sexta-feira, 31 de março de 2017

O abortado

Quando era membrana, cortaram-me a água
Quando era membrana, secaram o leite e o mel
Quando era membrana, faltou-me a flor e a carícia
Quando era membrana expuseram-me à luz, faltou-me o pão, jogaram no lixo meu irmão.
O que era cor causou cegueira e o que era cegueira tornou-se vão
Quando era membrana cantavam ao longe cantigas de ninar,
mas não para mim
De cara fui lançado no crime
Tudo me faltava e de tudo eu era faminto
Quando era membrana sentia como sinto agora
Essa dor fria
Essa fisgada metálica
Do um fez-se o dois, mãe, e entre um e outro fez-se o abismo
Ouvi dizer que em Sarajevo
Durante a guerra
Soldados sérvios rasgavam à faca o ventre das gestantes bósnias
Em seguida penduravam os fetos nas árvores
Feito bolinhas em árvore de natal
Quando era membrana, estava em Sarajevo
E Sarajevo era o mundo.

domingo, 26 de março de 2017

Why did you call me?


A melhor crítica que li sobre certos filmes pretensiosos e vazios foi feita por Alfred Hitchcock em entrevista a François Truffaut. Num momento tenso da conversa, no qual Truffaut pede insistentemente que Hitch defenda o seu O homem errado, o cineasta inglês se sai com esta pérola: “Mas, me diga, você quer me fazer trabalhar para os cinemas de arte?” Está aí um comentário que desfaz diversos imbróglios da crítica. Muitas vezes o crítico torce o nariz para uma obra porque ela não vai pelos caminhos que ele julga artísticos, sem levar em conta a intenção do artista e o fato de ele ter ou não conseguido atingir seus objetivos. Em outro momento do comentário sobre este mesmo filme, Hitchcock ressalta: “Mas você deve se lembrar de que O homem errado foi feito como um filme comercial”.
            Tudo isso me veio à mente depois de assistir a Moonlight: Sob a Luz do Luar. Trata-se de um filme comercial, linear, por vezes emotivo demais, mas sem dúvida um bom filme, melhor que muitos goddard´s. O filme conta a história de um menino negro, pobre, homossexual (?), desde a infância até a vida adulta. É um filme doloroso, que retrata bem o que é ser gay na periferia, país no qual o que impera não é a sensibilidade, mas a força física e a intimidação. O enredo é dividido em três partes. Na primeira, vemos Chiron, o protagonista, ainda menino, crescendo numa vizinhança pobre de Miami. Por ser tímido e sensível, Chiron é perseguido pelos demais meninos. A mãe do protagonista é viciada em crack, paradoxalmente é em Juan, o traficante da vizinhança, que Chiron encontra amparo. Algumas cenas chamam a atenção, as mais belas envolvem a relação do menino com o mar - que atravessa todo o enredo - e com a dança.

        Na segunda parte, encontramos Chiron já adolescente, magrelo, desengonçado, descolado do mundo que o cerca e da existência; sofrendo violências ainda mais severas. A mãe desce abaixo no abismo do vício. Há aqui ainda a descoberta do amor e da sexualidade, além de uma viragem do protagonista que, pela primeira vez, deixa de ser passivo e passa a revidar: já não oferece a outra face.
        A terceira parte começa com o close numa boca forrada de dentes de ouro; é a boca de Chiron adulto. Agora um homem alto e musculoso que dirige um carrão ouvindo rap. Sabemos que se tornou traficante e transformou o corpo numa armadura. Mas Chiron não consegue dormir durante a noite. É atormentado pela própria cegueira de seu desejo. O desejo não conhece moral, desrespeita as regras do tráfico. Uma noite, o amigo da adolescência, que foi o dono de seu único beijo, de seu declínio e de seu ponto de mutação, liga. O passado volta então ao presente. Na verdade, o passado sempre esteve lá. O passado não foi, o passado é. Se o passado tivesse ficado no passado, seríamos puros como Adão, como os bebês, não sofreríamos.
O filme levou três Oscar´s nas categorias: melhor filme, melhor roteiro e melhor ator coadjuvante:  Mahershala Ali. Acredito, entretanto, que a melhor atuação é de Trevante Rhodes que interpreta Chiron já adulto. Ele consegue passar a dor, a ternura, o amor, a confusão do personagem em um único olhar.

             
   Seria interessante estabelecer uma conexão entre Moonlight: Sob a Luz do Luar e O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee. Homens em ambientes de homens brutos, mas apaixonados entre si. Um Romeu e Julieta gay seria Romeu e Romeu ou Julieta e Julieta. Quando o mundo no qual estamos inseridos não nos aceita, não nos reconhece, não nos acolhe; nós também não nos aceitamos, reconhecemos ou nos acolhemos. Não nos resta então outra alternativa a não ser nos voltarmos contra este mundo, mesmo porque estamos doentes. O ser humano precisa de outro ser humano que lhe abrace e lhe devolva a pele e os contornos quando está em dispersão. O ser humano precisa de outro que lhe sussurre: “eu te compreendo, não há porque pedir perdão”.
            A trilha sonora é magnífica, muito soul, muito som da motown, rap, sonzeira de malandro, já começa com a porrada Every nigger is a star, passa por Caetano Veloso cantando Cucurucu paloma e chega ao auge com Hello stranger, de Bárbara Lewis.


