sábado, 22 de julho de 2017

TRECHO SUJEITO A NEBLINA

Ela estava nua no banheiro. Correu a mão sobre a harpa das costelas. “Não sou mais um ser humano, apenas um problema.” – pensou. Na sala, os pais divorciados discutiam. Você fica com a guarda! Não, eu não posso, trabalho demais! Não posso dar atenção. Quer dizer então que só você trabalha? Eu não tenho minha vida? Olha, Antônio, já suportei tempo demais, agora é hora de você assumir sua carga de responsabilidade. Ela também é sua filha, porra! A irmã mais nova permanecia em silêncio. A atmosfera densa se transferia às paredes: fungos, umidade,  tijolos aparecendo por trás do reboco. E a casa tinha um cheiro, o cheiro da loucura: mofo, roupa velha, brinquedo quebrado, comida azeda, flores murchas: “Não mais uma pessoa, um problema apenas.” Não existe glamour na dor psíquica, só sofrimento. Neste momento, um pensamento, daqueles que vêm e ficam, penetrou sua cabeça. O mesmo tipo de pensamento que passa na cabeça de um alcoólico abstêmio há dez anos e que, num sábado, depois de lavar o quintal, dar banho nos cachorros, fazer o almoço, imagina: uma lata de cerveja agora não faria mal... E assim começa outra viagem ao inferno. Ela ligou o chuveiro e se ensaboou bem. Queria escapar se alguém tentasse segurá-la quando atravessasse a sala. Nua e escorregadia, abriu a porta e atravessou correndo a sala onde a família discutia. Feito raio, jogou-se pela janela. Toda a ação demorou menos de meio minuto. Pai, mãe e irmã correram para a abertura com o intuito não de vê-la, mas de, em vão, tentar segurar ao menos a sombra que ainda há pouco tocava o chão da sala. A visão que tiveram não foi agradável. Ela permanecia deitada no chão. O corpo não estava muito machucado, mas a boca sangrava. Como moravam no andar térreo, o único dano causado com a queda foi a perda de um dente; e bem o da frente. Agora, mais que um problema, era um problema banguela.

Havia morangos na geladeira.

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