sábado, 19 de agosto de 2017

I-1

I, que já tinha sido de tudo, desde mosquito até leão, tinha desistido da forma quando desceu à cidade e encontrou Guaccaluz, o homem-aranha.
- Joguei com a vida, a aposta mais alta que se pode fazer. Não perdi, mas a vitória não me fez melhor. Vivo em bifurcações e qualquer caminho que escolho desemboca no desastre.
Guaccaluz arrastou-se para fora da sombra de I:
- Você é capaz de desistir de seus objetivos? É capaz de viver sem metas e ainda assim não se sentir orgulhoso ou num patamar que te dê direito de julgar aqueles que as têm?
I tornou-se um Emoji pensativo.
- Aquele que persegue, perde. A força que você mobiliza para alcançar um objetivo, gera uma contraforça na mesma proporção para afastar o objetivo de você. Perca-se! Seja espontâneo. Siga o caminho sem porquê, obedeça a naturalidade. Observe a aranha, ela fabrica a teia com toda a atenção, cuida de tudo sem pensar e lança os fios no exato espaço do vazio. De nada ela corre atrás; de nada reclama; faz apenas o seu trabalho e confia. Como que hipnotizada, a presa corre ao seu destino. Seja como a aranha, não corra atrás de amor, amizade ou pão; tampouco se orgulhe disso. Não é por orgulho que não se persegue, mas por gratidão e despojamento.
- Já fui aranha – disse I, lembrando de uma de suas últimas mutações.
- Mas esqueceu rápido a lição da teia: aquilo que lhe é destinado, vem até você. Faça seu trabalho e confia. E, lembre-se: “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades!” Ainda está disposto? Ou não almeja o trabalho como fim, mas como meio para a fama? Ao tratar seu trabalho, sua teia, apenas como meio, você enfraquece sua teia, enfraquece seu trabalho...
- É que Fulano faz o mesmo e...
- E nunca se compare com os outros. Se puder, nem sequer compare-se consigo. Esteja presente. Instale-se no agora.
Então o sol se quebrou em dez mil pedaços e a escuridão afugentou a luz. Durante doze gerações, sem qualquer vida ou geração, a forma recolheu-se ao vazio e o som, ao silêncio.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

E O PENSAMENTO POR JARDINEIRO

Eu, ao mesmo tempo jardim e jardineiro
Para além da pele, a pura ação de jardinar
Recolher as pragas, podar os galhos, limpar as ervas daninhas
Meu corpo floresce de alegria, 
Grato pelo sopro e a forma
É primavera dentro e fora de mim
Aprendi a rejuvenescer
Aqui um copo-de-leite, acolá um girassol
Mel brotando das genitálias
A vida e o corpo como jardim
E o pensamento por jardineiro.


