabia que esse tal Caubói era muito mais boi do que qualquer outra coisa; achava que dominava o que quer que seja, mas era montado pelo sistema, pelos abutres. Eu me dava muito bem com todos os outros internos e isso o incomodava... Deixava o Pastor orar sobre o meu pé doente, jogava dominó com a rapaziada, puxava o treino nos dias de sol. “Ô professor, chegaí!” “Professor, o que você acha de tal coisa?” “E aí professor, quem é que você acha que tem razão..?” Eu sentia que o tal Caubói tinha inveja, raiva de mim. É o asco natural que brota entre a raposa e o leão. Eu o sentia o tempo todo tramando, mas ele nunca conseguia me pegar, porque eu não mentia, era sincero com minha natureza, andava despreocupado feito criança, mesmo ali, no meio das feras. 
Um dia, estava sentado na grama, olhando os morros da serra do mar, quando o Caubói se aproximou por trás e me envolveu segurando meus braços. Ele não sabia da minha visão periférica. Sem qualquer esforço, abri meus próprios braços e me livrei do golpe que ele fingia ser de brincadeira, mas que eu sabia ser um teste. Fiquei surpreso, não sabia que o mal tinha braços tão frágeis. Percebi que, se eu quisesse, poderia quebrar-lhe os braços sem piscar os olhos. Eu, devoto dessa imensa legião de Jorge.

Passou tempo, fui solto rápido e, antes do que se esperava, a casa do Caubói caiu. Ele agora andava assustado, frágil, cagando de medo entre os outros prisioneiros; enquanto eu fui ver o mar. 

Um comentário:

Gabriel Felipe Jacomel disse...

texto fantástico, meu caro! grande abraço!!!