sexta-feira, 11 de agosto de 2017

JARDIM DA FANTASIA

O Homem, que, nesta terra miserável / Mora, entre feras, sente inevitável / Necessidade de também ser fera? Não quero crer, minha amiga, já tomei este caminho e sei que é uma trilha para o abismo. Beber da raiva e do ressentimento é como tomar cianureto esperando que o outro morra. Creio antes em Aliocha, no príncipe Míchkin... Idiota? Não, puro por opção. Sem levantar estandartes, sem fazer barulho, que barulho nada resolve mesmo. Evitar agir de modo interesseiro. Concentrar-se sempre no que se faz, sem esperar recompensas aqui ou no além... E, diante da corrupção, manter a serenidade, a coragem de ser simples, de deixar a boca cantar um pouco daquilo de que o coração está cheio. Não ignorar a contaminação; mas combater o mal com um sorriso, não com mal semelhante. Míchkin, o príncipe, o herdeiro, o epiléptico, no romance de Dostoiévski, não aprova as ações de Nastácia Filíppovna, cortesã de beleza estonteante e provocadora; ele, o príncipe, entretanto, sustenta nela uma fé inabalável, que vai além das aparências e enxerga a chaga e a dor que Nastácia carrega no coração. Diante de tamanha compreensão, a dama perde o compasso, tropeça na festa, está acostumada a ser desejada, julgada, e não compreendida. Nela os outros viam a pura exterioridade, ao passo que o príncipe... Minha educação não depende da sua, Senhora, depende apenas de eu ser educado. Já tomei do veneno e quem teve úlcera fui eu. E, se não houver meio, se não couber mesmo no mundo; espero, feito Quixote, sair pela porta dos fundos. Não é que o Dom, o cavaleiro da triste figura, não enxergasse o real, é que preferia o delírio. E penso também naquele filme de Hollywood, Pecado Original, com Angelina Jolie e Antonio Banderas, naquela cena, sabe, em que a personagem de Angelina coloca veneno na bebida da personagem do Banderas e ele, mesmo sabendo que é veneno, sem titubear, mas sustentando o olho e o olhar, leva o copo à boca, porque ELA tinha colocado o veneno:
O ser herói, Marília, não consiste
Em queimar os Impérios: move a guerra,
Espalha o sangue humano,
E despovoa a terra
Também o mau tirano.
Consiste o ser herói em viver justo:
E tanto pode ser herói o pobre,
Como o maior Augusto. (TOMÁS ANTÔNIO GONZAGA)
O ser herói, Senhora, não consiste em almejar o poder e efetuar grandes façanhas, mas em sustentar o abraço e o sorriso em meio a um mundo que desmorona.
Quero ver você feliz.

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