ANTES O SILÊNCIO QUE A VERDADE

Todo mundo sabe que a verdade é melhor que a mentira; o que ninguém diz é que o silêncio é melhor que a verdade. Todo conflito, atrito, guerra, confusão que há no mundo é fruto da verdade, não do silêncio ou da mentira. Se têm a verdade, guardem-na para si. Não há verdade baseada num falso eu. E, nessa confusão de celulares, trânsito e tablets, quem é que sabe onde o eu verdadeiro, a criança em estado de gentileza foi parar? Brincar de viver é vagabundagem. Você afirma que fala a verdade, mas sua verdade é pura sociologia; não se trata necessariamente do verdadeiro, mas daquilo que fizeram você acreditar que era o verdadeiro. SUA verdade é uma verdade judaica, budista, muçulmana, ou cristã; católica ou protestante; norte-americana, europeia, africana, ou brasileira; gaúcha mineira ou paulista; branca ou negra; feminina ou masculina, de direita ou de esquerda... Sua opinião não é sua, foi incutida em você; então por que essa ânsia de divulgá-la e defendê-la? Tire essas cangalhas. Esqueça sua identidade, seu número de RG, suas crenças e credenciais. Esqueça o seu pensamento, o que você chama de pensamento, na maioria das vezes, não passa de barulho, ruído, culpa, preocupação. A grande lição de Bergson é o uso da intuição como método; mas quem pode ouvir a intuição em meio a tanta microfonia? A maioria das verdades que ouvimos das pessoas por aí, são verdades baseadas no ego, naquilo que Winnicott chamou de Falso Self, no eu de fora que nos esmaga; e, então, queremos descontar em cima de alguém o peso da verdade que foram empurrando, jogando, sobre os nossos ombros. Ombros que suportam o mundo; mas o mundo sem essas construções todas não pesa mais que a mão de uma criança. A gente só dá aquilo que tem e se sentimos o mal-estar, a herança que deixamos é mais mal-estar. Este eterno mal-estar na cultura que Freud foi bom em diagnosticar, mas não em curar: morreu abraçado ao monstro que combatia. Não há pessoa mais insuportável que aquela que afirma: “sou sincera, digo a verdade, não vou mudar, quem quiser que me aceite assim!” Que sinceridade é essa baseada num eu de mentirinha? Num eu formatado? Se o silêncio é mais importante que a verdade, a gentileza é mais importante que a sinceridade. Então, antes de gritar verdades em praça pública, esqueça. Esqueça sua opinião, o que você acha que é, esqueça seu trabalho, seu partido, sua religião... Esqueça todo esse ruído que não é pensamento, mas repetição sem diferença. Esqueça inclusive este texto; entregue-se aos sentidos, entre no mar, sinta o cheiro da comida, a brisa, a voz do amigo. Isto é ser, e só emerge quando você sente sem julgar. Julgou, fodeu. É o egão, o Falso Self, querendo dar as cartas, aquilo que, na maioria dos meus textos, chamo de Monstro. Ele é medroso, melindroso, orgulhoso, perigoso; leva à trilha do assassinato ou do suicídio. Lembre da lição de Amélie Poulain, que sentia prazer em ser, em enfiar a mão num fardo de feijão. Pura estética, do grego do grego aisthésis: percepção, sensação, sensibilidade. Quando a estética em arte se torna um construto da razão, cagando regras na correnteza, então não há esperança para a Arte. Arte é liberdade, mas isso já é outro assunto.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

TEMPO, TRAGÉDIA E O DIABO NA RUA NO MEIO DO REDEMOINHO

Para os gregos, havia três instâncias temporais: aion, cronos e kairós. Esta última seria uma medida de tempo próxima à duração, de Bergson. Por exemplo, o tempo que um torrão de açúcar dura pra derreter na xícara de café, ou o tempo da nossa infância, ou a duração de um caso amoroso. Aion seria o tempo longe dos relógios, o tempo amorfo, mole, virtual, vazio e luminoso que age em silêncio, preparando o acontecimento e o atual. Cronos seria o acontecimento, o fato em si, o tempo enquanto evento. Por exemplo; desde que nascemos, começamos a morrer, esta morte lenta feito um rio viscoso estaria ligada ao aion; o infarto, a bala perdida, o escorregão na casca de banana, a cabeça fatalmente no meio fio, seria cronos. Para usar outro exemplo, agora ligado à literatura, pensemos no título do livro de Malcolm Lowry: À sombra do vulcão. A larva correndo sub-reptícia, vagando sob as placas tectônicas é aion; a erupção, quando o tempo e a larva se aceleram, é cronos.
Basicamente, a tragédia grega; ou melhor, a tragédia em geral, é estruturada entre aion e cronos. Há um acontecimento inicial que desembocará no final, acontecimento, terrível. Em Édipo rei, segundo Aristóteles o mais bem acabado exemplo da tragédia grega, há a profecia inicial: cronos; a fuga de Corinto e as perambulações do “herói”: aion;  o encontro com Laio e a consequente morte do pai e daí por diante... Cronos. O mesmo se dá nas tragédias shakespearianas: Hamlet seria o melhor exemplo. Há o assassinato do pai, a aparição do fantasma e sua exigência: cronos; então Hamlet hesita, parte, viaja, estuda, parece que nada acontece e o protagonista nada faz de fato: aion; e aí ocorre a volta, a vingança: cronos outra vez. Nos acontecimentos finais de uma tragédia, o tempo acelera; vidas e laços são destruídos como se arrastados por um tsunami: “o tempo fora dos eixos” como diz o príncipe da Dinamarca. Cronos é furioso, o que você esperaria de um cabra que capou o pai a mando da mãe?
Escrevi os parágrafos anteriores apenas para afirmar que a estrutura temporal dO grande sertão é a mesma de uma tragédia. Há o assassinato  de Joca Ramiro, pai de Diadorim, a busca por vingança, o pacto de Riobaldo, o rapto da mulher do vilão; mas, quando a vingança parece próxima, o tempo para, estaciona, estagna. Diadorim chega mesmo a acusar Riobaldo de estar enrolando para cercar Hermógenes. E então, tudo se acelera outra vez, o confronto, Riobaldo na janela vendo Diadorim matar e morrer pela lâmina, o corpo morto de mulher... Nas falas do narrador, a caracterização do aion: “Tempo? Se as pessoas esbarrassem, para pensar – tem uma coisa!-: eu vejo é o tempo puro vindo de baixo, quieto, mole, como a enchente duma água. Tempo é a vida da morte: imperfeição.”
No exato instante em que escrevo e você me lê, aion está fazendo seu trabalho sem finalidade. Tecendo destinos, preparando fatos, imaginando a quebra de sorrisos e lenços para lágrimas; portanto, amigos, não se iludam “tudo agora mesmo pode estar por um segundo.” Édipo rei, tempo rei, ó tempo rei, ó tempo rei.”


