Desculpe Robin Williams por não ter respondido a tempo ao teu olhar. De
qualquer modo, tornei-me professor - Oh! Captain my captain - e deixo
meu Folhas de Relva aberto sobre o criado mudo, feito um livro sagrado.
Desculpe Robin Williams, por não ter respondido a tempo ao teu olhar, ao
teu desencaixe, a tua maneira certeira de dizer a piada certa na hora
certa. Só tem este timing quem sofre, só tem um sorriso como o teu quem
sofre, quem presa o riso como um metal precioso porque não o tem fácil.
Eu sou da América do Sul, eu sei... você nem vai saber, mas agora
respondo, não para mim, nem para você, porque a gente não responde ao
remetente, mas a um outro destinatário desconhecido. Assim como Vincent
tentou responder a Millet, mas chegou a mim. Assim como Lô tentou
responder a Lennon e McCartney, mas chegou a mim. Respondo agora, eu
sei... você nem vai saber do menino que brincava de caubói com estrela
de xerife... é que esta chama não se devolve, mas se passa adiante,
Robin. É o fogo entregue aos homens e que os homens dividem entre si nas
noites frias, de solidão, em que nem mesmo os dvds pornográficos
parecem funcionar e então a gente, em nostalgia, volta ao velho
Nostalgia do velho Tarkovsky, e se transforma no louco tentando
atravessar a fonte com a chama acesa. Essa chama é o amor que tenta se
manter aceso nos tempos do automatismo espiritual e da técnica. A gente
levanta a chama, velho, e espera que um outro solitário responda, aqui,
acolá, do outro lado do mundo. Essa chama é a chama que Milton
Nascimento protege, que Leandro assopra para que ganhe força, que
Fernando recolhe no olhar das crianças que repartem a merenda. Essa
chama é você tentando curar o gênio problemático, mantendo o mesmo olhar
no teu último filme ruim, de bigodes e óculos de John Lennon em Uma
noite no museu. Fala sério, este último você poderia muito bem ter
passado. I´m so sorry, Robin, por só agora ter comprado meu uniforme de
palhaço, meu quepe de vigia... é que a gente sempre só percebe quando
perde. Não faz mal, também tenho uns truques na manga, umas piadas
antigas que sempre funcionam e as novas que brotam a todo instante em
qualquer conversa, mas que eu sei e você sabe, vêm, inapelavelmente, do
pântano. Desculpe só agora ter me preocupado... é que você estava tão
distante, mas este seu sorriso puro e triste, este seu olhar puro e
triste, está também, agora e sempre, espalhado por aí, nos cabelos
estranhos dos jovens tristes que se reúnem pelas praças em busca de
compreensão, nos velhinhos que jogam dama nesta mesma praça enquanto a
noite cai inevitavelmente. Desculpe a minha letargia, eu buscava
outros, mais próximos de mim, para socorrer, meu pai e a próstata, e esqueci que, do outro lado
da tela, você gritava por socorro. Desculpe a lágrima que escapa por um
olho só enquanto todos dormem, é que sou homem e não pega bem chorar
com os dois olhos. Desculpe, Robin Williams, desculpe. Desculpe a todos
os que estão andando por aí... sofrendo, a gente se sente frustrado. É
que nunca chegamos a tempo.
sábado, 25 de outubro de 2014
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Um comentário:
Desculpa Daniel Lopes, mas seu texto me pegou, assim de um jeito franco e rabiscando o passado com um viés no presente, você me mostrou com vigor que a tristeza não é uma doença, mas antes é uma condição de quem vive em busca da vida sem mal causar a outros, que a tristeza é uma segunda pele de quem busca vida coma amor e sem agressão, que a alma entristecida só é triste pela procura de novidades e de afetos, não de uma pessoa sexual para outra, mas de uma forma que se pode viver e encontrar nas pessoas por serem apenas pessoas, de se amar o outro na diferença do outro e se querer crescer sem diminuir ninguém. Desculpe Daniel, mas como diz você que "Essa chama é o amor que tenta se manter aceso nos tempos do automatismo espiritual e da técnica" eu sei que perguntas sempre faz nascer novas perguntas e o mundo que você vive, não é o mundo que você quer ou sonha, mas sei que sua teimosia não lhe faz desistir, mas sei que você não acusa aquele que desistiu. Desculpa Daniel mas eu lhe peço, não desista, pois se não fica difícil pra mim.
Desculpa Daniel eu lhe escrever estas palavras, mas sua literatura dói e acalenta e me faz ir em frente, então eu posso encerrar dizendo:
obrigado Daniel
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