sexta-feira, 14 de julho de 2017

E O OLHO SUJO DE ASSOMBRO

Era certeza, toda vez que passava o filme do Rocky Balboa, no outro dia tinha pelo menos umas dez brigas na escola😲. Logo que a película terminava, saíamos pelas ruas do bairro, correndo, dando socos no ar, treinando feito o garanhão italiano. Aprendi a imitar até o olhar - meio blasé, meio burro - do Stallone. Cada menino um Rocky em sua cabeça. No outro dia, o pau quebrava. Quando passava o Rambo ou o Exterminador do Futuro era a mesma coisa.
Nós, meninos, somos treinados desde cedo no mito do heroísmo. “Se tudo der errado, serei jogador de futebol.” – costumava pensar. Humilde, não? Bombardearam-nos com a ideia de que estávamos destinados a grandes feitos. Isso não começou com Hollywood: que é a Ilíada se não a narrativa do heroísmo dos gregos? Aquiles preferiu a morte em troca de uma fama que atravessaria os séculos. Na Odisseia, o herói se perde, demora vinte anos; mas, quando volta para casa, junta-se ao filho, ao pai e mata os traidores para, em seguida, repousar junto à sua Penélope.
O tempo para nós, porém, passa e, aqui no subúrbio, nada acontece. Venderam-nos um guarda-chuva furado. A maioria de nós passa a viver numa espécie de ficção, com trilha sonora e tudo, na qual o cotidiano mais banal são as batalhas, o chefe é Apollo Creed e nós continuamos Rocky em nossas cabecinhas. A maioria dos homens vive em silencioso desespero. Alguns se perdem ainda mais e precisam das drogas e do álcool para continuar se aventurando numa realidade paralela. Tenho amigos que caíram e não conseguiram se levantar. Ontem, estava indo encher os pneus da bicicleta, quando um deles me viu do bar e veio correndo pedir dez reais com uma conversa fiada. Dei o dinheiro. Não estava muito preocupado com a verdade. Ele riu, continuou insistindo com a mentira.
- Tudo bem – eu disse – só não vá usar essa grana para encher a cara de pão, hein!
Ele riu mais alto. Eu ri também. Voltei para casa e tirei os álbuns de foto antigos do guarda-roupa🕵️‍♂️: desde pequeno, sempre arranquei a casca dos machucados. Numa das fotos, estamos agachados; eu com o braço em volta dos ombros dele; a bola quietinha no meio de nós. Não havia diferença, seríamos grandes um dia!
Porra, Wilson, em que momento as coisas deram ruim?

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