terça-feira, 15 de agosto de 2017

SÓ NÃO QUERO E NÃO VOU FICAR MUDO PRA FALAR DE AMOR PRA VOCÊ

Domingo foi dia dos pais. Claro, a gente sabe do comércio, da publicidade, das crianças que não conheceram os pais... Eu, entretanto, escolhi ver o lado bom das coisas; não ignoro o lado ruim, se posso agir de algum modo, ajo; se não, aceito, não penso nisso: preocupação, indignação, pena, não resolvem problema algum. Então, no domingo, fui lá dar um abraço no meu velho e ver meus irmãos, nós três somos pais, e fiquei pensando nesse troço estranho que é a paternidade. Lembrei de quando a enfermeira me mostrou a Sofia do outro lado do vidro, grandona, nasceu com mais de quatro quilos. Lembrei do João, que vi nascer, estava ali ao lado quando ele chegou ao mundo e já chegou fazendo coco na mãe, na enfermeira, em todo mundo, porque funkeiro é zica do pântano mesmo.
E, depois do almoço, que tava bom demais da conta, lembrei daquele meu amigo, todo bruto, bravo, durão, que teve uma filha. Aí, um dia, nós íamos sair pra jogar sinuca e a menina, então com dois anos, não desgrudava dele e meu amigo me mostrou, orgulhoso até, que ela já sabia as cores todas e, quando fomos sair, a menina ficou dizendo manhosa: “Quero o papai! Quero o papai!” A mãe dela ajudou, tentou despistar; mas, eu e meu amigo, chegamos até o portão e então ele fez uma careta, respirou fundo e disse: “ Vai lá, velho, hoje não vou!” E voltou mais leve, sorrindo, pra ficar com a filha. O povo fica discutindo a respeito de quem é mais importante se o pai ou a mãe: nem tudo neste mundo é uma disputa, uma corrida...
E, de tarde, no domingo mesmo, li um pouco do livro do Sr. Salomão Borges, pai do Lô, Marcim, Telo, Nico, Marilton, Solange e mais uma porrada. O livro se chama Tobogã. Simples, como tudo o que é sábio. Na noite em que o sexto filho, o Lô, nasceu, foi uma confusão danada, bateram o carro, choveu pra caramba, um rolo... Salomão contando do esforço pra criar onze filhos... As coisas simples da vida são tão profundas! Nunca senti verdade assim lendo Heidegger, Deleuze, Foucault....
E o Lemmy, do Motörhead, que teve filho com uma groupie? Anos mais tarde, a moça apareceu com essa novidade, ele assumiu o menino e tocou a vida. Bravo, bruto e roqueiro. O menino se tornou músico. Viam-se pouco por causa da vida louca do pai. Num dia em que estavam juntos, o filho pegou um baixo, o pai o outro e, com umas dicas e o olhar atento do pai, os dois reataram laços ancestrais. No documentário sobre o Lemmy, o filho conta esse episódio emocionado e diz que está preocupado com a saúde do pai – tempos depois o vocal e baixo do Motörhead faleceria. Lemmy nunca se derreteu, não fez qualquer carinho, aqueles toques a respeito do instrumento eram sua forma de demonstrar amor. E o filho entendeu e sentiu-se amado.
Então, gente, não sei muito bem o que quero dizer. O tal dia dos pais já passou, se você não gosta do dia dos pais por causa do capitalismo, dê hoje um abraço no seu velho; se você está brigado com seu coroa, deixe o passado para trás; se seu pai morreu, lembre-se dele, do que gostava de fazer, da canção preferida, do time para o qual torcia; se você nunca conheceu seu pai, abrace seu tio, seu irmão mais velho, seu avô, sua mãe. Amanhã pode ser tarde para dizer o que sentimos.

