segunda-feira, 12 de junho de 2017

Entrevista com Samuel Malentacchi: O abismo é um instante

1 -) Samuel, em Poética, Manuel Bandeira diz: “Estou farto do lirismo comedido / Do lirismo bem comportado / Do lirismo funcionário público com livro de ponto / Expediente, protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.” Em Tesouro, você escreve:  “me lembro da vez / em que você mijou nos meus pés / enquanto tomávamos banho / naquele hotel escroto na Armênia; / - foi a maior declaração de amor que já recebi.” Diz aí, você vê alianças entre a Poética do Bandeira e sua própria poética? Há uma conexão entre estas declarações viscerais?
bem, Daniel, vejo aproximações & distanciamentos. Bandeira teve um papel importante na minha formação de leitor de poesia! no decorrer do traço, fui me afastando, mas trago comigo as leituras excessivas do livro “a cinza das horas”, primeiro do Bandeirão, com aquele tom melancólico & delicioso sabor de hemoptise. Talvez, com o peso dos anos tenha mais conexão as visceralidades que com Manuel! me agrada muito a ideia de escrita enquanto queda & também horror, no sentido de relato (distorcido & delirante na mesma medida em que tenta ser registro fiel) do quanto existir é um espanto.

2-) Abismo é uma palavra recorrente nos seus poemas. Em Abrindo Abismos, você escreve: “pertenço à classe das fendas”. Além disso, o poema que encerra o livro intitula-se O Abismo é Um Instante. Quando abismo não aparece, surgem vocábulos similares como, por exemplo, oco. Certa vez, comentando a poesia de Artaud, Blanchot escreveu que, em Artaud, o que é primeiro não é o ser, mas a fenda e a fissura. Na canção Anthem, Leonard Cohen escreveu algo como: “Há rachaduras em tudo é assim que a luz entra”. E no Tao Te Ching, Lao-Tsé diz que erguemos paredes e casas, mas é pelas janelas e portas que a luz e nós mesmos podemos entrar. Sem mais delongas, qual é a importância do abismo, da fenda, do vazio na sua poética e na sua vida?
uau, que pergunta difícil! talvez nunca consiga respondê-la, o que não é a mesma coisa de não ter o que falar a respeito. a questão da fenda, da fratura, do abismo, são inquietações que me acompanham desde muito (sem que eu soubesse disso, claro), acho que o abismo me é ontológico! penso que talvez só seja possível estar no mundo humano através da fenda. a escrita se faz letra na fratura. e talvez possamos pensar esse vazio, que é diferente do Nada, ao menos pra mim, no sentido de um lugar. um lugar entre eu & o(s) outro(s). por exemplo: o que eu escrevo não é o que o outro entende, e o que o outro me comunica não é o que eu entendo. desse equívoco, desse tipo de ruído & desencontro, é possível criarmos um espaço potencialmente habitável. nem em mim, nem no outro. mas entre. um lugar quase, paradoxal e precário, um terceiro lugar viável onde talvez possamos construir um idioma possível ao “nós”. esse “fazer-junto” este terceiro lugar é possível através de um gesto corajoso, um convite ao diferente (o não-eu), para que ele coabite & construa comigo esse espaço quase, insustentável por natureza. possível por definição. esse espaço entre é lugar do Fazer, de um fazer poético, que não tem necessariamente ligação com um fazer poesia, verso. Vejo essa disposição poética no sentido de uma condição de Fazer existência no momento em que ela acontece, um viver criativo. podemos fazer um bolo criativamente e nunca escrever um poema e, ainda sim, sermos muito mais criativos que um tanto de fazedores de poesia & prosa!
com relação ao nosso traçado, meu amigo, acho que o escritor, nem tanto no que escreve (o produto de sua criação, sua escolha estética & de estilo etc.), mas na disposição a inscrever, faz registro dessa queda da certeza de sermos entendidos. entretanto, só é possível registrar (fazer letra) habitando esse espaço entre, que talvez nem seja um lugar, visto que fisicamente não é visível, hehe, mas uma disposição ao risco & ao encontro com a diferença, o nada, enfim, o abismo.

3-) A sua poesia, apesar de ser sempre muito suja, muito corporal, muito rueira é também uma poesia muito culta. Há nela desde Kierkegaard, até o Fiat Tipo. Como você concebe sua estética? Não gosto muito desta palavra; mas, na falta de outra melhor...
Hehe, também me incomoda um pouco essa palavra, mas talvez possamos pensa-la no sentido de uma sensibilidade & de um estilo mesmo. na verdade, nem eu sei muito bem como cheguei nisso. meus livros anteriores são completamente diferentes uns dos outros, acho que estava na procura de um “jeito”, e talvez tenha sido encontrado por ele. podemos pensar que tem algo a ver com o que escrevi na pergunta anterior, uma disposição existencial de tentar (nem sempre é possível) despir meu narcisismo (não abandoná-lo) da certeza delirante de ser entendido pelos outros. esse gesto é cruel, um pouco masoquista & quedante. Escrevo desse lugar e por conta dele. então, se posso pensar numa estética, é a estética do chão.

