segunda-feira, 31 de julho de 2017

O GUARDA-VIDAS

Quando Uriel nasceu, tanto o médico quanto as enfermeiras ficaram espantados de ver chegar ao mundo, após nove meses de gestação, um bebê completamente sem pele. Comunicaram, com pesar, à mãe, o fato inexplicável.
Durante a infância, Uriel viveu cercado de cuidados, não podia expôr-se ao sol, não frequentava a escola com as outras crianças; mesmo brisa mais forte o fazia sentir dor, qualquer toque o fazia sangrar; o mundo era mais que uma alergia, era uma queimadura de terceiro grau. Canção que não fosse Bach, Pachelbel, Chopin, Nick Drake ou Graham Nash afetavam seus órgãos internos. Quando ventava, a família fechava as janelas. Como Uriel não tivesse pele para contê-lo, seus pais tinham medo de que um vento mais forte, uma ventania qualquer, pudesse dissolvê-lo, pudesse levá-lo no ar feito montinho de poeira.
Assim, o menino sem pele atravessou a infância, a adolescência e chegou à vida adulta. Uma pereba inflamada, queimadura, uma ferida ambulante. Vai ser gauche é maldição para quem ao menos tem perna.
Certo dia, durante um feriado, a família resolveu ir à praia. Uriel fazia questão de ver o mar, mesmo que fosse sua última visão neste mundo. Os pais colocaram empecilhos, era perigoso. Ao que Uriel retrucou:
- Viver é muito perigoso. – Citação de livro, como o mundo lhe era hostil, desde os cinco anos, Uriel tinha ido viver nos livros.
Uma manhã, antes das seis, a família foi à praia. Tudo calmo, tranquilo: felicidade é sorriso em riba do sofrimento. Os pais tiveram até coragem para deixá-lo sozinho por um instante, sob o guarda-sol, enquanto caminharam de mãos dadas rumo ao mar. Era a primeira vez que namoravam desde que o filho viera ao mundo. Foi neste exato momento que Uriel teve de tomar decisão. Um menino que brincava na beira do mar foi levado pela maré. Sem-pele gritou. Não podiam ouvi-lo. E o mar a cada vez engolindo o menino com mais voracidade. Mais gritos: NADA. Então, Uriel deixou sua cadeira e mergulhou sem se preocupar com seu próprio destino. Salvou o menino. Sentiu dor, pois sal sobre uma ferida sempre arde, mas quando deu por si, viu que uma camada ainda fina de pele envolvia sua carne sofrida.
Ancorado neste pequeno conforto, Uriel aprendeu a nadar, fez cursos e tornou-se guarda-vidas. A cada pessoa que ajudava, sua pele se tornava mais grossa, mas nunca deixou que ela se tornasse um casco. Quando ficava muito excitado, por ter ajudado muita gente, arrancava, durante a noite, as crostas que se formavam com o excesso de pele...

E viveu a vida.

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