SOBRE A NOVA E POLÊMICA CANÇÃO DO CHICO BUARQUE

Já não faço apologia da dor, mas da alquimia, da transformação. Não importa o quanto se sofre, mas o que se faz com o sofrimento, no que você o transforma. Você pode transformar seu sofrimento num soco no rosto de uma criança ou numa explosão de cores, como fez Miró. Ir ao fundo, isso sim, porque o meio-dia é o começo da tarde e a hora mais escura é pouco antes de amanhecer. O desespero guarda a explosão de alegria e vice-versa.Então, outro dia, li num livro de autoajuda que “ostra feliz não fabrica pérola”... E lembrei, imediatamente, do Tim.
Final dos anos sessenta, Sebastião Maia geme numa cela nos States; enquanto, por aqui, Roberto e Erasmo, seus ex-alunos de violão, divertem-se com a jovem guarda. Tim sai da cadeia e volta. Mil e um perrengues, as exigências da Arte; humilhação e um pouco mais. Sem ter onde morar, vai viver num sofá na casa do amigo Fábio que, nesse momento, vive o auge do sucesso. A cada noite, Fábio traz uma namorada nova para casa. Às vezes se diverte com duas ou três mulheres de uma vez. Certa noite, Tim ouve o amigo pedir a uma das meninas que com ele brincam no quarto.
- Vai lá, pô, quebra o galho do gordinho. Ele é um cara legal!
- Eu não, ele é muito gordo, muito feio.
- E daí?
- Tenho um pouco de nojo.
Ouvindo tudo, deitado no sofá, observando um calendário, no qual uma moça linda entra de biquíni no mar, Tim Maia atravessa a raiva e se torna alquimista: transforma, aos poucos, sua dor numa canção. É a resposta, não uma vingança, apenas uma resposta... Som que não provoca silêncio no quarto. “Ostra feliz não fabrica pérola”. Elas, as pessoas do quarto, não chegaram ao fundo, não podem entender uma canção como AZUL DA COR DO MAR:
Ah! Se o mundo inteiro me pudesse ouvir
Tenho muito pra contar, dizer que aprendi
E na vida a gente tem que entender
Que um nasce pra sofrer enquanto o outro ri
Mas quem sofre sempre tem que procurar
Pelo menos vir a achar razão para viver
Ver na vida algum motivo pra sonhar
Ter um sonho todo azul
Azul da cor do mar

