quinta-feira, 8 de junho de 2017

NO CÉU COM DIAMANTES - CAP. 1


- Aos dezoito anos coloquei fogo no corpo depois de ver um monge sentado em posição de lótus fazer o mesmo na televisão. Imolar-me parecia uma solução. Dores menores, por vezes, nos fazem esquecer as outras, grandes. Alguns se cortavam no colégio; outros enfiavam agulhas, alfinetes, ponteiros de bússola, de relógio, sob as unhas. Optei pelo fogo. Para tudo aquilo que as palavras não podem exprimir, existe o fogo. Era bela a imagem do monge na televisão: paz em chamas. Pensei que minha carne em brasas tivesse um cheiro doce, algo parecido com incenso, cânhamo, flor, mas carne humana queimada tem cheiro de churrasco, não difere muito da carne de vaca, ou de porco – L me diz, passando uma das mãos nas cicatrizes do outro braço.
- Posso?
Ela faz que sim com a cabeça.
Corro meu indicador direito sobre a cartografia desta cidade trágica: vales, montes, montanhas, precipícios. Em algumas partes, parece haver um nó na pele.
- Passei por algumas cirurgias plásticas. Fizeram enxertos onde precisava. Ficou bem melhor. Neste braço não resolveu muito. Algumas feridas não cicatrizam nunca; nem na dispersão. Tantos fantasmas... Mas agora o passado já não dói. O que foi era uma rocha, agora é poeira, perdeu a forma.
Em alguns momentos, L é uma criança arteira e vaidosa: prega peças às enfermeiras, faz sorrir às outras pacientes, conta piadas sujas, passa maquiagem e pinta as unhas de vermelho; em outros, a catatonia e medo medo medo e incapacidade de autoengano. A criação é a mentira-ilusão elevada à enésima potência, mas L é verdade dilacerante, inexorável. Ela nada celebra, nada constrói, mas dança dança dança na beira do abismo, escarrando em seguida na cara séria do mistério. De um dia para o outro, passa da mais bela das bailarinas à mais feia das Bruxas. Como eu, médico oriundo da escola de Viena, posso entender um mundo ao qual não tenho o menor acesso? Feito a morte, não sabemos de alguém que tenha ido e voltado pra contar a história. Do lugar onde ela vive, nada escapa sem se desfigurar em imagens demoníacas: oligofrenia. Meus mestres deram-me gavetas etiquetadas; L, no entanto, resistiu a caber em qualquer delas. Implodiu meus armários, chutou meus arquivos e foi morar na rachadura, junto às baratas, formigas e cupins. Cambaleio bêbedo atrás dela. Tateio e não encontro coisa. Busco e nada vejo. Não sei bem o que persigo junto a ela, mas o intuo maravilhoso, pleno, brilhante, sagrado - to the wonder!
Ela fala:
- Brisa, peixe, cavalos-marinhos_______________ pequenos crustáceos que seguem cegos um comando de fuga no fundo do mar____________, doutor, quem os lidera? E a cura pelo azul, não é possível? Que é o bliss se não a sombra de uma sabedoria suprema? Sagrado sem pai, o amorfo por trás de toda forma. 
Mergulha outra vez e emerge sobre um cavalo em chamas.
- Quando criança, brincava todo o tempo na lama. Esfregava a bucetinha miúda nos dedos grandes da lama. Tinha um pacto com a lama e as raízes. Escuro é o nome de um homem que conheço bem! A quem culpar se, ainda no colo, já sabia o sexo e rebolava sem culpa na superfície do pecado? Será que a culpa é toda do Pai? Mas o Pai não é só o Pai, é também o Filho e o Espírito Santo e o consultório médico, e a sala de ginástica, e as grandes cidades, e a Igreja, e o presidente, e a língua inglesa, e os Estados Unidos da América, e Hitler, Stalin; todos os nomes da história: pai e poder começam com P... Até o Maravilhoso! Vem comigo, doutor, em consonância com a velocidade sem espaço!
Ela pede que não largue sua mão; implora. A princípio, tem medo de se dissolver. Tudo é grande, e elevado, e trêmulo, e grave, e frio, mesmo o fogo. Por instantes, tenho a impressão de que não é ela quem fala e eu quem ouço; e sim a voz dela na minha boca, meu ouvido dentro de sua orelha. Não dura muito.
- Como limpar a casa depois de ser atravessada pela não-dualidade? Na quina, horizontes e fronteiras são iguais e nos assusta o aí, o simples fato de o mundo acontecer a cada instante, dependurado no nada, feito bolinha de árvore de natal; sem árvore de natal. Como lavar a louça quando tudo o que se é está em dispersão?
Não sei que responder, mas lhe presenteio com um maço de cigarros e um batom vermelho. A brincadeira e o desespero jamais estiveram tão enredados, feito serpentes que fodem lerdas, viscosas, coloridas, nos recônditos do pântano. Eu, por meu lado, não compreendo a velocidade-pura. Não compreendo coisa alguma. Meu coração semi-cartesiano tem sede de sentido; meu coração matemático lança âncora no cotidiano, enquanto que, para compreendê-la, teria de ser como ela:
Nau à deriva
Desprotegida
Sem qualquer coordenada
Entregue à dissolução e ao medo.
Quem pode ver a face iluminada de Deus sem se esfarelar feito pão velho?
L diz que me ama.
- Vem comigo... Até o Maravilhoso! – convida. – Estaremos juntos em Deus, seremos o orgasmo em Deus. Seremos feito o fidalgo Raimon Lull, espanhol do século XVIII, que conseguiu marcar um encontro secreto com a dama que admirava depois de uma verdadeira caçada por toda a corte. Mas, para a surpresa do fidalgo, na ocasião do encontro, ela, a dama, abriu silenciosamente o vestido e mostrou-lhe o seio, roído pelo câncer. Daí por diante, Lull tornou-se teólogo e dedicou o resto de sua vida a Deus. Vem comigo! Através do choque, dos ratos, do câncer e da morte e estaremos juntos no coração deste Deus que fisgou Raimon Lull. Vem?
Vou com ela até à beira do abismo, mas cravo o mastro da minha bandeira na razão e me despeço.
- Não era para isso... Em nome disso... Que você rezava, quando menino, nas missas de domingo? – E então solta minha mão, sorrindo, antes de ser tragada pela chama vermelha do cigarro.
Em outros tempos:
Espanha-Alemanha-Igreja-Fruta-Festa-Frio-Água-Rio-Floresta-Vestido-Chapéu-de-Palha-Auto-de-Fé.
- Até o Maravilhoso!
Despeço-me e, pela primeira vez nos últimos vinte anos, penso em suicídio.






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