sábado, 17 de junho de 2017

, POIS OS ANIMAIS SABEM MORRER

A primeira gata que tivemos aqui em casa foi a Clarice. Ela tinha esse nome em homenagem à minha escritora predileta: Cecília Meireles. Clarice era uma gata siamesa, com os olhos azuis e os pelos do rosto mais negros que a asa da graúna. De todos os gatos que tivemos, ela era a mais geniosa, a mais orgulhosa: uma rainha. Não gostava de demonstrar carinho. E só aceitava receber carinho quando bem entendia. Certa vez, inventei de dar banho nela e quase fui parar no hospital para tomar pontos nos arranhões que, a bem da verdade, eram cortes e não arranhões.
A dureza de Clarice, entretanto, assim como a da escritora, era apenas superficial. No fundo, ela era pura ternura. Quando dormíamos, ela se deitava bem no meio da cama e ficava sem jeito quando acordávamos primeiro e a encontrávamos ali, feito uma menininha entre os pais. Saía miando brava, desconfiada, olhando para trás e pulava a janela.
                Clarice ficou conosco por pouco mais de um ano e então desapareceu. Foi terrível quando sumiu. O João, meu filho funkeiro, chorou. Saímos procurando a gata pelo bairro. Imprimimos fotos dela e colamos no açougue, na quitanda, na farmácia, na padaria... Eu, entretanto, tinha um segredo que não podia contar ao João: sabia que Clarice não voltaria mais, nunca mais.
                Eu não andava muito bom da cabeça naquela época, mas percebi, durante a tarde, que ela estava mais triste que o normal. Ela não era brincalhona, Clarice, era séria, mas não triste. Naquele dia, os olhos azuis dela estavam opacos, melancólicos. Quando a noite chegou, ela recusou a comida. A gente só percebe as coisas quando é tarde demais. Durante a madrugada, acordei. A coberta estava encharcada de vômito. Levantei e troquei; não dei, entretanto, a devida atenção. Clarice não estava, o que também não era nada anormal uma vez que os gatos têm hábitos noturnos.
                Dia seguinte, chacoalhei a vasilha de ração e ela não apareceu. Sempre vinha correndo, mas, naquele dia, não apareceu. E não voltou nunca mais. No mesmo dia, perguntei para o rapaz que recolhe material reciclável no bairro. Ele disse que tinha visto uma gata, com as características que eu tinha descrito, morta, embaixo de uma árvore, na outra esquina, duas quadras rua acima. Ela tinha partido para morrer longe das pessoas que amava. Não sei se a envenenaram, nem o que aconteceu, porque foi tudo muito rápido. Mas vi que era Clarice. Coloquei-a numa caixa de sapatos e a enterrei num terreno baldio, sob um pé de manga, enquanto o João estava na escola.

                Os animais não fazem escândalo para morrer. Não querem que aqueles que os amam sofram. Pensam no outro até na hora de partir... Encaram o fim com muito mais dignidade que nós, humanos, que estamos sempre batendo as pernas, gritando, fazendo barulho, Arte. Que é a literatura se não o trabalho de um sujeito que passa a vida toda brigando com a morte, dizendo sempre as últimas palavras?

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