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

AQUELE QUE CUIDA

Tenho um problema sério de saúde que é crônico, mas não é fatal. Basta que eu cuide. Então, nessas minhas buscas por coragem para encarar meu destino, comecei a estudar a cultura do Oriente. Já tinha tido algum contato por meio da literatura de Herman Hesse, Henri Miller e Jack Kerouac; autores que, de algum modo têm um pé do outro lado do mundo; mas, nos últimos tempos, mergulhei de cabeça nos escritos de Lao Tsé, Chuang Tzu e no Sutra da Flor de Lótus. Vocês sabiam que a flor de lótus nasce nos pântano, suas pétalas não se sujam, se você jogar lama nela a lama escorre, e que a semente pode demorar até três mil anos para germinar? Por ser uma semente extremamente dura, precisa de um contato externo, algum trauma que rompa a casca e a faça florescer? Parece o ser humano, nénão? Qualquer semelhança não é mera coincidência. A gente só desperta na base da pancada.
E aí, no sábado passado, estava caminhando no parque quando uma coisa estranha aconteceu: os pássaros começaram a cantar, senti a sombra na minha pele, o sol imponente por trás, a diferença entre as árvores, os diversos tons de cor, na grama cresciam uma miríade de florezinhas amarelas, roxas e as cigarras também cantaram. Senti um tremor, era como se tudo aquilo fosse um sinal pra mim. Gratidão sem limites se instalou no meu coração, elogiei a florzinha amarela na grama, pedi desculpas por não tê-la notado antes e eu deixei de estar preocupado, elogiei também as árvores que me ofereciam sua sombra: “Ei grandona, você também é bonitona!” Naquele momento eu não tinha nenhum problema, nenhuma preocupação: nada além da paz. Uma vez na vida, eu ERA apenas, curava-me pelo SER. Uns adolescentes que brincavam por perto gritaram: “A lá o tio tá doidão!” – “Que doidão o que, menino, estou cantando, não pode?”
Tudo estava tão claro, tão bem cuidado, tão penetrado pelo Amor oculto. A vida no planeta sarreava com o homem-preocupação. Eu não era o que sabia, não era o que tinha; era só um vazio cheio de gratidão e alegria.
Caminhei mais um pouco e encontrei um senhor, negro, velho, porém jovial, vestido com um quimono. Coisas do Brasil. Ele estava com uma sacolinha e apanhava o lixo jogado na natureza, tinha também uma ráshi, com o qual apanhava as guimbas de cigarro. Parei para conversar com a figura. Como estava aposentado, todos os dias fazia aquele trabalho, por gosto, por gratidão. Para ele, não importava que não tivesse sido ele a deixar o lixo e, por fim, me disse:
- Nós, que estamos um pouco menos confusos, temos de cuidar daqueles que estão mais perturbados.
Ele tinha dito nós! Mal sabia que eu era puro barulho, preocupação só. Ou percebeu que, de algum modo, eu estava mudando?

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

ALQUIMIA

Com o tempo, você transforma a dor por ter perdido uma pessoa em gratidão por tê-la conhecido.
Com o tempo, você troca a ferida purulenta por uma cicatriz em forma de roseira.
A juventude grita, berra e bufa, porque viver é um aprendizado
E a gente acaba ferindo quem mais ama por estar mais à mão.
Metade de mim era anjo; a outra metade, pornografia
Metade de mim era desenredo; a outra metade, magia
Como selar a cisão?
Com o tempo, você percebe que não precisa ser fiel ao que disse ontem porque a gente é correnteza.
Afirma hoje a certeza do hoje e amanhã a certeza do amanhã
Sê fiel ao agora.
Perdoa, Senhor, aqueles que não se entregaram à amizade ou ao amor por medo de ficar na palma da mão de alguém.
Senhor, perdoa aqueles que não rezaram porque nunca se desesperaram de fato,
não se entregaram; atravessaram mornos a vida e morreram de morte morna
Perdoa também aqueles que passaram pela vida sem olhar para o outro lado da janela,
Tirando fotografias do que não conhecia e não via
Quando ouço certa canção, choro de bondade
O mundo é um pulmão que muito se assemelha ao nosso
Aqueçamos a lareira, acionemos o fole, soltemos os cavalos
Serenidade é um dos nomes do vazio
Com o tempo você agradece os fracassos; os vencedores parecem tão fúteis
Com o tempo você aprende a transformar ferro e bronze em ouro
O puro ouro da vida

