terça-feira, 20 de junho de 2017

O CASO DO CABRITO

O áudio era Antônio Marcos, Roberto Carlos, Tião Carreiro e Pardinho, ou Gonzagão.
O bairro onde moro, no extremo leste de São Paulo, é um reduto nordestino em São Paulo. Temos até uma Av. Nordestina. Nos anos 90, pedi a conta da padaria no Bom Retiro onde trabalhava e, com a ajuda do meu pai que continuou trabalhando numa metalúrgica, abri uma Casa do Norte. O problema é que sempre tive mais dom para a farra que para negócios, mas isso não vem ao caso aqui.
Foi num domingo de tarde, depois do jogo, que combinamos de fazer um cabrito na quarta-feira à noite, também dia de jogo. Sempre fazíamos um galo. Mas alguém deu a ideia, os outros acataram, e ninguém aguentava mais tanto galo. Fizemos uma vaquinha e ficou combinado que, no dia seguinte, Mula-manca – aposentado - e eu compraríamos um cabrito ainda vivo para matar e preparar na quarta. Aí, era só descer cachaça e brahma gelada.
E na segunda-feira de manhã, lá fomos nós. O sítio não era muito perto e andávamos devagar porque Seo Mula-manca sofria de gota e não conseguia acelerar o passo. Compramos um cabrito exemplar. Amarramos o bicho com um pedaço de cordão de varal e nos preparamos para a jornada de volta. É árduo o caminho do autoconhecimento, irmãos e irmãs.
Como a viagem era longa e cada um de nós tinha uma pedra de sal na garganta, paramos para tomar uma gelada logo que saímos do sítio, com um quebra-gelo para acompanhar. Andamos mais um pouco e paramos em outro boteco, repetimos a dose. Mais um quilômetro e outro boteco. Aqui o que mais tem é igreja, boca e bar. Jogamos um pouco de dominó valendo cerveja. O cabrito amarrado no poste lá fora. Como éramos parceiros de longa data, ganhamos vários raios. Saímos de novo, mas tinha muitos bares mais antes de chegarmos até nosso destino.
Quando chegamos, meu pai já tinha aberto o estabelecimento. Passavam das cinco da tarde. A turma de sempre saboreava seus aperitivos.
- Ué, cadê o cabrito? – O Tonhão perguntou logo da porta.
O Mula-manca, com uma ponta da corda na mão, apontou para a outra ponta e foi então que vimos. Não era um cabrito, não era uma cabra, não era um porco, não era uma ovelha, não era o super-homem e nem a mulher-maravilha... Na outra ponta da corda estava um cachorro sarnento, banguela, mais feio que bater na mãe por causa de salsicha.
O jeito foi rir e cuidar do cão que morreu menos de um mês depois.

Na quarta-feira, comemos galo outra vez. 

Um comentário:

Roseli Pedroso disse...

Simplesmente hilário!! E dá-lhe galo!