segunda-feira, 5 de junho de 2017

Um aleijado muito do filho da puta

Pode perguntar pra qualquer um: sem beber sou um gentleman; mas, bebeu,  fodeu. Não que eu fique violento nem nada, só que quero ser o centro das atenções. Já viram criança dançando na própria festa de aniversário? Então, sou eu quando bebo. Sem contar a aceleração mental. Bato recordes de velocidade: é uma piada, uma mentira, por segundo. Pode perguntar pra qualquer um: fica pequeno pra esses humoristas cu-de-frango que empinam pipa no ventilador.
            Quando chegamos no bar - meu primo Nena, meu primo Dudu e eu - estávamos todos sóbrios. Silenciosos feito freiras no convento. Como estava com uma moeda, comprei meia dúzia de espetinhos e pedi que o dono do bar tirasse dos espetos e colocasse num prato com farofa. Em seguida, ofereci de mesa em mesa, de bêbado em bêbado, na maior educação.
            - Pô, que gentileza – disse um motoqueiro, mas o deficiente físico que estava ao lado dele, com as muletas encostadas à mesa, emendou:
            - Enfia no cu, branquelo.
            Não enfiei o churrasco no cu. Cada espetinho custava quatro reais, de modo que era muito dinheiro para desperdiçar assim.
            Tenho um coração bom. Pode perguntar pra qualquer um. Brigo, berro e bufo, mas não guardo mágoa, nem ressentimento... Então bola pra frente e cada aleijado com sua muleta. Pedimos cerveja... Cachacinha com Cambuci. A carne tava boa; a breja, gelada e a pinga bem temperada. Pedimos mais cerveja e mais pinga. E mais uma rodada... E outra. Aí comecei meu stand up. Uma graça engendrando outra. No meio do bar. Todo mundo ria. Mandaram descer cerveja de graça na nossa mesa... E eu lá, contando uma mentira atrás da outra. Metralhadora ligada e gatilho acionado. E aí o aleijado passou pra ir ao banheiro...
            - Cê é o bichão mesmo, hein doido? – disse e, sem mais nem menos, meteu uma das muletas na minha cabeça.
            Relevei de novo. Tenho coração bom, pode perguntar pra qualquer um. Continuei com o show...
            - Por que você não vai tomar no cu, hein, veado?! – era o aleijado outra vez, voltando do banheiro. Aí não aguentei. Ele me deu as costas pra pedir alguma coisa no balcão e eu enfiei o indicador, até o talo, no cu do aleijado. Quase arranquei uma casquinha de feijão. Ele pulou, as muletas caíram pros lados e o tempo fechou que nem nO morro dos ventos uivantes. A simpatia para com minha pessoa desapareceu no instante em que meu fura-bolo deixou de beijar o cu do aleijado.
            Meu primo Nena, ele é muito macho até hoje, tinha ido ao banheiro. Quando voltou, eu cochichei.
            - Vambora que o tempo fechou.
            - Que aconteceu?
            - Enfiei o dedo no cu daquele aleijado chato do caralho.
            - Nunca saí correndo de lugar nenhum e não é hoje que vou sair.
            É chato andar com gente corajosa. Por mim, teria saído que nem o Roberto Carlos: a trezentos por hora. Mas o Nena não arredou pé e estávamos todos no monzão 84 dele.
            Sacaram-se as peças. Cada ferro mais louco que o outro. O motoqueiro que tinha comido meu churrasco, puxou uma faca igual a do Rambo. E vai e vem, e vai e vem. Os caras gritando:
            - Vamo sentá o dedo nesse alemão do caralho.
            Empurra daqui, empurra de lá.
            O Nena desarmado, só nas ideias, apaziguou tudo. A coragem vale mais que mil berros. No final, pagamos uma cerveja para a turma do aleijado, eles pagaram uma pra gente também. Eu perdi a graça. Parecia criança quando toma cascudo. Quase pedi um doce. Não era digno de estar no meio dos homens. Fiquei triste. Tinha aprontado de novo. Cruzei as mãozinhas no meio das pernas e baixei a cabeça. Quando terminamos de beber, pagamos a conta e estávamos indo embora - tipo cangaceiro, ou caubói, sem dar as costas pro bar – só que, quando passei perto do aleijado, ele pôs a muleta na frente, trupiquei e caí de costas. Tudo bem, como diz o clássico do cancioneiro popular brasileiro composto por João Gilberto: é beber, cair e levantar.

            Na boa, por mais que queiramos um mundo cor de rosa, com as pessoas dando flores umas às outras, o amor crescendo junto ao trigo nos campos, digam aí: esse era ou não era um aleijado muito do filho da puta?

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