JARDIM DA FANTASIA

O Homem, que, nesta terra miserável / Mora, entre feras, sente inevitável / Necessidade de também ser fera? Não quero crer, minha amiga, já tomei este caminho e sei que é uma trilha para o abismo. Beber da raiva e do ressentimento é como tomar cianureto esperando que o outro morra. Creio antes em Aliocha, no príncipe Míchkin... Idiota? Não, puro por opção. Sem levantar estandartes, sem fazer barulho, que barulho nada resolve mesmo. Evitar agir de modo interesseiro. Concentrar-se sempre no que se faz, sem esperar recompensas aqui ou no além... E, diante da corrupção, manter a serenidade, a coragem de ser simples, de deixar a boca cantar um pouco daquilo de que o coração está cheio. Não ignorar a contaminação; mas combater o mal com um sorriso, não com mal semelhante. Míchkin, o príncipe, o herdeiro, o epiléptico, no romance de Dostoiévski, não aprova as ações de Nastácia Filíppovna, cortesã de beleza estonteante e provocadora; ele, o príncipe, entretanto, sustenta nela uma fé inabalável, que vai além das aparências e enxerga a chaga e a dor que Nastácia carrega no coração. Diante de tamanha compreensão, a dama perde o compasso, tropeça na festa, está acostumada a ser desejada, julgada, e não compreendida. Nela os outros viam a pura exterioridade, ao passo que o príncipe... Minha educação não depende da sua, Senhora, depende apenas de eu ser educado. Já tomei do veneno e quem teve úlcera fui eu. E, se não houver meio, se não couber mesmo no mundo; espero, feito Quixote, sair pela porta dos fundos. Não é que o Dom, o cavaleiro da triste figura, não enxergasse o real, é que preferia o delírio. E penso também naquele filme de Hollywood, Pecado Original, com Angelina Jolie e Antonio Banderas, naquela cena, sabe, em que a personagem de Angelina coloca veneno na bebida da personagem do Banderas e ele, mesmo sabendo que é veneno, sem titubear, mas sustentando o olho e o olhar, leva o copo à boca, porque ELA tinha colocado o veneno:
O ser herói, Marília, não consiste
Em queimar os Impérios: move a guerra,
Espalha o sangue humano,
E despovoa a terra
Também o mau tirano.
Consiste o ser herói em viver justo:
E tanto pode ser herói o pobre,
Como o maior Augusto. (TOMÁS ANTÔNIO GONZAGA)
O ser herói, Senhora, não consiste em almejar o poder e efetuar grandes façanhas, mas em sustentar o abraço e o sorriso em meio a um mundo que desmorona.
Quero ver você feliz.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

FORÇAS

Para Nietzsche, o cosmos é um jogo entre forças ativas e reativas. Esta é uma tradição que vem desde a Grécia antiga. Os gregos, de modo geral e não só os espartanos, eram um povo bélico. Nietzsche, em sua eterna pendenga com o cristianismo, valoriza as forças ativas; às quais, no âmbito humano, buscam afirmar seu valor e sua diferença: pensemos no herói Aquiles. No polo oposto, estão as forças reativas, cuja força consiste em seu poder de desintegrar as forças ativas e gerar, naqueles que são canais para tais forças, a má consciência. Para o filósofo alemão, este era o grande trunfo do cristianismo... E, contra a máxima: “bem aventurados os pobres porque deles é o reino dos céus.” Nietzsche escreve: “é preciso proteger os fortes dos fracos.”
Na China antiga, os sábios comiam arroz e também enxergavam o universo como um jogo entre duas forças: yang e yin, que não são necessariamente o masculino e o feminino, mas dois princípios opostos que, de algum modo, contêm um ao outro em si: dia e noite, claro e escuro, calor e frio, prótons e elétrons... À diferença de grande parte dos filósofos ocidentais, os quais enxergam o mundo e a natureza como uma guerra, vide Schopenhauer, os sábios chineses viam um princípio harmônico entre os dois peixinhos do diagrama do tai chi (taiji). O peixe claro tem o olho escuro e o peixinho escuro tem o olho claro. A meia noite guarda em si a luz do dia que virá e o meio dia já é o começo da tarde. A mescla entre o preto e branco dos peixes dá o cinza... E o cinza tem muito mais que cinquenta tons.
É preciso definir quem está certo e errado?
Adotando o próprio perspectivismo nietzschiano, creio que ambos acertam em cheio, ainda que isso seja paradoxal.
A filosofia é só um ramo da literatura fantástica.

