quarta-feira, 12 de julho de 2017

A BANALIDADE DO MAL

Porque existe muita brutalidade no mundo, há tanta gente doida, perdida, má. Basta ir a qualquer competição de futebol infantil para ver os pais digladiando-se na plateia, enquanto as crianças – em breve expulsas do paraíso – ainda; sim, ainda; estão mais preocupadas em se divertir, em brincar. “Nunca desista, Enzo!” – Gritou um pai ao meu lado, ainda ontem, para o filho: o menino tinha cinco anos.

Ainda pensava na final do campeonato na escolinha do meu filho, quando fui tomar café agora há pouco. Do lado de fora da padaria, há um pequeno canteiro onde nasce uma palmeira e um pequeno jardim que as pessoas usam de cinzeiro. Na televisão ligada, aparecia a cara feia e plastificada do Michel Temer, vangloriando-se de sua mais recente conquista: “O Brasil está no caminho certo”! Enquanto meu pão não ficava pronto, desviei os olhos da máscara no monitor. Lá fora, uma mãe fumava e mexia ao celular, enquanto o filho, um menino de dois anos no máximo, brincava no jardim. Parecia um esquimozinho, todo agasalhado, toquinha e cachecol. Via-se que era um menino bem cuidado. Em determinado momento, o menino arrancou uma flor! Pessoas passavam apressadas... O chapeiro corria com os lanches... A balconista trouxe um cesto de pão... A mãe fumava, coçava a testa, cochichava ao celular, dava o que tinha; mas foi o filho quem levou a flor mais bela, do mais belo jardim, colhida depois de enfrentar frio, neve, intempéries, batalhas, tempestades, à sua rainha. Ela jogou o cigarro no chão. Recebeu a flor sem desligar o celular. Eu lancei um pedaço de pão até um cachorro vesgo que olhava faminto do lado de fora. O menino voltou a brincar. Pouco depois, a mãe desligou o celular, atirou a flor ao chão, pegou a mão do filho com pressa e o arrastou até o carro. Em nenhum momento ele deixou de olhar para trás, para o troféu caído no chão que as pessoas esmagavam ao passar.

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