4-) No poema A Nick Cave´s Call - em minha opinião um dos mais tocantes do livro, principalmente o verso: “a ausência, já presente, de meu pai.” - você descreve seu início na escrita aos nove anos, já dedilhando na máquina de escrever “frases sem sentido”. Conte-nos mais a respeito. Que forças o impeliram a escrever? A poesia está em tudo quanto é lugar, mas como foi seu início nos poemas?
então, eu era poeta e não sabia. a gente nunca sabe na verdade, né? a poesia é “o princípio do prazer no uso da linguagem”, me disseram certa vez. e eu acreditei! então, ela não precisa ter um porquê, dar respostas, indicar caminhos, elevações espirituais ou qualquer merda dessas. poesia é. é fazer. demorei muito pra entender algo disso aí. dito isso, eu não tive uma criação “intelectual”, embora tenha aprendido a ler & escrever aos três anos de idade, minha família não tem uma tradição de leituras, pra você ver, aprendi a ler com as legendas do filme “a hora do pesadelo” que meus pais assistiam, hehehe. mas eu gostava de fazer letra, sempre gostei. empiricamente, meu primeiro contato com poesia foi através do punk. me envolvi com a cultura punk aos 13 anos & aquilo me virou do avesso. lendo zines, letras de bandas como Cólera e Olho Seco, aquilo me tomava o corpo (só de falar me lembro & me arrepio nos pelos do braço!). dali foi um passo para montar minha primeira banda. acabei tocando bateria por acidente, mas de um jeito ou de outro, eu sempre acabava escrevendo as letras. meus cadernos escolares eram cheios de letras, eu tinha ideia o tempo todo, era uma maluquice do caralho, mas era delicioso! nessa fase, descobri também a poesia, no verso mesmo. Augusto dos Anjos foi o primeiro poeta que li fora daquela chatice que nos ensinam que é poesia na escola. o ensino de literatura na escola muitas vezes é tão antierótico que torna a coisa traumática, bicho! O tempo foi passando e a poesia ficou no meu íntimo, não falava pra ninguém, escondi tanto que esqueci que gostava. fui relembrar na faculdade de comunicação. E através de uma pessoa que se tornou grande amiga pra vida. o nome dela é Cris Amorim, no meu primeiro ano de curso, super bicho do mato, achando que o ambiente acadêmico não era pra mim, encontrei com ela e através dos nossos papos, ela me disse: “cara, por que você não começa a escrever poesia? você é poeta, porra!”. Ela me apresentou Maiakovski, Augusto dos Anjos, que me foi um reencontro potente. A partir daí fui lendo & lendo & lendo, conhecendo mais poemas & poetas, quando me vi, estava também escrevendo.

5-) Velho, vejo em seus poemas tudo quanto é tipo de referência – do artista enquanto liquidificador -. Desde Nick Cave e Joy Division, passando por Burroughs e o já citado Kierkegaard. Quem são seus heróis? Os caras que dizem algo que fala ao seu coração e com os quais você estabelece, de algum modo, aliança?
putz, isso sempre é transitório, né? mas a gente tem uns de cabeceira, não importa a hecatombe que nos tome, é com esse pessoal que a gente conta no final. Como escrevi na pergunta acima, Augusto dos Anjos é um deles. Tenho um ritual obsessivo de comprar várias edições do “Eu”, é meio doentio, mas acho que quero guardar ele só pra mim, tirar do mundo, saca? Hahaha. É bizarro.
Bom, se eu puder listar, Augusto já está aí, colocaria mais ou menos assim: Freud, Sándor Ferenczi, Melanie Klein, Kafka, Burroughs, Poe, Lovecraft, Ginsberg, Sylvia Plath, Emily Dickinson, Juan Gelman, Hilda Hilst, Eunice Arruda, Roberto Piva e Manoel de Barros. Essa turma faz os dias melhores por aqui.

6-) Se houve algum assunto que você queria abordar, mas este entrevistador não perguntou, essa é a hora. Diga o que quiser. Faça aí suas considerações finais. Desde já agradeço a entrevista e a atenção. Abraço, compadre.
agradeço o interesse & a leitura de meu livro! Acho que por aqui está bom, falei pra caralho, haha,
grande abraço fraterno, bicho!
Penalux, 2017

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