A LIÇÃO DE DIADORIM

Ultimamente,
Tenho pensado mais nos livros que na vida, apesar de que o que sempre me interessou na literatura foram os fluxos de vida, com tudo o que têm de bom e de ruim: fé e fezes. Não me interesso por truques estéticos; embora reconheça que, por vezes, o que um autor tem a dizer extrapola os dogmas linguísticos. Heidegger apontava a necessidade de libertar a língua da gramática. Como diria Riobaldo, pão ou pães é questão de opiniães. 
Vinicius de Moraes disse que a vida é a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida. Quando lembro dos versos do poetinha, lembro também do amor impossível entre Riobaldo e Diadorim... Tão impossível quanto o amor entre Cathy e Heathcliff... Tão impossível quanto o amor entre Romeu e Julieta.
O amor de Diadorim não é de salvação, nem de perdição, mas de doação. Todo o tempo, Maria Deodorina almeja a felicidade de Riobaldo, mesmo que seja junto a outra mulher; no caso, Otacília, a noiva... Isso sem contar os inúmeros envolvimentos de Riobaldo com prostitutas e ele, Reinaldo-Diadorim-Maria-Deodorina, ali, ao lado, zelando. O amor encarnado em Diadorim é puro despojamento, generosidade, alteridade, ou melhor, como conceituou Lévinas: sainteté... É um amor próximo, muito próximo, àquele evocado por São Francisco na parte final de sua oração:
"Ó mestre, fazei que eu procure mais consolar que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado,
e é morrendo que se vive
para a Vida Eterna."

sábado, 5 de agosto de 2017

KEROUAC, O ROSA E O TAO


Há um texto de Chuang Tzu no qual o mestre do Tao escreve que, quando um arqueiro atira flecha num torneio, seus olhos se turvam, ele perde a naturalidade, erra até quando acerta. O prêmio afeta o tiro. O tiro perfeito é aquele dado sem alvo sequer e, este, encontra sempre seu destino. Quando viajamos com um destino, uma meta, condicionamos a viagem à chegada, só estamos realizados quando chegamos; mas, quando viajamos sem destino, em qualquer lugar que estamos, chegamos. A viagem é sempre mais importante que o destino e se não houver destino então, a viagem se torna plena. A aranha tece sua teia e espera. É o tempo quem traz o alimento. O autista caminha, vai e volta, segue o fluxo subterrâneo da água. O gato se senta e, quando cansa de ficar sentado, levanta e sai, brinca, corre, senta outra vez, vislumbra Deus numa bolinha de papel. Dois livros que admiro tratam disso: a viagem sem destino. Como a vida, a viagem sem destino é travessia, não sabemos onde vai dar e, por não saber, nos centramos no caminho, na viagem, no presente, apreciamos a paisagem. O porto é sempre futuro e ansiedade, mas quando não há porto, instalamo-nos no agora e o mar se nos mostra inteiro. A baleia branca se levanta das profundezas e nos mostra sua cauda. Tanto o Rosa, quanto Kerouac descendem antes das aranhas que dos símios. Seus livros tecem teias. As viagens de Sal Paradise e Dean Moriarty, bem como as andanças de Riobaldo, o Urutu branco, e Diadorim são fios lançados sem destino nas mais variadas direções, seja cruzando os Estados Unidos de costa a costa, seja atravessando os Gerais das Minas. O homem se perde no tempo, instala-se sempre no futuro ou no passado, mas a vida só acontece no agora. O futuro é uma astronave que tentamos pilotar e não conseguimos e o passado é uma mochila de pedras. A distração é concentração, amigos. Quando agimos sem intenção, o wu wei, é que o outro nos mostra sua face e florescem o amor e a amizade. O nosso problema é que sempre desejamos algo em troca, sempre temos um alvo, um objetivo, uma meta: esperamos prêmio, fidelidade ou elogio e, quando nada disso vem, resmungamos, choramos, não queremos mais brincar. O sol brilha é agora.

