sábado, 5 de agosto de 2017

KEROUAC, O ROSA E O TAO


Há um texto de Chuang Tzu no qual o mestre do Tao escreve que, quando um arqueiro atira flecha num torneio, seus olhos se turvam, ele perde a naturalidade, erra até quando acerta. O prêmio afeta o tiro. O tiro perfeito é aquele dado sem alvo sequer e, este, encontra sempre seu destino. Quando viajamos com um destino, uma meta, condicionamos a viagem à chegada, só estamos realizados quando chegamos; mas, quando viajamos sem destino, em qualquer lugar que estamos, chegamos. A viagem é sempre mais importante que o destino e se não houver destino então, a viagem se torna plena. A aranha tece sua teia e espera. É o tempo quem traz o alimento. O autista caminha, vai e volta, segue o fluxo subterrâneo da água. O gato se senta e, quando cansa de ficar sentado, levanta e sai, brinca, corre, senta outra vez, vislumbra Deus numa bolinha de papel. Dois livros que admiro tratam disso: a viagem sem destino. Como a vida, a viagem sem destino é travessia, não sabemos onde vai dar e, por não saber, nos centramos no caminho, na viagem, no presente, apreciamos a paisagem. O porto é sempre futuro e ansiedade, mas quando não há porto, instalamo-nos no agora e o mar se nos mostra inteiro. A baleia branca se levanta das profundezas e nos mostra sua cauda. Tanto o Rosa, quanto Kerouac descendem antes das aranhas que dos símios. Seus livros tecem teias. As viagens de Sal Paradise e Dean Moriarty, bem como as andanças de Riobaldo, o Urutu branco, e Diadorim são fios lançados sem destino nas mais variadas direções, seja cruzando os Estados Unidos de costa a costa, seja atravessando os Gerais das Minas. O homem se perde no tempo, instala-se sempre no futuro ou no passado, mas a vida só acontece no agora. O futuro é uma astronave que tentamos pilotar e não conseguimos e o passado é uma mochila de pedras. A distração é concentração, amigos. Quando agimos sem intenção, o wu wei, é que o outro nos mostra sua face e florescem o amor e a amizade. O nosso problema é que sempre desejamos algo em troca, sempre temos um alvo, um objetivo, uma meta: esperamos prêmio, fidelidade ou elogio e, quando nada disso vem, resmungamos, choramos, não queremos mais brincar. O sol brilha é agora.

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