quarta-feira, 21 de junho de 2017

QUANDO UM MIA COUTO FALA, O OUTRO ABAIXA A ORELHA

Confesso que tenho uma tremenda má vontade para ouvir artistas e, em especial, escritores falando. Acho um porre; mas, por insistência da patroa, fui lá ver o Mia Couto. De tanto que enrolei, quando chegamos, a palestra já tinha terminado. Dei graças a Deus, uma amiga, porém, convidou:
- Vamos tomar um café com o Mia, vocês não querem vir com a gente?
Se tivesse superpoderes teria fulminado a moça na mesma hora com um raio cósmico, mas sou apenas um homem comum.
E lá fomos nós.
Pra começo de conversa, desconfio de quem usa cachecol e camiseta e era bem assim que tiozinho estava vestido. Daí por diante, ele podia ter escrito O idiota que eu leria de má vontade. Inveja, vocês vão dizer.  E acertaram. O pessoal, professores universitários, escritores, artistas plásticos, gente de teatro, babava ao redor do bom angolano.
Sentamo-nos para o café. Ele pediu um pão de queijo. Bebericou o café com o dedo mindinho levantado, mordiscou a iguaria mineira e então fez menção de falar. Todos em volta fizeram silêncio. O gênio abriria a boca! Ó pá! Um dos professores, inclusive, acenou para que os pássaros nas árvores parassem de cantar: o pior foi que os pássaros obedeceram. Os carros na rua pararam...
- Exte paum d’caijo tem textura dilicada.
- ÓÓÓÓ!!! – disse um mar de vozes. – Ele podia dizer que o pão de queijo estava macio, mas não, quanta sensibilidade! E que inteligência! Um poeta! Textura delicada! Que coisa linda! Maravilha! Só um gênio mesmo... – Daí em diante trabalharam as selfies para o facebook.
Eu também tinha pedido meu pão de queijo, de modo que pensei: “dos livros não sei, mas posso fazer melhor que isso aí.” Mordisquei também meu pão de queijo e metralhei, levantando o pão de queijo como se fosse a hóstia sagrada:
- Exte paum d’caijo extá taum quente quanto a alcova da Lucíola, de José de Alencar.
A primeira que me deu um tabefe na  glândula pineal foi minha própria companheira. “Cala a boca, abestalhado”. Os outros se contentaram em me esbofetear com os olhos. Daí pra frente não disse mais nada. Pus as mãozinhas entre as pernas, igual criança arteira e fiquei pensando apenas na nossa necessidade de ídolos, de celebridades. Aquele povo ali não diferia muito das adolescentes que ficaram seis meses acampadas para ver a um show do Justin Bieber. Seu Justin Bieber era apenas mais estragadinho. Pensei também em nosso complexo de vira-latas; com tanto escritor ruim aqui para idolatrar, precisamos importar mais um de fora.
imagem: Ramón Muniz

Um comentário:

Roseli Pedroso disse...

Daniel, ri muito aqui com seu texto! Sou fã de Mia Couto mas não idolatro ninguém. E concordo com você. Temos tantos escritores bons e muitos excelentes por aqui para se babar o ovo. No entanto, o brasileiro precisa sempre esticar seu olhar para o que vem de fora. A eterna herança que não rompemos. Enfim, o que vale são seus textos que estão cada vez melhor!