COMPARADO CONTIGO, VOCÊ É TÃO BONITO!

Tua beleza vem de dentro
Floresce feito semente no fruto
E daí que te chamaram de gordo, inválido, veado, esquisito?
Comparado contigo, tão bonito!
Você é inteiro e sólido como uma maçã
E daí que te disseram que você tinha de ser
Assim ou assado
Branco ou preto
Gordo ou baixo
Alto ou magro?
E daí que disseram que você tinha de saber isso e aquilo e aquiloutro?
Os que veem a casca não percebem o girassol
Comparado contigo, você é tão bonito!
A árvore não late e o cão não verdeja
O limão não tem asas
E o pássaro não tempera salada
Sê inteiro a cada fôlego
Não beba do veneno que te entregam
A perfeição pulsa no interior da tua pele
Escondida num cantinho da tua carne tenra
Comparado, tão bonito!
Teus olhos brilham feito estrelas
Teu hálito tem o perfume do hálito de um filho
Tua perfeição é tão perfeita quanto a da rosa, do morango, da camomila, do girassol...
Se você não existisse, o mundo seria menos mundo
E a manhã menos manhã
Algo faltaria nos confins do universo.
Então, chore quando tiver de chorar
E aceite o branco do sorriso
Tudo está tão claro agora:
Comparado contigo, você é tão bonito!

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

SEMPRE-VIVA

Numa das cenas mais pungentes da história do cinema, Roy Batty, em Blade Runner, recita pouco antes de morrer:
- Eu vi coisas que vocês, pessoas, não imaginariam. Naves de ataque em chamas ao largo de Órion. Eu vi raios-c brilharem na escuridão próximos ao Portão de Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Tempo de morrer.
Sempre que vejo o mar, sentado quieto, em gratidão, lembro desse monólogo. Se um dia pudesse conversar com a personagem, diria que outros veriam coisas tão belas quanto e com os mesmos olhos de espanto. Cada ser humano encarna a humanidade inteira, é só a ponta do iceberg. Qualquer menina rebelde é um tanto Joana d’Arc, outro tanto Maria Madalena. Tudo flui, tudo corre, tudo vai. Construir uma prancha leve e surfar o tempo: em desapego, aceitando a impermanência das coisas. O amor termina no meio de um café com leite. A amizade se vai sem acenos. Pessoas queridas abrem a porta e se vão pra nunca mais. Nenhuma culpa de nada e de ninguém. As coisas têm um tempo para começar e para terminar: Duração, as coisas duram. Não há como dar nó no rio. O homem é um balde que se enche, durante a vida, de experiências. Quando morremos, o pote é despejado, não há modo de recolher a água espalhada; mas o balde permanece intacto, pronto para receber água nova. O vazio é o fio que liga o neto ao avô.
O mundo é tão bonito, mesmo com cicatrizes profundas que nos deixa e, quando chegar a hora, terei tanta pena de morrer. Barganharei com a Dama, assim que ela vier, ampulheta numa mão, a foice na outra:
- Mais uma primavera!

E, se ela disser que sim, trocarei meus olhos com os do recém-nascido para ver mais uma vez os ipês floridos, as rosas, as violetas, orquídeas, sempre-vivas na janela e a coragem da criança ao soltar o indicador do pai e ensaiar, sozinha, os primeiros passos. Estou mudando. A vida não é um fardo.