            A fotografia em tons de azul, refletindo uma parábola que Juan conta ao menino Chiron na primeira parte do filme, também é muito eficiente.
       Acho que vale à pena assistir, levando no coração a advertência: não é fácil ser sensível na periferia.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Est-ética

Gosto de artistas que não fazem concessões, de Van Gogh a Leonard Cohen, mesmo porque as pessoas querem o que lhes é familiar e a pressão externa é sempre por mais do mesmo. O que é original causa estranheza, sussurra-nos histórias de mundos que sucumbiram no lado obscuro do tempo, enquanto o lado luminoso, do tempo, nos revela a História, mas também a orquídea, a pedra e o pássaro. A maior forma de respeito ao publico é não fazer concessões a ele. Não que aquilo que é hermético será necessariamente bom, mas, ao tentar facilitar as coisas para o público, subestimamos o público. Traímos o pacto de cumplicidade. Pensar no leitor é enganar o leitor. Pensar na plateia é enganar a plateia. A arte ousa o fracasso. Mesmo porque em nosso tempo tudo é, há muito se sabe, industrializado, padronizado, higiênico, palatável: da água de coco ao livro do ano. Os escritores dão a luz aos livros que gostariam de ler - com os demais artistas ocorre algo similar - por isto há sempre um fantasma de leitor no ombro de quem escreve que é, em última instância, seu próprio reflexo.  Quando deixamos de ouvir este leitor para ouvir a voz do mercado, quebramos o contrato, fraturamos o esqueleto ético que nos mantém de pé. O artista pode ser (e sempre é que ainda não chegue as vias de fato) um assassino, como Villón; um ladrão, como Genet, mas sempre há nele algo de puro e numinoso: é a sombra do contrato entre a pena e o daïmon, o sussurro da obra virtual; do texto, quadro ou canção em estado de latência, pulsando ao lado da História. Mescla de anjo e fezes, o artista não segue as leis sociais[1], não se preocupa com a cortesia - esta forma institucionalizada da mentira -, mas acolhe sempre as exigências e leis inquebrantáveis da obra, buscando aproximar-se do bolo. A palavra é uma forma pequena para um bolo grande demais; o ato de transformar a própria forma em bolo é a estética em seu sentido amplo. A estética não é um julgamento técnico e sim aisthésis: percepção, sensação, sensibilidade, atração pela beleza no sentido mais amplo: o encantamento mesmo do bebê pelo seio e o leite. Quando traímos esta lei, a lei da obra, por motivos mercadológicos... Quando somos um invólucro frágil, covarde, para os pensamentos em busca de pensador... Quando confundimos a arte com artifícios meramente técnicos... Então quebramos o pacto est-ético e não somos dignos sequer de abrir um livro do Fernando Pessoa.
imagem: Fernando Rocha




[1] Não se trata de privilégio, paga-se um preço alto e muitas vezes se é preso - em cadeias ou manicômios - por isto. 

sábado, 4 de março de 2017

Ins´t life strange?

Wished I could be in your heart
To be one with your love
Wished I could be in your eyes
Looking back there you were, and here we are
 Moody Blues

Abiloaldo Gilgamesh Amaral, meu amigo, era um homem muito melancólico e... feio. De tão feio, quando nasceu, o médico em vez de dar uns tapinhas no bumbum do novo ser humano para que ele pudesse respirar, espancou a mãe. O doutor perdeu o direito de exercer a medicina, enlouqueceu, foi preso em manicômio judiciário; houve passeatas feministas por todo o país durante o julgamento. Abiloaldo já nasceu sob o signo da desgraça e, quando cresceu, se tornou poeta. De inspiração drummondiana, vivia repetindo os versos do mineiro: “E o hábito de sofrer, que tanto me diverte, é doce herança itabirana.” Frequentamos a faculdade de Letras, no interior de São Paulo, juntos. Seu rosto parecia uma obra de arte, um quadro cubista: olhos para um lado, nariz para o outro, orelhas na frente da carona de bolacha traquinas. Nada em sua silhueta era simétrico. Enquanto eu sofria a invisibilidade, ele sofria por ser notado. Ninguém passa por este planeta sem sofrer, mas alguns são assinalados. Grifados com a caneta vermelha de Deus.
            Aos vinte e poucos anos, numa noite em que estávamos só nós dois, ouvindo música na república na qual vivíamos, confessou nunca ter dado um beijo em quem quer que fosse. Aos trinta e poucos, veio passar uns dias comigo: a primeira e única namorada tinha lhe dado um pé na bunda e ele mergulhara na depressão feito surfista no mar.
            - É como um mar, mas um mar de piche... Quanto mais tento sair, mais o negrume se agarra à minha pele, ao corpo. E faz tanto frio...
            Em casa, ele passava a noite inteira acordado, fazendo barulho e, quando minha mulher e eu saíamos para trabalhar, ia se deitar. Andava bebendo também. Já não tinha esperanças, dizia. Ela, a minha garota, já estava perdendo a paciência.
            - O cara é meu amigo. Não posso jogar ele na rua.
            - Não aguento mais. Além de triste e feio, ele é folgado. Quando chego em casa – ela chegava primeiro que eu -, está tudo sujo... Copos, pratos e panelas na pia e ele deitadão, roncando. Vai ser triste assim no inferno.
            - Tem um pouco de paciência, de empatia. Você já reparou no rosto do cara?
            - E como não repararia.
            - Então... E se fosse você? Se tivesse nascido com um rosto daqueles?
            - Cometeria suicídio antes da puberdade.

