sexta-feira, 28 de julho de 2017

SHAKESPEARE E O ROSA

Todos sabemos que William Shakespeare é o grande arquiteto da língua inglesa; assim como também sabemos que João Guimarães Rosa criou outra língua dentro da língua portuguesa. Ambos são autores que enlouqueceram as palavras, esticaram a corda do significante até transformar a própria fôrma em bolo. Há, nos dois autores, um olhar desconfiado, tresloucado, sobre o código. O que, às vezes, deixamos de perceber é que tanto o bardo, quanto o médico simpático também são dois tremendos criadores de personagens e, ao que quero me ater, dois imensos contadores de história que jamais negligenciam o enredo.
Em Shakespeare, nas dark plays, há irmão traindo irmão, assassinatos, suicídios, fantasmas, relações estranhas entre mãe e filho, bruxas, filhas que arrebentam com a vida do pai, crimes passionais dignos do Investigação Discovery, do programa do Datena. No Rosa, também há traições, homem que se vira em onça, mulher que se faz de homem para viver no meio do cangaço.
Mais ou menos na metade do Grande Sertão: Veredas, por exemplo, há uma reunião de todos os bandos de cangaceiros para julgar Zé Bebelo, o qual é banido para Goiás, mas por não aceitar a decisão, cujo juiz é Joca Ramiro, pai de Reinaldo, que na verdade é Diadorim, que na verdade é homem e não mulher, Hermógenes, mais Ricardão, dois chefes de cangaço, na trairagem, matam o tal Joca Ramiro, que é pai de... Mas, por que é que eu estava falando de tudo isso mesmo, hein? Ah, sim! A reunião dos cangaceiros me lembra a reunião de todas as gangues de Nova York no filme Warriors, guerreiros da noite. Aqui, ou melhor lá; enfim, no filme, também há uma traição e o chefe de todas as gangues é morto, caindo a culpa sobre os Warriors (guerreiros). Grande Sertão: Brooklyn! Enfim, se for ver mesmo, tanto Shakespeare quanto Rosa fazem a mais alta literatura com enredos quase hollywoodianos.

Acho que estou escrevendo isso só pra dizer que em Arte não há receita. Ou é Arte ou não é. Ou é Literatura, ou não é. Ninguém sabe, na verdade, o que faz um grande livro. Os críticos nos explicam, mas que crítica pode dar conta de um Grande Sertão? O livro nos tira do centro, nos joga para além de nós mesmos. Fui dar uma lida nas marcações do meu exemplar do Grande Sertão e o livro está quase inteiro grifado e, olha que é um livro de mais de seiscentas páginas! Riobaldo, Tatarana,  sertanejo, Fausto do Jequitinhonha, é o maior filósofo brasileiro, maior que Quincas Borba! Enfim, ou há talento, ou não há. Ou a poesia faz visita, ou não faz, uai! O diabo é que nos acostumamos a querer rachar todos os mistérios, como rachamos o átomo... E a Arte, como a vida, é puro mistério.

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