quinta-feira, 27 de julho de 2017

CISNES REFLETINDO ELEFANTES

Estou tentando abandonar o vício de sofrer, já não me diverte tanto assim. Talvez não fique mal num menino de 15 anos, mas num homem de quase 40 não é um espetáculo bonito de se ver. Mesmo porque, quando sofro, todos a quem amo, sofrem junto. Na canção, Stuck in a Moment You Can't Get Out Of, do U2, Bono canta algo mais ou menos assim: “Você tem que se recompor / Você ficou preso a um momento / e agora não consegue sair / Não diga que mais tarde ficará melhor.” O momento é agora, deixar de ressentir, repetir a dor de algo que nos magoou há muito. O passado não foi, o passado é, do contrário não sofreríamos, seríamos o tempo todo puros como Adão, como bebês; mas temos de olhar o agora, tirar a água suja e substituí-la aos poucos por água limpa. Amanhece... Há um dia inteiro pela frente: carpe diem, seize the day! Ainda não matamos todos os pássaros e alguns deles cantam: que será que estão louvando? A flor de lótus brota no pântano. Cada um faz seu caminho e o lodo já não me interessa, conheço-o bem; agora, almejo a flor. Chega de ficar arrancando a casca da ferida. Chega de ouvir o euzinho gritando todo o tempo, sua dor é maior, sua sensibilidade é maior, você é artista, lembre-se de Álvares de Azevedo, os outros são zumbis! “A maioria dos homens vive em silencioso desespero.” Quanto ainda há por aprender com os estoicos! Um dia, esse coração perebento, vai bater um pá meio descompassado e jamais vai bater o pum outra vez. Melhor dizer sim ao dia, e se fizer frio ou chover, importa pouco. Começar com as coisas simples: por um pé no chão, depois o outro, escovar os dentes, lavar a louça na pia, fazer café, afagar um gato, limpar o coco dos bichos, o banheiro: é milagroso! Quero aproveitar o tempo que me foi dado, quero ver meus contemporâneos; fiquei tempo demais preso à minha unha encravada, estou curioso sobre eles. Deixemos que o Demônio grite: “amanhã, tu estarás chorando outra vez!” Sussurremos em seu ouvido: do amanhã, o amanhã cuidará! Ouçamos Riobaldo, Tatarana, sábio jagunço de falar muito reto e direitoso: “vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.” Good morning starshine. 



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