***
           
Nunca usei celular. Tenho aversão à tecnologia. Ainda escuto música em vitrola. Certa manhã, estava em sala, dando aula, quando me chamaram na secretaria: alguém queria falar comigo ao telefone. Era meu amigo. Estava bêbado, desesperado. Tinha tentado suicidar-se. Larguei tudo e corri pra casa. Nós tínhamos vivido quatro anos sob o mesmo teto. Quando cheguei, minha mulher já estava lá, bem como a ambulância e a voiture policial... Ele, deitado no sofá.
            - O que você fez?
            Ficou quieto, não respondeu. Ela me mostrou uma cartela vazia de comprimidos. Ele tinha tomado uma caixa inteira de comprimidos de maracujina, calmantes naturais. Eu tinha em casa álcool, água sanitária, cartelas e mais cartelas de alprazolam 6 mg, sertralina, cloridrato de naltresona, chumbinho, mas ele escolhera maracujina para cometer suicídio. Não estava assim tão afim de morrer.
            - Ele é tão patético! Chega a despertar a solidariedade na gente – disse minha mulher mais tarde, quando estávamos na cama, enquanto cruzava os braços para que eu não tocasse seus seios.

***

            Tocamos o barco.
            Abiloaldo, lentamente, começou a melhorar. Às vezes, quando chegava do trabalho, antes de parar o carro, ouvia o Tim Maia cantando Sossego alto nas caixas de som. Ele maneirou na bebida e começou a limpar a casa enquanto estávamos fora. Minha mulher já não reclamava tanto quanto antes. Muito pelo contrário.
            Um dia cheguei do trabalho e a casa estava vazia. Nem meus discos estavam mais lá. Sobre a mesinha de centro da sala, um bilhete da minha mulher que começava assim: “Você pediu que eu tivesse um pouco de empatia pelo Abiloaldo. Segui seu conselho e percebi que ele tinha uma alma linda...”
            Os dois tinham fugido juntos. Apaixonaram-se. Abiloaldo – o talarico - tinha uma linda alma para compensar a desgraça do rosto. E eu que achava que com ele não corria perigo...
            Montanhas são lugares altos e mulheres são seres complexos. Quando cometemos adultério, a culpa é nossa... Quando elas cometem, a culpa também é nossa...
          Eu tinha pelo menos mais uns trinta anos pela frente, mas me sentia fraco demais para suportar tanto futuro nos braços.
            A vida não é estranha?
            A vida não é mesmo muito estranha?

            

sexta-feira, 3 de março de 2017

Ser e Totora - palafitas

                 No mais belo parágrafo de Carta Sobre o Humanismo, Heidegger escreve: “Caso o homem encontre, alguma vez, o caminho para a proximidade do ser, então deve antes aprender a existir no inefável.” Dando um passo atrás rumo ao mais originário, o filósofo de Todnauberg supera, deste modo, a metafísica.
              Grosso modo, o pensamento metafísico – e  mais ainda o moderno - caracteriza-se por buscar um único fundamento que explique o mundo e o homem. Assim, para Platão o fundamento é a Ideia; para Descartes o fundamento é o eu (cogito); para  Schopenhauer, a vontade; para Freud, a sexualidade; para Nietzsche – que Heidegger ainda associa à metafísica – a vontade de potência. De certo modo, a filosofia seria um arcabouço lógico sobre essa proposição primeira. Os edifícios seriam construídos a partir de um fundamento sólido.
                Heidegger não nega o fundante, mas o fundante seria o ser e o ser é o próprio inefável, o mistério que se instala quando perguntamos: por que o ser e não antes o nada? Por que o homem, a planta, a bactéria, o vírus, o animal, o inseto, as galáxias, os deuses, o micro-e-o-macro e não antes o nada? Uia! Que estamos nomeando quando dizemos que algo é? O ser é um fundamento móvel, insinuante, como as palafitas, ou melhor,  como a totora que mantém as casas suspensas sobre o lago Titica.