sexta-feira, 23 de junho de 2017

PROCRASTINAÇÃO, CAOS E (É) PROGRESSO

Já não esquento a cabeça com o Brasil, até porque sou brasileiro. Nosso país é uma longa espera, uma demora, uma eterna procrastinação: igualzinho a mim. Primeiro seríamos a terceira opção: entre o imperialismo e o comunismo, seríamos a alegria e o samba. Depois seríamos o topo do mundo, ouvi dizer, em dez anos, superaríamos os E.U.A. Aí, depois, seríamos não sei o que lá... O Brasil nunca acontece, é sempre véspera. Quer saber? Ainda bem! Não nos imagino mandando no mundo, prefiro um feriado; melhor deixar isso pra depois de amanhã.
Primeiro eu amava Macunaíma. Depois eu odiava Macunaíma: tipo "que é isso, sou cidadão do mundo, gosto mais de Chuck Berry que de Luiz Gonzaga." Agora, amo Macunaíma outra vez. Disse o alemão Gottfried Benn: “quando olho pra mim só vejo a sociologia e o vazio”. Você consegue imaginar um Heidegger brasileiro? Alguém escrevendo Ser e tempo num quiosque em Xerém? E um Zeca Pagodinho alemão, na Floresta Negra? Caetano dizia que nosso gênero literário seria a canção: errou. Nosso gênero literário não é o ensaio, nem o poema, nem a canção: é a piada – amanhã explico melhor isso. Entre provar qualquer coisa e deixar a vida me levar, deixo a vida me levar. Dou risada. Toco o barco. Detesto toda forma de pragmatismo, de análise; toda coisa séria, burocrática, antiburlesca. Sou contra todo espírito de gravidade, assim como Nietzsche, que odiava os alemães, e que se encantou com a Itália porque não esteve no Brasil: já imaginaram um Nietzsche brasileiro? Seria triplamente nietzschiano. E Shakespeare, que, depois de uma visita a Salvador, escreveu: “O caos concebeu sua obra-prima.” Bartleby tinha sangue brazuca. Lao-Tsé e Chuang Tzu também. Melhor não perturbar a ordem do Cosmos: quanto menos interferirmos, melhor, sabe... E Bezerra da Silva me fala mais íntimo que Descartes. Se colocarmos os dois no liquidificador, beberemos a antropofagia. Como não temos caráter fixo, incorporamos, roubamos, comemos, bebemos o caráter de tudo o que pinta por aqui.
O que nossa intelligentsia tem de perceber é que não queremos ser a França, a Alemanha, os Estados Unidos e nem mesmo a Rússia - embora eu perceba um parentesco com essa última: a cachaça e a vodca são irmãs gêmeas, mas nós temos o sol que os russos não têm. - Quem é maior Marx ou Tom Jobim? Comparação estapafúrdia não é mesmo? Cada qual no seu quadrado. Os pensadores do Brasil precisam descobrir nosso quadrado, mas as melhores universidades fazem colóquios de uma semana para descobrir se o signo deleuziano é do âmbito virtual ou atual😲! O povo queremos coisas simples: a pança cheia, um pouco de sonho, um tanto de música, as crianças na escola aprendendo, uns médicos no hospital, pracinhas bonitinhas; só isso já basta. Não queremos disputa, não queremos comandar o mundo. Deixa a vida me levar, deveria ser o lema estampado na bandeira. Ordem e progresso é lema pra francês, americano, alemão...

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