quinta-feira, 15 de junho de 2017

SERÁ QUE AINDA PODEMOS FALAR DE PLÁGIO?


Já não sei se podemos falar de plágio. Talvez a única forma de plágio seria a cópia de um livro do princípio ao fim. De resto, tudo é apropriação, ou, como prefiro, roubo. Já não é possível inventar a roda, cuja idade soma mais de seis mil anos. Então tudo o que se faz, é feito de um topo de cultura; desviando, ou desenvolvendo elementos pré-existentes. Quando Duchamp expõe um mictório intitulado a Fonte, ele não precisa fabricar o mictório com as próprias mãos, basta desviá-lo, tirá-lo de seu campo semântico. Na filosofia, o mesmo se dá com um Deleuze, por exemplo, cujos conceitos mais famosos são extraídos – e retorcidos - das obras de outros filósofos, biólogos, matemáticos e escritores. O CsO já é em Artaud, mas Deleuze o desenvolve enquanto conceito. O próprio conceito de autoria, de sujeito, foi posto em xeque pelos estruturalistas e pelos franceses daquela turma de Deleuze, Blanchot, Guattari, Foucault, os quais, no entanto, jamais deixaram de assinar uma de suas obras e de receber os direitos autorais.
Então acredito no seguinte, se você insere algo que já existe num novo universo e isso - que pode ser um excerto, um sample musical, uma colagem – ganha novo horizonte de sentido, então não há plágio, mas arte.
Os filmes de Tarantino são colagens de cenas de milhares de filmes de ação obscuros anteriores que ele revigora e insere num outro contexto mais cult e sempre relacionado ao seu tema predileto: a vingança; que, a bem da verdade, também não é um tema novo: temos aí O conde de Montecristo, O morro dos ventos uivantes, etc... Então Tarantino é um plágio? Sim e não, acho que essa palavra não faz mais sentido, nem essa nossa gana de manter autoria em tempos de rede. Vejo gente se achando plagiada o tempo todo, principalmente nas redes sociais. O mais importante são as ideias e não o estrume de onde elas brotaram. Por outro lado, é certo que eu ficaria muito bravo se alguém estivesse ganhando muito dinheiro com um texto que eu tenha escrito. Tenho uma lei, nunca roubo dos pobres, só dos ricos. Então quem lê o que escrevo sabe que tem muita coisa lá, de Shakespeare a Murilo Rubião, mas esse monte de coisas, já não é nenhuma delas. É o que eu faço, meu retrato em palavras. Uma combinação de variáveis, roubos, leituras e experiências que só existe porque eu existo – eu acho.
Nos anos 1970, Neil Young lançou o melhor álbum de rock ao vivo de todos os tempos: Rust never sleeps – A ferrugem nunca dorme. Neil era um cara bruto - bem diferente de seu conterrâneo Leonard Cohen – e gostava de trabalhos manuais. Vivia, portanto, nas lojas de ferragens adquirindo material e ferramentas para os trabalhos em seu rancho. Foi lá que viu o anúncio de um produto para preservação do ferro: a ferrugem nunca dorme. Transposto para o universo dos anos 1970, quando muitos de seus amigos, inclusive o guitarrista da Crazy Horse, tinham morrido por conta das drogas, da tristeza, do sonho morto, como cantou Lennon, a frase ganhou uma conotação completamente nova. A ferrugem era a desesperança.

E então, meninas e meninos, será que ainda podemos falar de plágio?

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